Resposta a Marcelo Treistman e Ari Shavit

20/11/2014 | Política

Texto em resposta ao artigo publicado por Marcelo Treistman: A Triste História da Esquerda Israelense.

Prezado amigo Marcelo,

Parabéns pela tradução e pelos comentários ao texto de Ari Shavit. São lúcidos tanto o artigo quanto o teu complemento ao texto, e levantam pontos fundamentais para a discussão.

Tendo a concordar com partes das alegações de vocês dois. Para não repeti-las, serei direto e irei a meus pontos de discórdia.

Não me senti acusado em nenhum ponto, o que é positivo, visto que a grande maioria de críticas às posturas da(s) esquerda(s) isralense(s) são agressivas, acusatórias e não raramente contam com calúnias ou princípios infundados (refiro-me a acusações que não são têm nenhuma relação com a realidade). Não é o caso deste(s) artigo(s), repito.

Tenho, basicamente, quatro problemas com esta análise. A primeira já foi revelada pelo amigo David Gruberger em um comentário ao teu texto. O autor defende uma renovação, mas não dá absolutamente nenhuma dica de qual deva ser esta renovação. O que exatamente está errado que deva ser mudado? Basicamente, o problema é de estratégia ou convicção? Shavit não é nem um pouco claro, e, para ser mais objetivo, não vai direto ao assunto. Ele está ou não está de acordo com as propostas da(s) esquerda(s)?

Baseado nisso, entro no segundo problema de vocês dois: não diferenciar as esquerdas de forma precisa. Shavit fala em Trabalhistas e Meretz como se fossem um corpo único, e despreza o que considera os antissionistas. Em primeiro lugar, Trabalhistas e Meretz estão distantes de ter as mesmas propostas, estratégias e discursos. Em segundo lugar, nem tudo o que não é sionista é necessariamente antissionista. E, em terceiro lugar, há grupos dentro das esquerdas que cresceram nos últimos tempos. Recentes pesquisas apontam que o Meretz, caso as eleições fossem hoje, teriam entre 8 e 9 cadeiras na Knesset, ou seja, um crescimento de 35-50%.

Meu terceiro problema com a análise é a insistência de relacionar a posição das esquerdas sobre o Hamas como problemática. Sigo em redes sociais um número razoável de parlamentares dos três partidos da esquerda israelense, tal qual sigo movimentos pacifistas e tenho diálogo com gente que participa deste meio diariamente, e jamais vi tal discurso de “legitimar” o Hamas. Condenar o Hamas é consenso entre os três principais grupos políticos da esquerda israelense (eu os classifico como pragmáticos, românticos e não-sionistas). A diferença é que a crítica ao Hamas não vem desacompanhada de uma crítica ao governo israelense, e isso incomoda a algumas pessoas. E a isto eu relaciono a minha crítica às esquerdas israelenses (todas elas), sobre a qual discorrerei um pouco, num apêndice a esta resposta.

O principal problema interno das esquerdas israelenses é o seu discurso. Eu mesmo, militante do Meretz, filiado ao partido e convicto de que são a melhor opção neste momento, acho que o discurso do partido é patético. O Meretz é anti tudo o que o governo faz, mas raramente apresenta um discurso construtivista. Quase tudo o que se divulga é uma resposta, raramente há uma proposta. E isto cansa. Eu sou contra quase tudo o que o atual governo faz, mas não preciso construir minha posição baseado em críticas ao governo. E os discursos, apesar de insistentes, são pouco agressivos porque falta praxis. A operação no sul terminou, as casas estão destruídas, o governo novamente opta pelos assentamentos e “se esquece” dos moradores da região mais afetada pela guerra. Aonde está o Meretz agora? O Meretz é visto como um partido de classe média, e cada vez mais aumenta a sua (má) reputação para um grupo de esquerda. O Meretz não se levanta com a mesma força para prestar solidariedade aos habitantes do sul quanto o faz com habitantes árabes israelenses ou palestinos. O partido perde popularidade, pois mantém a tradição de ignorar setores mais pobres da população judaica (especialmente judeus orientais), que seriam a base de apoio para qualquer partido de esquerda popular.

Pior ainda são os trabalhistas, com sua omissão permanente. O partido não assume com coragem propostas de paz, e se esconde do tema por medo de perder eleitorado. Se o Avoda ainda é um partido de esquerda, certamente tem vergonha disso. Rabin não tinha receio em falar sobre temas polêmicos, tal qual Shimon Peres. Os líderes trabalhistas hoje são covardes, ou não são trabalhistas no seu DNA. Se o Meretz tem um discurso hipócrita, os trabalhistas ignoram o próprio discurso.

O Chadash e os outros grupos não-sionistas (alguns antissionistas) são os que têm o discurso mais sincero e mais combativo, mas não contam com o apoio nem sequer da maioria dos árabes. Se o Meretz é elitista dentro do meio judaico, o Hadash tem um discurso que não cola dentro do setor árabe-israelense. Reconheço falta de informação para analisar a praxis do partido nas aldeias árabes, mas acredito haver forte desconfiança lá, caso contrário a retribuição seria maior nas urnas.

Enfim, cada esquerda com seus problemas. Mas, de um modo geral, o principal problema das esquerdas isralenses não é interno, e sim externo. E são dois: o Hamas (e outros grupos terroristas), que boicota qualquer tipo de intenção israelense de chegar a um acordo, aliado ao crescimento vegetativo do fundamentalismo judaico. Com isso é difícil de lidar. Em relação ao primeiro ponto, as direitas também não sabem como eliminá-los. Quanto ao ponto número dois, acredito que segmentos da direita estejam satisfeitas com tal fato (veja aqui o que Mossi Raz me disse sobre o tema).

Mas minha quarta e última crítica ao Shavit, e que em geral é feita às direitas hipócritas, é a ignorância proposital às iniciativas árabes de paz. A Liga Árabe em 2002 propôs um plano de paz bastante razoável para início de conversa, e Israel não topou sequer negociar. Em 2008 eles reafirmaram este plano, admitindo negociar a questão da troca de territórios, permitindo que determinados assentamentos judaicos na Cisjordânia permanecessem sob soberania israelense. No início deste ano a Liga Árabe novamente levantou seu projeto, propondo negociar a questão dos refugiados palestinos e aceitando que boa parte deles não regressasse a Israel. Eles já abriram mão das três máximas palestinas que impediriam diretamente a criação de dois Estados, e sucessivos governos israelenses os ignoraram solenemente. E intelectuais como Shavit ignoram fatos históricos, a fim de fortalecer seus discursos críticos.

É problemático e covarde culpar a esquerda israelense por fracasso no fim de 2014, tendo em vista que o último governo encabeçado por partidos de esquerda tenha acabado no ano 2000. Apesar de todas as críticas às esquerdas israelenses, acredito que quem vêm fracassando nos últimos 14 anos são o centro e as direitas israelenses, que não deram um só passo em direção à paz, e insistiram na incessante construção de assentamentos e desligitimização dos líderes palestinos que renunciaram à violência.

Aqui estão as minhas críticas ao Shavit e a você.

Um abraço.

Comentários    ( 15 )

15 Responses to “Resposta a Marcelo Treistman e Ari Shavit”

  • Marcelo Starec

    20/11/2014 at 21:12

    Oi João,
    Em meu entender, a culpa não é nem da esquerda e nem da direita…O problema é que infelizmente, no momento, não há uma solução viável de paz, no horizonte…E nesse ponto, discordo de você. A paz não deixou de ser assinada simplesmente por Israel não querer conversar com A ou com B, mas porque de fato a maioria entende que infelizmente, por ora, não há uma real oportunidade de se fazer uma paz com segurança, essa solução não está disponível. Muito embora existam pessoas bem intencionadas do lado de lá, é a intolerância o que predomina!…
    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    21/11/2014 at 11:42

    João,

    Sobre o terceiro ponto eu penso que a crítica que se faz à esquerda com relação ao Hamas é que a esquerda propõe o diálogo com eles, enquanto que todos sabem que isto é impossível.

    Isto se deve em parte ao problema que você enfatiza no teu texto: o discurso patético da esquerda.

    Não acompanho a política israelense como você, mas quando tudo o que a Zahava Gal-On acha para comentar sobre discurso mentiroso do Abbas na ONU é que ele (o discurso) demonstra a incapacidade do Bibi, fica claro que o discurso da esquerda é patético mesmo.

    E aí entra uma dúvida (que, pelo tempo decorrido a espera de um discurso razoável, já quase virou certeza) que suspeita que o discurso é patético porque não há discurso, visto que as propostas se esgotaram.

    Rabin tinha proposta, tinha coragem e tinha discurso. Mas os árabes se esforçaram muito para destruir as propostas dele. E conseguiram. Nisto (destruição niilista) os árabes ganham sempre. Eles são excelentes neste quesito – estão conseguindo destruir inclusive a sua religião.

    Finalmente, acho sempre muito engraçado quando vejo a esquerda se atribuir o monopólio da bondade. Não que as pessoas que se coloquem à esquerda sejam pessoas más, muito pelo contrário, são normalmente pessoas sensacionais, legitimamente preocupadas com o bem estar de todos.

    Mas em cada texto que eu leio, em cada conversa que eu tenho, fica claro que em seu interior elas acham que apenas a esquerda se preocupa com os desvalidos, que apenas a esquerda tem propostas meritórias.

    O teu comentário sobre a prioridade distorcida na questão das casas próximas a Gaza parece mostrar isto.

    Desde quando esta prioridade é apenas da esquerda, ou é fruto de alguma postura ideológica?

    Lembrando que governos de esquerda iniciaram a construção das colônias e as mantiveram e desenvolveram pelas mesmas razoes da direita – manter a estabilidade da coalizão.

    E que os únicos governos que desmobilizaram colônias até hoje em Israel foram o do Begin no Sinai e o do Sharon em Gaza. Ambos bem ancorados na direita.

    A esquerda não tem o monopólio da virtude, João, nem o da preocupação com os desvalidos, nem o do altruísmo. A direita e a esquerda tem visões diferentes do caminho para enriquecer e fortalecer a sociedade e incluir os menos favorecidos.

    E não é culpa da direita que a visão dela dê muito mais certo do que a da esquerda.

    Shabat Shalom,
    Raul

    • João K. Miragaya

      21/11/2014 at 13:18

      Oi Raul,

      Acho que você não leu meu texto, pois 90% dos seus comentários em relação a ele não tem absolutamente nada a ver com o que eu escrevi.

      Não sei quem propõe diálogo com o Hamas (neste ponto você tem razão, não acompanha o suficiente). Não sei quem disse que a esquerda (sic) tem monopólio da virtude. Não sei onde você leu que só a esquerda (sic de novo) se preocupa mais com os desvalidos ou que só ela tem propostas meritórias.

      Acho que você deveria comentar estes pontos no espaço adequado.

      Um abraço e shabat shalom

    • Raul Gottlieb

      21/11/2014 at 18:16

      Ah sim, me ocorreu mais uma coisa.

      Eu disse que o discurso da esquerda era patético porque na verdade ela não tem discurso razoável a oferecer. Tudo o que ela falou foi tentado e não deu certo (não foi bem assim a minha frase, mas o conceito foi este).

      Como você não disse nada sobre isto, devo considerar que concordamos neste ponto?

    • João K. Miragaya

      21/11/2014 at 20:27

      Não, é evidente que eu não concordo com você, e escrevi o que eu penso no texto (especialmente no final dele, de forma bem clara).

      Um abraço e novamente shabat shalom.

  • Raul Gottlieb

    21/11/2014 at 18:13

    Claro que eu li, João.

    A esquerda diz que é possível fazer acordo com todos os árabes. Durante a última guerra encheram o saco com isto e teve até alguém no Conexão que disse que Israel já dialogava com o Hamas, visto que negociava o cessar fogo, então que não ampliar o diálogo era sinal de cegueira ou de maldade.

    Não existe acordo sem diálogo. Então quando a esquerda diz que Israel deve fazer um acordo com o
    Hamas ela está propondo o diálogo.

    Realmente você não discorreu sobre o monopólio da virtude da esquerda. Mas este é o discurso dela desde sempre e em todos os cantos e no teu texto ele aparece quando você diz que a bandeira da esquerda deveria ser o atendimento as pessoas da fronteira com Gaza. Ali você deixa transparecer que apenas a esquerda se preocupa com estes assuntos.

    Resumindo, li muito bem o que você escreveu.

    Agradeço o teu conselho, mas o certo é que eu me dou o direito a comentar o que eu quiser no espaço onde me der vontade.

    Claro que você sendo o autor do texto pode simplesmente eliminar o meu comentário. Não vou ficar triste.

    Shabat Shalom,
    Raul

    • João K. Miragaya

      21/11/2014 at 20:25

      Se você leu, parece não ter prestado atenção na minha principal crítica (ou a ignorou solenemente): não há uma só esquerda, e os discursos, práticas e estratégias são bastante diferentes. Enquanto você seguir usando o singular, não passaremos deste ponto. Mas se você discorda de mim (ou seja, acredita que todas as esquerdas são iguais), não temos mesmo para onde avançar no debate. Eu também posso dizer que a direita matou 6 milhões de judeus, mas não acho justo colocar os liberais e os nazistas no mesmo saco de gatos.

      Portanto, a sua generalização sobre o que a esquerda (sic) diz sobre o diálogo com o Hamas é errada e injusta. Voce generalizou a partir de um comentário, e eu faço questão de te corrigir: você está equivocado em relação a 99% das esquerdas, e comete o erro que o Shavit não comete. Não vi absolutamente nenhum representante de nenhum movimento pacifista nem de nenhum dos partidos políticos de esquerda defendendo o diálogo com o Hamas em Israel, salvo a turma do Rav Frumam (que nem se consideram de esquerda).

      O que você me acusa de transparecer é uma injustiça monstruosa: eu estou falando aqui somente das esquerdas (no ponto específico, somente do Meretz). A sua conclusão é incoerente. Eu não escrevi um texto sobre o Likud, escrevi uma resposta a uma crítica à esquerda israelense. Critico o discurso e a estratégia do Meretz, e, se não critiquei a dos outros, talvez (só talvez, quem sabe?) os outros não devam ser criticados porque não atuam de forma errada, independentemente de serem de esquerda, direita, centro ou o que seja…

      Comente o que quiser onde quiser. Eu sempre aceitarei o comentário, e seguirei recomendando o que eu penso ser adequado em todos os momentos.

  • Raul Gottlieb

    22/11/2014 at 10:37

    Caro João,

    Sobre o “Monopólio da Virtude”

    Há algum tempo atrás, neste espaço, você definiu a esquerda (ou as esquerdas) como sendo o grupo capaz de “propor e implementar as propostas necessárias ao avanço da sociedade”, enquanto que a direita (ou as direitas) seria o grupo conservador, que não faria a sociedade avançar.

    Eu chamo isto de se atribuir o monopólio da virtude e vejo esta atitude em muitíssimos escritos, pronunciamentos e conversas informais com pessoas que se definem de esquerda.

    No teu texto vi mais um indício desta postura.

    Sobre o diálogo com o Hamas

    A grande crítica ao governo Bibi é que ele não sabe ou não quer dialogar com os árabes. A reação da Zahava ao discurso do “moderado” Abbas na ONU apontou diretamente para esta posição.

    Sim, quase ninguém advogou o diálogo com o Hamas durante a guerra. Mas antes e depois esta é a grande tônica do discurso das esquerdas (ou da esquerda). E neste diálogo não há como não incluir o Hamas, que é parte importante, bem estabelecida do mundo árabe. O mundo árabe acolhe, respeita e dá boas vindas ao Hamas. Não há como deixá-lo de fora do diálogo proposto.

    Sobre “As Esquerdas”

    Sem dúvida que existem várias vertentes, mas sem dúvida também que existe um nexo comum a todas elas, se não não haveria como elas se considerem parte de uma mesma linha.

    Os assuntos que eu comentei não entram no detalhe das diferentes vertentes.

    Sobre o Nazismo e a direita

    O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães era um partido de esquerda. O nome era de esquerda, a política econômica era de esquerda (economia planificada, centralizada e nacionalizada), a ideologia era de esquerda (construir a sociedade perfeita), a pratica política era de esquerda (totalitarismo aos moldes de Stalin, Mao, Castro, Kim Jong todos, Pol Pot e tantos outros menos bem sucedidos), a sanha assassina dos dissidentes era de esquerda (ver lista acima).

    Porque o Nazismo foi qualificado como sendo de direita é, a meu ver, um dos mistérios da natureza, não obstante a maciça adesão a esta definição.

    Assim que a tentativa de colocar na mesma panela os liberais e o nazismo não nada além de uma bela tentativa que não se sustenta.

    Abraço,
    Raul

    • João K. Miragaya

      25/11/2014 at 14:03

      Raul,

      Jamais escrevi o que você expôs entre aspas. Consultei os textos anteriores para averiguar, e reitero. Utilizei um conceito fruto de um consenso acadêmico, que você pode estar de acordo ou não. De qualquer forma, não o utilizei aqui agora, não foi meu objetivo e jamais toquei no assunto. O tema é outro.

      Sobre o nexo comum a todas as esquerdas (o que eu até acredito que haja, mas, repito, não é o objetivo aqui discutir filosifia política), estou certo que nós não chegaremos a um denominador comum neste aspecto. Não por uma diferença de opiniões, mas por visões de mundo antagônicas. O claro exemplo é a sua classificação do nazismo como um grupo de esquerda. Neste ponto falamos idiomas distintos, não há interseção.

      Um abraço

  • Mario S Nusbaum

    23/11/2014 at 00:36

    João, não tenho a mínima intenção de meter na sua discussão com o Raul, mas constando do texto ou não, o discurso das esquerdas, em todos os tempos, no mundo inteiro, sempre foi que elas são as únicas a se preocuparem com os pobres e desvalidos.
    Aqui no Brasil por exemplo, onde todo mundo “é” de esquerda, TODOS os candidatos, em TODAS as eleições, dizem que vão governar para os pobres.

    • João K. Miragaya

      23/11/2014 at 10:36

      Mário,

      Não tenho o menor interesse em analisar as esquerdas em outros lugares que não Israel, e acho que o texto não dá brechas para este tipo de interpretação.

      Um abraço

  • Mario S Nusbaum

    23/11/2014 at 00:41

    “No início deste ano a Liga Árabe novamente levantou seu projeto, propondo negociar a questão dos refugiados palestinos e aceitando que boa parte deles não regressasse a Israel. ” Nunca ouvi falar nisso. Você pode dar mais detalhes João?