Sejamos visionários – essa é a mensagem de Pessach

E então nos aproximamos de Pessach, a festa da primavera com todas as suas cores, das matsot[ref]Matsá é o pão ázimo, comido por judeus observantes durante a festa de Pessach, que dura uma semana[/ref] e todas as outras restrições alimentares, da liberdade e do nascimento do povo judeu. Esse é um dos eventos marcantes do calendário judaico e provavelmente o mais significativo deles, no qual comemoramos um evento ocorrido há 3 milênios nos lados de cá: a liberdade conquistada após dois séculos de escravidão no Egito.

As semanas que antecedem a festa marcam um momento delicado na vida do israelense, ainda mais nos dias de hoje. Não bastassem as crianças em férias escolares por longos 20 dias (isso sim é um mistério bíblico: por que tantos dias livres se a festa dura apenas oito?), muitos negócios ligados à alimentação são obrigados a fechar as portas ou as fecham por conta própria, em função da proibição dos judeus em comer “chametz”[ref]Chametz é todo alimento resultante da fermentação do trigo, centeio, cevada, aveia e espelta.[/ref]. Os supermercados precisam restringir produtos em suas gôndolas, as famílias – mesmo as que, ao levar um susto, gritam um sonoro Jesus Christ! (aqui em Raanana, americanos e ingleses fazem muito isso) – alucinam na limpeza anual das casas. A motivação é originalmente religiosa, pois devemos limpá-las de todo o chametz para receber a festa. No entanto, israelenses de todas as tribos assimilaram essa apoteose do escovão como um movimento comunitário de feng shui, no qual se desfazem de tudo aquilo que não lhes serve mais, que já não faz sentido cultivar ou possuir, que já não é parte de suas vidas – e a leitura esotérica não apenas vale nesse contexto, como é parte intrínseca dele.

Existe uma teoria, deveras poética, que faz o link entre os sabras de hoje e os escravos de então, na tentativa de explicar o que faz com que os judeus sejam um povo multiplicador de prêmios Nobel e que foi capaz de transformar, em apenas 70 anos, um pedaço de terra desértico e caótico em uma nação inovadora, democrática e desenvolvida. Se você conhece a história, sabe que há 3,3 mil anos, quando nossa tribo já não sonhava com a liberdade, surgiu um líder – de nome Moisés – para desafiar a soberania do faraó. Detalhe importante: ele era, na verdade, um “filho rebelado”, pois foi criado dentro do palácio pela filha do governante egípcio. Moisés protagonizou, junto com seu irmão Aarão, a história das dez pragas. Finalmente, os milhões de escravos (há teorias com diferentes números, por isso prefiro não colocar nenhum) receberam a ordem de partir. “Pra onde mesmo?”, perguntaram. “Pra terra que o Deus único (essa entidade inovadora e revolucionária à época) nos apontará”, disse o líder. “Mas onde fica isso?”, insistiram. “Logo ali, depois do deserto do Sinai.” Como resultado, apenas um quinto da população escrava aceitou encarar o desafio. Um quinto de sonhadores. Visionários. Assim, somos descendentes daqueles que foram capazes de deixar suas certezas para trás e caminhar em direção ao deserto, sem destino certo. Meio como voltamos a fazer a partir de 1948.

E é essa a geração que hoje corre alucinadamente pelo país se preparando para a festa libertadora, num frenesi louco. Então, querido leitor, mesmo que à beira de um ataque de nervos, evoquemos uma bênção sobre todos nós. Que enfrentemos os supermercados lotados, a histeria generalizada e a pouca vontade de comer matsá em vez de pita com humus por sete dias primaveris. Que limpemos nossa casa física, fazendo o mesmo com nosso lar espiritual. E que sejamos visionários como já fomos, adotando um refrão adorável: que tenhamos força para mudar o que devemos, paciência para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir entre ambos, para por fim celebrar a liberdade “kmo shetzarich” – como deve ser.

Imagem de capa: http://www.bible.ca/archeology/bible-archeology-red-sea-crossing.jpg