Reflexões estratégicas

06/08/2014 | Conflito, Política.

“Será que Israel não está sempre buscando justificativas para realizar operações militares?”

Pode ser. Mas a ideia de que Israel faz um ávido esforço para justificar a realização de operações militares soa mais como uma teoria da conspiração – baseada na noção equivocada de que o governo israelense age por meros devaneios militaristas – do que como uma análise concreta da realidade. Eu acredito que a postura israelense seja lidar com ameaças pontuais de forma pragmática. Vejo dessa forma por alguns motivos:

(1) Apesar dos benefícios eleitorais que operações militares oferecem a certos partidos políticos, é impossível antecipar esses benefícios; muitos são os fatores que determinam o “resultado eleitoral” de uma operação militar e os partidos que compõem a coalizão nem sempre estão dispostos a arriscar a estabilidade que o status quo lhes fornece por meros ‘devaneios militaristas’. Como curiosidade, estima-se que se houvesse uma eleição hoje em Israel, o oposicionista Meretz obteria 10-12 cadeiras, enquanto os governistas Yesh Atid e Israel Beiteinu perderiam entre 5 e 6 cadeiras cada – tenho certeza que esses dois últimos não deixaram de pensar no impacto eleitoral que a atual operação militar em Gaza teria, mas é evidente nas declarações de Avigdor Lieberman e Yair Lapid que seus respectivos partidos não se arrependeram de levá-la a cabo.

(2) Além de provocar uma exposição política desnecessária, a população israelense já percebeu que durante operações militares há um aumento significativo do número de ataques ao seu território e não parece estar disposta a suportar essa situação por operações que não apresentem objetivos claros. Pode-se ainda argumentar que há uma manipulação da opinião pública em Israel, mas seria complicado explicar, por exemplo, a alienação de quase 80% da população que apoiou a atual operação em Gaza. O anseio da população israelense por tranquilidade parece ser maior do que um possível ‘devaneio militarista’ por parte de seus representantes.

(3) Toda operação militar expõe Israel a uma severa pressão internacional que exige do gabinete político-militar refletir cautelosamente antes de tomar qualquer decisão.

(4) A atual operação militar já custou aos cofres israelenses cerca de 6 bilhões de dólares – não acredito que haja um ávido esforço em legitimizar o “desperdício” de tanto dinheiro.

Portanto, acho que Israel tenta lidar com perigos iminentes e concretos. A ideia de que o governo israelense busca motivos para realizar operações arbitrárias contradiz as evidências. A digressão é legítima, mas problemática.

“Será que Israel de fato faz todo o esforço para encontrar soluções definitivas para os túneis que não custem a morte de tantos civis palestinos?”

Essa é uma excelente pergunta. Nenhum analista político conseguirá respondê-la de forma precisa, pois para uma resposta sustentável seriam necessárias informações as quais nunca teremos acesso. Sem essas informações, o máximo a ser feito é lidar com fatos constatados por entidades competentes e elaborar análises lógicas.

Eu trabalho com o seguinte racional: se Israel quisesse, não faltariam meios para provocar um massacre em Gaza – bastaria um dia de operação, sem qualquer soldado morto, para Israel promover uma destruição total, no sentido literal da expressão. Israel não o faz. Por quê? Parece-me plausível a ideia de que Israel preza, em certa medida, pela vida de civis palestinos pelos seguintes fatores:

(1) Israel adota posturas táticas que aumentam a vulnerabilidade de seus soldados para evitar a morte de civis em Gaza (parte da população israelense é crítica a essa “vulnerabilidade estratégica”).

(2) Israel avisa por panfletos, telefonemas e mensagens antes de realizar ataques, perdendo, assim, o que há de mais valioso em qualquer operação militar: o elemento surpresa.

(3) Os soldados israelenses são treinados para evitar a morte de civis, além de terem aulas sobre leis de guerra.

(4) Muitos não sabem, mas o aval de toda decisão de gabinete é dado pelo conselheiro de justiça do governo que utiliza as leis internacionais de guerra como padrão.

(5) Israel sabe o peso da opinião pública internacional e não tem interesse em colocá-la desfavorável às suas políticas sem que haja uma boa razão – por essa linha de pensamento, há um grande incentivo para evitar a morte de civis.

Pode-se afirmar que a tentativa israelense não é suficiente, mas nunca em essência saberemos – os números não nos dão a dimensão qualitativa necessária para chegarmos a uma conclusão sobre os meios utilizados na operação. O que, sim, sabemos é que essa tentativa é substancialmente dificultada por táticas de guerrilha utilizadas pelo Hamas: civis como escudos humanos, mesquitas, escolas e hospitais como abrigos de armamento, estruturas subterrâneas e ataques indiscriminados. Diante dessa realidade, considero mais plausível argumentar que Israel evita, mais do que “não faz de tudo para evitar”, a morte de civis palestinos.

Além disso, devemos fazer a seguinte pergunta: Israel deve neutralizar ameaças diretas à sua população tentando evitar a morte de civis, ou se abster completamente de agir pois qualquer ação causaria a morte de civis palestinos? A resposta a essa questão deve estar baseada no direito universal (de Estados e indivíduos) à autodefesa – Israel tem o direito de neutralizar qualquer perigo a sua população e deve tentar evitar a morte de civis do outro lado. O racional do governo israelense me parece legítimo: a tentativa de evitar a morte de civis do outro lado não pode aumentar a probabilidade de vítimas civis israelenses – essa postura contradiz o princípio de autodefesa.

“O esforço criativo para pensar em outras opções é proporcional ao quanto de real empatia existe por civis palestinos?”

Quanto a questão referente à possibilidade do governo israelense ser mais criativo, eu não tenho uma resposta, e acredito que 99,99% daqueles que escrevem sobre o conflito tampouco tenham. Obviamente, podemos começar a imaginar robôs circulando na fronteira entre Israel e Gaza e pensar em planos mirabolantes para controlar os túneis – seria um exercício de pensamento interessante, mas pouco produtivo para uma análise concreta da capacidade israelense de lidar com ameaças. De qualquer forma, por não participar das reuniões de gabinete, por desconhecer as possibilidades tecnológicas à disposição das forças militares e não ter acesso a diversas outras informações, evito tirar conclusões precipitadas – aconselho todos a fazer o mesmo.

Sobre a empatia. No campo da psicologia política, trabalha-se com a ideia de que a empatia se manifesta de duas formas na mente humana: cognitiva e emocionalmente – posso entender o que você sente, sentir o que você sente ou ambos. Alem de trabalhar com essa diferenciação é importante colocar toda análise em diferentes planos. Eu, Bruno (em um primeiro plano), tenho uma empatia emocional e cognitiva pelos acontecimentos em Gaza – entendo e sinto a realidade dos civis palestinos.

Parte da sociedade israelense (um segundo plano) apresenta uma séria tendência ao extremismo, e avalio esse processo como muito nocivo (por motivos que nos conduziriam a uma outra discussão) – essa parcela da população parece não ter qualquer empatia, cognitiva ou emocional, pela realidade em Gaza.

No governo israelense (um terceiro plano) há uma empatia mais cognitiva do que emocional. O governo entende a luta palestina e calcula toda e qualquer ação relativa a esta por um viés político-estratégico. Em outras palavras, a tentativa de evitar a morte de civis, o bloqueio a Gaza, a ocupação, as negociações com Mahmoud Abbas, as operações militares e outras medidas não são elaboradas por uma empatia emocional pela realidade palestina, mas por um entendimento de como a luta palestina se apresenta na prática – puro pragmatismo.

Observe que não justifico essas ações, apenas busco entender a mentalidade política israelense. Certamente, o planejamento é em muitos aspectos equivocado – Israel deve interromper a construção em territórios ocupados, encontrar soluções alternativas para o bloqueio de Gaza (forças da ONU, por exemplo), fortalecer politicamente Mahmoud Abbas, se alinhar aos governos egípcio e jordaniano e cooperar com a Liga Árabe. Ainda assim, considero razoável concluir que há uma severa dissonância entre a realidade e a hipótese de que o governo israelense age sem qualquer empatia pelo povo palestino. De fato, se o governo israelense não tivesse qualquer empatia – cognitiva ou emocional – pela causa palestina, este não negociaria com Yasser Arafat (Acordos de Oslo), não sairia de Gaza (2005-6), não ofereceria planos de paz (Olmert e Barak), não seguiria negociando com o Abbas (com todas as críticas que eu tenho a forma como esta é conduzida), não montaria hospitais para atender civis de Gaza, não aceitaria seis tréguas humanitárias, etc. Apesar de ser uma empatia de natureza cognitiva, ela ainda existe e não pode ser desconsiderada. O contrário ainda está por ser provado.

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “Reflexões estratégicas”

  • Marcelo Starec

    06/08/2014 at 23:50

    Oi Bruno,
    Muito bom artigo! Parabéns! Entendo que tudo o que você descreve é o que se espera que um governo decente, como é o caso de Israel, faça pelo seu povo e mesmo pelos outros povos, ainda que inimigos (não os povos, mas as suas lideranças!). Eu vejo muito viés em muitas das análises sobre o Oriente Médio, normalmente um viés preconceituoso e negativo, questionando tudo o que Israel faz ou deixa de fazer. A mim parece que ou a análise é feita por pessoas que não conhecem a fundo o que estão falando, ou olham Israel com um viés pré-concebido, ainda que “enrustido” e não assumido. Embora entendo que ninguém consegue ser inteiramente imparcial, a sua análise efetivamente faz o máximo de esforço para chegar lá e por isso merece os devidos elogios.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Rebeca Daylac

    08/08/2014 at 16:11

    Bruno,

    Parabéns pelo artigo!!
    Rebeca

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