Resposta ao 1º Ministro

09/10/2013 | Conflito; Política

Prezado 1º Ministro. Sou cidadão israelense por opção desde 2009, ano em que o senhor foi eleito e proferiu um importante discurso no mês de junho, na Universidade Bar-Ilan. Confesso que fosse eu um ignorante, teria aplaudido mais da metade dos seus parágrafos. O senhor discorreu sobre a legitimidade do Estado de Israel, algo que conta com meu total apoio. Também convocou os líderes de Síria, Líbano, Arábia Saudita e da Autoridade Palestina às negociações por paz, voluntariando-se, inclusive, a visitar Damasco, Beirute e Riad caso fosse necessário. Também afirmou que já era hora de termos paz com nossos vizinhos, algo que me surpreendeu, pois o senhor já exerceu o cargo de 1º Ministro uma vez e não havia nem proposto algo do gênero. Também me identifico com a luta contra o terrorismo e a ameaça aos civis israelenses. Por outro lado, discordei de boa parte do que foi apontado pelo senhor, repetidos neste seu novo discurso, na mesma universidade, no dia seis de outubro deste ano.

 

Permita-me, senhor 1º Ministro, ignorar suas insinuações sobre o Irã. Eu não sou a favor da proliferação de armas nucleares, e, como cidadão israelense, também me preocupa o fato de o Irã possivelmente obter armas de destruição em massa, visto que é pública e notória a boa relação que a República Islâmica tem com os grupos Hamas e Hezbolah. Mas não me aterei a este ponto, pois não sou a favor de ofensivas militares, quanto mais em uma situação obscura como esta. O senhor certamente tem acesso a informações secretas da inteligência do exército israelense, não estamos igualmente informados. Por isso ignoro este tema.

 

Falaremos sobre os palestinos e a nossa situação bélica com eles. Senhor 1º Ministro, a sua leitura histórica sobre a origem do conflito muito se assemelha à minha. Se o senhor compreendesse português, te recomendaria ler meu texto “O ABC do Conflito”, para que observe como eu também sou bem informado, apesar de ter nascido no Brasil. Assim como o senhor, eu também creio que o conflito tem suas origens muito antes de 1967: o senhor aponta os Tumultos de Jaffa (Yaffo) de 1921 como a origem de tudo. Eu prefiro apontar o Tratado de Sykes-Pikot (1916) e a Declaração Balfour (1917) como seus pontos iniciais. Veja só: eu não culpo nem o sionismo nem os palestinos, prefiro apontar o imperialismo como produtor do conflito árabe-israelense. É certo que até então, judeus e árabes conviviam na Palestina Otomana em relativa paz, algo que me permite concluir que nós não somos inimigos por razões naturais: nem nós os odiamos nem eles nos odeiam por definição.

 

O senhor, no entanto, caro 1º Ministro, prefere culpar o outro lado por ter começado a briga. Me parece um argumento um pouco infantil, o senhor não acha? Eu, quando criança, também acusava meu irmão de ter começado a briga, assim como a recíproca é verdadeira. Meus pais, donos da sabedoria advinda junto à experiência, não se importavam com quem começou, mas sim com a resolução do conflito. O senhor também aponta a recusa árabe à proposta do Plano de Partilha da Palestina como justificativa para afirmar que os árabes “não quiseram a paz”. É verdade. Eles se recusaram a uma proposta que, aos olhos de hoje, pareceria extremamente generosa. Meu ponto, caro 1º Ministro, como historiador, é que não podemos analisar as questões fora de contextos. A liderança árabe errou em 1947, sem dúvidas. Mas não podemos, quase 66 anos depois, justificar a ausência do Estado Palestino por esta recusa. Até porque, e o senhor há de concordar, os palestinos perderam muito mais do que ganharam com esta guerra: ninguém que trabalha com qualquer perspectiva real de acordo ousa falar nas fronteiras de 1947. Até mesmo o presidente da Autoridade Palestina, Abu Mazen (Mahamoud Abbas) admitiu recentemente que aceitaria a hipótese de utilizar um visto de turista para entrar em sua cidade natal, Safed, na Galileia. Já é hora de olharmos para frente, não é mesmo, senhor 1º Ministro?

 

Quando o senhor afirma que “a ocupação e as colônias não são a raiz do conflito”, tem razão. Mas será que o senhor não pode admitir que hoje em dia ambos representem uma dificuldade para se chegar a um acordo, 1º Ministro? Será mesmo que o senhor acredite nas suas próprias palavras? Pode alguém, que admite que a criação de dois Estados seja a solução para a questão palestina, ignorar que 46 anos de ocupação e a contínua construção de colônias na Cisjordânia são nocivos para a paz? Peço perdão, senhor 1º Ministro, mas eu não acredito no senhor.

 

Obviamente o senhor não deixaria uma oportunidade como esta passar sem afirmar o que há de ser feito. O papel dos líderes, logicamente, é apontar caminhos, e o senhor não deixou de fazê-lo. O caminho apontado pelo senhor, 1º Ministro, foi claro: “não haverá paz enquanto os palestinos não reconhecerem a Israel como um Estado nacional judaico e renunciarem ao direito de retorno dos refugiados de 1948”. Pode ser que não o interesse, 1º Ministro, mas darei minha opinião: este foi o ponto mais problemático do seu discurso.

 

Sua proposta (ou seria ameaça) não contempla nenhuma solução, pois é unilateral, falsa e tendenciosa. Unilateral porque exige somente de um dos lados uma iniciativa. Baseio-me no argumento do escritor Amos Oz em seu livro “Contra o Fanatismo”, quando ele afirma que não haverá paz enquanto os dois lados não estiverem dispostos a renunciar. Se o senhor não mostrou estar disposto a nenhum sacrifício sequer, por que eles o fariam? O argumento é falso, pois o senhor em diversas ocasiões recusou-se a sequer considerar a criação de dois Estados com base nas fronteiras de 1967. Ora, senhor 1º Ministro, se o Estado Palestino não vier a existir nas fronteiras de 1967, onde seria? Mas o mais problemático é o quanto o senhor pode ser parcial e tendencioso: Israel jamais exigiu de nenhum outro Estado do mundo que o reconheça como Estado nacional judaico para que tenhamos paz e relações diplomáticas. Nem Egito, nem Jordânia, nem Turquia, nem Brasil, nem Argentina, nem França e nem Alemanha nos reconhecem como um Estado nacional judaico. Não seria uma humilhação exigir isto dos palestinos? Por que, senhor 1º Ministro, só aos palestinos, justamente os que habitavam estas terras antes de 1948, é exigido tal reconhecimento para que tenhamos paz? Perdoe-me senhor 1º Ministro, mas sua argumentação igualmente é discriminatória: há partidos árabes-israelenses que se recusam a reconhecer o caráter judaico do Estado de Israel, mas a Suprema Corte lhes dá o direito de existir. O mais problemático, senhor 1º Ministro, é o fato de o partido Yahadut HaTora, formado por judeus ultraortodoxos, não reconhecerem o Estado de Israel como um Estado nacional judaico e o senhor ter governado durante quatro anos com a sua participação na sua coalizão governista. Não te parece incoerente? A mim, 1º Ministro, me dá esta impressão.

 

Termino esta carta, senhor 1º Ministro, perguntando ao senhor: sua intenção de criar um Estado Palestino é séria e verdadeira? Eu gostaria que fosse. Não desejo culpar o sionismo nem o Estado de Israel pelo conflito unilateralmente, certamente há lideranças palestinas perversas que impedem que tenhamos paz. No entanto, caro 1º Ministro, eu não sou cidadão palestino. Não tenho o direito de eleger meu representante do outro lado, e estou certo de que nenhum deles me representa. O senhor foi eleito justamente para me representar, além de outros mais de oito milhões de israelenses. Por isso, senhor 1º Ministro, lhe peço que seja mais cuidadoso em seus discursos, e que passe a pensar em soluções reais ao invés de remoer o passado. Eu gostaria de ser liderado por um 1º Ministro comprometido com a paz. Posso confiar no senhor?

Comentários    ( 31 )

31 comentários para “Resposta ao 1º Ministro”

  • Raul Gottlieb

    09/10/2013 at 20:05

    João,

    A suposição de que os judeus e os muçulmanos viviam em paz antes de 1914 não é verdadeira. Ambos viviam sob o imperialismo turco e os judeus eram cidadãos de terceira classe. Os cristãos eram a segunda classe. Recomendo fortemente a leitura dos livros do Nathan Weinstock a respeito da vida dos judeus no mundo islâmico.

    Além disso, veja que o fato dos Palestinos terem perdido mais que os Israelenses com as suas opções nem anula estas opções nem as faz desaparecer. Mas, pergunto-me, o que esta informação tem a ver com o assunto?

    Por que o certo é que as opções do passado continuam a ser exercidas. O estado Palestino não existe por que os Palestinos não o quiserem e continuam a não querê-lo.

    Você não precisa acreditar no Bibi. Ninguém te pede isto. Mas não pode ignorar que as colônias no Sinai não foram impedimento para a paz com o Egito, nem foram impedimento para a retirada de Gaza. Então, eu acredito que as colônias são um problema resolvível e que elas não fazem parte do problema.

    Você diz que o ponto mais problemático do discurso do Bibi é a frase: “não haverá paz enquanto os palestinos não reconhecerem a Israel como um Estado nacional judaico e renunciarem ao direito de retorno dos refugiados de 1948.”

    Porque problemático?

    Vamos começar pela segunda parte: parece-me pacífico que a criação do Estado Palestino deve ter o objetivo de fazer com que os palestinos vivam na Palestina e não em Israel. Qualquer coisa diferente disso é incompreensível e o uso desta bandeira pelos Palestinos é, a meu ver, o principal sinal que eles não querem Estado algum. Que sentido faz construir um Estado para que o povo tenha o direito de viver num outro? Se você puder me explicar isto eu agradeço.

    Já falamos muito quanto a Israel ser o Estado nacional judaico e eu continuo achando a demanda muito razoável. Pergunto: você estaria aí se Israel não fosse judaico?

    Mas o pior defeito do teu texto, a meu ver, é o parágrafo final. Você pergunta ao Bibi: “sua intenção de criar um Estado Palestino é séria e verdadeira?”

    Que pergunta infeliz, João!!!

    Quem tem que criar um Estado Palestino são os palestinos e não o primeiro ministro de Israel!!! Ou eu não entendi nada do que você escreveu ou você está muito errado, meu amigo. Você está duvidando da intenção de Bibi de criar um Estado Palestino? É isto mesmo? Desde quando cabe a um israelense esta tarefa?

    A bola está toda ela do lado de lá. O Estado Palestino depende apenas dos Palestinos. Nenhum Israelense vai conseguir construí-lo ou impedir a sua construção. Enquanto eles não se resolvem tudo o que podemos fazer é nos defender e ir tocando a vida.

    Abraço,
    Raul

    • João K. Miragaya

      10/10/2013 at 09:34

      Raul,

      Você está fazendo confusão. Quando me escrevi sobre os primórdios do conflito, não me referi em nenhum momento aos muçulmanos. Os otomanos não eram árabes e eu me referia ao conflito árabe-israelense. Há uma extensa bibliografia que trata deste tema, e a ampla maioria dos historiadores concorda comigo (e com o Primeiro Ministro) quando afirmamos que o conflito se iniciou após (ou durante) a Primeira Guerra Mundial. Mas sinta-se livre para pensar de forma distinta.

      Eu não concordo com você quando afirma que os palestinos não quiseram e nem querem o Estado palestino. Na minha opinião eles sim, querem, mas não chegaram a um acordo sobre como, onde e em que circunstâncias este será criado. Nós dois temos diferenças e não cabe mais discutirmos isso.

      O próprio Estado de Israel exige que as negociações sejam realizadas bilateralmente, ou seja, não se criará um Estado palestino por outro meio que não um acordo entre os dois lados. A minha conclusão (e a de quase todos os analistas) é a de que cabe aos dois lados a responsabilidade de criar um Estado palestino. O Primeiro Ministro também está de acordo comigo neste ponto.

      Para mim é muito claro que eles (quando digo “eles” me refiro à liderança da Autoridade Palestina) desejam muito mais um Estado do que o Primeiro Ministro israelense atual. Isto para mim é óbvio e notório. Se para você não é, ok.

      Um abraço

  • Mario Silvio

    10/10/2013 at 00:55

    “É certo que até então, judeus e árabes conviviam na Palestina Otomana em relativa paz,”

    João, corrija-me se eu estiver errado, mas pelo que sei os seguintes pogroms aconteceram:

    1776 Iraq (Basra), 1785 Libya (Benghazi), 1790 Marocco (Tetouan)

    1792 Marocco (Tetouan), 1805 Algeria (Algier), 1815 Algeria (Algier)

    1828 Iraq (Baghdad), 1830 Algeria (Algier), 1834 Palestine (Safed)

    1838 Palestine (Safed), 1839 Persia (Meshed), 1840 Syria (Damaskus)

    1844 Egypt (Cairo), 1847 Palestine (Jerusalem), 1847 Lebanon (Dayr al-Qamar)

    1848 Syria (Damaskus), 1850 Syria (Aleppo), 1862 Lebanon (Beirut)

    1864 Lebanon (Beirut), 1864 Ottoman Empire (Buyukdere), 1864-1880 Marocco (Marrakesh)

    1866 Ottoman Empire (Kuzguncuk), 1867 Persia (Barfurush), 1868 Ottoman Empire (Eyub)

    1870 Ottoman Empire (Istanbul), 1870 Egypt (Alexandria), 1871 Egypt (Damanhur)

    1872 Ottoman Empire (Edirne), 1872 Ottoman Empire (Izmir), 1873 Egypt (Damanhur)

    1874 Ottoman Empire (Izmir), 1874 Lebanon (Beirut), 1874 Ottoman Empire (Istanbul)

    1875 Syria (Aleppo), 1877 Egypt (Damanhur), 1877 Egypt (al-Mansura)

    1879 Syria (Damaskus), 1882 Egypt (Alexandria), 1890 Syria (Damaskus)

    1890 Egypt (Cairo), 1891 Egypt (Damanhur), 1897 Algeria (Mostaganem)

    1901-1902 Egypt (Cairo), 1901-1907 Egypt (Alexandria), 1903 Egypt (Port Said)

    1906 Egypt (Alexandria), 1907 Marocco (Casablanca), 1908 Egypt (Port Said)

    1910 Persia (Schiraz), 1912 Marocco (Fes) 60 deaths

    Perceba que alguns foram na Palestina e no Império Otomano

    Nenhum deles é segredo, mas esta lista eu consegui em

    http://yaels-comments.blogspot.com.br/2012/01/friday27-th-of-january-2012.html

    Continuo em outro post

    • João K. Miragaya

      10/10/2013 at 11:23

      Mário,

      Olhei agora esta sua fonte e busquei de forma rápida uma autenticação em dois livros e na internet, mas não encontrei registros da maioria dos casos além de ter percebido umas “forçações de barra”. Casos isolados de crimes civis (assassinatos de honra ou vingança, comuns nesta época nestes lugares) são considerados pogroms por este site. Até mesmo nossos amigos drusos, que nada tem a ver com os muçulmanos, são executores de pogroms.

      Há um caso conhecido na Palestina Otomana, os de Safed de 1834. Muito pouco para que discordemos de tal “relativa paz” descrita por mim, não é? Um abraço

  • Mario Silvio

    10/10/2013 at 01:10

    “A liderança árabe errou em 1947, sem dúvidas. Mas não podemos, quase 66 anos depois, justificar a ausência do Estado Palestino por esta recusa. ”
    Concordo, mas erraram também de 47 a 67 período em que NÃO criaram o estado palestinos nas terras que hoje ALEGAM ser as que pretendem.

    Mas mesmo 67 faz muito tempo, certo? Que tal falarmos em Camp David? Em Taba? Resumindo, a questão é: como criar um país se quem o exige não quer?

    A tempo: sou contra os assentamentos, mas hoje eles tem que ser considerados em qualquer negociação. Duvido que seja possível um acordo sem um “acerto” territorial (troca de terras).

    “Abu Mazen (Mahamoud Abbas) admitiu recentemente que aceitaria a hipótese de utilizar um visto de turista para entrar em sua cidade natal, Safed, na Galileia. ”

    “Clarifying his stance in the Al Hayat interview, Abbas said, “Talking about Safed is a personal position and does not mean giving up the right of return.” Indeed, he went on, “No-one can give up the right of return as all international texts and Arab and Islamic decisions refer to a just and agreed-upon solution to the refugee issue, according to UN Resolution 194, with the term ‘agreed upon’ meaning agreement with the Israeli side.”

    Ou seja, Israel não teria mais que se preocupar com 7 milhões de “refugiados”, apenas com 6.999.999!

    João, existem poucas coisas tão absurdas quanto esse “direito de retorno”. Retorno significa VOLTAR, certo? Imagine se todos os judeus do mundo tivessem o direito de “retornar” para todos os paises dos quais seus antepassados foram expulsos.

    Não preciso lhe dizer que os “refugiados” palestinos são um caso único, tanto que tem uma agência da ONU especial para eles. Por que?

    Insisto nesse ponto porque para mim é o maior empecilho para a paz, e NENHUM líder palestino até hoje se dispos a abrir mão dessa barbaridade.

  • Mario Silvio

    10/10/2013 at 01:11

    O problema é que os palestinos são a favor de dois países, os dois para eles.

    • João K. Miragaya

      10/10/2013 at 09:51

      Olá Mario!

      Não tenho conhecimento sobre todos estes pogroms, mas tenha em conta que só uma ínfima minoria teria ocorrido na Palestina otomana, e nada têm a ver com o conflito árabe-israelense. Veja a resposta que eu dei ao Raul. Se considerarmos pogroms do princípio do século XX como razão pela qual somos inimigos de uma etnia/religião inteira, não poderíamos confiar tampouco em nenhum cristão. Reitero que o conflito iniciou-se somente durante a Primeira Guerra Mundial. Você discorda?

      Em segundo lugar, o número de refugiados palestinos não chega nem perto destes 7 milhões citados por você. Um palestino nascido em Hebron, Nablus ou Gaza não é um refugiado, por exemplo.

      Mas, prezado Mário Silvio, você realmente pensa que a declaração de Abbas foi em referência só a sua pessoa? Não pensa que ele tenha dado um passo importante para que reconheça que está disposto a negociar a situação dos refugiados? Eyu vejo isso com olhos positivos porque é o que me parece. O ceticismo neste caso me parece mau intencionado. Se duvidamos deles até mesmo quando nos dão uma mostra de que podem ser positivos, por que temos que responder negativamente?

      Não sei se você e o Raul conhecem muitos palestinos ou pesquisas de opinião sobre eles, mas falam em seus nomes como se fossem especialistas no assunto. Eu tive o prazer de conhecer alguns palestinos e a grande maioria é a favor da criação de dois Estados. Isso reforça a minha crítica aos céticos e mal intencionados.

      Não se faz paz com amigos, mas sim com inimigos. Se não dermos um crédito aos que se mostram solícitos, a quem daremos? O conflito influencia o meu dia a dia e eu não vejo a hora de termos paz. Talvez para vocês do Brasil seja mais simples recusar-se a renunciar a determinados territórios. Para mim, que sou reservista do exército e vez ou outra preciso me esconder em abrigos, não é. Eu quero paz mais do que qualquer outra coisa.

      Um abraço

  • Raul Gottlieb

    10/10/2013 at 11:58

    João, você está claramente mal informado sobre a vida dos judeus no mundo Islâmico pré sionista, mas isto não é o ponto central da minha crítica ao teu texto.

    O ponto central é a tua pergunta final: “Termino esta carta, senhor 1º Ministro, perguntando ao senhor: sua intenção de criar um Estado Palestino é séria e verdadeira?”

    Você que é contra os “imperialismos” quer que os judeus criem um Estado para outro povo (há algo mais imperialista do que isto???), de forma a permitir que este povo venha residir no Estado dos judeus (com o direito do retorno).

    Sobre todo o resto já discutimos e os melhores argumentos que você consegue achar para rebater as minhas posições são: (i) você tem fé (fico feliz que tenha, mas a fé não é um argumento) e que muita gente pensa como você (fico feliz que você tenha companhia, mas a popularidade também não é argumento).

    Prove que os Palestinos querem um Estado e que eles estão se empenhando para construí-lo! Que eles estão se empenhando para viver harmonicamente com um Estado Judaico ao lado!

    Abraço,
    Raul

    • João K. Miragaya

      10/10/2013 at 14:53

      Raul,

      Eu não fiz absolutamente NENHUM comentário sobre a vida dos judeus no mundo islâmico pré-sionista, exceto afirmar que o conflito árabe-israelense não existia. Mais uma dedução sua não condiz com a realidade. Você simplesmente agarrou uma hipótese e chegou a uma conclusão sem base.

      Também não afirmei que sou contra os imperialismos, embora sim seja. Mas tampouco disse em nenhum momento que é responsabilidade única de Israel criar um Estado palestino. Esta responsabilidade é conjunta, e foi decidida em Oslo: nenhum dos dois lados tomaria ações unilaterais. Se você me pergunta se eu sou a favor, te respondo: não. Acredito que Israel deveria evacuar todos os assentamentos do outro lado da linha verde antes mesmo do início das negociações, mas sei que isto não ocorrerá. Mas, repito, nunca disse que é responsabilidade de Israel criar um Estado palestino. É responsabilidade dos dois lados chegar a um acordo que culminará num Estado palestino. E Israel, na posição do que ocupa, não tem o comportamento adequado na minha opinião.

      Eu também JAMAIS defendi o direito de retorno dos palestinos. Não sei onde você tirou esta conclusão, mas parece desejar ter lido e depois tê-lo imaginado. Eu acho que há de se encontrar uma solução justa para esta questão, mas evidentemente o direito de retorno da maior parte deles não será concedido.

      E agora que eu não tenho que me defender de nenhuma falsa acusação, vamos por partes: eu não tenho como te provar que os palestinos querem um Estado, e nem você tem como me provar que eles não querem. Quem seria “os palestinos”? Tudo o que eu posso te dizer é que desde a morte do Arafat e da eleição de Abbas, Israel exigiu da Autoridade Palestina que freasse o terror, cooperasse conosco e se mostrasse disposta a negociar. Não há atentados por parte da Fatah desde 2007. A cooperação entre o exército israelense e a polícia palestina são claras (eu estive no exército e vi isso com meus próprios olhos). Não há intifada, não há mísseis caindo da Cisjordânia em direção a nós, não há nada. Isto para mim é demonstrar o desejo de paz, muito mais do que construir assentamentos e ações do tipo. Por isto eu digo: não posso provar nada, mas não vejo motivos para duvidar de quem fez exatamente o que foi pedido.

      Você deduz demais e chega a conclusões equivocadas sobre o que eu disse (ou quis dizer), me acusando de um montão de coisas. Tenho um profundo respeito por você, mas é muito desgastante entrar em um debate desta forma, pois tenho que me defender de coisas que não disse. Se você acha que meus argumentos são ter fé e concordar com a maioria, entenda que de forma alguma o são . Eu simplesmente não tenho força nem tempo de explicar cada palavra que eu disse depois de escrever um texto que já me consome bastante. Se não sou claro o suficiente, me perdoe.

      Um abraço

  • Mario Silvio

    10/10/2013 at 19:58

    “Mas, prezado Mário Silvio, você realmente pensa que a declaração de Abbas foi em referência só a sua pessoa? Não pensa que ele tenha dado um passo importante para que reconheça que está disposto a negociar a situação dos refugiados? Eyu vejo isso com olhos positivos porque é o que me parece.”

    OK, digamos que sim, O problema é que ele se sentiu obrigado a desmentir que se referia a todos os “refugiados” NO DIA SEGUINTE! Só vejo duas explicações para isso:
    1) Ele sabe que não viveria muito se levasse essa idéia adiante
    2) Ele quer apenas atrapalhar as tentativas de negociar.

    “Em segundo lugar, o número de refugiados palestinos não chega nem perto destes 7 milhões citados por você. ”
    Citados sim, mas não definidos por mim. Sete milhões é o número citado por inúmeros líderes árabes (palestinos inclusive) em seus discursos.
    Para mim, eles não podem passar de 700/800 mil, e isso se NENHUM morreu desde 48. Alguns dos VERDADEIROS refugiados teriam mais dde 130 anos. Um chute razoável seria 100 mil.

    Agora, nem eu nem você definimos quem é e quem não é refugiado. Para o órgão criado exclusivamente para “cuidar” deles (a propósito, por que o privilégio ?????) eles são 5 milhões.
    Repito: isso é IMPOSSÍVEL segundo qualquer definição lógica e racional de refugiado, mas é o que a ONU diz.

    Site do Private Club dos palestinos: http://www.unrwa.org/
    Nele, entre outras coisas, se lê:
    “WE PROVIDE ASSISTANCE AND PROTECTION FOR
    SOME 5 MILLION PALESTINE REFUGEES”

    “UNRWA is unique in terms of its long-standing commitment to one group of refugees. It has contributed to the welfare and human development of four generations of Palestine refugees, defined as “persons whose normal place of residence was Palestine during the period 1 June 1946 to 15 May 1948, and who lost both home and means of livelihood as a result of the 1948 conflict.” The descendants of Palestine refugee males, including legally adopted children, are also eligible for registration. ”

    Realmente unique! Repito, por que o privilégio ???????????????

    João, a situação é tão absurda que entendo sua discordância, mas, infelizmente, é VERDADE. Do mesmo site:

    “When the Agency began operations in 1950, it was responding to the needs of about 750,000 Palestine refugees. Today, some 5 million Palestine refugees are eligible for UNRWA services.”

    Entendeu a “lógica”? Exemplo real: meu avô foi expulso de uma aldeia russa na I Guerra. Posso me considerar um refugiado? Bem, só se eu fosse palestino.

  • Mario Silvio

    10/10/2013 at 20:12

    ” O conflito influencia o meu dia a dia e eu não vejo a hora de termos paz. Talvez para vocês do Brasil seja mais simples recusar-se a renunciar a determinados territórios. Para mim, que sou reservista do exército e vez ou outra preciso me esconder em abrigos, não é. Eu quero paz mais do que qualquer outra coisa.”

    João, sempre sou 100% sincero quando escrevo aqui (e em outros blogs) mas as vezes evito certos assuntos. Como você tocou no que considero um ponto-chave, vou dizer o que penso, de todo coração:

    Eu SEMPRE fui contra os assentamentos e, tirando Jerusalém, não seria contra a devolução de nenhum território (só que, como já disse, dada a situação atual, acho MUITO melhor, que hajam alguns “acertos” nas linhas de fronteira).

    Passemos ao assunto mais sensível. É óbvio que voce é muito mais atingido pelo conflito do que eu ou qualquer judeu da Diáspora, MAS, será que isso também não leva você a acreditar mais facilmente em “promessas” de pessoas cujas AÇÕES demonstram que não querem a paz (a não ser como produto da aniquilação de Israel)?

    Não entenda como crítica, afinal se aplica a todo nós: em situações graves tendemos a acreditar em praticamente tudo. Wishful Thinking.

    Delfim Neto disse certa vez: nunca ninguém provou que todo problema tem solução. Não acho que o conflito Israel x palestinos é um deles, mas com os atuais líderes do lado de lá, e até que esses palestinos a favor dos dois estados puzerem os profissionais do conflito para correr, nada vai acontecer.

  • Mario Silvio

    10/10/2013 at 20:16

    “Acredito que Israel deveria evacuar todos os assentamentos do outro lado da linha verde antes mesmo do início das negociações”

    João, divergências de opinião a parte, fiquei muito curioso: por que?
    Eu (lembre-se de que sou contra os assentamentos) sempre critiquei o Abbas por fazer exigências PARA negociar. Sempre achei que exigências são feitas NAS negociações, mas você, neste particular, parece concordar com as pré-condições.

    • João K. Miragaya

      11/10/2013 at 08:56

      Mário,

      Não estou falando sobre a ONU nem sobre os supostos privilégios apontados por você. Estou me referindo ao discurso do Primeiro Ministro. Sobre o que aconteceria com o líder palestino, nem eu nem você temos bola de cristal para sabermos o futuro, quanto mais um futuro condicionado por um “se”. Sendo assim, prefiro não prolongar esta discussão.

      Eu mostrei em minha resposta ao Raul as ações positivas que os palestinos vêm tomando. Na minha opinião, são bem mais dignas de respeito do que as do atual governo israelense. São práticas, se vêem. Você pode não considerá-las. Direito seu. Na minha opinião são incontestáveis, mas não sou o dono da verdade.

      E, por fim, eu não proponho como condição prévia o desmantelamento dos assentamentos. Apenas acredito que esta seria uma medida eticamente correta. Mas sou sim a favor de condições prévias, e, saiba você, Israel impõe uma série das mesmas: enquanto a Fatah não controlou ações de boicote e terroristas contra Israel vindas da Cisjordânia, não houve negociações, por mais que Arafat assim o desejasse. Eu acredito que os dois lados devem mostrar um mínimo de vontade para que o outro lado perceba que as negociações são sérias. Não congelar a construção de assentamentos é uma clara mostra de provocação, na minha opinião.

      E, se você não percebeu, Netanyahu faz exigências prévias muito mais problemáticas: deseja que os palestinos renunciem a uma de suas principais bandeiras, e reconheçam o status de Israel como Estado judeu, algo que não foi exigido a nenhum outro país.

      Um abraço

  • Raul Gottlieb

    11/10/2013 at 00:14

    Querido João,

    Longe de mim a intenção de provocar stress em você. Não vou mais discutir contigo. Mas só queria concluir este capítulo:

    Você realmente não disse que o conflito árabe-sionista começou antes do sionismo. Você o situou no acordo Sikes Pikot que dividiu o OM entre a Inglaterra e a França durante a primeira guerra mundial. Fui eu quem disse que os judeus eram cidadãos de terceira categoria no mundo árabe e que isto explica a origem do conflito mais do o acordo franco-britânico.

    Esta foi a nossa divergência neste particular e ela se aproxima do que eu disse, mas não fui muito feliz na minha formulação.

    Você realmente não disse ser contra o imperialismo, mas esta informação perpassa este teu texto e todos os demais. Creio não ser muito importante definir se você escreveu isto com todas as letras ou apenas deu a entender, visto que você confirma ser contra o imperialismo.

    Agora, sobre a responsabilidade de Israel (ou do seu primeiro ministro) em criar um Estado Palestino, ah isto você disse sim! Você não disse que a responsabilidade é unicamente de Israel, mas também não desdisse e o teu texto sugere fortemente esta responsabilidade unilateral. A tua pergunta retórica ao Primeiro Ministro é muito eloquente, João!

    Acho que você está enganado no que diz respeito à Oslo. Israel não se comprometeu a criar um Estado Palestino em parceria com os Palestinos e sim de tomar medidas que propiciassem a sua criação. A responsabilidade de criar o Estado Palestino é integralmente dos Palestinos e não poderia ser de outra forma.

    Nem Israel nem os Palestinos cumpriram o que foi acordado em Oslo. Na minha percepção os Palestinos são os que não cumpriram o prometido em primeiro lugar e são eles os responsáveis pela falha de Oslo.

    Sobre o direito de retorno você disse que a afirmação de Netaniahu “não haverá paz enquanto os palestinos não reconhecerem a Israel como um Estado nacional judaico e renunciarem ao direito de retorno dos refugiados de 1948” foi o ponto mais problemático do discurso.

    Eu deduzi a partir daí que você acha problemático negar aos Palestinos o direito de morar em Israel assim que o Estado Palestino foi construído. Se eu deduzi errado, me desculpe. Mas se for este caso, eu te digo que você disfarça muito bem as tuas opiniões.

    Um abraço cordial e me desculpe o stress causado.
    Raul

    • João K. Miragaya

      11/10/2013 at 09:13

      Raul,

      Sua presença é sempre bem vinda. Entenda como uma crítica pontual.

      Se não fui claro o suficiente, sua descrição sobre as responsabilidades de cada um em Oslo reflete exatamente o que eu penso. Nosso ponto de discórdia se dá quando você acredita que a grande responsabilidade é dos palestinos, enquanto eu prefiro não apontar o principal responsável.

      Acredito em grande responsabilidade por parte de Barak e Arafat em Camp David II. Se eu fosse Arafat, tampouco aceitaria a proposta, mas não agiria de forma tão intransigente. Isto me faz pensar que Arafat talvez não quisesse criar nenhum Estado naquele momento. Mas não acho que possamos concluir o mesmo de Abbas. Suas posturas políticas demonstram justamente uma vontade grande de chegar a um status definitivo. O atual líder já mostrou-se disposto a renunciar a uma série de pontos-chave, e atualmente não temos negociações devido a uma postura intransigente de Israel.

      E, por fim, que bom que você tenha me dado a chance de explicar meu comentário sobre os refugiados: eu simplesmente acredito que a declaração “não haverá paz enquanto os palestinos não reconhecerem a Israel como um Estado nacional judaico e renunciarem ao direito de retorno dos refugiados de 1948” é extremamente humilhante e intransigente. Por que? Porque exige dos palestinos que renunciem a algumas de suas maiores bandeiras em troca de… paz! Ou seja: vocês renunciam e nós lhes damos paz. Enquanto vocês não renunciarem, permaneçam em situação de guerra, que é pior para vocês do que para nós. Ele não propõe uma troca de conceções. É praticamente uma ameaça. Uma humilhação. Minha leitura sobre este comentário é:

      “Vocês, na condição de mais fracos, recolham-se à sua insignificância e percebam que a única alternativa é abrir mão de sua identidade em prol de receber parte de seus territórios e terem paz.”

      Reitero que é uma declaração muito problemática. Declaração intransigente, humilhante, ameaçadora e arrogante. Não quis disfarçar nenhum argumento, apenas não me alonguei sobre o retorno dos refugiados pois não vi necessidade em entrar nesta questão. Mas não acho que é assim que se resolvem os problemas.

      Não sinta ter causado nenhum stress, não foi o caso. Às vezes posso não ser claro. Além disso, segundo Saussire, e os significados das palavras não são fixos, e os textos devem sempre ser interpretados. Mas como estamos em um espaço de diálogo, espero antes de ser acusado, ser questionado.

      Mas volte sempre. Falo de coração.

      Um abraço

  • João K. Miragaya

    11/10/2013 at 10:06

    Uma declaração “positiva” seria:

    “Convoco aos palestinos para uma negociação de paz. Há muito tempo os dois povos sofrem devido ao conflito e já é hora de os dois lados se sacrificarem a fim de chegarmos a uma solução. Sabemos que ambos necessitamos abrir mão de bandeiras históricas e que as negociações não serão fáceis, mas creio que possamos chegar a uma solução justa referente aos refugiados palestinos, aos assentamentos na Cisjordânia, à Jerusalém e a uma frente de paz contra o terrorismo do Hamas e da Jihad Islâmica.”

  • Raul Gottlieb

    11/10/2013 at 14:46

    João,

    Vou voltar a comentar sim. Não agora que o tempo está curto, mas mais tarde vamos conversar sobre a suposta humilhação aos Palestinos ao pedir que estes reconheçam Israel como um Estado Judaico e que renunciem ao pretenso direito de se estabelecer em Israel.

    Abraço, Raul

  • João K. Miragaya

    11/10/2013 at 15:36

    Ok. Mas considere que não é uma humilhação pedir isso. A humilhação é exigir isto em troca de paz, sobretudo no momento atual.

  • Mario Silvio

    11/10/2013 at 15:55

    ” Eu acredito que os dois lados devem mostrar um mínimo de vontade para que o outro lado perceba que as negociações são sérias. Não congelar a construção de assentamentos é uma clara mostra de provocação, na minha opinião.”
    Nisso estamos de acordo João, só relembro que a construção foi congelada e, mesmo assim, o Abbas não negociou.

    Finalizo dizendo duas coisas:
    1) Pode ser que o atual governo israelense não tenha o menor interesse em um acordo, mas se for assim, não poderia ter encontrado um parceiro melhor, já o Arafat morreu
    2) Torço muito, muito mesmo, para estar errado e você certo. Adoraria que houvessem conversações sérias e um acordo razoável para ambas as partes.

  • Mario Silvio

    11/10/2013 at 16:00

    ““Convoco aos palestinos para uma negociação de paz. Há muito tempo os dois povos sofrem devido ao conflito e já é hora de os dois lados se sacrificarem a fim de chegarmos a uma solução. Sabemos que ambos necessitamos abrir mão de bandeiras históricas e que as negociações não serão fáceis, mas creio que possamos chegar a uma solução justa referente aos refugiados palestinos, aos assentamentos na Cisjordânia, à Jerusalém e a uma frente de paz contra o terrorismo do Hamas e da Jihad Islâmica.”

    Acredite se quiser João, eu disse coisas muito parecidas, várias vezes! Acho que a pior atuação do atual governo de Israel é em PR. Eu vou além, deveria marcar dia e local e enviar uma delegação para negociar.
    Tenho mais de 90% de certeza de que Abbas e cia. inventariam um pretexto para não ir, mas mais uma vez, torço para estar errado nisso e você certo.

  • Raul Gottlieb

    11/10/2013 at 22:26

    João

    Você disse que a declaração do Bibi é “intransigente, humilhante, ameaçadora e arrogante”. Mas eu a qualifico de forma bem diferente, acho que ela é básica, fundamental para a promoção do entendimento entre as partes. Veja as minhas considerações:

    Israel é um Estado Judaico

    Sem esta definição Israel não tem a menor razão de existir. Ele passa a ser uma aventura – um simples devaneio – de alguns cidadãos europeus que resolveram viver em alguma outra parte do mundo.

    Sem a compreensão da profunda ligação histórica dos judeus com a sua pátria ancestral – ligação esta que remonta à antiguidade e que jamais foi rompida – Israel não tem sustentação moral.

    É exatamente por isto que os inimigos de Israel tentam falsificar o passado e dizer que o relato bíblico é uma falsificação e que os Reinos de Judá e de Israel nunca existiram, que nunca houve um Templo em Jerusalém. O Arafat declarou isto algumas vezes e ele fez isto por que entendia que se conseguir quebrar o liame entre os judeus e a Terra de Israel, o Estado deixaria de ter sustento.

    Assim que sem esta definição Israel não existe. Declarar isto em qualquer momento ou circunstância não é nem sinal de intransigência, nem humilha ninguém nem ameaça nem é prova de arrogância.

    Não foi pedido a outros países que explicitassem esta posição pelo simples fato de que estes países nunca negaram a ligação dos judeus com a Terra de Israel. Apenas os países árabes negam a ligação dos judeus com Israel, dentro do seu esforço de destruir o Estado.

    A Síria se chama República Árabe da Síria. Porque Israel não pode ser Estado o [Judaico] de Israel?

    Direito de Retorno

    A essência dos acordos de fim de conflito é colocar as guerras para trás. Uma das consequências da guerra de 1948 foi o deslocamento de populações (tanto árabes como judeus). Garantir o direito de retorno dos descendentes dos deslocados fere a finalidade do acordo.

    Os Palestinos têm esta aspiração. Porém é uma aspiração que só poderá ser concretizada após uma eventual destruição do Estado de Israel. Ou seja, é uma aspiração que se confunde com a primeira questão acima. Só tem sentido Israel aceitar a imigração em massa de uma população não identificada com a característica judaica do Estado se Israel deixar de ser judaico, ou seja, deixar de ter razão de existir.

    A conclusão é que ao exigir estas declarações dos Palestinos, Netaniahu está tão somente pedindo que eles aceitem o Estado de Israel.

    Claro que ele poderia pedir uma simples declaração formal sobre a existência de Israel e eu acredito que, neste caso, ele iria receber o pedido. Contudo, como os Palestinos já fizeram inúmeras declarações vazias no passado, Bibi partiu para uma declaração mais pragmática, que impede (ou no mínimo dificulta) sofismas.

    A relutância dos Palestinos em declarar o que foi pedido é sinal de que o seu desejo de destruir o Estado de Israel ainda não feneceu. E esta realidade é provada por muitas outras evidências.

    Shabat Shalom,
    Raul

    • João K. Miragaya

      14/10/2013 at 10:06

      Raul,

      Parece que entramos em um ponto sobre o qual jamais concordaremos. Você já expôs a sua opinião no último texto publicado do Bruno Lima sobre o caráter democrático e judaico, e eu discordo dela.

      Certa vez presenciei um debate com um ativista do grupo Lochamim LaShalom (Guerreiros pela Paz, formado por ex-combatentes do Tzahal e ex-terroristas palestinos) chamado Bassam Aramim. Ele foi questionado por um ouvinte sobre o porquê de os palestinos se recusarem a reconhecer a Israel como um Estado judeu. Ele disse (perdão se não me recordo de todas as suas palavras com exatidão): “para nós, árabes-palestinos, reconhecer que o Estado de Israel é um Estado judeu é reconhecer que ele é mais dos judeus do que dos nossos irmãos árabes que aqui vivem. Mas eu não compreendo esta exigência. Declarem vocês que o Estado é judeu, que lhes importa? Nenhum país do mundo reconhece Jerusalém como sua capital e vocês assim a tratam, e ela efetivamente é a capital de vocês. Por que a exigência se dá justamente a nós neste determinado ponto?”

      Os judeus reformistas não exigem dos ortodoxos que os reconheçam como “praticantes de judaísmo”. Simplesmente praticam seu judaísmo sem culpa e sem importar-se com o que os outros pensam. Para que eu preciso do reconhecimento alheio?

      Poderíamos exigir o mesmo do Egito em 1979, quando trocamos o Sinai por paz. Não o fizemos, e nem assim creemos que eles mantém as suas aspirações em destruir o Estado de Israel.

      Israel pode se chamar Estado Judeu de Israel. Mas por que exigir tal reconhecimento alheio? O que eu exijo deles é paz, nada mais.

      Já sei que não entraremos no acordo (novamente). Mas sigo com a mesma opinião. A declaração foi uma mostra de que a paz será do jeito dele, ou de nenhum outro. Em outras palavras, O Primeiro Ministro disse ao Presidente Palestino: enquanto nós dois ocuparmos nossos cargos simultaneamente, não haverá paz.

      Um abraço

  • Mario Silvio

    12/10/2013 at 15:11

    “. Uma das consequências da guerra de 1948 foi o deslocamento de populações (tanto árabes como judeus).”

    Aproximadamente 700 mil de cada lado. Situação atual:
    refugiados palestinos – 5 milhões, judeus – ZERO

    A II Guerra produziu 20 milhões de refugiados que hoje são ZERO

    A partilha da India (lembra alguma coisa?) produziu 15 milhões que hoje são ZERO

  • Mario Silvio

    12/10/2013 at 15:17

    “Os Palestinos têm esta aspiração. Porém é uma aspiração que só poderá ser concretizada após uma eventual destruição do Estado”
    Pois é Raul, sem eles abrirem mão deste absurdo “direito de retorno” que não é direito e muito menos retorno, tanto faz que fronteiras seriam estabelecidas. Afinal elas separariam a Palestina do Oeste da Palestina do Leste.

    Agora, repito, o governo israelense deveria deixar claríssimo para a opinião pública mundial que quem não quer um acordo são as lideranças palestinas.

    João,
    Tenho certeza de que muitos, provavelmente a maioria, palestinos querem e apoiariam um acordo. Só que se declararem isso, serão assassinados e seus corpos arrastados pelas ruas, como ACONTECEU em Gaza.
    As diferenças entre os dois lados são gigantescas do ponto de vista moral, uma delas é essa, o pessoal do Paz Agora não é tratado assim.

    • João K. Miragaya

      14/10/2013 at 09:55

      Mário Silvio,

      Há muitos palestinos que participam de grupos de diálogo e pacifistas, e que vivem normalmente nos territórios da Cisjordânia. Há muito menos democracia do lado de lá, mas o sistema não é tão rigoroso quanto você pensa. Eu conheci alguns palestinos que pensam como eu, diferente de mim e bem diferente de mim, e todos expressavam suas opiniões sem problemas. Já sobre Gaza eu não posso afirmar o mesmo.

      Mas não generalize, sobretudo através de informações de terceiros. Não é saudável e muitas vezes não corresponde à verdade.

  • Mauricio Peres Pencak

    13/10/2013 at 13:59

    Caro João K. Miragaya, permita-me esse tratamento próximo apesar de não nos conhecermos pessoalmente. Considerei bastante interessante seu artigo, concordando com muitos dos aspectos levantados e me afastando de outros tantos.
    Permita-me levantar um aspecto no contencioso entre o ISHUV e segmentos da população árabe, mormente nas primeiras décadas do Século XX e, posso estar ERRADO, mas não vi abordado.
    Trata-se da DESASTROSA escolha do MUFTI de Jerusalém. Em 1921, os mandatários ingleses criaram o CONSELHO SUPREMO MUÇULMANO e, como juiz principal escolheram o PIOR entre os nomes que se apresentavam. Tratou-se da execrável figura de MUHAMMADA AMIN AL-HUSSEINI.
    Não deve ser subestimada o papel pernicioso dessa sinistra figura. Pode ser creditado à sua atuação o forte apelo terrorista e antissemita do moderno movimento de resistência anti-Israel. Muitos autores consideram que ele foi um dos co-autores da proposta de SOLUÇÃO FINAL adotada pela cúpula nazista.
    A obra O EXPRESSO BERLIM-BAGDÁ, do professor SEAN McMEEKIN é uma boa fonte para essa e outras abordagens.
    No mais, quero parabenizar a qualidade dos artigos dos CHAVERIM.
    KOL HAKAVOD!

    • João K. Miragaya

      14/10/2013 at 09:52

      Prezado Mauricio,

      Suas considerações sobre o Mufti são corretas. Certamente foi um dos grandes obstáculos para que houvesse qualquer entendimento antes da Guerra de 1948. De forma alguma o ignoro ou desprezo seus atos, apenas penso que em 2013 não podemos seguir culpando-o por não termos paz.

      Obrigado pelos elogios! Um abraço

  • Mario Silvio

    14/10/2013 at 15:10

    “Mas não generalize, sobretudo através de informações de terceiros. Não é saudável e muitas vezes não corresponde à verdade”

    Infelizmente não é possível João. Para isso eu só poderia ter opinião sobre acontecimentos a que estive presente. Exemplo extremo: o Holocausto. Acredito em terceiros: 99,99% dos historiadores e sobreviventes que conheci. Há quem acredite nos negacionistas, também terceiros.

    Um exemplo bem mais atual e relacionado com o assunto: devo duvidar dos vídeos mostrando cadáveres de palestinos sendo arrastados por motos pelas ruas de Gaza?

    Nada disso significa que eu duvido de você quando diz: ” Eu conheci alguns palestinos que pensam como eu, diferente de mim e bem diferente de mim, e todos expressavam suas opiniões sem problemas”, muito pelo contrário não tenho porque duvidar.

    A questão é: expressavam suas opiniões onde? Na presença de quem? Cansei de ouvir opiniões contrárias aos regimes militares da América do Sul na vigência deles.

    Repito: torço muito, muito mesmo, para estar errado e você certo. Quem sabe você pode me ajudar a mudar de opinião apontando um Not In My Name palestino relativo ao terrorismo.
    Serve também uma convocação como essa (do Peace Now):
    “Come join us, tonight (5.11) at 17:30 at Likud Headquarters to show Netanyahu and his party what they refuse to see and hear: there is a partner!”

  • Mario Silvio

    14/10/2013 at 15:25

    ” apenas penso que em 2013 não podemos seguir culpando-o por não termos paz.”
    Claro que não, seria absurdo, mesmo porque Arafat é bem mais recente e fez o possível e o impossível para sabotar toda e qualquer tentativa de um acordo.
    OK, ele está morto, bem morto, mas leia essas notícias, nenhuma tem mais de um mes :

    “Abbas Zaki, member of the Fatah Central Committee, said Monday that Netanyahu was responsible for the killing of the IDF soldier in Hebron.”

    “Fatah’s military wing, the Al Aqsa Brigades, on Sunday took responsibility for the murder of IDF soldier Tomer Hazan Friday”

    “A nine-year old girl was wounded Saturday evening in a terror attack in the Israeli settlement of Psagot, north of Jerusalem in the West Bank. ”

    Em relação ao pedido que fiz no post anterior, serve também um jornal como o Haaretz do “lado de lá”.

    “Se eu fosse Arafat, tampouco aceitaria a proposta, ”
    João, curiosidade: por que?

    Finalizo com algo em que concordamos: exigir que os palestinos concordem com como Israel decide se chamar é bobagem, parece coisa de criança.
    um abraço

  • Raul Gottlieb

    14/10/2013 at 16:07

    João,

    Entendi o ponto do palestino que falou contigo e até simpatizo com parte do que ele fala, apesar de que tenho uma ressalva:

    Numa paz todos deveriam virar irmãos – judeus e árabes. Considerar que existem “irmãos árabes” e “judeus” é tão problemático – conforme a lógica que ele expôs – quanto considerar que o Estado de Israel é judaico.

    Com certeza a esmagadora maioria dos israelenses iria adotar a posição de considerar judeus e árabes em termos de igualdade (até porque já os consideram), mas nem um árabe que admite conversar com judeus é capaz de fazer isto.

    Além disso, todos os países do mundo reconhecem tacitamente Israel como sendo um Estado Judaico. Por isto não foi necessário fazer esta exigência deles. Veja o Vaticano, ele só reconheceu Israel depois que a teologia católica foi reformada para considerar os judeus os “irmãos mais velhos” dos cristãos (conforme as palavras do Papa JPII na sinagoga de Roma – a primeira visita de um Papa a uma sinagoga desde sempre). Ou seja, não foi preciso colocar “Judaico” no nome para o Vaticano soubesse o que estava em jogo.

    Mas os árabes – pelo menos as lideranças – há muitas décadas não reconhecem a ligação dos judeus com Eretz Israel, então eu acho fundamental exigir esta declaração deles, porque sem esta ligação o Estado de Israel deixa de ter razão de existir

    Os árabes dizem que o Estado de Israel é uma aventura colonialista européia, exatamente (pena que não dê para sublinhar esta palavra no editor usado por Conexão) para refutar a ligação dos judeus com a terra de Israel.

    Eu sei que estou me repetindo, mas acho importante bater neste ponto pois ele deixa claro, pelo menos para mim, que a exigência Israelense não é uma tentativa de dizer que “o acordo será nos meus termos” e sim de deixar bem claro que a paz implica na aceitação do caráter judaico do Estado e na ligação histórica-eterna dos judeus com Eretz Israel.

    Sem o reconhecimento desta ligação a paz não servirá para nada.

    Ou seja, é o passado que informa aos israelenses hoje que esta declaração é importante. Não se tratar de viver no passado, mas de escutar o que ele nos informa (inclusive sobre a escolha consciente do Hadj Amin Al-Husseini como Mufti de Jerusalém) ao mesmo tempo em que analisamos o que escutamos do presente.

    Eu leio os jornais israelenses todos os dias. E, em menor volume, mas com a mesma frequência leio também o que sai na imprensa árabe com as declarações de seus líderes e jornalistas e pessoas influentes.

    A imprensa israelense (inclui os comentários das notícias, feitos pelo público) não tem os árabes em alta consideração. Mas isto é fichinha perto da estupenda demonização que é propagada diariamente pela imprensa árabe. Eu assino o MEMRI e o Honest Reporting. Eles dão pouca opinião, se limitam a apresentar pedaços do noticiário árabe. É estarrecedor, porém esclarecedor (*).

    Vendo este abismo eu tenho muito pouca fé na coragem de um líder árabe qualquer em dar um passo para normalizar as relações com Israel. Todo o resto é jogo de cena, João.

    Abraço,
    Raul

    (*) Um exemplo de hoje pela manhã – um ator egípcio disse que o sobrinho que assassinou o Rei Fahd da Arábia Saudita (aconteceu há uns 20-30 anos), foi seduzido por uma mulher judia que o levou a Israel onde um chip foi implantado no cérebro dele e partir daí ele passou a agir sob o controle remoto dos israelenses.

    Porque este simpático (de verdade) artista acha impossível que no seio da família árabe um sobrinho mate o tio para tomar o poder. Parece piada, mas não é! Todos – todos mesmo – os problemas do mundo árabe (e não são poucos) são atribuídos aos judeus e a Israel.

    Como se os árabes não se matam alegremente pela conquista do poder desde os tempos imemoriais!!!

    Veja: http://www.memritv.org/clip/en/4007.htm

    E mais este de quebra: http://www.memritv.org/clip/en/4005.htm

  • Raul Gottlieb

    14/10/2013 at 18:33

    A resposta ao questionamento do Palestino: “para nós, árabes-palestinos, reconhecer que o Estado de Israel é um Estado judeu é reconhecer que ele é mais dos judeus do que dos nossos irmãos árabes … Por que a exigência se dá justamente a nós neste determinado ponto?” é a seguinte:

    “Porque diferente dos demais países do mundo, vocês (países árabes e organizações palestinas) expressam hoje ou expressaram no passado o desejo de varrer Israel do mapa. Por isto vocês provocam um tratamento diferenciado por parte de Israel”.

    Acho que agora resumi o meu pensamento à sua dimensão mais concentrada.

    E lendo de novo a frase do Palestino (que eu sei não ser literal) percebo uma hipocrisia gigantesca. Veja a enorme diferença de como os judeus são tratados nos países árabes e de como os árabes são tratados em Israel. Veja a quantidade de judeus que imigraram dos países árabes e a quantidade de árabes que imigraram de Israel.

    Seria o Iraque mais dos árabes que chegaram lá no século sexto da Era Comum do que dos judeus que chegaram lá no século sexto antes da Era Comum? Não obstante a preocupação dos árabes com a igualdade eles foram todos expulsos e expropriados.

    Ele está mesmo preocupado como os israelenses tratam os árabes! Brincadeira, não?

Você é humano? *