Falha, mas não tarda

27/09/2017 | Ciência e Tecnologia

Série Start-Up Nation

O mundo paralelo da Start-Up Nation parece ficção científica, só que não. Esse universo construído em Israel espelha as características do próprio povo – como a pressa –, fazendo com que o país seja como um motor em louquíssima rotação.

O título pode parecer estranho, já que o mundo se acostumou a pensar que “tudo o que judeu faz dá certo”. Ilusão: segundo os dados apresentados por Udi Aharoni, CEO do Lahav Executive Education at the Coller School of Management da Universidade de Tel Aviv, apenas 4% das start-ups israelenses são bem-sucedidas a ponto de chegar à sua etapa final:
1. Abertura de capital (de preferência na Nasdaq, claro, na qual coabitam 94 empresas israelenses);
2. Exit (ser vendida a uma grande corporação);
3. Transformação em uma das gigantes mundiais.

Para colocar isso em números, tenhamos em vista que das atuais 6,5 mil start-ups que existem hoje no país (25 mil entre 1980 e 2016), apenas 290 verão o sol brilhar, depois de tantas luas de trabalho alucinado, apaixonado e violentamente veloz.

Mas para que a pressa? Não há uma explicação empresarial para isso, mas por muitos motivos históricos e práticos o israelense simplesmente é assim: um cara apressado. E por essa razão não tarda em fazer de tudo, inclusive tomar decisões precipitadas, para chegar a um desses três momentos. Como o terceiro exige justamente a paciência que ele não tem, isso acaba acontecendo muito pouco, o que é visível no mundo empresarial local, formado por milhares de pequenas companhias s e corporações a se contar em poucos dedos das mãos.

Passei uma semana incrível acompanhando um grupo de empresários brasileiros que vieram a Israel para entender o ecossistema de inovação israelense. Visitamos start-ups, ouvimos palestras geniais – algumas delas explicando a origem do país e a problemática em relação às suas fronteiras, uma forma de compreender um pouco a psique desse mercado em turbulência – e conhecemos algumas empresas de investimento, as tais Venture Capital (VC), que hoje somam nada menos do que 250 atuando dentro de nosso diminuto país. Em uma delas, a Vintage, os empresários dos países das “big corporations” foram descritos como quadrados, enquanto os israelenses foram comparados a esferas. Enquanto os primeiros são mais estáveis, planejam metas no longo prazo e são mais conservadores, os segundos são inquietos, apressados e fluem de acordo com a demanda do momento – e por isso fortemente empreendedores. Mas tente construir uma torre sobre esferas e veja o que acontece…

Falemos, nesse texto, sobre a pressa.

O fato é que israelense tem uma pressa louca. Basta ver o seu comportamento no trânsito ou sua falta de vocação para formar filas para entender. É por isso que um dos papéis das VCs, que são um elo fundamental dentro da cadeia que leva uma ideia doida a transformar-se em uma solução genial, é justamente tentar cultivar paciência dos start-upistas. Essa é uma missão quase impossível, segundo uma das diretoras da Vintage, cujo papel é colocar ao redor da mesa de negociações as grandes corporações e as start-ups que oferecem as soluções que elas precisam para manter a competitividade de seus negócios. “Tudo neles é diferentes, desde a forma de se vestir até o palavreado”, ela descreveu para os empresários brasileiros participantes, cuja média de idade era 40 anos.

O pioneiro sionista – Adorei imaginar Theodor Herzl, o criador do movimento sionista, como o primeiro start-upista da história – e essa imagem foi evocada pelos palestrantes diversas vezes. Faz sentido. Afinal, quem em pleno fim do século 19 imaginaria ser possível criar do nada um Estado judaico? Pois esse jornalista deu o exemplo que hoje se tornou o grande sonho de consumo dos jovens israelenses, que não planejam ser advogados ou médicos (como diz a mais piada batida sobre a mãe judia que apresenta seus dois bebês à vizinha dizendo “esse é Jacó, o médico, e aquele é Isaac, o advogado”). Hoje a meta é terminar o serviço militar e, em seguida, o quanto antes de preferência, fazer seu primeiro milhão de dólares.

E aí a gente chega em uma das palavras mais usadas nas palestras ao longo dessa semana: exército. Esqueça o lado externo da coisa – tanques, explosões, conflitos, tensão – e pense no escudo antiaéreo Domo de Ferro ou no sistema de reconhecimento de fisionomia, na capacidade de tomada de decisões, no investimento monumental do governo em soluções de segurança, na extrema capacitação dos jovens que obrigatoriamente compõem essa entidade, na formação de parcerias e de um círculo de confiança praticamente inabaláveis entre eles.

Ou seja, é impossível negar o papel da Força de Defesa de Israel na consolidação da Start-Up Nation. “Complete the mission” é o lema de cada um deles, e “is there a future?” é a pergunta. Vivendo em um país que pode ser percorrido de ponta a ponta em 6 horas e situado entre vizinhos muito pouco amistosos, o jovem israelense sabe que existe o hoje – e vive o tempo inteiro no momento presente. Quem vive aqui sabe que não há um único israelense que não tenha contato com uma família que perdeu um de seus jovens em guerras ou em atentados. Convenhamos, isso dá uma pressa danada em consolidar já os planos do futuro, que a Deus pertence. Isso faz você pensar que israelense é um povo infeliz? Nã-nã-nã. Segundo o World Hapiness Report, que mede o índice de felicidade das populações mundiais, Israel está na 11ª posição, logo depois da Suécia e da Austrália.

Cara de pau e desrespeito à autoridade – “Chutzpá” é uma das palavras que aprende-se logo na primeira semana de vida em Israel e seu equivalente mais próximo em português é “cara-de-pau”. Isso incomoda um bocado nos momentos em que você está na fila do supermercado há duas horas e aparece uma dona do nada, dizendo que há duas horas e 30 segundos estava aguardando na sua frente (enquanto terminava as compras). Mas quando se trata do mundo de negócios é uma bênção.
O israelense não tem medo de perguntar e de tentar, e também não teme fracassar. Esse é, aliás, um dos pontos fortes da cultura local que os torna tão inovadores e empreendedores: a falha é vista como uma iniciativa e pronto. “Se o start-upista chega até nós depois de ter falhado uma vez, ganha pontos: ele ganhou experiência, e fez isso com o dinheiro dos outros, não com o seu”, disse um megainvestidor irônico de uma incubadora de start-ups, a Sosa. Ou seja, enquanto na Ásia a falha leva ao suicídio e no Brasil ao fim do crédito no banco, em Israel ele agrega pontos à imagem do empreendedor.

Também um certo desrespeito à autoridade é derivado da urgência israelense e remonta à própria criação do Estado. Nessa hora é importante lembrar que, em 1947, com a Partilha da Palestina, os judeus do mundo viram-se com um pedaço de terra na mão, apressaram-se em se deslocar para cá de todas as partes do mundo e encontraram um terreno desolado e de dar dó: 53% do país compostos por terras desérticas, um outro tanto por terras alagadas, um legado com nenhuma infraestrutura e um bocado de inimigos internos e externos. A independência foi conquistada na base da força e da ideologia. Essas pessoas eram jovens que, para ganhar agilidade, decidiram: somos todos um e falamos de igual para igual.

O livre – e superestimulado – debate de ideias tem origem na tradição judaica de educação. O Talmud, nada menos do que um “tratado” que organiza (para quem entende) e condensa toda a sabedoria milenar judaica, é aprendido na base da discussão. Cada frase é exposta, dissecada, discutida, interpretada e organizada pelo mestre e seus alunos. Um estilo muito popular de ensino ainda hoje baseia-se no sistema de “chevruta”, ou seja, o estudo em pares. Mais debate.

Assim, ainda hoje, o bebê israelense que arranca do coleguinha a bola, a criança que confronta a professora sem dó e o jovem funcionário da empresa que invade a sala do CEO para dizer que não concorda com sua estratégia remetem a esse momento histórico. Hoje sabemos que a insistência em cultivar o solo pedregoso criou o deserto vivo do Neguev, onde hoje se colhe até uvas e morangos, da mesma forma que molda um dos lemas dos start-upistas, “Everything is possible”.

Pragmatismo é outra característica do israelense, essa herdada da história milenar judaica. “Quem sabe faz a hora”, sábia frase do Geraldo Vandré, é aplicada no cotidiano dos start-upistas. Uri Levine, co-fundador do Waze e um dos palestrantes, confessou em sua apresentação que constrói start-ups para mudar aquilo que o incomoda, como o trânsito, a dificuldade de receber de volta o imposto de compras realizadas no exterior ou de entender quais são as taxas que ele paga em investimentos bancários (essas duas últimas são o tema de duas de suas atuais 7 start-ups). Fora isso, judeu quer mudar o mundo, né? Basta ver Abrão, que no meio da era do paganismo apareceu com o conceito maluco de um único Deus.

Quem então acreditaria que essa ideia daria certo?

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