Segundo os costumes de Moisés e Israel

Conheçam a história de Samuel, um imigrante brasileiro em Israel que conheceu o amor da sua vida por aqui e hoje, assim como muitos, enfrenta um grande dilema para conseguir realizar o seu sonhado casamento em Eretz Israel.

Samuel foi criado no Brasil, filho de pai judeu e mãe convertida pela comunidade conservadora onde seu marido e toda sua família por diversos anos se congregavam para, resumindo, ser judeus e estudar a torá. Samuel cresceu dentro desta comunidade. Ali foi feito o seu Brit Milá, ali estudou para o seu Bar Mitzvá, ali participou do movimento juvenil e educou centenas de jovens sobre as histórias da bíblia, a tradição judaica e a ligação deste povo com a Terra de Israel.

Além da sinagoga, Samuel também frequentou uma escola judaica, sabia Hebraico e provavelmente mais sobre a história de Israel do que a história do Brasil. Um judeu sionista como muitos que conhecemos dentro das comunidades ao redor do Brasil, um jovem idealista que sempre sonhou com viver em Israel.

Soldados do exército de Israel - foto: Gabriel Guzovsky (surrealisrael)
Jovens soldados imigrantes servindo no exército de Israel – *Foto: surrealisrael

Aos 20 anos de idade, Samuel finalmente pôde realizar seu sonho e fez alyah para Israel. Aqui em Israel serviu no exército israelense como combatente durante 3 anos e quase ao final do seu serviço, conheceu Noa – que naquele momento estava no meio do seu serviço militar obrigatório. Os dois se apaixonaram e namoraram por alguns anos, e quando Noa saiu do exército, resolveram mudar e viver juntos. Noa, assim como Samuel, é de uma corrente mais liberal do judaísmo, a reformista. Noa cresceu em Israel, na cidade de Tel Aviv, e só o fato dela ter alguma corrente do judaísmo é algo muito raro naquela cidade, onde a maioria dos seus habitantes já perdeu a fé na religião por não se considerarem ortodoxos.

A grande surpresa para o casal veio quando decidiram casar-se. Ao tentarem marcar o casamento na rabanut (a autoridade rabínica israelense – monopolizada por ortodoxos), por Samuel ser estrangeiro, exigiram documentação e perguntaram sobre o seu histórico familiar. O rapaz, sem vergonha da sua família e da sua comunidade, contou todo o seu passado e trouxe toda a documentação requerida. O problema, é que para a rabanut, a conversão da mãe de Samuel feita pela comunidade conservadora no Brasil não é válida – e portanto, Samuel não é judeu. De acordo com a rabanut, ele deveria passar por um processo de conversão ortodoxa para que a rabanut aceite o casamento.

Judeus ortodoxos rezando no Kotel - foto: Gabriel Guzovsky (surrealisrael)
Ortodoxos rezando no Muro das Lamentações em Jerusalém – *Foto: surrealisrael

Noa nunca questionou a identidade judaica do seu namorado Samuel. Seu conhecimento, seu passado, seu ser… Samuel é claramente um homem judeu para ela. Mas de acordo com as autoridades, já que a sua mãe não é judia “sangue puro” ou convertida para o judaísmo ortodoxo, o garoto não era considerado judeu pelas autoridades que controlam a única forma de casamento em Israel. Para a comunidade ortodoxa, o casamento dos pais, o brit milá, o bar mitzvá e o histórico de Samuel não tem nenhuma validade – assim como todas as outras correntes do judaísmo que não sejam as ortodoxas. E o Estado de Israel valida esta situação absurda, dando autoridade total para um conselho judaico formado apenas por ortodoxos e sem a participação de outras correntes do judaísmo.

A história de Samuel é a de milhares de imigrantes que fazem parte de outras correntes que não a ortodoxaa grande maioria da população judaica do mundo. O maior problema não é o casamento do Samuel ou de outros jovens judeus não ortodoxos, mas qual é a influência desta decisão em Israel para todas as comunidades judaicas no mundo? Qual é o efeito da expansão da ortodoxia em países como o Brasil? Eu pessoalmente me orgulho da comunidade judaica do Brasil e das Américas em geral. São comunidades abertas, que dialogam e recebem ao invés de fechar as portas. Mas nos últimos 30 anos há um crescimento das comunidades ortodoxas no Brasil como resultado direto, na minha opinião, desta lei equivocada em Israel que coloca os ortodoxos como a única corrente reconhecida pelo Estado para todas as questões civis. Isso porque muitos jovens estão sendo convencidos de que a ortodoxia é a única forma de judaísmo e que todas as outras correntes são uma distorção equivocada. O que não é verdade, mas o fato de que em Israel é assim, cria um argumento bastante forte para a ortodoxia que aproveita para angariar mais seguidores pelo mundo.

O Rebe Lubavitch (Z”L): Reconhecido por uma corrente chassídica do judaísmo como o Messias. Provavelmente graças a visão global do rabino que transformou a ortodoxia em uma corporação. *Foto: Chabad.org

Como contei antes, na rabanut ofereceram para Samuel converter-se ao judaísmo pela ortodoxia. Mas o que significa converter-se ao judaísmo pela ortodoxia? Estudar durante 3 anos mais ou menos, transformar-se em ortodoxo, pensar e viver como ortodoxo e porque não – votar nos políticos que eles indicam. Que em uma democracia como Israel, faz com que mais e mais pessoas terminem sendo “lavadas” para dentro do sistema ortodoxo, que mais pessoas votem em políticos ortodoxos, que com ameaças políticas mantém esta situação absurda em Israel – muitas vezes com dinheiro de doações de pessoas bem-intencionadas na diáspora.

Ministro Eli Yishai beija a mão do líder espiritual do partido ultra ortodoxo Shas - Rabino Ovadia Yosef. Foto: Abir Sultan - Flash90
Min. Eli Yishai e líder espiritual do partido ultra ortodoxo SHAS – *Foto: Abir Sultan – Flash90

Hoje em Israel estão discutindo no Parlamento o alistamento dos ortodoxos no exército. É um tema de igualdade de deveres civis importante para o país e que merece destaque. Mas muito mais urgente que isso é o reconhecimento das outras correntes do judaísmo como correntes oficiais, reconhecidas pelo Estado.

A situação atual não fere somente alguns judeus em Israel, mas o judaísmo como um todo.
O judaísmo segundo os costumes de Moisés e Israel. (כדת מושה וישראל)

O que você acha?

  • O judaísmo ortodoxo é o único judaísmo que deve ser reconhecido?
  • Os ortodoxos questionaram a sua identidade judaica alguma vez?
  • Conte suas experiências e expresse a sua opinião abaixo.

*Os fotografados que aparecem neste artigo não tem relação direta com o que foi escrito. Fotos ilustrativas.
* Por motivos de privacidade não foram divulgados os nomes completos dos participantes desta história. A história é baseada em fatos reais, os nomes são fictícios e as opiniões são opiniões. Tire suas próprias conclusões.


 

Leia outros artigos sobre Casamento em Israel

Yair conta a história de três casais israelenses que encontraram formas muito diferentes de se casar. Um deles escolheu se casar em Chipre por não estar de acordo com o casamento segundo a ortodoxia, sua única opção em Israel. Outro casal viajará à Rússia para se casar, pois hoje em dia não existe nenhuma opção de casamento para eles em Israel. A terceira história é sobre o próprio casamento do Yair, que foi em Israel e foi realizado segundo os costumes ortodoxos, apesar dele não ser nem um pouco ortodoxo. Yair também conta qual é o processo que um judeu israelense tem que passar para poder se casar.

Leia o texto completo

 O advogado Marcelo Treistman apresenta as leis e aspectos legais que definem o casamento em Israel. Existe caasamento inter-religioso no país? A lei reconhece a união Homossexual? O casamento civil fora do território israelense é reconhecido pelo Estado? Conheça as respostas a estas perguntas neste artigo esclarecedor.

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Comentários    ( 21 )

21 comentários para “Segundo os costumes de Moisés e Israel”

  • Mario Silvio

    14/05/2013 at 19:15

    “O judaísmo ortodoxo é o único judaísmo que deve ser reconhecido?”
    A questão é, por quem? na minha opinião o Estado não tem nada ver com isso. Sei perfeitamente que Israel é um caso único no mundo, já que existe a lei do retorno, daí a “necessidade” de se determinar quem é e quem não é judeu, mas isso poderia ser decidido por uma organização ou autarquia.
    No caso em questão é óbvio que ele é judeu, mas existem muitos outros casos mais complexos.

    Aproveito para pedir a quem souber para esclarecer uma dúvida (mais uma curiosidade): se eu amanhã decidir fazer alia, como eu provo que sou judeu?

    • Gabriel Guzovsky

      15/05/2013 at 01:22

      Oi Mario,

      A questão, além da lei do retorno, é que a vida civil em Israel depende muito do reconhecimento judaico.
      É um Estado Judeu, o estado é laico e judeu ao mesmo tempo? Ou ser judeu é mais do que religião? Qual é essa religião?
      Ortodoxa, conservadora, reformista, tradicional, ocidental, oriental, européia, sefaradi, americana, etíope?
      O povo judeu viveu na diáspora milhares de anos, e em cada país aonde esteve desenvolveu costumes diferentes – baseados na mesma torá.
      Por que em Israel, nesta nova situação, usamos exemplos apenas de uma determinada corrente da europa oriental para definir o que é ser judeu?

      Sobre fazer alia- tem direito de fazer alia todo mundo que tenha pelo menos um avô ou avó judeu/judia. Como faz para provar?
      Cada caso é um caso. Documentos que comprovem essa informação. Podem ser fotos, testemunhos, documentos escritos, tumbas, registros, etc.

    • Mario Silvio

      15/05/2013 at 20:56

      Obrigado pela informação Gabriel.
      “Ou ser judeu é mais do que religião?”
      Eu acho que é, mas não sei “provar”, pura questão de sentimento.

    • Maiz

      15/05/2013 at 22:24

      Oi Mario, a prova mais comum é a carta de um rabino (se for ortodoxo, como vimos acima, melhor). Se o seus ascendentes casaram no religioso, eles devem ter um documento que comprove isso, procure na sinagoga em que a cerimônia foi celebrada.

  • Ana Maria Piazera-Davison

    15/05/2013 at 14:32

    Eu não sou judia mas me apaixonei por um judeu e acabei vindo para Israel, onde moro há seis anos. Quando soube que não havia casamento civil aqui quase caí pra trás. Meu marido é secular e eu, embora tenha sido batizada católica, não pratico religião alguma. Porém, ficar vivendo juntos aqui não trazia nenhuma segurança para mim – não podíamos nem ter conta-conjunta num banco!
    O que fizemos? Casamos por procuração no Brasil! Mandei toda a documentação para meu irmão, a quem passamos uma procuração para fazer todos os procedimentos em nosso nome e eu fui ao Brasil para casar. Meu marido foi representado pelo meu irmão e Zehu! Claro que não teve “glamour” nenhum, mas era realmente apenas uma questão formal para definir meu “status” aqui. Somos um casal de meia-idade, já com casamentos anteriores. Chegando aqui, levamos a certidão, devidamente traduzida, consularizada, apostilada, etc no Misrad Hapnim, que aceitou e reconheceu o casamento civil realizado no Brasil. Pronto. E uma banana pro Rabinato!

    • Claudio Daylac

      15/05/2013 at 15:46

      Ana,

      Sua história é muito interessante e nos apresenta mais uma maneira de contornar as dificuldades impostas pelo Rabinato e pela ausência de legislação civil quanto ao assunto.

      Parabéns e mazal tov!

    • Mario Silvio

      15/05/2013 at 20:57

      ” – não podíamos nem ter conta-conjunta num banco!”
      Como assim Ana? Existem restrições para a abertura de uma conta conjunta?????????

    • Ana Maria Piazera-Davison

      15/05/2013 at 21:42

      Bem, nos disseram que não podiam abrir conta-conjunta porque não havia vínculo oficial entre nós e porque meu visto é de estrangeiro residente mas anualmente tenho que renovar o visto. Aliás, por causa disso, ainda não podemos ter conta conjunta. Porque não sou cidadã israelense, mesmo sendo casada com um esraelense e morando aqui há seis anos.

    • Mario Silvio

      20/05/2013 at 13:54

      Obrigado Maiz. Por enquanto trata-se apenas de curiosidade, mas se um dia eu precisar ACHO que não vou ter nenhum problema.
      Apesar de não ser religioso e nem meus pais terem sido, eles casaram no religioso e estão enterrados em cemitério judaico.
      Ainda por cima sou cohen, o que deve valer alguns pontinhos extras. Brincadeira.

    • Andrea

      28/06/2014 at 16:20

      No mínimo interessante sua história Ana. Mas como é a questão do visto pra você no caso? Uma vez que você é casada, você não pode pedir um visto permanente (não sei se é o termo correto) ??

    • Ana Maria

      02/07/2014 at 11:32

      Andrea, possuo o visto de Estrangeiro Residente, com Permissão para Trabalhar. Tenho teudat Ze’ut cor de laranja. Todos os anos, tenho que ir ao Mizrad Hapnim com meu marido para demonstrar que estou em situação regular, levar cartas de amigos que nos conhecem e sabem que somos casados e vivemos juntos, fotos nossas e responder a um interrogatoriozinho oral. Tenho também que pagar NIS 340 pelo visto válido para o ano seguinte. Daqui a uns 2 anos, se eu quiser, poderei pedir a cidadania israelense. E assim que a coisa funciona.

    • Andrea

      07/07/2014 at 08:12

      Obrigada por tirar minha dúvida Ana Maria.

  • Jambol

    15/05/2013 at 19:58

    Queridos, já perdi o número de consultas que atraso só lendo as matérias de vocês. Como as mídias ou a mídia israelense trata esses assuntos? Há alguma forma de discussão quanto a esses assuntos num nível nacional? Alguns assuntos não devem ficar nebulosos na sociedade. Leio com certo receio que alguns casais são obrigados a casar fora de Israel, alguns não tem sua plena cidadania estabelecida, alguns perdem direitos civis, isso não é complicado num país que se orgulha tanto da sua democracia?

  • Ana Maria Piazera-Davison

    15/05/2013 at 21:47

    Eu gostaria de acrescentar – sobre casamentos por procuração – que ambos os noivos podem ser representados no ato civil por pessoas a quem passarem procurações. Ou seja: sabendo organizar tudo, dá pra casar no Brasil SEM sair de Israel. E é válido MESMO, é um casamento tão civil e tão juridicamente eficaz quanto o presencial.

  • leny ben shimol

    16/05/2013 at 17:46

    eu nao fasso parte de nenhum estremo,mais esse caso desse rapas e muito mais facil do gue escreveram ,por ele ter vivido no brasil como judeu ele nao precisa passar 3 anos de estudos ele passa um curso muito rapido de 2 ou 3meses e acaba o processo e fora disso rapazes sempre e mais facil do gue mocas ,eles nao sao obrigados a faser a conversao,as mulheres sim. nao sei guantos pais gostariao gue seus filhos se casasem com alguem nao judeu.no caso da rabanut tem outros pontos piores desse ,porgue hoje nao se da divorcio com simplicidade? porgue fazem tantos problemas?

  • Daniel Tiber

    14/06/2013 at 22:03

    Não ao monopólio da rabanut! O direito de casar é condição básica de um Estado Democrático.

  • Ibraim Sued

    16/08/2014 at 03:24

    Interessante a visão do artigo de que o próprio estado é que acaba dando essa força toda que a ortodoxia tem. Pensava o oposto, que de tão socialmente poderosa a ortodoxia acabou dominando seu setor exclusivo no estado, mas não sabia de onde vinha tta força da ortooxia. Mas convenhamos que o judaismo reformista tem pontos muito vacilantes, ainda que seja reformista poderia ter seu rigor teológico, hoje há muitos movimentos missionários cristãos disfarçados de judaismo. Os tais dos Bnei Anussim mesmo, que parecem ter crédito em israel, se vc pesquisar com vontade os blogs deles acaba descobrindo que clamam serem judeus mas são cristãos, o que acho negativo, por serem farsantes.

    • Gabriel Guzovsky

      16/08/2014 at 13:02

      Oi Ibraim,

      Não sei quem são os Bnei Anussim, mas acredito que qualquer judeu que acredite que Jesus é/foi o Messias já não é mais judeu e sim cristão.
      Quando falo de reformistas, me refiro a aqueles que são seguidores de Moisés – aos que creem em apenas um Deus e que prestam contas com esse Deus e seus dez mandamentos.
      Todo messianismo, ao meu ver, não é parte da tradição Mosaica. Mesmo as correntes conhecidas como “ultra-ortodoxas” dentro do judaísmo, toda essa evolução judaica da diáspora é uma distorção dos costumes de Moisés e Israel.

      Abraço!
      Gabriel

  • Erlen K C Farias

    19/05/2015 at 12:46

    Estou lendo por algumas horas, as postagem desse site. Penso que o escritor esta equivocado, quando diz e fala de ortodoxo, os lideres do rabinado em israel são ortodoxo e as fotos que vocês mencionaram e publicaram nesse artigo se trata de judeus que são ULTRA ORTODOXO, que inclusive não tem todo esse apoio que você relata que tem, na verdade os ULTRA tem bastante restrições como varias outras linhas de judaismo, como a reformista mesmo. Fique atento para o que você publica e deixa a entender como se a Rabanut fosse uma espécie de ORTODOXO ULTRA, e não é. Israel é um país que dar direito para ALYAH para judeus virem e serem cidadões, se essas pessoas vieram por causa da religião, você realmente não acredita que por isso o Estado exige e impoe leis para os religiosos??

    • Gabriel Guzovsky

      19/05/2015 at 12:56

      Não entendi direito o que você escreveu, mas certamente gostaria que você me iluminasse com o seu conhecimento e opiniões, além de ajudar os outros leitores a encontrarem suas próprias opiniões sobre o assunto.
      O artigo é aberto para comentários exatamente por não ter a pretensão de conter a verdade absoluta, mas sim abrir o espaço para o debate e a troca de opiniões.

      Realmente não entendi as suas afirmações e pergunta, ficaria feliz em responder se você pudesse esclarecer.
      Segundo o seu endereço de internet você se encontra em Israel, poderia compartilhar um pouco mais sobre a sua história? Onde você se encontra na bússola religiosa?

      Abraço,
      Gabriel

Você é humano? *