Rabin e a lenda da paz

28/10/2015 | Conflito, Opinião, Sociedade.

Lendas existem em todos os países.

Em Israel, uma das lendas mais famosas foi criada em tempos relativamente recentes, logo depois do assassinato do primeiro ministro Itzhak Rabin. Dizem por aí que se Rabin ainda estivesse vivo, estaríamos vivendo tempos gloriosos de paz. Uma besteira completa.

A liderança palestina daquela época não havia desistido de sua soberania sobre Jerusalém (que Rabin afirmava com todas as forças que permaneceria indivisível). Havia – como há nos dias de hoje – a questão fundamental do retorno dos refugiados palestinos (e os filhos destes refugiados). Convivia-se com as “duas-caras” dos discursos de Arafat proferidos em árabe e inglês. Era profunda a divisão da sociedade israelense e havia a imposição marcante de um discurso político violento e odioso que contribuiu de forma decisiva no assassinato de um judeu contra um judeu há 20 anos atrás.

Portanto, eu acredito que seria pouco provável que os líderes – Rabin e Arafat – tivessem êxito em assinar um acordo final de Paz. Certamente não até 1999 (prazo estabelecido para a última etapa no processo de Oslo).

Leiam a biografia “O Soldado da Paz” e vocês saberão que Rabin nunca acreditou que estivesse próximo da “terra prometida” cantada aos quatro ventos pelos messiânicos da paz. No fundo, ele sempre soube que não seria a pessoa que solucionaria de forma definitiva o conflito entre israelenses e palestinos. Visitem o museu em Tel Aviv que conta a vida de Rabin e vocês entenderão que em nenhum momento sequer de sua vida, Rabin ousou perder a sua desconfiança sobre as reais intenções de nossos vizinhos ou esquecer, por um só minuto, a brutalidade existente na região que vivemos.  A fonte de sua força era justamente as caraterísticas que moldaram o seu carisma e pragmatismo: era cético, realista e profundamente pessimista.

Justamente porque era um cético, Rabin enxergava a necessidade de uma ação mais incisiva por parte de Israel – se não acreditava numa paz duradoura, ele sabia que poderia caminhar a passos lentos, de negociação em negociação, aliviando o peso do conflito em uma série de acordos contínuos, ainda que não tivesse nenhuma razão para acreditar nas palavras da liderança árabe. O seu realismo indicava a obrigação de Israel em trabalhar para dividir o território, acabando de uma vez por todas com a “fábrica de assentamentos”, que enxergava como um entrave na possibilidade de qualquer negociação e impedimento absoluto a qualquer acordo futuro.  A sua maior qualidade, o pessimismo, fazia com que ele tivesse coragem para “combater o terrorismo como se não houvesse negociações e manter algum tipo de negociação como se não houvesse terrorismo” – convicção daqueles poucos sábios homens que ousam desconfiar do conceito de “eternidade” – seja ela de um país, de um povo, de uma guerra.

No próximo sábado, uma grande manifestação será realizada na Praça Rabin para recordar os 20 anos do assassinato de nosso primeiro ministro. Uma data marcante, alguns dias após a nação testemunhar ao contraditório discurso proferido por Netanyahu sobre a relação entre o Mufti de Jerusalém e Hitler.

O discurso de Netanyahu não foi um deslize. Possuía uma direção muito clara e representa uma visão de mundo: ele indica a sua crença de que a resistência ao Estado Judeu pelos palestinos não é fruto de qualquer disputa territorial, da construção de assentamentos ou da péssima qualidade de vida daquela população. Suas raízes são mais profundas e a sua história origina-se no antissemitismo: a incitação à violência e os ataques a faca contra judeus que ocorreram nos tempos de outrora e a similaridade com o que ocorre em nossos dias estão aí para provar que “desde Mufti, nada mudou”. É possível deduzir, portanto, que se nada do que fizermos mudará o amâgo daquela sociedade, Netanyahu coloca uma pergunta na mesa: por que devemos fazer alguma coisa se o que nos resta é apenas nos defender?

Eu me pergunto, será que Yitzhak Rabin não sabia de tudo isso? Será que o seu esforço para o êxito do processo de Oslo havia lhe cegado para o antissemitismo declarado do Grande Mufti, o pai do movimento nacional palestino? Não compreendia que a sangrenta história entre os dois povos não teria um ponto final? E se ele sabia de tudo isso, por que insistia em fazer algo? Para que procurar “um caminho” com interlocutores mentirosos, com incitadores da violência e com aqueles que nos esfaqueiam pelas costas? Onde será que estava com o cabeça?

Rabin, o bravo comandante da Guerra dos Seis Dias, o militar de carreira, o Ministro da Defesa, não era uma “pomba” na política. Ele compreendeu que um acordo não nos levaria a um surto de camaradagem com os nossos vizinhos. Jamais nos iludiu: não nos conduzia ao sonho de que o conflito estava próximo do fim. Dentro de todas as limitações impostas pela realidade, havia, no entanto, o sentimento de que trabalhava-se para fazer de Israel um país forte, combativo, com fronteiras definidas e reconhecidas internacionalmente e, o mais importante de tudo, fazia com que fôssemos possuidores de valores morais quando colocávamos na balança os princípios democráticos e a necessidade da defesa de nossa existência como um Estado Nação do povo judeu.

A diferença entre as lideranças marca o retrato de uma época: Primeiros ministros com pensamentos e desconfianças tão similares e posturas e discursos completamente diferentes. Enquanto o atual compete com os nossos inimigos pelo “Oscar” da incitação à violência e que enxerga covardemente a si mesmo e ao seu povo como grandes vítimas: seja do holocausto, do Mufti, de Abbas ou dos cidadãos árabes nas eleições em Israel, Rabin apresentava-se com a coragem sóbria e sem falsas ilusões para manter a possibilidade de um acordo e realizar difíceis concessões sem renunciar a segurança do país.

Não tenho muitas dúvidas: Rabin e todas as suas belas qualidades não seriam capazes de impedir o fracasso do processo de Oslo e a “paz” em sua gestão não passa de uma grande lenda. Entretanto uma coisa é mais do que certa: estamos muito pior sem ele do que estaríamos com ele.

Amigo, você faz muita falta.

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Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Rabin e a lenda da paz”

  • Marcelo Starec

    28/10/2015 at 05:44

    Oi Marcelão,

    Parabéns!…Um artigo realmente bom!…Honesto, corajoso e sério – Assino embaixo, com pequenas divergências em relação ao Bibi, pois a época é outra…mas aqui o foco é o Rabin e um momento onde todos (eu inclusive) acreditavam que seria possível um acordo…Me lembro, como se fosse hoje, da dificuldade que o Rabin teve de apertar a mão do Arafat (O Clinton terminou obrigando-o a fazê-lo)…A impressão que eu tinha naquele momento era otimista…Eu então achava que a solução de Dois Estados seria alcançada, mas não foi !…Por vários motivos distintos e no meu entender o principal deles é o não interesse das lideranças do Fatah (Arafat, na época) de criar as bases para um Estado viável, democrático, ocidentalizado e pacífico…Hoje creio que o mundo ocidental e inclusive os israelenses tinham como pano de fundo a ideia de que essa construção das bases para um Estado viável, pacífico, ao lado de Israel era algo óbvio (pois pensavam com um viés ocidental)…mas isso definitivamente não era a prioridade ou mesmo o objetivo de Arafat, tampouco o é de seu discípulo Abbas, infelizmente – e ainda que alguém pense diferente, ele sequer tem poder político para fazer alguma concessão e permanecer vivo…)…Eu imagino que, se Rabin estivesse vivo hoje, estaria com um discurso parecido com o de Bibi (o qual, para ser franco, não será muito diferente de qualquer um dos demais pretendentes ao cargo de Primeiro Ministro – Lapid, Herzog, Livni e Benett – caso algum deles venha a assumir em breve a vaga de Bibi) e não é devido ao discurso, mas devido a realidade cada vez mais evidenciada pelos fatos – e aqui, me desculpem, mas vou deixar de lado o “politicamente correto” e falar “um bom francês”!…). Pode-se chegar a uma relação boa com os palestinos? Acredito que sim…mas vai demorar!…Há que se mudar toda uma cultura, o que leva ao menos uma geração – e tem de começar modificando-se a educação das crianças palestinas, o que nunca começou!…O problema é que a ilusão daquele momento e toda a tragédia inaceitável que ocorreu logo depois, com o assassinato de Rabin fez uma imagem (um retrato!) desse honrado judeu israelense que corresponde a um momento específico, onde predominou a ilusão, mas não ao histórico de Rabin, que nunca foi uma pomba (muito pelo contrário!) e tampouco ao que efetivamente teria ocorrido caso nada tivesse acontecido com ele – como o texto coloca de forma brilhante!…Enfim, apenas para concluir uso a sua colocação perfeita da lenda da paz: “Dizem por aí que se Rabin ainda estivesse vivo, estaríamos vivendo tempos gloriosos de paz. Uma besteira completa.” Que um dia no futuro a possibilidade de uma paz verdadeira não seja mais apenas uma lenda!!!….

    Abraço,

    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    28/10/2015 at 15:24

    Parabéns pelo artigo! Cada dia que passa fica mais claro que nenhum líder israelense, seja ele de esquerda, direita ou mesmo o Messias seria capaz de chegar a um acordo justo enquanto os palestinos insistirem, explicita ou implicitamente, na destruição de Israel.

  • Daniel Cohen

    29/10/2015 at 15:40

    “Não tenho muitas dúvidas: Rabin e todas as suas belas qualidades não seriam capazes de impedir o fracasso do processo de Oslo e a “paz” em sua gestão não passa de uma grande lenda.”

    Acho que alguns pilotis, além da política, devem ser corretamente fixados para que possamos chegar a tempos de paz verdadeira e duradoura. Falo de educação, esporte, meios que promovam a coexistência de forma que as diferenças não precisam ficar expostas e você aprende que o outro não precisa ser seu inimigo.

    A paz não está chegando, talvez não chegasse com o fim do prazo de Oslo em 1999, li projeções recheadas de inverdades, certamente não, a argumentação é consciente e beira o real.

    Porém o ceticismo de sua linguagem e a ordem dos fatos citados não abrevia o tempo de conflito, o que trás de positivo? Que nosso ilustre Netanyahu nos afasta de qualquer situação diferente do que temos no momento e que é um dos principais símbolos para a manutenção do status-quo, todos sabem. Que Rabin teve carreira militar e que junto ao safado do Arafat, talvez não conseguisse trazer a paz verdadeira e duradoura, também não é novidade. As pessoas que se pegam na figura de Rabin como exemplo a ser seguido, não tem como afirmativa que se ele estivesse vivo e consumado seu mandato até o fim, certamente teria finalizado o processo de paz. Rabin é um símbolo de esperança, moderação e vontade por fazer diferente, é disso que precisamos.

    Postular que Oslo e Rabin fracassariam, é um alento à descrença, conformismo, me soa quase como um brado agouro de depressão, vindo de um canal como o Conexão de frequente olhar diferenciado com relação a mídia comum. As gerações atuais já estão muito bem servidas de desconfiança e ceticismo, não precisamos de mais isso. O medo que gera violência já tem respaldo suficiente e contamina a cada dia, pessoas que desistem de enfrentar com coragem, o problema que parece sem solução.

    Não precisamos de mais uma dose amarga de descrença. Rabin é uma lenda, não negativa conforme este texto quer demonstrar. Rabin é uma lenda pois em tempos sombrios que ninguém quer se dispor a ceder e confiar no “inimigo”, ele fez o diferente. Saiu da caixinha e com sensatez, buscou o novo, buscou acreditar, confiar.

    Rabin vive.

  • Raul Gottlieb

    29/10/2015 at 17:43

    Brilhante o teu texto, Marcelo. Parabéns.

    Mas eu me pergunto se o Acordo de Oslo não deu a falsa esperança ao mundo de que a paz estava ao alcance da mão.

    E como os Palestinos agindo da mesma forma (ou seja, falando uma coisa e fazendo o oposto) o mundo adquiriu a convicção que os Israelenses são o entrave da paz.

    Pois o nosso discurso mudou. Nós hoje não acreditamos mais no processo de paz. E não por causa do Bibi, mas por causa do Arafat, do Hanie, do Abbas e do Nasralla (fora o resto).

    Eu acho que estaríamos muito melhor sem o Bibi. Mas o Peres teria sido um excelente primeiro ministro e o curso da história teria sido outro se os israelenses tivessem votado nele na primeira e apertadíssima eleição pós Rabin.

    Para mim foi ali o momento da inflexão e não no assassinato do Rabin z’l (e bota l nisto).

    Você concorda com isto?

    Se concordar veja que a partir daí se chega à conclusão de que o terrorismo Palestino trouxe frutos positivos para quem o promoveu.

  • Magno

    01/11/2015 at 20:22

    Penso que aprendeu como criar uma nova lenda. Conseguiu a sua própria e já tem quem acredite nela também.

  • Guilherme Engelender

    02/11/2015 at 02:30

    Marcelo,

    O Seu texto é o exemplo de que narrativas são sempre construídas e parciais, de acordo com a visão do narrador. Acredito que alguns pontos são importantes para esclarecer essas “novas histórias criadas”, já que vivemos tempos de “Netanyahu o historiador”:

    – Valores e identidades constroem políticas e personagens. Nesse sentido, Bibi e Rabin são pessoas diametralmente opostas – enquanto Rabin se pautava em valores de democracia e liberalismo, Bibi insiste em reafirmar a identidade judaica (religiosa) do Estado de Israel, enfatizada pela ideia de “Grande Israel”, e o medo paranoico do Holocausto. Não se engane: “o medo” de Bibi (em seu discurso) é de ser empurrado ao mar. O medo de Rabin é perder o Estado Judeu. Me explico: Rabin percebeu, e deixou bem claro em seu discurso, que a única forma de Israel continuar sendo um Estado Judeu (de maioria judaica) seria a criação de um Estado Palestino ao seu lado. A não criação deste ou terminaria com a perspectiva da maioria judaica, ou criaria um estado de apartheid. É simples e clara essa mensagem

    – Rabin era TOTALMENTE CONTRÁRIO aos assentamentos, diametralmente diferente de Bibi. E é bom que se deixe claro. Rabin travou uma briga com Shamir nas eleições e os assentamentos era um dos grandes pontos. Rabin, do seu jeito pessimista e sabra, ofendeu duramente os assentamentos, criando feridas que talvez possam ter ajudado a incitação de seu próprio assassinato (que, aliás, o digníssimo atual PM Bibi não fez nada contra tal incitação, e se não colaborou com a ideia, corroborou ao se omitir…)

    – Rabin ACREDITAVA NO PROCESSO DE PAZ, diferentemente do que você aqui reproduz. Ele tinha sim suas considerações contra Arafat e lhe foi complicado estender as mãos para um aperto de mãos. Mas não se engane: o próprio ato em prol da Paz, onde Rabin foi duramente assassinado, não era um faz de conta. Era uma crença, que Rabin mesmo propõe em seu discurso, de que Palestinos e Israelenses poderiam, sim, chegar a um consenso. Bom lembrar que, no tempo de Oslo, quem iniciou as negociações foram acadêmicos, o que influenciou bastante os acordos e fez com que se caminhasse de uma forma inimaginável, até para Rabin. Aqui sim encontramos um PM duvidoso de tantos avanços em tão pouco tempo, mas que acaba por confiar em seu governo e negociadores.

    – Não deixe de relevar as condições em que Barak senta com Arafat em Camp David. Não se pode afirmar que ali eles chegariam a um acordo pois o status quo era TOTALMENTE DIFERENTE. Só para constar, o número de assentamentos, desde a morte de Rabin, cresceu exponencialmente. Outros governos que passaram durante a morte de Rabin e Camp David também ajudaram nessa empreitada contra Oslo (alguém falou em Bibi?)

    – Jerusalém SERIA SIM DIVIDIDA, estava na mesa de negociações e era uma proposta advinda dos dois lados. Por mais que muitos tenham um frio na espinha dorsal só de ouvir tal afirmação. Aliás, Jerusalém como cidade nunca foi o problema. Partes da cidade velha que não são consenso. E OS REFUGIADOS TINHAM SIM PERSPECTIVAS E Marcelo,

    Desse modo, CUIDADO AO CRIAR NARRATIVAS. Esta só virou uma lenda pois você mesmo a tornou. O que Bibi fez nesses últimos dias foi exatamente o que esse texto propõe: uma revisão dos fatos, de forma inverídica e chocante.

    O discurso de Rabin nas eleições que venceu de Shamir, durante seu governo e especialmente na praça cujo nome foi alterado para homenagear o PM assassinado NÃO TEM A MENOR SEMELHANÇA COM O DISCURSO ATUAL DE BIBI.

    Rabin acreditava que a Paz, mais do que uma aspiração bonita e elegante, era a única saída de Israel para continuar sendo um Estado Judaico. Algo que não é compreendido e muito menos defendido por Bibi.

    E eu ponho todas as minhas fichas na afirmação de que RABIN SERIA HOJE O OPOSTO DO QUE BIBI É.

Você é humano? *