Ser anti-Israel agora é “cool”!

26/08/2015 | Conflito; Opinião; Política

A grande vitória da campanha anti-Israel ao redor do mundo não é um suposto ganho de consciência sobre a causa palestina. Na realidade, a vitória reflete a criação de uma narrativa dicotômica, que oferece aos observadores do conflito árabe-israelense apenas duas alternativas: ser anti ou pró-Israel.

Essa retórica binária possui dois impactos. Primeiro, ela suprime posições equilibradas que visam uma avaliação mais objetiva e menos ideológica do conflito. Segundo, ela coloca Israel (não o conflito em si) como ponto de referência, expondo suas políticas e protegendo a causa palestina de possíveis críticas. Do ponto de vista estratégico, não poderia haver pior situação para Israel – o país está constantemente na defensiva, buscando incessantemente justificar-se e sem qualquer poder de trazer os erros cometidos pelo lado palestino para o centro do debate.

A derrota israelense na luta pelo controle da narrativa sobre o conflito é fruto da fragilidade de sua diplomacia pública, e da sagacidade do movimento anti-Israel em construir um discurso que favorecesse seus interesses. Obviamente, há outros fatores envolvidos nesse processo, como o contínua construção em assentamentos. No entanto, a política de construção nos territórios ocupados existe há muito tempo e apenas nos últimos anos observa-se uma retórica anti-Israel tornando-se norma no mundo ocidental. A questão é por que justo agora? Por que a crítica ao governo israelense tornou-se a nova narrativa do conflito árabe-israelense? Especificamente à essa pergunta minha resposta é o desgaste da estratégia diplomática de Israel junto ao uso inteligente das fragilidades da mesma por parte de movimentos anti-Israel.

Há tempos que a diplomacia israelense baseia-se na ideia de “hasbara”, explicação em hebraico. Pensemos por um instante na lógica por trás da ideia de “explicar-se”.  Em geral, a necessidade por explicações se faz presente quando um erro é cometido ou quando certas atitudes tornam-se ininteligíveis aos olhos daqueles que observam. Nos dois casos a mensagem é negativa e indica um sério problema de comunicação.

Nem sempre foi assim, deve-se dizer. A estratégia de “explicação” por muitos anos preservou Israel como a vítima do conflito e permitiu ao país determinar a narrativa histórica a ser adotada. No entanto, por tanto explicar-se, Israel terminou por dar margem a perguntas que afetariam completamente o psicológico ocidental. A principal delas é “por que israelenses estão sempre se justificando perante o mundo?”

O movimento anti-Israel entendeu o poder desse questionamento, inerente à estratégia diplomática israelense, e construiu sua narrativa baseada em uma resposta a ele – “Israel está sempre se justificando porque constantemente comete crimes que exigem retratação”. Nada mais claro e objetivo. Explorando os pontos fracos da “explicação” israelense, esse movimento (que por muitas vezes apresenta-se pelo nome de BDS) transformou a então vítima do conflito no vilão de um novo discurso.  

O impacto dessa inversão retórica vai além. Atualmente, Israel não mais explica-se porque assim deseja, mas porque o mundo passou a exigir essas “explicações”. O que antes era uma iniciativa – Israel explicava-se para determinar a narrativa sobre o conflito – tornou-se uma reação por necessidade – “Israel explica-se porque assim é exigido”. Essa é, certamente, uma dinâmica problemática do ponto de vista israelense. Nela Israel perdeu seu papel de agente da história.

 O quadro torna-se ainda mais grave se considerarmos que nessa nova dinâmica os objetos de análise mudaram. Terrorismo, Autoridade Palestina, Mahmmoud Abbas e Hamas tornaram-se aspectos periféricos, meros assuntos tangenciais no debate sobre a política israelense. Na avaliação que o mundo faz sobre o “conflito” a discussão é centrada no bloqueio a Gaza, na ocupação de territórios, na questão de Jerusalém, nas operações militares e em um suposto apartheid perpetuado pelo governo israelense. Não há como negar; o ponto de referência nas perguntas que o mundo ocidental faz sobre o conflito árabe-isralense pendulou para “o lado sionista”. Hoje, a demanda é por análises das atitudes de Israel, pressupondo que o governo israelense age num vácuo geopolítico.

No entanto, o mais perigoso dos aspectos envolvidos nessa nova retórica é a ausência de soluções. Por basear-se em um par binário – pró ou anti-Israel – a narrativa que se consolidou tornou a situação em um jogo de soma zero. Ou ganham os prós ou os antis, sem possibilidade de empate. O problema é que nesse jogo Israel está fadado a derrota. Atualmente, ser favorável às políticas israelenses apenas fomenta o extremismo do outro lado, mas o contrário não é verdadeiro. O movimento anti-Israel não já não atrai mais pessoas para o campo israelense, pois os termos do debate já não o favorecem. Infelizmente para aqueles de opiniões equilibradas, ser anti-Israel agora é “cool”.

Como explicado anteriormente, a retórica atual é centrada na ideia de que Israel é quem deve explicar-se por supostos erros que comete, favorecendo a crítica ao país. Nessa retórica não há espaço para convencimento, apenas para defesa. No canto do ringue, Israel se defende dos ataques que sofre, e o oponente parece dar apenas uma opção: render-se, o que em termos práticos  significa esperar pela completa deslegitimação do Estado de Israel na esfera internacional.

Qual é a lição que se deve tirar dessa análise? Primeiro, que é difícil esquivar-se do discurso maniqueísta. Ele é tentador pois constitui um modelo de simples entendimento da realidade, na medida que a reduz e a deturpa. Segundo, a retórica “preto-e-branco” suprime o espaço para questionamento e equlíbrio. Por fim, deve-se entender que ser anti ou pró-Israel não ajuda na solução do conflito, apenas afasta qualquer possibilidade de diálogo e coexistência. Para aqueles que visam a paz, o primeiro passo é romper com os discursos extremos. Somente assim, uma nova retórica, mais genuina e objetiva, poderá emergir. Nela, ser “cool” não constitui ser pró ou anti, mas simplesmente evitar posições absolutas que mais alienam do que ajudam. 

Comentários    ( 6 )

6 comentários para “Ser anti-Israel agora é “cool”!”

  • Ricardo Schmitman

    26/08/2015 at 22:28

    É importante analisar que esta questão aparece no momento em que os problemas de sobrevivência de Israel não mais existem. Vejamos, até a década de ’80 a segurança de Israel era um problema real, havia forças que eventualmente poderiam exterminar Israel. Hoje Israel não sofre esse tipo de pressões. Os grandes países árabes estão imersos em seus próprios problemas. Os Iranianos, não árabes e xiitas, tentam resolver seus conflitos com os sunitas e realmente, fora de uma retórica vazia, pouco se importam com Israel.
    Neste contexto de quase inexpugnabilidade em que se encontra Israel, começam a ressurgir os velhos movimentos antissemitas de sempre.
    Esta é a origem dos problemas diplomáticos.
    Claro está também que o governo de Israel em nada colabora para melhorar a coisa.
    Gosto dizer que hoje Israel tem dois inimigos: os antissemitas e o governo de Israel. E tenho dúvidas sobre qual pode fazer mais dano.

  • A. Benchimol

    27/08/2015 at 16:08

    Excelente, Bruno. Hasbará é velho. Muito velho.

    Eu acrescentaria ao artigo a questão da diaspora como uma ancora que espera de Israel uma postura que seja compatível a suas expectativas políticas e morais, complicando ainda mais o problema de RP do Estado de Israel.

    Abs!

  • Farid

    28/08/2015 at 17:28

    Desde a criação do Estado de Israel, as políticas adotadas são desastrosas, agravando mais ainda os ânimos já exaltados dos palestinos que perderem 50% do seu território. A sorte para Israel, foi o fato de as informações de abuso e tirania não chegarem diretamente ao mundo como hoje.
    É sabido que os primeiros imigrantes do século XX haviam sido recebidos de braços abertos pelos moradores da região, tanto árabes quanto judeus, mas o plano sionista incitou ações pouquíssimo divinas, ou seja, ataques às aldeias, para obrigar a saída dos não judeus, fato inaceitavel para quem pretendia implantar uma política de estado religiosa, no sentido sagrado do termo.
    Mas sabemos que caridade, compaixão, verdade, igualdade, não estão no dicionário do extraterrestre Yawé, que já havia fugido de várias guerras em outros planos e dimensões, e era proibido de divulgar seu nome para não ser encontrado por inimigos. Mesmo assim, provavelmente sensibilizado pela mediunidade e obediência de Abraão, desejou auxiliar algumas pessoas.
    Errou ao se afastar por muito tempo, provocando o nascimento de Ismael, que mais tarde, após a inseminação de Sara, seria enviado ao deserto. Também errou ao exigir o sacrifício de Izak, cujo fato, obrigou-o a se afastar definitivamente de Abraão, tendo esse sido este, o último contatos entre eles. Após este episódio traumático e radical, que deixava clara a índole irada de Yawé, e o amor incondicional de Abraão, este último perde o amor e a confiaçã de Izak e de Sara, que morre pouco depois. Enfim…
    Lamentavelmente, o que se vê na Terra hoje, é apenas um reflexo do que ocorre no submundo dos universos, em um nível um pouco mais baixo, é claro, portanto e se não quisermos seguir o caminho da auto-destruição, temos que acordar de uma vez por todas para essa dura e cruel realidade. Escondida a sete chaves por alguns governos para eviatr o caos no mundo, e conservar seus interesses também.
    As tábuas sumérias estudadas por 30 anos por Zecheria Schtin, autor de vários livros, podem ajudar quem pretende ingressar nesse novo conhecimento… Bem como o livro da jornalista americana Leslie Kean, “UFOS” que tras declarações de altos funcionários do governo sobre o tema.

    • Raul Gottlieb

      30/08/2015 at 13:17

      Interessante avaliação dos acontecimentos atuais e passados, Farid. Fiquei apenas com uma dúvida: a mula sem cabeça que anda pelos sertões do Brasil tem algum parentesco com o burrico de Balam filho de Peor?

  • Marcelo Starec

    28/08/2015 at 20:09

    Bruno,

    Parabéns!…Excelente artigo!…Inteligente e toca em pontos centrais para o entendimento desse conflito, do ponto de vista de como as pessoas estão lidando com ele…Sua conclusão é ótima: “Primeiro, que é difícil esquivar-se do discurso maniqueísta. Ele é tentador pois constitui um modelo de simples entendimento da realidade, na medida que a reduz e a deturpa. Segundo, a retórica “preto-e-branco” suprime o espaço para questionamento e equlíbrio. Por fim, deve-se entender que ser anti ou pró-Israel não ajuda na solução do conflito, apenas afasta qualquer possibilidade de diálogo e coexistência. Para aqueles que visam a paz, o primeiro passo é romper com os discursos extremos. Somente assim, uma nova retórica, mais genuina e objetiva, poderá emergir. Nela, ser “cool” não constitui ser pró ou anti, mas simplesmente evitar posições absolutas que mais alienam do que ajudam.”…Perfeito!…´

    Um abraço,

    Marcelo.

  • Iana Abecassis

    11/09/2015 at 00:49

    Bruno,

    Lendo o seu artigo, é possível perceber que não há receio da sua parte fazer com o que o leitor realmente entenda o conflito no qual Israel está mergulhado.

    Você é o meu escritor preferido!

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