A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena

04/07/2014 | Conflito, Política.

O fim da missão militar israelense para resgatar os três jovens sequestrados na região de assentamentos de Gush Etzion, ao sul de Jerusalém, revelou o que muitos esperavam, mas não queriam acreditar: os três foram mortos pelos terroristas.

O clima no país tem sido de muita comoção, o mesmo que toma conta de todos quando um ato terrorista é perpretado. Em diversas cidades, pessoas comuns, sem nenhuma relação entre si, se juntaram em praças e rezaram pela alma dos jovens que, ao que tudo indica, foram mortos a tiros antes de terem seus corpos queimados.

O governo israelense disse que manterá parte da missão até que os assassinos (que já foram identificados) sejam achados. Além disso, mantém a linha política de destruição total do Hamas (pelo menos na Cisjordânia).

O gabinete está dividido sobre a violência da resposta. Há setores mais moderados que defendem a guerra ao Hamas e setores mais radicais que defendem uma política mais agressiva. A discussão é que essa política poderia levar ao descontrole da Cisjordânia, situação que o governo israelense quer evitar.

O que temos visto nas redes sociais é uma conclamação à violência, à vingança, perpetuando preconceitos e estimulando a separação entre judeus e árabes.

Hoje em Jerusalém foram registrados casos de violência de judeus contra árabes em uma manifestação organizada por movimentos de direita na entrada da cidade.

O momento é triste, tenso e pode levar a um cenário muito pior.

O que fazer então?

A dor é indescritível e a perda é mais sentida pelo fato de que a morte deixou de ser uma realidade incomum no lado judaico-israelense do conflito. No último ano este é o terceiro atentado, totalizando 5 mortes. Os dois outros mortos foram um soldado e um policial.

Não é momento para exigirmos vingança. Nunca é momento para exigirmos vingança. A história do conflito palestino-isralense é cheia de vinganças e o banho de sangue não pára. A vingança pode ter sido um dos sentimentos que fizeram com que os terroristas sequestrassem os jovens.

Hoje, em mais um dia triste na região, devemos clamar por calma. Temos o dever de sermos racionais, de nos diferenciarmos mais ainda dos terroristas. Não podemos espalhar palavras de ódio, racistas, que ocasionarão em uma fragmentação social ainda maior, dentro de Israel e entre Israel e a Palestina. Não podemos incitar e nem exigir dos governantes que tomem medidas desproporcionais que poderão causar a morte de mais inocentes.

Devemos, sim, exigir o fim do terrorismo, bem como exigir de todas as autoridades envolvidas que se empenhem nisso de forma verdadeira e busquem a construção de uma política profunda de paz, que não envolva somente a definição de fronteiras, mas que permita a difícil cicatrização de feridas.

Israel por um período utilizou uma política de “caça aos líderes” do Hamas. Não funcionou. É fundamental que se acabe com as estruturas do Hamas e isso só será possível através da via diplomática, fortalecendo o Fatah e isolando o grupo terrorista.

As recentes ações militares de Israel tiveram como consequência o fortalecimento do grupo terrorista e o aumento no número de grupos radicais que não respondem ao Hamas. Além disso, políticas de retaliação e de punição coletiva só servirão para dificultar um processo de paz, como mostrado em recente pesquisa de opinião realizada poucos dias após o sequestro no início da operação militar israelense.

Precisamos construir uma relação de confiança entre os povos que é impossível através das armas e da violência. É fundamental que conversemos. Temos que escutar a quem tem algo a dizer e isso só é possível com o fortalecimento da democracia em Israel e na Palestina. Israel precisa ser uma alternativa viável ao Hamas.

Os mais de 10 milhões de habitantes que residem em Israel e Palestina deverão fazer concessões dolorosas para que isso aconteça. TODOS deverão ceder. Temos que saber se cada um de nós está pronto para isso.

Hoje, mais do que nunca, é fundamental que lembremos do maior ensinamento da cultura judaica:

Ame ao próximo como a si mesmo – וְאָהַבְתָּ לְרֵעֲךָ כָּמוֹךָ

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Foto de capa retirada do site: http://jpupdates.com/wp-content/uploads/2014/06/bring-back-our-boys-turx.jpg

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena”

  • Mario S Nusbaum

    05/07/2014 at 02:20

    “Temos o dever de sermos racionais, de nos diferenciarmos mais ainda dos terroristas.” Se Israel não reagir à altura, sem dúvida os israelenses se diferenciarão mais ainda dos terroristas, serão mortos e eles vivos distribuindo doces para celebrar.

    “Israel por um período utilizou uma política de “caça aos líderes” do Hamas. Não funcionou. ”
    Há controvérsias. Muita gente diz que resultou em uma diminuição dramática no número de atentados. Na minha opinião é a política mais eficaz. Para quem duvida pergunto: onde mora o Khaled Mashal?

  • Marcelo Starec

    05/07/2014 at 03:07

    Marcos,

    Parabéns pelo excelente artigo!…Fiquei muito satisfeito em ler…Não vou dizer que concordo, em termos exatos, com cada virgula deste artigo, mas plenamente com a sua essência. É importante ter calma, lutar contra o terrorismo que, inclusive, está fulminando não apenas a vida de israelenses e particularmente no caso desses três meninos, que nada fizeram além de tão somente serem judeus! Há também inúmeras vidas ceifadas pelo terrorismo na África e no próprio Oriente Médio (principalmente no Iraque e na Síria). É obrigação moral de Israel e do mundo inteiro combater o terrorismo! E medidas como desrespeito, discriminação e atos do gênero não são condutas compatíveis com a nossa moral e ética, portanto mais uma vez quero te parabenizar por essa mensagem, tão importante nesse difícil e doloroso momento para todo o povo judeu.
    Abraço,
    Marcelo.

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