Curtinhas de fevereiro

23/02/2013 | Curtinhas

Escrito por: João Koatz Miragaya

Para não perder o hábito e não deixar os leitores sem informações sobre o que acontece aqui, resolvi escrever um resumo das últimas semanas em Israel. Será breve e sucinto.

 

Racismo no futebol

Há pouco mais de três semanas uma polêmica tomou conta do noticiário esportivo israelense (e nada tem a ver com a brilhante campanha do Macabi Tel-Aviv na Liga Nacional): o time Betar Jerusalém, equipe mais tradicional da cidade, havia contratado dois atletas chechenos para reforçar seu plantel. Qual o problema? É que Gibril Kadiev e Zaur Sadayev são muçulmanos, religião com grande penetração no sudoeste russo. Os times de futebol israelenses, para quem não sabe, foram fundados em sua maioria por instituições políticas sionistas anteriores à criação do Estado. Hapoel, por exemplo, significa “O Trabalhador”. E Betar é o nome do movimento sionista revisionista criado por Ze’ev Jabotinsky (que ainda será tema de um artigo meu), representando a direita do movimento.

A torcida organizada do Betar “La Familia” (sem tradução), conhecida por atos de xenofobia, racismo e violência, ameaçou aos jogadores e dirigentes do clube e prometeu infernizar a vida de todos até que estes atletas fossem afastados. Sem dar ouvidos, a direção do clube agiu como se nada estivesse acontecendo e se surpreendeu: torcedores intimidaram os atletas nos  treinos e chegaram a por fogo na própria sede do clube, queimando documentos históricos. Um grupo de torcedores ilustres repudiou as ações do La Familia, entre eles o ex-1º Ministro Ehud Olmert e o cantor Eyal Golan.

A primeira partida após o incidente, curiosamente, foi contra o único time árabe da Liga, o Bnei Sachnin. Torcedores do Betar, mostrando-se em desacordo com o radicalismo do La Familia, levaram cartazes de apoio ao mandatário do clube (o russo-francês-angolano-israelense Gaydamak) e condenaram a violência. Mas como nem tudo são rosas, os dois atletas chechenos foram vaiados por boa parte do público, além dos radicais do La Familia (que estão na mira da polícia). A declaração do técnico do clube, Eli Cohen, seria cômica se não fosse trágica: ele disse que a torcida deveria ser mais tolerante, pois os atletas eram “muçulmanos da Europa, e não muçulmanos árabes com quem temos problemas”.

 

Bombardeio à Síria

Demorou um pouco, mas o Ministro da Defesa Ehud Barak admitiu que Israel bombardeou a fronteira síria com o Líbano (ainda em território sírio). O argumento, defendido de forma convicta por Barak, era de que o governo Sírio estaria auxiliando o grupo Hezbolah (que recentemente foi considerado terrorista pela União Europeia) na aquisição de armas. Suspeita-se de que a bola da vez fosse o sistema de defesa antiaéreo SA-17, de fabricação russa. A Síria ameaçou responder, Assad foi criticado pelos turcos por não reagir e o Irã protestou internacionalmente, mas por hora não houve grandes repercussões.

 

Netanyahu corta sorvete do orçamento

O 1º Ministro israelense Binyamin Netanyahu resolveu, após protestos, abrir mão do seu sorvete favorito. Pelo menos não serão mais gastos 10 mil NIS (aproximadamente cinco mil reais) públicos por ano com o doce, adquirido em uma sorveteria do bairro de Rehavia em Jerusalém. O 1º Ministro e a sua família não estão proibidos de desfrutar dos sabores baunilha e pistache (aparentemente seus favoritos), só decidiram não utilizar mais a verba do seu gabinete para os supostos 14 litros por mês.

 

Presos entram em greve de fome e palestinos protestam na Cisjordânia

Cerca de 800 presos palestinos, pertencentes às mais diversas facções políticas, entraram em greve de fome por um dia em uma penitenciária israelense nesta semana, seguindo o exemplo de outros quatro presos que já se encontram a meses realizando o mesmo protesto. As exigências para o cesse vão desde a permissão de visitas de familiares até a sua libertação.

Manifestando apoio aos presos, porém sem seguir o exemplo da desobediência civil pacífica, centenas de palestinos protestam desde a segunda-feira em Hebron, Nablus e Ramallah, atirando pedras e coquiteis molotov contra os soldados e a imprensa que cobre os acontecimentos. O número de presos e feridos vem aumentando a cada dia. O Premier palestino Mahmmoud Abbas se declarou a favor do protesto dos presos, mas condenou as manifestações violentas dos palestinos na Cisjordânia.

 

O caso do prisioneiro X

O site da TV australiana ABC publicou há duas semanas uma reportagem sobre morte por causa desconhecida do suposto prisioneiro X, de dupla nacionalidade (australiana e israelense), que teria acontecido em um cárcere israelense, e o caso, por sua vez, omitido pelo governo em 2010. Israel de imediato respondeu, afirmando que se tratava de Ben Zygier, 34 anos, preso por questões de segurança nacional e o suicídio seria a sua causa mortis. O governo ainda afirmou que tanto a família do prisioneiro quanto o governo australiano haviam tomado conhecimento sobre a prisão.

De acordo com o ABC, o prisioneiro vivia em Israel desde 2000, e teria sido recrutado pelo Mossad (Serviço de Inteligência Internacional de Israel). Os meios de comunicação do país teriam mantido um incomum silêncio, segundo o site australiano, o que traria indícios de que o prisioneiro tenha sido morto e não se suicidado.

Ao ser divulgada a reportagem, de imediato iniciou-se a polêmica em Israel e três parlamentares levaram a público a notícia, embora se tratasse de um caso de segurança nacional: Zahava Galon (Meretz), Dov Chanin (Chadash) e Ahmed Tibi (Raam-Taal). A parlamentar Miri Regev (Likud), ex-Porta Voz do Exército, os acusou de aproveitar-se de sua imunidade parlamentar e agir contra a lei por motivos políticos. Galon a respondeu, afirmando que a imunidade parlamentar existe para contestar casos como este, e no momento em que um cidadão desaparece e morre dentro de um cárcere público com o governo ocultando o caso, trata-se tanto de segurança nacional quanto de uma ação antidemocrática. O debate prossegue e a justiça israelense o está analisando.

Recentemente o diário Maariv revelou que o preso se enforcou com um lençol no banheiro de sua cela, onde não havia câmeras de segurança. O 1º Ministro Netanyahu pediu para o público “esquecer” o ocorrido e confiar nas agências de segurança nacional. O caso segue sendo investigado, o que não garante um final esclarecedor.

 

O impasse na coalizão

Já se passaram 30 dias desde que ocorreram as eleições em Israel e ainda estamos distantes de conhecermos o próximo governo. Netanyahu, indicado pela maioria dos partidos para chefiar a coalizão, tem tido muita dificuldade em negociar com parte dos partidos que o recomendaram ao Presidente Shimon Peres.

Pela primeira vez na história o conflito e a segurança nacional encontram-se em segundo plano. O tema da vez é o que se chama em hebraico de “igualdade de medidas (ou pesos)”. Os partidos Yesh Atid e HaBait HaYehudi exigem do Premier Netanyahu que dê fim aos privilégios dos quais goza o público ultra-ortodoxo, como, por exemplo, a dispensa do serviço militar obrigatório. Os dois partidos costuraram um “acordo de cavalheiros”, baseado em uma coligação entre si, seja na coalizão ou na oposição. Desta forma, Yair Lapid e Naftali Bennet (líderes dos dois partidos) esperam pressionar Netanyahu a deixar de fora do próximo governo os partidos Shas e Yahadut HaTora, tradicionais representantes dos ultra-ortodoxos, ou, pelo menos, convencê-los a aceitar as suas exigências. Representantes do Shas negam-se a condescender com a proposta, e segue o impasse.

O atual 1º Ministro já procurou os trabalhistas e ofereceu à sua líder o prestigiado Ministério da Fazenda. Shely, no entanto, recusou compor o governo, alegando diferenças ideológicas. Bibi, que a princípio desejava formar a coalizão com o Yesh Atid e sem o HaBait HaYehudi, hoje pressiona o líder sionista-religioso para que este faça parte do governo, oferecendo-lhe a chefia da comissão de finanças e outras pastas ministeriais. Bennet não dá sinais de abandono ao pacto que teria feito com Lapid, inclusive atraindo o Kadima à “frente pela igualdade de medidas”.

Nesta semana, o HaTnua de Tzipi Livni foi o primeiro partido a formalizar a sua entrada na coalizão, que tem mais cinco dias para se concretizar[1]. O partido recebeu dois ministérios (Justiça e Meio Ambiente) e à sua líder foi prometido um relevante papel nas negociações de paz com os palestinos, o que afasta do governo o conservador Bennet.

Caso o líder do Likud não consiga formar a coalizão governista[2] até o fim do prazo, serão convocadas novas eleições. Pesquisas encomendadas pelo Canal Knesset e pelo diário Maariv (respectivamente) apontam um crescimento do Yesh Atid (24-30 cadeiras) e uma queda do Likud-Beiteynu (28-22). O HaBait HaYehudi também apresenta um crescimento (13-15), em oposição à queda dos trabalhistas (13-11). Os outros partidos aparecem com pequenas variações de uma cadeira, com exceção do HaTnua, que perderia de dois a três mandatos. Ao que parece, se não ocorrerem novas eleições agora, tudo indica que um novo pleito em um curto espaço de tempo.

Notas:

[1] O Premier pode pedir adiamento de uma semana, caso julgue necessário.

[2] Que deve contar com um mínimo de 61 parlamentares.

Comentários    ( 4 )

4 comentários para “Curtinhas de fevereiro”

  • Uriel

    28/02/2013 at 03:33

    Legal João! Saudades das Ramamot em que sentávamos e analisávamos o Ydiot Achronot! e que história é essa do sorvete do Netanyahu? Não entendi muito bem não. Abraço!

  • João Koatz Miragaya

    28/02/2013 at 08:50

    E ai, Uri! Beleza?

    O Bibi gastava 10 mil NIS publicos por ano comprando sorvete para a sua familia. O publico descobriu, a imprensa divulgou e ele anunciou o corte de gastos com o “luxo”.

    Um abraco

  • Uriel

    06/03/2013 at 07:40

    olha joão, eu curto muito sorvete de pistache e de baunilha…realmente a família Netanyahu tem bom gosto! Que bom que a imprensa divulgou esse “luxo”..é rir para não chorar! hahaha

    Hibuk!

    • João Koatz Miragaya

      08/03/2013 at 11:40

      Com quase 40 mil NIS por mês (aproximadamente 20 mil reais) de salário, sabemos que não é necessário que seja gasto dinheiro público com sorvete. O impressionante é a quantidade!

Você é humano? *