Resposta ao 1º Ministro

09/10/2013 | Conflito, Política.

Prezado 1º Ministro. Sou cidadão israelense por opção desde 2009, ano em que o senhor foi eleito e proferiu um importante discurso no mês de junho, na Universidade Bar-Ilan. Confesso que fosse eu um ignorante, teria aplaudido mais da metade dos seus parágrafos. O senhor discorreu sobre a legitimidade do Estado de Israel, algo que conta com meu total apoio. Também convocou os líderes de Síria, Líbano, Arábia Saudita e da Autoridade Palestina às negociações por paz, voluntariando-se, inclusive, a visitar Damasco, Beirute e Riad caso fosse necessário. Também afirmou que já era hora de termos paz com nossos vizinhos, algo que me surpreendeu, pois o senhor já exerceu o cargo de 1º Ministro uma vez e não havia nem proposto algo do gênero. Também me identifico com a luta contra o terrorismo e a ameaça aos civis israelenses. Por outro lado, discordei de boa parte do que foi apontado pelo senhor, repetidos neste seu novo discurso, na mesma universidade, no dia seis de outubro deste ano.

 

Permita-me, senhor 1º Ministro, ignorar suas insinuações sobre o Irã. Eu não sou a favor da proliferação de armas nucleares, e, como cidadão israelense, também me preocupa o fato de o Irã possivelmente obter armas de destruição em massa, visto que é pública e notória a boa relação que a República Islâmica tem com os grupos Hamas e Hezbolah. Mas não me aterei a este ponto, pois não sou a favor de ofensivas militares, quanto mais em uma situação obscura como esta. O senhor certamente tem acesso a informações secretas da inteligência do exército israelense, não estamos igualmente informados. Por isso ignoro este tema.

 

Falaremos sobre os palestinos e a nossa situação bélica com eles. Senhor 1º Ministro, a sua leitura histórica sobre a origem do conflito muito se assemelha à minha. Se o senhor compreendesse português, te recomendaria ler meu texto “O ABC do Conflito”, para que observe como eu também sou bem informado, apesar de ter nascido no Brasil. Assim como o senhor, eu também creio que o conflito tem suas origens muito antes de 1967: o senhor aponta os Tumultos de Jaffa (Yaffo) de 1921 como a origem de tudo. Eu prefiro apontar o Tratado de Sykes-Pikot (1916) e a Declaração Balfour (1917) como seus pontos iniciais. Veja só: eu não culpo nem o sionismo nem os palestinos, prefiro apontar o imperialismo como produtor do conflito árabe-israelense. É certo que até então, judeus e árabes conviviam na Palestina Otomana em relativa paz, algo que me permite concluir que nós não somos inimigos por razões naturais: nem nós os odiamos nem eles nos odeiam por definição.

 

O senhor, no entanto, caro 1º Ministro, prefere culpar o outro lado por ter começado a briga. Me parece um argumento um pouco infantil, o senhor não acha? Eu, quando criança, também acusava meu irmão de ter começado a briga, assim como a recíproca é verdadeira. Meus pais, donos da sabedoria advinda junto à experiência, não se importavam com quem começou, mas sim com a resolução do conflito. O senhor também aponta a recusa árabe à proposta do Plano de Partilha da Palestina como justificativa para afirmar que os árabes “não quiseram a paz”. É verdade. Eles se recusaram a uma proposta que, aos olhos de hoje, pareceria extremamente generosa. Meu ponto, caro 1º Ministro, como historiador, é que não podemos analisar as questões fora de contextos. A liderança árabe errou em 1947, sem dúvidas. Mas não podemos, quase 66 anos depois, justificar a ausência do Estado Palestino por esta recusa. Até porque, e o senhor há de concordar, os palestinos perderam muito mais do que ganharam com esta guerra: ninguém que trabalha com qualquer perspectiva real de acordo ousa falar nas fronteiras de 1947. Até mesmo o presidente da Autoridade Palestina, Abu Mazen (Mahamoud Abbas) admitiu recentemente que aceitaria a hipótese de utilizar um visto de turista para entrar em sua cidade natal, Safed, na Galileia. Já é hora de olharmos para frente, não é mesmo, senhor 1º Ministro?

 

Quando o senhor afirma que “a ocupação e as colônias não são a raiz do conflito”, tem razão. Mas será que o senhor não pode admitir que hoje em dia ambos representem uma dificuldade para se chegar a um acordo, 1º Ministro? Será mesmo que o senhor acredite nas suas próprias palavras? Pode alguém, que admite que a criação de dois Estados seja a solução para a questão palestina, ignorar que 46 anos de ocupação e a contínua construção de colônias na Cisjordânia são nocivos para a paz? Peço perdão, senhor 1º Ministro, mas eu não acredito no senhor.

 

Obviamente o senhor não deixaria uma oportunidade como esta passar sem afirmar o que há de ser feito. O papel dos líderes, logicamente, é apontar caminhos, e o senhor não deixou de fazê-lo. O caminho apontado pelo senhor, 1º Ministro, foi claro: “não haverá paz enquanto os palestinos não reconhecerem a Israel como um Estado nacional judaico e renunciarem ao direito de retorno dos refugiados de 1948”. Pode ser que não o interesse, 1º Ministro, mas darei minha opinião: este foi o ponto mais problemático do seu discurso.

 

Sua proposta (ou seria ameaça) não contempla nenhuma solução, pois é unilateral, falsa e tendenciosa. Unilateral porque exige somente de um dos lados uma iniciativa. Baseio-me no argumento do escritor Amos Oz em seu livro “Contra o Fanatismo”, quando ele afirma que não haverá paz enquanto os dois lados não estiverem dispostos a renunciar. Se o senhor não mostrou estar disposto a nenhum sacrifício sequer, por que eles o fariam? O argumento é falso, pois o senhor em diversas ocasiões recusou-se a sequer considerar a criação de dois Estados com base nas fronteiras de 1967. Ora, senhor 1º Ministro, se o Estado Palestino não vier a existir nas fronteiras de 1967, onde seria? Mas o mais problemático é o quanto o senhor pode ser parcial e tendencioso: Israel jamais exigiu de nenhum outro Estado do mundo que o reconheça como Estado nacional judaico para que tenhamos paz e relações diplomáticas. Nem Egito, nem Jordânia, nem Turquia, nem Brasil, nem Argentina, nem França e nem Alemanha nos reconhecem como um Estado nacional judaico. Não seria uma humilhação exigir isto dos palestinos? Por que, senhor 1º Ministro, só aos palestinos, justamente os que habitavam estas terras antes de 1948, é exigido tal reconhecimento para que tenhamos paz? Perdoe-me senhor 1º Ministro, mas sua argumentação igualmente é discriminatória: há partidos árabes-israelenses que se recusam a reconhecer o caráter judaico do Estado de Israel, mas a Suprema Corte lhes dá o direito de existir. O mais problemático, senhor 1º Ministro, é o fato de o partido Yahadut HaTora, formado por judeus ultraortodoxos, não reconhecerem o Estado de Israel como um Estado nacional judaico e o senhor ter governado durante quatro anos com a sua participação na sua coalizão governista. Não te parece incoerente? A mim, 1º Ministro, me dá esta impressão.

 

Termino esta carta, senhor 1º Ministro, perguntando ao senhor: sua intenção de criar um Estado Palestino é séria e verdadeira? Eu gostaria que fosse. Não desejo culpar o sionismo nem o Estado de Israel pelo conflito unilateralmente, certamente há lideranças palestinas perversas que impedem que tenhamos paz. No entanto, caro 1º Ministro, eu não sou cidadão palestino. Não tenho o direito de eleger meu representante do outro lado, e estou certo de que nenhum deles me representa. O senhor foi eleito justamente para me representar, além de outros mais de oito milhões de israelenses. Por isso, senhor 1º Ministro, lhe peço que seja mais cuidadoso em seus discursos, e que passe a pensar em soluções reais ao invés de remoer o passado. Eu gostaria de ser liderado por um 1º Ministro comprometido com a paz. Posso confiar no senhor?

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Comentários    ( 31 )

31 Responses to “Resposta ao 1º Ministro”

  • Raul Gottlieb

    14/10/2013 at 16:07

    João,

    Entendi o ponto do palestino que falou contigo e até simpatizo com parte do que ele fala, apesar de que tenho uma ressalva:

    Numa paz todos deveriam virar irmãos – judeus e árabes. Considerar que existem “irmãos árabes” e “judeus” é tão problemático – conforme a lógica que ele expôs – quanto considerar que o Estado de Israel é judaico.

    Com certeza a esmagadora maioria dos israelenses iria adotar a posição de considerar judeus e árabes em termos de igualdade (até porque já os consideram), mas nem um árabe que admite conversar com judeus é capaz de fazer isto.

    Além disso, todos os países do mundo reconhecem tacitamente Israel como sendo um Estado Judaico. Por isto não foi necessário fazer esta exigência deles. Veja o Vaticano, ele só reconheceu Israel depois que a teologia católica foi reformada para considerar os judeus os “irmãos mais velhos” dos cristãos (conforme as palavras do Papa JPII na sinagoga de Roma – a primeira visita de um Papa a uma sinagoga desde sempre). Ou seja, não foi preciso colocar “Judaico” no nome para o Vaticano soubesse o que estava em jogo.

    Mas os árabes – pelo menos as lideranças – há muitas décadas não reconhecem a ligação dos judeus com Eretz Israel, então eu acho fundamental exigir esta declaração deles, porque sem esta ligação o Estado de Israel deixa de ter razão de existir

    Os árabes dizem que o Estado de Israel é uma aventura colonialista européia, exatamente (pena que não dê para sublinhar esta palavra no editor usado por Conexão) para refutar a ligação dos judeus com a terra de Israel.

    Eu sei que estou me repetindo, mas acho importante bater neste ponto pois ele deixa claro, pelo menos para mim, que a exigência Israelense não é uma tentativa de dizer que “o acordo será nos meus termos” e sim de deixar bem claro que a paz implica na aceitação do caráter judaico do Estado e na ligação histórica-eterna dos judeus com Eretz Israel.

    Sem o reconhecimento desta ligação a paz não servirá para nada.

    Ou seja, é o passado que informa aos israelenses hoje que esta declaração é importante. Não se tratar de viver no passado, mas de escutar o que ele nos informa (inclusive sobre a escolha consciente do Hadj Amin Al-Husseini como Mufti de Jerusalém) ao mesmo tempo em que analisamos o que escutamos do presente.

    Eu leio os jornais israelenses todos os dias. E, em menor volume, mas com a mesma frequência leio também o que sai na imprensa árabe com as declarações de seus líderes e jornalistas e pessoas influentes.

    A imprensa israelense (inclui os comentários das notícias, feitos pelo público) não tem os árabes em alta consideração. Mas isto é fichinha perto da estupenda demonização que é propagada diariamente pela imprensa árabe. Eu assino o MEMRI e o Honest Reporting. Eles dão pouca opinião, se limitam a apresentar pedaços do noticiário árabe. É estarrecedor, porém esclarecedor (*).

    Vendo este abismo eu tenho muito pouca fé na coragem de um líder árabe qualquer em dar um passo para normalizar as relações com Israel. Todo o resto é jogo de cena, João.

    Abraço,
    Raul

    (*) Um exemplo de hoje pela manhã – um ator egípcio disse que o sobrinho que assassinou o Rei Fahd da Arábia Saudita (aconteceu há uns 20-30 anos), foi seduzido por uma mulher judia que o levou a Israel onde um chip foi implantado no cérebro dele e partir daí ele passou a agir sob o controle remoto dos israelenses.

    Porque este simpático (de verdade) artista acha impossível que no seio da família árabe um sobrinho mate o tio para tomar o poder. Parece piada, mas não é! Todos – todos mesmo – os problemas do mundo árabe (e não são poucos) são atribuídos aos judeus e a Israel.

    Como se os árabes não se matam alegremente pela conquista do poder desde os tempos imemoriais!!!

    Veja: http://www.memritv.org/clip/en/4007.htm

    E mais este de quebra: http://www.memritv.org/clip/en/4005.htm

  • Raul Gottlieb

    14/10/2013 at 18:33

    A resposta ao questionamento do Palestino: “para nós, árabes-palestinos, reconhecer que o Estado de Israel é um Estado judeu é reconhecer que ele é mais dos judeus do que dos nossos irmãos árabes … Por que a exigência se dá justamente a nós neste determinado ponto?” é a seguinte:

    “Porque diferente dos demais países do mundo, vocês (países árabes e organizações palestinas) expressam hoje ou expressaram no passado o desejo de varrer Israel do mapa. Por isto vocês provocam um tratamento diferenciado por parte de Israel”.

    Acho que agora resumi o meu pensamento à sua dimensão mais concentrada.

    E lendo de novo a frase do Palestino (que eu sei não ser literal) percebo uma hipocrisia gigantesca. Veja a enorme diferença de como os judeus são tratados nos países árabes e de como os árabes são tratados em Israel. Veja a quantidade de judeus que imigraram dos países árabes e a quantidade de árabes que imigraram de Israel.

    Seria o Iraque mais dos árabes que chegaram lá no século sexto da Era Comum do que dos judeus que chegaram lá no século sexto antes da Era Comum? Não obstante a preocupação dos árabes com a igualdade eles foram todos expulsos e expropriados.

    Ele está mesmo preocupado como os israelenses tratam os árabes! Brincadeira, não?

Você é humano? *