A segurança nacional pede dois Estados

25/01/2017 | Conflito

Na semana passada, fui chamado na internet de “traidor do sionismo” por quatro pessoas. No início, achei engraçado — justo eu, que militei toda a vida em um movimento juvenil sionista, fiz aliá sozinho (não tenho parentes em Israel), servi o exército aos 25 anos, sou reservista, trabalhei por mais de seis anos na Agência Judaica e hoje sou sheliach (emissário) da mesma, onde exerço as funções de intermediário de aliá (!) e realizo o acompanhamento educacional judaico-sionista de dois movimentos juvenis. Entendem a graça? É a ironia. Uma vida inteira dedicada ao sionismo para que me chamem de traidor. De onde vem isso?

Os quatro ativistas de Facebook (ou seria melhor chamá-los de “disseminadores do ódio”?) me chamaram de traidor por posicionamentos em três debates distintos. No primeiro fui “traidor” por defender a Suprema Corte de Justiça Israelense e o Código de Ética do Tzahal, em um debate sobre a punição ao soldado Elor Azaria, condenado por matar um terrorista palestino quando tal já não oferecia perigo (leia mais aqui e aqui). No segundo caso, outros dois me chamaram de traidor (detalhe: eles nem mesmo moram em Israel) inicialmente por reconhecer que o exército, lamentavelmente, muitas vezes é utilizado como uma farramenta política de opressão sobre os palestinos. No último caso me chamaram de traidor porque eu disse que a Resolução 2334 do Relatório de Segurança da ONU (leia mais sobre ela aqui) não é antissemita.

Você não é obrigado a concordar comigo nestes três tópicos. São polêmicos, certamente. Mas no desenvolver do debate, os quatro (dos quais três se mostraram fanáticos e o quarto pareceu ser um agressivo-confuso) caíram no mesmo ponto: disseram que eu quero entregar nossa terra aos palestinos, nossos inimigos (sic), e por isso, na realidade, sou um traidor. Pode ser que eu seja um traidor desta maneira de seguir a Torá, pois não acredito que a tal promessa divina a Abraão deve ser interpretada como a delimitação das fronteiras do moderno Estado de Israel no século XXI. Se é por isso, aceito a pecha de traidor, apesar de considerá-la irracional. Explico-me: para trair, eu necessito,  em algum momento, ter compactuado com esta postura (e vale lembrar que estou do lado da imensa maioria dos líderes e ideólogos do Sionismo até os anos 1970), o que jamais aconteceu. Nunca aceitei essa interpretação, e acho fanatismo levar em consideração o que está escrito em um livro de mais de 2 mil anos e ignorar as convenções internacionais modernas.

Voltando ao ponto: segundo eles, sou traidor por estar a favor de negociações com os palestinos, por acreditar que a ocupação destrói moralmente a sociedade israelense, por pensar que os palestinos têm os mesmos direitos dos judeus a um Estado nacional, e por aceitar ceder terras em troca de vidas (claro, não sou louco de apoiar um acordo que não envolva um tratado de paz real, quero algo no estilo do que fizemos com o Egito e a Jordânia).

Mas também sou traidor por outra razão: por achar que só a criação de um Estado palestino pode manter vivo o Estado judeu. Você não conhecia este argumento? Eu explico: com a crescente expansão dos assentamentos, chegaremos a uma realidade que será impossível separar o território e delimitar fronteiras para a criação de dois Estados. Os árabes palestinos, somados aos árabes israelenses, já chegam a sete milhões de habitantes em Israel + territórios ocupados (sem contar os refugiados palestinos em outros países). Já os judeus israelenses somam pouco mais do que seis milhões. Minha conclusão é que, se não dividirmos o território, nos restarão três opções para que mantenhamos uma maioria judaica no país, e, portanto, o caráter judeu e democrático do Estado: (1) expulsar todos os árabes palestinos, (2) matar a todos estes árabes palestinos, ou (3), mantê-los dentro das fronteiras de Israel, sem nenhum direito político (apartheid).  Como nós não somos nazistas, não desejamos ser como foi a África do Sul, nem equivalentes aos ditadores árabes dos anos 1950/60 (e sabemos que desde os anos 1950 é um consenso de que se trata de uma atitude imoral, desumana e ilegal expulsar as pessoas de suas casas), nos restaria apenas uma opção: anexar os territórios da Faixa de Gaza e Cisjordânia e criar um único Estado entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo. E aí seríamos minoria. Portanto, é uma questão de segurança nacional para a continuidade do sionismo a criação de dois Estados. A luta pelo Estado palestino deve ser parte do movimento sionista contemporâneo.

Nessa hora você, que me chama de traidor, deve estar pensando: por que devo ler o que escreve esse traidor? Aqui abaixo deste parágrafo, reproduzo, portanto, o que não é minha opinião, mas sim a opinião dos últimos ramatkalim (Chefes do Estado Maior das Forças Armadas, cargo mais alto do Exército de Defesa de Israel), chefes do Shabak ou Shin Beit (Agência de Segurança Nacional) e chefes do Mossad (Agência de Inteligência e Operações Especiais), frases compiladas em um panfleto feito pelo movimento Shalom Achshav (Paz Agora). Estão todos defendendo uma solução de dois Estados. Duvida? Leia abaixo. Seriam eles traidores? Gente que deu a vida para defender a segurança dos cidadãos israelenses e dos judeus de todo o mundo? Não se trata de um ou dois, mas de 17! Serão todos traidores? Confira (tradução abaixo).

“Os chefes do sistema de segurança estão de acordo: a separação em dois Estados é um interesse crítico para a segurança de Israel”

 

Ramatkalim

Ehud Barak: A agenda do governo nos encaminha a um Estado de apartheid, ou a um Estado binacional, duas opções que representam o fim das realizações e do sonho sionista. (2016)

Amnon Lipkin Shachak: Eu temo que cheguemos a um ponto onde será impossível chegar à solução de dois Estados, o que seria uma situação caótica. (2012)

Shaul Mofaz: O tempo corre contra Israel… a geração atual de líderes tem que decidir. Esse ano, ano que vem — nós temos que tomar uma decisão (em relação aos territórios ocupados). (2012)

Dan Chalutz: A pergunta é se nós temos a liderança disposta a dar o passo adiante para garantir um Estado judaico, porque a outra alternativa é um Estado binacional. (2011)

Gabi Ashkenazi: É preciso fazer todos os esforços para chegar a uma solução com os palestinos. Devemos institucionalizar a ideia de dois Estados — é essencial para o Estado e nós somos fortes o suficiente para que delimitemos as nossas fronteiras. (2012)

Benny Gantz: Temos que buscar todos os caminhos para chegar a um acordo com os palestinos. Nós temos que estar aptos a olhar para as nossas crianças e dizer que ao menos tentamos. (2016)

 

Líderes do Shin Bet – Shabak 

Avraham Shalom: Se não nos afastarmos da devoção da posse sobre a Terra de Israel inteira e começarmos a entender o outro lado, não chegaremos a lugar nenhum. (2003)

Yaakov Peri: Nós estamos avançando de forma acelerada em direção a um Estado binacional, e isso será o fim do sionismo. É preciso que nos separemos dos palestinos e cheguemos a um acordo que possibilite aos dois lados uma vida mais tranquila e com mais esperança. (2015)

Carmi Guilon: Eu digo ao primeiro-ministro que não há solução tática para a situação atual. Estamos obrigados a encontrar um caminho para que nos separemos dos palestinos. (2015)

Ami Ayalon: O único caminho para manter o sionismo e a perpetuação de um Estado judaico e democrático, sob os valores da Declaração de Independência, é convertendo a ideia de dois Estados em realidade. (2014)

Avi Dichter: Qualquer ser humano inteligente entende que um Estado com seis milhões de judeus e sete milhões de não judeus, em sua maioria muçulmanos, é uma irresponsabilidade… (2014)

Yuval Diskin: O conflito palestino-israelense é uma ameaça a nossa existência. Devemos chegar a um acordo antes que atinjamos o ponto-sem-retorno, a partir do qual não será mais possível voltar a ter a opção de dois Estados para dois povos. (2013)

 

Chefes do Mossad

Shabtai Shavit: Existem valores mais importantes que a terra… a estúpida política do atual governo nos levará a um resultado destruidor: destruirá a visão sionista. (2014)

Danny Yatom: Sem uma iniciativa do governo, a luta e a violência continuarão, e a pressão internacional para que se crie aqui um Estado binacional aumentará, e o processo de isolamento de Israel se aprofundará. (2015)

Efraim HaLevy: Sem solução significa que teremos aqui um só Estado, ou seja, um sistema democrático para uma minoria e ausência de democrática para a maioria, e esta seria uma realidade insuportável. (2014)

Meir Dagan: Netanyahu e Bennett estão levando o Estado de Israel a ser um Estado binacional, o que seria uma catástrofe e um perigo para o sonho sionista. (2015)

Tamir Pardo: A declaração de que devemos trabalhar para a solução de dois Estados é correta. Em um determinado momento poderemos ver que os palestinos preferirão uma solução de um só Estado, e para mim esta é uma solução inaceitável. Eu estou preocupado porque estamos nos aproximando de um ponto-sem-retorno. (2016)
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E para você, amiguinho, que já cansou de ser chamado de traidor, esfregue (metaforicamente) este panfleto na cara dos fanáticos agressivos e dos fascistas raivosos sempre que te chamam de traidor. Já perdeu a graça. Aliás, já perdeu a graça desde a época em que foram assassinados Chaim Arlozoroff, Emil Grunzweig e Itzhak Rabin. Não é engraçado ser idiota, fanático e intolerante. Quer discordar de mim e dessas 17 pessoas que passaram a vida toda te defendendo, sinta-se livre. Mas tente argumentar que esses caras aí são traidores. Estou sentado esperando os geniais argumentos.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “A segurança nacional pede dois Estados”

  • José Marcos Thalenberg

    26/01/2017 at 00:39

    João, excelente artigo. Vai o link para a fala de outro “traidor”. Abraço
    https://www.youtube.com/watch?v=Yt8qOxSg1Vw

  • Guilherme Rabinovitsch

    26/01/2017 at 00:44

    Algumas questões para simples entendimento.
    1- Por que a solução seria entregar Yehuda e Shomron se foram conquistados assim como Tel Aviv, Haifa, Petach Tikva? Num local onde é centro tecnológico tem mais importantes que tirar milhares de moradores?
    2- Qual a fonte que hoje existem 7 milhões de Árabes? Saiu há 5 anos, que, hoje, tem por volta de 20% de Árabes no total da poluição. 1/5 de 8M.
    3- Você, que se diz um forte sionista, qual a razão de ter um estado judeu? Se judaísmo é baseado na Torá, e não só uma cultura, como pode ter afirmado que um livro de 2k não tem valor atualmente? Se não vê nada especial na terra de Israel bíblica, a ponto de estar disposto a cede-la, aceitaria construir um Estado de Israel na África ou América?
    4- Por que não trouxe todos do governo, Bagatz, Shin Beit… que são contra entregar terras.

    כי את כל הארץ אשר אתה רואה לך אתננה ולזערך עד עולם

    • João K. Miragaya

      31/01/2017 at 17:04

      Oi Guilherme. Um prazer poder dialogar de forma educada.

      1. A solução não é entregar terras. A solução é chegar a um acordo, e este acordo deve ser real. Não é verdade que a Cisjordânia foi conquistada assim como Tel-Aviv, Haifa e Petach Tikvah. Israel declarou estas regiões parte do seu Estado e deu cidadania a todos os seus habitantes, judeus e árabes. Em relação à Cisjordânia, não foi o que houve. Israel jamais anexou a região, apenas mantém uma ocupação militar com alguns focos de expansão civil, mas sem jamais anexá-lo (com exceção de Jerusalém Oriental e o Ramat Ha’Golan). Hoje mesmo se discute a anexação de Maale Adumim, que não faz parte do território israelense oficialmente porque está em um território internacionalmente considerado “ocupado” (e Israel não o nega legalmente). Ainda assim, eu sou a favor de uma divisão que inclua um intercâmbio de territórios, para que o mínimo possível de pessoas deixem suas casas e que a maioria das atuais colônias sejam parte do Estado de Israel. Por outro lado, não se pode ignorar o fato de que na Cisjordânia há um estimado de quase 3 milhões de árabes, e uma população de 350 mil judeus (excluindo os bairros judaicos de Jerusalem Oriental). Não é por avanço tecnológico, caso fosse, seria mais simples entregar o Neguev ou a região do Emek Yizrael, mais pobres que as colônias da Cisjordânia. O que muda não é o desenvolvimento econômico, são o status e as condições.

      2. Em Israel hoje há dois milhões de árabes. Nos territórios ocupados, segundo os censos palestinos, há entre 4,5 e 5 milhões de árabes palestinos. O comentário é referente à possibilidade de anexar os territórios: os 5 milhões de árabes que habitam Faixa de Gaza e Cisjordânia, somados aos 2 milhões que estão em Israel, seriam 7 milhões.

      3. Eu não acho que o judaísmo é baseado na Torá. Eu dou valor à Torá como uma fonte ética, acho o Tanach e o Talmud os dois maiores componente da formação moral do povo judeu ao longo da história, mas não podem ser entendidos como leis do Estado de Israel no século XXI. E acho que a cultura engloba o Tanach, o Talmud e todas as fontes, assim como engloba a música judaica, o sionismo, o humor judaico, a culinária judaica, o hebraico moderno e muito mais. A cultura judaica não pertence à Torá, e sim a Torá pertence à cultura judaica. Em nenhum momento eu disse que a Torá não tem valor atualmente. Disse que a Torá não pode ser um código legal no dias atuais, e que as interpretações fundamentalistas da Torá não são adequadas.
      Eu, por outro lado, acho que a identidade do povo judeu com a Terra de Israel é muito mais do que uma identidade religiosa, é histórica e social. Lá nos formamos como povo, lá aconteceu grande maior parte de nossa história (a mais exitosa), lá fomos um povo livre e soberano, o que não aconteceu em nenhum outro lugar. Mas o próprio Theodor Herzl considerou criar o Estado judeu (ainda que provisório) em Uganda.
      O propósito é claro: eu vejo o judaísmo como uma cultura, e acredito no princípio de autodeterminação dos povos. Nós somos um povo com consciência nacional, como são os brasileiros, os franceses, os japoneses, e etc. Minha identidade com o judaísmo dentro da gama de possibilidades que a cultura judaica oferece é com a ideia de que somos um povo com identidade nacional. A sua é com a religião judaica, mas também com a ideia nacional. Está bem. Nós judeus pensamos diferente, mas ainda assim temos algo em comum com nossas identidades. Eu sou um judeu laico, você é um judeu religioso. Ambos somos sionistas.

      4. Olha, essa pergunta você deve fazer ao Shalom Achshav, que fez o flyer. Mas eu tenho uma sugestão para a resposta: o movimento quis mostrar que a grande maioria dos últimos chefes de segurança são radicalmente a favor da criação de dois Estados (pode conferir, estão quase todos). Não trouxeram governo e Bagatz porque queriam os chefes do Tzahal, do Shabak e do Mossad, os maiores especialistas em segurança do país. Para provar o ponto de que a separação entre Israel e palestinos (com a criação de um Estado palestino) é fundamental para garantir a segurança do povo judeu e a continuidade do sionismo.

      Espero ter respondido as tuas perguntas. Abraço