Relações Israel-Japão

18/08/2014 | História; Política

As relações entre o Japão e Israel, de certa maneira, podem ser estudadas como um caso concreto da influência americana sobre a política externa japonesa após a Segunda Guerra Mundial.

A política externa japonesa não deve, de forma alguma, ser considerada um mero reflexo da política externa americana. Entretanto, sendo o Japão e os Estados Unidos aliados muito próximos na era pós-guerra, suas políticas externas estão alinhadas em termos gerais na maior parte do tempo, o que pode ser considerado normal. O poder americano de impor sua vontade em detrimento dos interesses japoneses dependia principalmente do que os Estados Unidos poderiam oferecer em vista das necessidades japonesas à época.

A Doutrina Yoshida, desenvolvida pelo primeiro-ministro Shigeru Yoshida, conferia altíssima prioridade à reconstrução da economia japonesa no pós-guerra, reduzindo ao máximo qualquer esforço diplomático que não estivesse associado à criação de laços econômicos entre o Japão e os demais países. Yoshida defendia que a defesa militar do Japão ficasse a cargo dos Estados Unidos para que o Japão não precisasse formar forças armadas, conforme definido na nova constituição japonesa.

Mesmo quando os Estados Unidos pressionavam o governo japonês para que constituíssem uma pequena força militar, que pudesse ajudar na intervenção em alguns conflitos regionais no âmbito da Guerra Fria, ou consumir os produtos exportados pela indústria bélica americana, o Japão manteve-se fiel à sua nova diretriz, afastando-se do caráter imperialista que marcou o país até os anos 1940. Mais do que uma postura ideologicamente pacifista, tratava-se de decisão estratégica da liderança japonesa, disposta a não desperdiçar nenhuma oportunidade comercial que lhe ajudasse a reconstruir um país em ruínas.

Nos primeiros anos após a Segunda Guerra Mundial, mesmo após a plena independência japonesa ter sido restaurada com o Tratado de São Francisco, a presença militar americana no Japão e a fraqueza da economia japonesas significavam que a política externa do país estaria em total sincroniza com as diretrizes americanas. O Japão precisava do apoio econômico americano para se reconstruir e vislumbrava para si um novo papel: a nação serviria de ponte entre o Extremo Oriente e o mundo ocidental.

À medida em que a economia japonesa se recuperava da destruição causada pela guerra e começava a desenvolver-se – ainda sob o plano americano de ter um Japão forte, como um farol de capitalismo que contivesse a expansão comunista no Extremo Oriente – o país emergia como uma superpotência econômica, ainda que despido das idéias expansionistas que o caracterizavam no passado.

Esta nova posição permitia que o governo japonês, a partir do início da década de 1970, defendesse os interesses comerciais do país de maneira mais independente. Na arena regional, assim como em suas relações com países mais distantes, a política externa japonesa manteve-se alinhada àquela dos Estados Unidos, mas de maneira mais frouxa, focando-se em suas prioridades com mais confiança.

Com o final da Guerra Fria e a nova realidade do século XXI, com o iminente estabelecimento de um mundo multi-polar, os Estados Unidos já não podiam apegar-se tanto aos seus aliados assim como o Japão não podia mais confiar exclusivamente no governo americano e necessitava buscar opções alternativas.

Um excelente exemplo para esta evolução a longo prazo é a política japonesa para com o Oriente Médio. Ainda que a economia japonesa dependesse profundamente do petróleo exportado pelos países árabes, o país mantinha boas relações com o Estado de Israel nas primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial, como era de se esperar de qualquer bom aliado americano. Em 1962, a representação israelense em Tóquio foi inclusive elevada ao status de embaixada.

Na década de 1970, quando o rápido desenvolvimento da economia japonesa permitiu ao país dar-se ao luxo de manter uma política externa mais independente, vieram os choques do petróleo de 1973 e 1979. Neste ponto, os interesses econômicos japoneses – a mais alta prioridade da política externa do país, como delineado pela Doutrina Yoshida – foram ao encontro de uma crítica interna ao Estado de Israel oriunda de uma nova geração de intelectuais contrários à ocupação dos territórios palestinos. Esta crítica exemplificou-se de maneira trágica no episódio do massacre no Aeroporto Internacional Ben-Gurion[ref]Àquela época, ainda conhecido como Aeroporto de Lod.[/ref], realizado em conjunto pelos grupos terroristas Exército Vermelho Japonês e Frente Popular pela Libertação da Palestina. Toda esta conjuntura levou a uma aproximação entre o Japão e os países árabes e muçulmanos produtores de petróleo e uma ruptura com Israel.

Com o final da Guerra Fria e o surgimento de novos agentes influentes na arena global, ficou mais difícil para os Estados Unidos manterem-se próximos aos seus principais aliados em cada uma das arenas regionais. Ao mesmo tempo em que os americanos já vinham desenvolvendo parcerias com a República Popular da China e a Coréia do Sul, parceria estas tão profundas quanto a aliança nipo-americana, o governo japonês também finalizava seus processos de paz e normalização de relações com a maioria dos países da região. Não apenas com a China e a Coréia do Sul, mas também com a Rússia pós-soviética.

Foi esta nova realidade multi-lateral que abriu para o Japão o acesso às fontes de energia russas e, junto com os constantes esforços do país para diversificar sua matriz energética, reduziram a dependência japonesa no petróleo árabe. Em 1992, Japão e Israel novamente estabeleceram plenas relações diplomáticas.

Pode-se, finalmente, concluir que a política externa japonesa deslocou-se ao longo dos anos desde um total alinhamento às diretrizes americanas até a independência. A capacidade americana de prover para todas as necessidades econômicas japonesas, a principal prioridade da política externa do país, guiaram a direção assim como o ritmo deste deslocamento. O desenvolvimento econômico do Japão trouxe confiança para uma política externa independente e o enfraquecimento do poder de barganha americano em vista da nova realidade mundial significaram que já não havia como impor prioridades externas ao país.

Esta evolução pode ser claramente identificada nas relação do país com o Estado de Israel, desde uma rápida identificação pós-guerra, passando por uma ruptura quando o petróleo árabe era mais importante do que qualquer apoio que os Estados Unidos podiam oferecer até o cenário atual, em que Israel e Japão mantém boas relações, baseadas em mútuos interesses nutridos pois dois países com autonomia política e econômica capazes de ditarem suas próprias políticas externas.

Fontes:

Kenneth B. Pyle, Japan Rising- The Resurgence of Japanese Power and Purpose (Century Foundation, 2007), “Introduction: The Japan Puzzle”. DS889.5 P96 2007

Michael J. Green, Japan’s Reluctant Realism- Foreign Policy Challenges in an Era of Uncertain Power (Council on Foreign Relations, 2003), Ch.2: “Domestic Institutions and Foreign Policy” pp.35-75.

Thomas U. Berger, “The Pragmatic Liberalism of an Adaptive State”, in: Thomas U. Berger, Mike M. Mochizuki and Jitsuo Tsuchiyama (eds.,) Japan in International Politics – The Foreign Policies of an Adaptive State (Lynne Rienner, 2007), pp.259-275

Eric Heginbotham and Richard J. Samuels, “Mercantile Realism and Japanese Foreign Policy”, International Security Vol.22(4), Spring 1998, pp.171-203.

Raquel Shaoul, “Japan and Israel: An Evaluation of Relationship-Building in the Context of Japan’s Middle East Policy”, Israel Affairs Vol. 10 (1-2), Autumn/Winter, 2003.

William Nester and Kweku Ampish, “Japan’s Oil Diplomacy: Tatemae and Honne”, Third World Quarterly Vol.11 (1) (Jan.1989), pp.72-88

Imagem de capa: Museu Tikotin de Arte Japonesa, em Haifa, Israel. Retirada da Wikipedia, sob Creative Commons.

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Relações Israel-Japão”

  • Nelson Burd

    19/08/2014 at 01:07

    Há o Museu da Cultura Japonesa, em Haifa. Vale conferir. Fica no Merkaz HaCarmel.

  • Marcelo Starec

    28/08/2014 at 22:36

    Penso que, tal como foi colocado no texto, o único período em que as relações entre Israel e Japão não foram boas foi quando o petróleo árabe (ora essencial para o Japão) exercia uma pressão enorme sobre os países dele dependentes, tal como o Japão. Japão e Israel possuem muitos valores e interesses em comum e não há outro motivo para que um bom relacionamento entre ambos não ocorra.
    Abraço,
    Marcelo.