Renasce a nação aramaica, e em Israel

por Marcelo Kisilevski, publicado originalmente em espanhol no blog pessoal do autor em 17.9.2014.

Há tempo explicamos a perseguição que sofrem os cristãos nas mãos dos muçulmanos no Oriente Médio. As provas mais contundentes vieram das mãos da sinistra organização Estado Islâmico, com suas crucificações, decapitações, conversões forçadas, execuções em massa e expulsões de cristãos no Iraque e na Síria.

Em Israel, há anos, a comunidade árabe cristã tenta separar-se de sua identidade árabe e abraçar a identidade israelense, por entenderem que não funcionou muito bem sua histórica aliança com o pan-arabismo do século passado e com a nação árabe em geral.  Começou como um movimento pelo recrutamento obrigatório dos cristãos no exército israelense, um direito-dever que os drusos-israelenses há muito solicitaram e lhes foi concedido.

Agora, o passo seguinte: o Ministério do Interior israelense aceitou o pedido dos cristãos israelenses para que, em seus documentos de identidade, no campo “Etnia” (em hebraico, usa-se Leom, Nação), em vez de Árabe, conste Arameu. Trata-se de uma luta de ano, e ontem [ref]Nota do Tradutor: 16.9.2014.[/ref]o ministro do interior, Gideon Saar, soube tomar a decisão correta.

“Não somos árabes, apenas cristãos que falam árabe”, aplicam, mas até a conquista árabe no século VII, falavam aramaico, por séculos o idioma mais comum na Palestina/Terra de Israel. Neste idioma se falava em Canaã e na Península Arábica pré-Maometana, inclusive pelos hebreus, de maneira que parte do Talmud está escrito neste idioma. Provavelmente, Jesus falava aramaico e, até hoje, esta é a “Língua Sagrada” das igrejas orientais.

Tentativa de tornar-se parte

Na década de 1950, cristãos como Michel Aflaq, um dos ideólogos do pan-arabismo e um dos pensadores fundadores do partido Baath no país, tentaram com esta doutrina superar a barreira religiosa que os separava dos muçulmanos e elevar a identidade nacional como uma esfera superior ao paradigma religioso, caracterizando-se como sua principal tentativa de integrar-se ao mainstream e ao establishment do Oriente Médio.

O experimento, entretanto, não terminou bem à medida que o paradigma islamista se expandia e, em muitos lugares, o Oriente Médio hoje regride cerca de mil e quatrocentos anos. Não apenas no Iraque e na Síria. Belém, uma das cidades cristãs mais importantes do mundo, foi esvaziada de cristãos nos últimos vinte anos. Hoje, é uma cidade muçulmana, com uma minoria de 1,5% de cristãos.

Israel, por outro lado, é o único país no Oriente Médio onde a comunidade cristã cresce, o que vem ocorrendo desde 1948.  Ainda assim, e mesmo que com menos violência, ainda são maltratados por seus supostos compatriotas, os árabes-israelense muçulmanos. Ontem, os cristãos conseguiram oficialmente o divórcio.

Shaadi Halul, líder da Associação Aramaico-Cristã e capitão do exército israelense, emocionou-se e felicitou a decisão do ministro Saar. “É uma decisão histórica e uma guinada histórica nas relações entre cristãos e judeus no Estado de Israel”.

E acrescentou: “Isto invalida o argumento de todos os antissemitas, que caluniam o povo judeu e o Estado de Israel. É a prova de que Israel cuida de seus cidadãos e das identidades das minorias que vivem no país, diferentemente de todos os países árabes ao nosso redor”.

Agora, poder-se-á falar de três igrejas, ou correntes, cristãs israelenses: a Igreja Aramaica-Maronita (cuja maioria dos seguidores encontra-se no Líbano), a Igreja Aramaica-Católica e a Igreja Aramaica-Ortodoxa. Em Israel, no total, trata-se de uma comunidade de 133 mil arameus. Seu reconhecimento como etnia separada dos árabes pode ter implicâncias importantes, como a possibilidade de um sistema educacional separado do árabe: até o momento, nos escolas árabes apenas se estuda a herança árabe, e o islã.

A partir de agora, todo cristão poderá optar por registrar “Arameu” em sua carteira de identidade. A nação aramaica renasceu, foi em Israel. Viva!

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Renasce a nação aramaica, e em Israel”

  • Marcelo Starec

    22/11/2014 at 22:35

    O artigo é excelente e trata de algo tão atual e importante!…A intolerância do mundo árabe muçulmano contra os diferentes – antes se falava que era apenas contra judeus, mas agora está muito claro – também é contra os cristãos, os homossexuais e tantos outros grupos, incluindo-se aí até mesmo os muçulmanos que pensam diferente de suas lideranças em geral radicais e assumidamente intolerantes. É incrível que no Brasil, um País cristão, virtualmente nada seja dito a esse respeito!…mas basta ver os fatos: Quantos cristãos existiam no Oriente Médio em 1948? Quantos existem hoje?…Um número muito menor, basta pesquisar!…O exemplo de Belém (Cisjordânia – administrada pelo Abbas), citado nesse texto, é apenas uma mera reprodução disso!…e se até os cristãos estão, enfim, assumindo que a intolerância árabe islâmica atual está insuportável para eles, espero que o mundo acorde e veja que não é para Israel que as maiores críticas deveriam ser direcionadas, mas infelizmente a análise, em muitos locais, com o habitual viés antissemita, impede que isso seja devidamente compreendido por muitas pessoas….
    Abraço,
    Marcelo.

  • Nelson Burd

    23/11/2014 at 17:36

    No Líbano, há cristãos maronitas que se identificam como fenícios. Caso muito parecido.

  • Mario S Nusbaum

    25/11/2014 at 17:35

    Muito interessante a matéria. Aproveito para pedir que algum de vocês escreva sobre como anda o idish em Israel.

  • Raul Gottlieb

    25/11/2014 at 17:54

    Marcelo,

    Você foca num assunto muito interessante, que contraria frontalmente as falácias que apregoam sobre o racismo da sociedade israelense e também sobre um seu pretenso impulso “genocida” (que seria o mais incompetente da história, visto que a vítima cresce um população – algo semelhante com o que acontece no superávit negativo” inventando pelo incompetente, porém criativo, governo petista).

    Pergunto se a tua pesquisa também inclui a evolução das minorias cristãs no restante do Oriente Médio.

    Abraço, Raul

  • Marcelo Starec

    26/11/2014 at 04:31

    Oi Raul,
    Obrigado e excelente colocação a sua. Entendo que o que parece é que, nessa questão, a turma anti-Israel acredita que a melhor defesa é o ataque!…Veja só – no Oriente Médio que no início do século 20 tinha 20% de cristãos, hoje tem apenas 5% (ou seja, apenas 1/4 do que tinha a 100 anos!). Em Israel, por outro lado, o número de cristãos cresceu de 1948 (quando Israel passou a existir) para cá pelo menos 13 (treze vezes – isso em uma estimativa conservadora!) – No restante do Oriente Médio, que tinha também cerca de 1 milhão de judeus, hoje tem um número desprezível, algo próximo de zero mesmo e quanto aos cristãos tudo leva a crer que, em mais algum tempo, o mesmo vai ocorrer com eles…mas, apesar de toda a intolerância no restante do Oriente Médio, provada pelos fatos, pois se os cristãos, muçulmanos e outras minorias ficam em Israel e crescem em número, podendo sair quando bem entenderem, isso quer dizer algo, assim como o êxodo dos judeus e também dos cristãos do restante do Oriente Médio também tem um óbvio significado…Todavia, em parte da nossa mídia, há “intelectuais” com claro viés que dizem que em Israel é que ocorre a intolerância, o appartheid e o “genocídio”…Ao contrário, o que está ocorrendo é uma perseguição firme e clara aos cristãos no restante do Oriente Médio, mas, apesar de estar na cara do mundo, este teima em não ver, pois são fatos e não corroboram com a narrativa anti-Israel !….
    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    26/11/2014 at 17:17

    Marcelo,

    A população do início do século 20 era muito menor que a de hoje, assim que os 20% daquela época são muito menos pessoas do que um quarto dos 5% de hoje.

    Se os percentuais que você divulgou estão corretos, suspeito que a queda de população deve ter sido assombrosa, algo na casa dos 70-80%.

    Vale a pena pegar os números absolutos e medir o percentual. E depois disso esperar confortavelmente sentados que alguém se disponha a divulgar e explicar o êxodo (muitas vezes doloroso) dos não muçulmanos do OM islâmico.

    Esta análise vai mostrar que é a total inadequação dos muçulmanos à idade moderna e não o advento de Israel que infelicita aquela parte do mundo. As lideranças muçulmanas ainda não abriram mão de tratar as “suas” minorias como cidadãos inferiores, se bem que “protegidos”.

    Já falamos muito sobre isto por aqui. O espantoso é a aversão de alguns a deixar que os fatos mudem suas convicções.

    Abraço,
    Raul