Retrospectiva 2014

30/12/2014 | Sociedade

Se você não pôde acompanhar tudo o que aconteceu em Israel em 2014 , apresento a seguir um resumo dos principais eventos do ano. Para mais detalhes sobre cada evento, clique nos links destacados.

Retrospectiva 2014

Governo: da esperança à desilusão

Este ano começou com a esperança de que o novo governo eleito em 2013 enfim colocasse em prática suas promessas eleitorais, especialmente aquelas voltadas para reduzir o alto custo de vida da classe média, e as que propunham mais igualdade entre os diferentes setores da sociedade.

No entanto, a incoerência interna da coalizão não resistiu nem sequer ao segundo ano de mandato. O governo ruiu após divergências entre três dos principais partidos da base: Likud , Yesh Atid e HaTnua .

Netanyahu reclamou de oposição interna à coalizão, e não conseguiu chegar a um acordo com Yair Lapid em relação ao projeto de lei que extinguia o imposto da compra do primeiro imóvel

Relacoes desgastadas com os Estados Unidos
Relações desgastadas com os Estados Unidos

As relações com os Estados Unidos foram afetadas por comentários inoportunos do Ministro da Defesa, Moshe (Boogie) Ayalon do Likud e do Chanceler, Avigdor Liberman do Israel Beiteynu, que criticaram a postura do Secretário de Estado John Kerry em relação a Operação Margem de Proteção e questionaram de modo geral o apoio e a lealdade americana.

Sobrou para a população, que não viu solução nem para o aumento do custo de vida, nem para diminuição do privilégio dos setores ultra-ortodoxos. Estas e outras propostas ficaram engavetadas para um próximo governo.

 

"Forte na segurança Forte na economia" Será mesmo?
“Forte na segurança
Forte na economia”
Sera mesmo?

 

Conflito: um ano para ser esquecido

No final do mês de abril, expirou-se o prazo das negociações de paz entre israelenses e palestinos, retomadas no meio de 2013, sem que tenha havido nenhum progresso. A já conhecida troca de acusações pelo fracasso das negociações entre os dois lados era o prenúncio do que estava por vir.

Os tres jovens judeus sequestrados
Os três jovens judeus assassinados

Em Junho, terroristas do Hamas sequestraram três jovens israelenses, Naftali Frankel, Gilad Sha’er e Eyal Yifrach. Em seguida, o exército israelense começou uma intensa busca pelos responsáveis do sequestro, até encontrar os corpos dos jovens. Em seguida, o jovem palestino Mohammed Abu Khder foi assassinado em Jerusalém por terroristas judeus.

A sequencia de tristes eventos seguiu com a intensificação do lançamento de foguetes da Faixa de Gaza em direção à população civil israelense, e teve como resultado o inicio de uma nova operação militar na região, nomeada Operação Margem de Proteção.

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De acordo com o governo, a operação tinha dois objetivos principais:

  1. i) Neutralizar as dezenas de túneis descobertos pelo exército israelense, ligando a Faixa de Gaza aos assentamentos israelenses no sul do país,
  2. ii) Eliminar os foguetes lançados pelo Hamas sobre a população civil israelense.

Após tentativas frustradas de cessar fogo, a operação terminou com resultados negativos para ambos os lados. Milhares de mortos, destruição completa de muitos bairros em Gaza, e nenhum acordo. Nem os mais otimistas acreditam que esta foi a última operação militar em Gaza. Ela parece ter sido apenas mais uma etapa de um arrastado conflito.

Os danos civis do lado israelense só não foram maiores graças ao moderno sistema anti-mísseis “Domo de Ferro” , que salvou dezenas de vidas de israelenses no sul e no centro do país.

 

O "Domo de Ferro"
O “Domo de Ferro”

Não bastasse a operação, o final do ano marcou o reinício dos atentados terroristas em Israel. Após alguns anos de relativa calma, Jerusalém voltou a viver cenas de terror – que transformaram a capital novamente em um barril de pólvora.

Política: velhos conhecidos, novas facetas

Em mais um escândalo politico no país, o ex-primeiro ministro Ehud Olmert, foi condenado por corrupção no caso “Hollyland”. Na última semana foram divulgados áudios de conversas telefônicas nas quais ele propõe um pagamento a sua secretária em troca do seu silêncio.

Shimon Peres, o presidente de Israel mais carismático dos últimos tempos, terminou seu mandato em 2014. Aclamado pela mídia internacional e por grandes líderes do mundo, Peres teve um período memorável como líder simbólico do país nos últimos sete anos.

A difícil missão de substituí-lo coube a um personagem menos popular internamente e menos conhecido mundialmente, Reuven Rivlin. Até agora ele vem cumprindo um bom papel como substituto de Peres.

Este também foi o ano do renascimento de Amir Peretz. Após um tempo no ostracismo político por conta de sua cadência como Ministro de Defesa durante a Segunda Guerra do Líbano, o antigo líder da Central Sindical (Histadrut) foi lembrado por sua insistência em levar adiante o projeto de desenvolvimento do “Domo de Ferro”, enquanto muitos eram céticos em relação ao custo-beneficio do projeto.

Se não bastasse este mérito, Amir Peretz foi o Ministro do Meio Ambiente no ultimo governo, e  elaborou projetos de leis que contaram com grande apoio popular, como por exemplo a proibição da utilização de sacos plásticos descartáveis em supermercados.

Por fim, ele parece ter antevisto a instável situação do governo, pedindo demissão de seu cargo um pouco antes da dissolução, alegando desavenças ideológicas com Benjamin Netanyahu.

De volta à politica, Moshe Kahlon, ex-Likud e ex-Ministro das Comunicações, tem tudo para tornar-se o novo Yair Lapid das próximas eleições. Reconhecido pelo público geral por ter sido o responsável pela diminuição das tarifas dos telefones celulares, Kahlon criou seu próprio partido, “Kulanu”, e provavelmente será o (novo) candidato da classe média nestas próximas eleições. Esta segue insatisfeita com os rumos da política sócio-econômica desde os protestos sociais de 2011. Pesquisas já apontam para um numero de 10-12 cadeiras para Kahlon, antes mesmo do início da campanha.

Principais rivais politicos do atual primeiro-ministro, Isaac “Buji” Herzog, líder do partido Avoda (trabalhista), e Tzipi Livni, ex-Ministra da Justiça e líder do partido HaTnua, decidiram concorrer em uma lista conjunta nas próximas eleições. Atualmente eles aparecem na liderança das pesquisas com 23 cadeiras de acordo com a pesquisa do canal da Knesset.

Uma parcela grande da sociedade israelense está descontente com o atual primeiro-ministro, e acredita-se que a oposição focará na campanha todos menos Bibi.

Os personagens de 2014. Você saberia dizer quem é quem?
Os personagens de 2014. Você saberia dizer quem é quem?

Democracia: sob ameaça constante

A democracia israelense esteve diversas vezes sob ataque durante este ano.

Após o trágico incidente do sequestro e assassinato dos três jovens judeus por terroristas palestinos, um grupo de terroristas judeus assassinou o jovem Mohammed Abu Khder, de 16 anos, despertando protestos de cidadãos árabes israelenses em Jerusalém Oriental e em outras cidades do país. Outra onda de protestos no setor árabe foi marcada pela morte de um jovem por policias israelenses, em Kfar Kanna.

A polêmica Lei Nacional do Povo Judeu, que de acordo com a visão de alguns analistas políticos e partidos da oposição, coloca em questão o caráter democrático do Estado de Israel, acabou não sendo votada por conta da dissolução da Knesset. O próximo governo será decisivo para a retomada (ou desistência) desta lei.

O recente ataque a escola bilíngue foi mais um triste episódio para a sociedade israelense – uma covarde tentativa de deslegitimar a educação para a coexistência.

Ataque a escola
Ataque a escola bilíngue

Um pequeno alento a tantas más notícias pode ser visto no discurso de Rachel Frenkel, mãe de um dos jovens judeus assassinados. Mesmo em um dos momentos mais difíceis de sua vida, Frenkel  fez questão de condenar atos de vingança, como aquele que ocasionou na morte do jovem palestino Mohammed Abu Khder : “Não há diferença entre sangue e sangue. Se ele de fato foi assassinado por questões nacionais, é um ato terrível. Não há perdão para assassinato”.

Em qualquer situação, assumir esta postura já seria muito difícil e inesperado por parte de uma mãe enlutada. O fato de Frenkel ser uma judia religiosa e nacionalista aumenta ainda mais o simbolismo de sua atitude.

Economia: futuro incerto

O inicio de 2014 foi marcado por bastante apreensão por parte dos agentes econômicos em Israel, sobre como seria a  “vida após Stanley Fisher”. Depois de 10 anos como presidente do Banco Central Israelense, o famoso economista americano-israelense anunciou a sua aposentadoria no início de 2013.

Após um complicado processo de busca por um sucessor, assumiu o posto a economista Karnit Flug, primeira mulher na história a assumir este cargo. Até agora, os indicadores econômicos têm se mantido estáveis: inflação sob controle, baixas taxas de desemprego e crescimento baixo, porém positivo.

No entanto, os resultados do terceiro trimestre de 2014 mostram que há motivos para temer uma piora nos próximos meses. Os motivos? Antes mesmo de contabilizar os efeitos da Operação Margem de Proteção, os indicadores econômicos já mostraram-se menos favoráveis.

Há quem diga que 2015 promete ser um ano complicado, com aumento dos gastos do governo, perda de valor do shekel frente ao dólar americano, e aumento do já inflado custo de vida, especialmente em setores básicos, como alimentação e transporte.

Esportes: Maccabi Telv Aviv campeão europeu de basquete

No ano da Copa, o futebol israelense viveu altos e baixos. Em um dos momentos mais tristes da história do futebol do país – o maior clássico de Tel Aviv, Hapoel x Maccabi –  foi interrompido por conta de um torcedor que entrou em campo para agredir o jogador Eran Zahavi, e iniciou um conflito generalizado entre as duas torcidas.

 

Torcedor invade campo no clássico de Tel Aviv
Torcedor invade campo no clássico de Tel Aviv

O lado positivo está nas recentes atuações da seleção israelense durante as eliminatórias para a Eurocopa 2016. Até agora invicta, Israel encontra-se em uma posição confortável no seu grupo, e as chances de acesso são grandes.

O Maccabi Tel Aviv sagrou-se novamente Campeão Europeu de Basquete. Longe de ser o favorito da competição, a equipe demonstrou um incrível poder de superação, e conseguiu conquistar o título em cima do poderoso Real Madrid.

Méritos para o excelente técnico David Blatt, que logo após a conquista foi convidado para ser treinador do Cleveland Cavaliers, da NBA. Blatt comanda o astro Lebron James e o brasileiro Anderson Varejão. Apesar de um início de temporada instável, o Cleveland faz boa campanha, e atualmente ocupa a quinta posição da Conferência Leste.

No desafio intercontinental, o Maccabi Tel Aviv, desfalcado de alguns jogadores e de seu técnico, acabou levando a pior contra o Flamengo. Apesar da vitória no primeiro jogo, a equipe israelense não conseguiu repetir as boas atuações que a levaram ao título europeu, e acabou vice-campeã ao perder no saldo de cestas.

Omri Caspi, o primeiro israelense a jogar na NBA, teve um bom começo de temporada. Ele chegou a marcar 22 pontos na vitoria de seu time, Sacramento Kings sobre o New Orleans Pelicans.

A ultima boa noticia do esporte israelense veio das mãos de Ishay Oliel, campeão mundial de tênis sub-15. O jovem tenista é uma das maiores esperanças do esporte nacional nos próximos anos.

Sociedade e cultura

O sumido cantor Muki voltou as paradas de sucesso com duas musicas que ficaram entre as melhores de 2014 de acordo com a rádio Galgalatz : Yeled shel Aba e Lev Rofshi.

O programa de televisão “Os judeus estão chegando” enfim foi lançado após inumeras polêmicas relacionados ao seu conteúdo.

O jornal com maior circulação do país, “Israel Hayom”, quase chegou a ser proibido de circular de graça por uma lei da Knesset. Os outros jornais tem exercido muita pressão para que essa lei seja aprovada, pois sofreram uma grande perda de leitores desde o início da circulação do “Israel Hayom”. Em tempo: o dono do jornal é amigo próximo do primeiro ministro Benjamin Netanyahu.

israel hayom
O Jornal “Israel haYom”

 

O “Oscar israelense” de melhor filme de 2014 foi para o filme “Gett”, que conta um pouco sobre o complicado processo de divorcio em Israel.

Resumo do ano

Que venha 2015 e que esteja acompanhado de melhores noticias.

 

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Retrospectiva 2014”

  • Luna

    30/12/2014 at 18:45

    Grande Marcelao!
    Muito bom o resumo, no entanto acredito que no proximo seria interessante colocar o numero de atentados terroristas sofridos por israelenses (e outros povos) vs. ano anterior/es. Com certeza o massacre na sinagoga matando alguns rabinos seria um highlight (if not lowlight) do ano. Todo o environment politico e social de Israel eh afetado/influenciado/liderado por ataques/guerras. Nos ultimos dias uma menina foi queimada por acido e ainda esta em estado grave no hospital. Com certeza acontecimentos como esse influenciam nossa situacao politica/social e ate economica.
    beijo! Luna
    ps – a nova musica do Muki eh demais 🙂

    • Raul Gottlieb

      01/01/2015 at 07:37

      Concordo com a Luna.

      Uma retrospectiva sobre Israel não pode deixar de incluir quantas pessoas foram mortas pelo islamismo no ano que passou.

      É uma tarefa e tanto, pois os números são enormes.

      Isto sem dizer que “só” é possível contar os casos que foram noticiados nos jornais. Dezenas morrem por dia na Síria, no Iraque, na Nigéria, na Líbia e no Iemen sem que ninguém noticie mais porque: (i) virou rotina e (ii) Israel não pode ser culpado por estas mortes (se bem que há uma sugestão no ar de que Israel é o culpado por tudo o que acontece na região).

      E uma outra contagem interessante seria a de quantas vezes a esquerda vai dizer que é possível fazer um acordo com o mundo islâmico, sem explicar que tipo de acordo pode fazer uma cultura supremacista, que prega a exterminação do diferente, modificar os seus caminhos e passar a aceitar os “diferentes”.

  • Marcelo Starec

    30/12/2014 at 21:45

    Oi Amir,
    Parabéns!…Um belo resumo!…Embora eu possa não concordar com ele integralmente, mas levantou os principais fatos e trouxe uma série de explicações interessantes sobre o que aconteceu em 2014…Acho que, quem não teve a oportunidade de acompanhar o dia a dia, pode se basear nesse resumo…Um ponto muito interessante, que eu faço questão de frisar:
    “Um pequeno alento a tantas más notícias pode ser visto no discurso de Rachel Frenkel, mãe de um dos jovens judeus assassinados. Mesmo em um dos momentos mais difíceis de sua vida, Frenkel fez questão de condenar atos de vingança, como aquele que ocasionou na morte do jovem palestino Mohammed Abu Khder : “Não há diferença entre sangue e sangue. Se ele de fato foi assassinado por questões nacionais, é um ato terrível. Não há perdão para assassinato”.

    Em qualquer situação, assumir esta postura já seria muito difícil e inesperado por parte de uma mãe enlutada. O fato de Frenkel ser uma judia religiosa e nacionalista aumenta ainda mais o simbolismo de sua atitude.” Sim, ela representou à altura ao povo judeu e a Israel!…Eu adoraria ver atitudes desse tipo do outro lado – eu tenho plena convicção de que, no dia em que isso acontecer do outro lado também, a paz estará muito próxima e será quase que uma mera negociação de detalhes, simples assim!…
    Um grande abraço e Feliz 2015 para você e toda a Equipe do Conexão!
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    02/01/2015 at 08:12

    Olá Amir,

    Evidentemente que por questão de tempo ficou faltando na retrospectiva a derrota nas Nações Unidas da proposta árabe em 30 de dezembro.

    Aquela votação foi uma grande vitória para Israel em sua luta contra a incessante tentativa árabe de destruir Israel.

    A vitória desta vez veio por vias diplomáticas, então é menos pictórica e dramática que as vitórias militares, mas mesmo assim ela é espetacular.

    Ela evidencia que ainda há espaço para a diplomacia israelense agir na ONU e que a “hasbará” de Israel não é tão ruim assim. Ruim mesmo é a qualidade da imprensa.

    Ela evidencia que o Islamismo Jihadista é um tiro no pé, pois a Nigéria votou contra a proposta de Abbas justamente pela colaboração que Israel empresta a esta país em sua luta contra o seu “Hizbolá” (ou “Hamas”, escolham) local (chamado “Boko Haram”).

    E principalmente, ela evidencia mais uma vez que os árabes (neste caso particular representados por Abbas) não têm interesse algum numa solução negociada.

    É um feito a ser inscrito nos anais.

    Abraço,
    Raul

  • Mario Silvio

    05/01/2015 at 14:43

    ” (se bem que há uma sugestão no ar de que Israel é o culpado por tudo o que acontece na região).” Não só na região Raul! Para as esquerdas tudo o que acontece de ruim no MUNDO é culpa de Israel e/ou dos EUA

Você é humano? *