Sem arrependimento

Artigo de Dan Ariely, publicado originalmente em hebraico no jornal Haaretz, no dia 3 de novembro de 2015.

Bibi Netanyahu (esquerda) e Ehud Barak
Bibi Netanyahu (esquerda) e Ehud Barak

Qual é a causa da estagnação diplomática? Se examinarmos esta questão do ponto de vista da economia comportamental, poderemos encontrar dois princípios centrais de racionalidade que causam a estagnação. Um deles é a aversão à perda e o outro é o arrependimento.

Tudo, menos perder

A aversão à perda baseia-se na ideia de ênfase no que pode-se perder, e não no que pode-se ganhar. Ou seja, nós olhamos para a situação de hoje e dizemos: se assumirmos este risco (claro que tratando-se de paz não há zero risco), então existe a chance de perdermos e existe a chance de ganharmos. O problema decorre do fato de que tendemos a focar apenas no lado da perda. É fácil imaginar coisas que acontecerão e pensar como elas serão terríveis e negativas. É mais difícil se focar nas coisas positivas. Às vezes, a aversão à perda nos impede de tomar decisões que poderiam levar à perda, mas que também poderiam trazer ganhos.

Um experimento feito na Universidade de Cornell nos EUA verificou a questão do arrependimento entre esportistas que ganharam medalhas olímpicas. Encontrou-se que os ganhadores de ouro são naturalmente mais felizes, mas surpreendentemente os que ganharam medalhas de prata são menos felizes do que os que ganharam medalhas de bronze. Por que isto acontece? Porque os que ganharam prata pensam consigo mesmos: eu estou treinando há tanto tempo e cheguei apenas em segundo lugar, eu estava tão perto do primeiro lugar, mas mesmo assim não ganhei. Estes pensamentos são definidos como “pensamento contrafactual”. É uma situação que não se realizou de fato, mas que nós ainda assim conseguimos imaginá-la. Nós imaginamos como poderia ter sido diferente. E aqueles que ganharam bronze, quais pensamentos de outra realidade eles pensam consigo mesmos? O que eles imaginam que poderia ter sido diferente? Eles dizem a si mesmos: eu poderia não ter ganho nenhuma medalha. Assim, comparada com a possibilidade de não ganhar absolutamente nada, uma medalha de bronze certamente produz uma sensação positiva.

O arrependimento é fruto da ação

Junta-se à aversão à perda (que por si só já dificulta as coisas) o arrependimento—a forma pela qual nós julgamos nossas decisões, que fazem com que exista uma diferença entre o que realizamos e aquilo que imaginamos que poderíamos ter alcançado. Nós podemos imaginar muitas realidades alternativas possíveis diferentes desta atual. Darei um exemplo para esclarecer o ponto: imaginemos que estamos dois minutos atrasados para um vôo e imaginemos que nós estamos duas horas atrasados para o mesmo vôo. Em qual das situações nos sentiremos pior? Claro que quando estamos dois minutos atrasados. Por que? Porque quando estamos dois minutos atrasados, podemos imaginar mais facilmente o que perdemos, o que poderia acontecer se apenas… É mais fácil imaginar como poderíamos ter chegado na hora do que fazê-lo se estivéssemos duas horas atrasados. Nos sentimos pior pelo atraso quando nos é mais fácil imaginar como poderíamos ter chegado na hora do vôo, do que quando temos dificuldade de imaginar como poderíamos ter chegado na hora.

O arrependimento ocorre principalmente quando se faz algo. Quando não se faz nada, nem mesmo se tenta, então não há lugar para o arrependimento. Mas se fizemos algo, e seu resultado foi ruim para nós, nós tendemos a nos comparar à situação imaginária na qual não fizemos nada, e isto nos faz sentir mal. Mas se não fizemos nada, nos é difícil imaginar a situação na qual sim fizemos algo, e portanto há menos lugar para o arrependimento, mesmo que a situação não nos seja boa.

Por exemplo: suponhamos que todo dia nós voltamos do trabalho para casa pelo mesmo caminho. Um dia, no caminho de volta, cai repentinamente uma árvore e quebra o pára-brisa do nosso carro. É claro que nos sentimos mal. Mas nós nos sentimos menos mal se justamente neste dia tivéssemos tomado outro caminho. Suponhamos que justo hoje decidimos tomar um atalho, e agora esta árvore cai sobre nosso pára-brisa. É razoável supor que nos perguntaremos por que fizemos isto, por que não viajamos no caminho de sempre. Isto se chama Viés de Ação-Inação (Action Inaction Bias, em inglês). O conceito descreve a situação em que nos arrependemos mais por coisas que fizemos do que por coisas que não fizemos. É claro que é possível se arrepender também pela inação, mas o arrependimento será menor do que pela ação. Por que isto acontece? Porque no momento em que fizemos algo, nós podemos voltar ao momento da decisão e nos perguntar por que fizemos isto. Por que naquele exato momento decidimos o que decidimos? Se nós não fazemos nada, então este momento não existe.

Um outro exemplo: nós estamos prestes a alugar um carro e a agência de aluguel nos oferece um seguro mais caro que nos protegerá em caso de acidente. Nós podemos escolher adquirir este seguro apenas naquele mesmo instante. Normalmente, nós imaginamos neste momento como nos sentiríamos no futuro se, Deus-nos-livre, acontecesse um acidente e não tivéssemos adquirido o seguro apesar de termos tido esta opção. É claro que nos sentiríamos mal com respeito a esta decisão, nos sentiríamos idiotas. Isso nos faz adquirir o seguro naquele momento e por muito dinheiro. Nós não adquirimos o seguro para nos proteger de um acidente (porque seguro não protege contra acidentes), mas para nos protegermos contra a sensação do arrependimento. Todo tipo de seguro se baseia no momento no qual nós imaginamos um possível arrependimento no futuro que queremos evitá-lo no presente.

A inação vence a paz

A aversão à perda, o arrependimento e o Viés de Ação-Inação, que intensifica o arrependimento, nos fazem em muitos momentos não tomar as decisões das quais talvez nos arrependamos. Pode-se transferir esta equação também para o âmbito político e dizer que também ali é mais difícil se arrepender de algo que não foi feito do que de algo que sim foi levado a cabo. Por exemplo, será mais fácil nos arrependermos por termos feito a paz com nossos inimigos do que se não tívessemos feito. Isso ocorre porque no momento em que fizermos a paz poderemos sempre voltar a este dia e pensá-lo como um erro. Nós nos perguntaremos por que decidimos fazer paz? Mas se não fizemos paz no dia 23 de fevereiro, então ninguém poderá dizer: Ah, no dia 23 de fevereiro nós deveríamos ter feito paz e não fizemos.

Um outro jeito de encarar a estagnação do processo de paz de um ponto de vista racional é considerar duas situações hipotéticas: fazer paz agora ou não fazer paz pelos próximos 25 anos, como se houvesse uma janela de oportunidade passageira de fazer a paz, e se a paz não for feita agora, então a próxima oportunidade acontecerá apenas daqui a 25 anos, ou daqui a 50 anos, 75 anos, e assim por diante. Uma situação como esta faz o clima mudar, pois já não seria mais a equação de “não hoje” frente a “sim hoje”, mas “sim agora” ou “não por muito tempo”. Isto torna a decisão mais simétrica e nos dá a possibilidade de pensar que poderemos nos arrepender por não termos feito, poderemos nos arrepender do “não”, sem poder fazer nada com este arrependimento até a próxima janela de oportunidade, que está bastante distante. Na realidade do Oriente Médio de hoje, aparentemente não se diz um “não” categórico à paz, mas se diz “não neste momento”. Contudo, se as duas únicas opções fossem “sim agora” ou “não por muito tempo”, então talvez veríamos a situação diferentemente.

Quando se compara as duas possibilidades frente a frente, então temos a possibilidade de fazer algo, e em contrapartida nós pensamos que temos nas mãos a possibilidade de decidir não fazer nada neste momento, mas apenas mais adiante—mas esta é, na verdade uma decisão de não fazer absolutamente nada. Esta situação nos faz pensar que nós não estamos decidindo e, portanto, não teremos arrependimento. No entanto, a verdade é que nós sim estamos escolhendo—não fazer nada é também uma escolha, simplesmente há menos chance de que nos arrependamos dela.

Eu estou certo de que os políticos, assim como todos nós, são dissuadidos pela aversão à perda. Eles são dissuadidos pelo foco no lado negativo, talvez mais ainda do que cidadãos que não são representantes do povo, porque eles temem que em cada decisão que tomem eles sejam culpados pelo público. Os políticos também são dissuadidos pela necessidade de salvar a própria pele. Eles não querem se arrepender de nada, porque o arrependimento pode lhes custar votos nas eleições. Assim, a sensação ruim que acompanha o arrependimento, no caso dos políticos, também é acompanhada de “pavor eleitoral”. Na realidade, os políticos querem evitar dar a outras pessoas a possibilidade de lhes dizerem “por que vocês fizeram isto?”, então tanto a aversão à perda quanto o arrependimento são muito fortes neles. Isto tudo, é claro, dificulta muito a tomada de quaisquer decisões em prol da paz, e facilita a estagnação. Esta análise, para dizer a verdade, é triste, muito triste. E ela passa a ser mais triste tendo em vista os últimos acontecimentos violentos em Israel.

Dan Ariely é professor de economia comportamental e psicologia na universidade Duke, nos EUA. Ele é autor dos sucessos “‘Previsivelmente Irracional”, “Positivamente Irracional”, e “A mais pura verdade sobre a desonestidade”.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Sem arrependimento”

  • Marcelo Starec

    13/11/2015 at 21:01

    Oi Yair,

    Muito bom artigo!…Obrigado por nos trazer…Conheço esse assunto, relacionado à economia e finanças, bem e portanto me sinto tranquilo para comentar de modo critico. Bom, o fato é que as pessoas não são racionais ao tomar decisões onde há risco – e isso nada tem a ver com judeus, israelenses, americanos, brasileiros ou seja lá quem for….É algo muito fácil de se verificar na prática…Um simples e óbvio exemplo é um projeto de investimento qualquer, digamos a construção de uma casa, onde você compra um terreno e começa a investir em uma obra para fins de construir essa casa. No meio dessa obra, o mercado piora e você descobre que comprar uma casa pronta é mais barato do que prosseguir na obra – o racional seria assumir o erro e a perda, parar a obra e adquirir uma casa pronta no mercado. Mas é difícil alguém fazer isso – a pessoa média continua a construção até o fim, pois não vai “assumir” que errou feio assim…Fato!…Outro ponto importante – o risco, que em meu entender o texto deixa a desejar…É fácil falar quando é o “dos outros” que está na reta (Desculpe pelo meu francês…) mas o israelense sabe que o país é pequeno e um simples erro de estratégia pode terminar gerando um risco existencial…Assim, ao assumir riscos, quem está “na linha de fogo do inimigo” sabe perfeitamente que se errar pagará muito caro por isso…Já pessoas que opinam do “outro lado do mundo” sabem que não serão eles que vão sofrer, se algo der errado – assim, provavelmente, quem está distante terá uma ponderação diferenciada em relação ao risco e em meu entender embora eventualmente a decisão média de quem está mais próximo do problema, portanto assumindo o risco, seja mais conservadora, é esse que tem a responsabilidade de assumir o risco que deve decidir se deseja isso ou não!…E por fim, os 100 anos de agressões aos judeus no Oriente Médio (digo aqueles que foram para lá construir kibutzim, cidades, estradas etc..pois o antissemitismo islâmico já existia, mas o judeu aceitava a “Dhymitude” e nem ousava querer se defender ou ser um “povo livre” antes!…), não ajudam muito na crença de que uma paz seria algo fácil e de bons resultados – a incerteza e o risco são muito grandes – sempre foram!…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    13/11/2015 at 23:19

    Gostei do artigo Yair, mas não sei se ele se aplica quando, como no caso Israel x palestinos, o que está em jogo é a existência do país.
    Foram feitos vários experimentos sobre isso, mas todos tinham algo em comum, os ganhos e as perdas possíveis eram próximas. Por exemplo, pergunta-se a alguém se ele aceita um jogo com chances iguais de perder 10 contra ganhar 12. Se fosse para perder 100 contra ganhar 12, ou vice-versa, não haveria dúvida. Aqui trata-se de ganhar uma vida melhor ou perde-la.

    Outro ponto chave: “porque o arrependimento pode lhes custar votos nas eleições. ” O Abbas e o Khaled Meshaal lhe perguntariam: como assim, que votos? Que eleições? Acho que é por isso que NUNCA houve uma guerra entre duas democracias.
    Shabat Shalom

  • Alex Strum

    13/11/2015 at 23:40

    Parece que este texto se baseia nas experiências do Kahneman e seu companheiro.
    No caso concreto há dois riscos concretos: o risco existencial de Israel como Estado do povo judeu e o risco de perda de vidas humanas.
    A questão, de forma simplificada, é qual o custo em vidas que estamos dispostos a pagar no curto prazo para reduzir o risco existencial, ou de outra forma, para aumentar a probabilidade de fazer a paz, não a certeza.
    Se Israel relaxar medidas de segurança aceitando no limite a criação do Estado Palestino no curto prazo, isto provavelmente irá aumentar o custo em vidas de civis e militares israelenses??? Se sim, a probabilidade de se alcançar a paz é tal que justifica este preço??
    E aí eu me junto ao que disse o Marcelo, para nós, daqui de longe, o custo é zero, mas e quem está lá?
    O ex-embaixador Itamar Rabinovich numa palestra que fez esta semana em São Paulo disse que quando se faz uma pesquisa de opinião em Israel sobre a criação de dois Estados, aprox 70% dos consultados se dizem a favor; porém quando se apresenta a mesma questão para uma decisão concreta 70% são contra (estes números segundo ele são apenas indicativos). O que faz tanta gente mudar de opinião entre uma hipótese teórica e a possibilidade de sua implementação prática???