Serviço Secreto insano?

29/11/2014 | Conflito

Às vezes, confesso, questiono a sanidade dos meus argumentos. Tantas pessoas inteligentes tentam convencer-me do contrário, que minhas convicções sobre o caminho para chegarmos à paz com os palestinos balançam. Importantes intelectuais e alguns amigos (não menos prestigiosos), sempre equilibrados e donos de valores estimáveis, já não creem na solução de dois Estados. Alguns deles crêem que os próprios palestinos, através de suas lideranças, não o desejam. Um deles é Benny Morris[ref]Em excelente entrevista no Roda Viva, Morris explica sua convicção. Ainda não tive tempo de ler seu novo livro, sobre a solução de dois Estados.[/ref]. Ao ler o artigo de Ari Shavit (comentado pelo amigo Marcelo Treistman), pus outra vez em cheque o realismo do que eu defendo. Será que estou sendo demasiadamente otimista? Será que Netanyahu tem razão quando afirma que as lideranças palestinas não demonstram o suficiente para chegarmos à paz? Será que este conflito já não tem mais solução (se é que alguma vez houve)?

Quando começo a por em cheque convicções tão profundas, busco responder minhas próprias perguntas a partir de um processo constituído por três etapas: (1) Repensar minhas convicções de forma geral, com o objetivo de descobrir alguma contradição minha; (2) Buscar as motivações dos personagens centrais que discordam de mim na construção de suas posturas; (3) Buscar argumentos de gente que eu valorizo, que defende as mesmas ideias que eu.

O ítem 1 é extremamente pessoal, portanto me dou o direito de ignorá-lo neste artigo. Entre as mais diversas discussões reflexivas feitas por mim comigo mesmo, cruzei os ítens 2 e 3 por diversas vezes, e cheguei à conclusão (mais uma vez) de que há sanidade nas minhas convicções (eu não sou louco, juro!!!). Devo confessar que personagens como Bennet e Libermann (e seus asseclas nos respectivos partidos) desequilibram o jogo, tamanha a quantidade de barbaridades proferidas. No Likud, não faltam peças-chave que me dão confiança, embora haja vozes dentro do partido que às vezes me confundam. Dentro das esquerdas, apesar de alguns devaneios, a lógica ainda me parece mais coerente e razoável. Gostaria, no entanto, de destacar um grande embate.

Benjamin Netanyahu (ou Bibi), Primeiro Ministro de Israel, afirmou pela milionésima vez após um ato de violência vindo dos palestinos, que o Presidente da Autoridade Palestina (AP) Mahammoud Abbas incita a violência e atos terroristas. De tantas vezes que esta acusação foi repetida, naturalmente eu começo a pensar se faz sentido tal comentário. É verdade que às vezes Abbas faz comentários desnecessários e, sobretudo após a última guerra em Gaza (Operação Margem de Proteção), o líder palestino foi infeliz em alguns comentários. Obviamente, na minha retórica introspectiva com status de pilpul[ref]Forma tradicional de estudar o Talmud, desenvolvido na Europa medieval, que consiste em perguntas retóricas respondidas por si mesmo, buscando uma lógica circular. Espécie de sofisma ou epiqueia judaicas.[/ref] já havia percebido contradições no discurso de Netanyahu há tempos: por que não acusar os políticos da direita religiosa, que insistem em subir a Esplanada das Mesquitas (ou Monte do Templo) em um período tão hostil? Isto não seria incitar a violência? Contradições (hipócritas) à parte, isto não anula a possibilidade de o Primeiro Ministro ter razão em relação a Abbas. Será que o Presidente palestino estaria buscando a Terceira Intifada?

(Clique aqui e aqui para um panorama geral sobre o que aconteceu estas semanas em Israel e Cisjordânia).

Yoram Cohen
Yoram Cohen

Eis que, neste momento, quando já não esperava mais nada de novo, surge um personagem que me faz voltar ao meu senso de realidade. Yoram Cohen, Diretor Geral do Shin Bet (Serviço Secreto Israelense) discordou publicamente do Primeiro Ministro, de forma inédita na história do Estado de Israel, afirmando que Abbas não incita a violência nem publicamente nem “por baixo da mesa”. Esta não é a primeira vez que um personagem ligado à segurança descorda de Netanyahu em público de forma inédita: O Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Benny Gantz, no auge da polêmica com o Irã, manifestou-se publicamente de forma contrária a um eventual ataque.

Os chefes do Shin Bet e do exército, de forma inédita, discordam de Netanyahu publicamente. Não é comum que isto aconteça em Israel, visto que o exército e o serviço secreto estão submetidos ao Primeiro Ministro. Mas aconteceu. Me dá a clara impressão de que Netanyahu busca saídas eleitoreiras e demagógicas para as crises de segurança do seu governo, buscando inimigos a qualquer preço e inventando factoides.

Interessante notar que o Shin Bet, que tem como objetivo claro desmantelar o terrorismo em Israel e nos territórios ocupados, tenha tido tantos chefes com opiniões com as quais compartilho. Se você não leu, caro leitor, o artigo escrito por Marcelo Treistman há pouco mais de um ano, sobre o filme Gatekeepers[ref]Documentário feito a partir de entrevistas com seis dos últimos sete chefes do Shin Bet[/ref], leia aqui. E assista o filme. Você perceberá que a grande maioria dos chefes do serviço secreto são radicalmente contra a ocupação, além de favoráveis ao diálogo com quem quer que seja e esteja disposto a dialogar.

Yoram Cohen tem acesso a informações que nós estamos longe de conhecer. Sabemos a partir de diversos relatos que o trabalho do serviço secreto é anti-ético e fere os direitos humanos, tudo isso em prol da segurança dos cidadãos israelenses. Estas mesmas pessoas, que sabem quase tudo o que acontece do outro lado, que estão dispostas a corromper seu caráter em função da proteção do país, avisam: Abbas não incitou violência. E Yoram Cohen disse mais: a subida de políticos de direita ao Monte do Templo é um pedido explícito por reações violentas por parte dos árabes. Ou seja: quem incita a violência são os radicais da extrema direita israelense (que não são poucos).

Yoram Cohen tem meu respeito. Cohen não é um ativista de esquerda, é inclusive um judeu ortodoxo, que usa kipá de crochê, marca dos sionistas-religiosos. Mas a extrema-direita israelense não se importa: Tzipi Hotovely (Likud), uma das que subiu à Esplanada, já pediu a demissão de Cohen. Não raro se vê nas redes sociais vozes chamando Yoram Cohen de “esquerdista antissionista”. Os ataques verborrágicos são justamente os que me devolvem à minha situação de sanidade, e me dão a segurança nas minhas convicções.

Ao perceber que o chefe do Shin Bet desautoriza as declarações de Netanyahu, e posteriormente é atacado ferozmente por ativistas intolerantes da extrema direita, concluo que minhas crenças não mudaram. Por sorte há gente com coragem e equilíbrio, que desconstroi discursos demagógicos e nos mostra que além da política há uma razão. E é nessa que eu acredito.

Comentários    ( 9 )

9 comentários para “Serviço Secreto insano?”

  • Mario S Nusbaum

    29/11/2014 at 20:24

    OK João, e o que você achou da declaração do John Kerry
    “The US secretary of state, John Kerry, blamed Palestinian leaders for the death of three American rabbis in Jerusalem on Tuesday, suggesting the brutal murders in a synagogue were “a pure result of incitement” by groups like Hamas and Fatah.”
    Imagino que ele também sabe muita coisa que nós não sabemos, e não é exatamente um amigo do Netanyahu.

    Quanto aos que insistem em subir Temple Mountain, imagino que a motivação varia de um grupo para outro, mas tenho uma pergunta.
    Quem é mais provocador, quem quer rezar ou quem quer IMPEDIR outros de rezar? Essa questão é simbólica, porque deixa claro que para os palestinos os judeus não devem ter direitos. Finalizo dizendo que a minha opinião sobre as lideranças palestinas não foi formada apenas pelo que elas fizeram (na verdade mais DEIXARAM de fazer) nos últimos meses e imagino que a do Netanyahu também não. Lembra quando o Abbas disse que a paz seria possível em 6 meses se Israel congelasse os assentamentos? Israel congelou por 10, e ele esperou até o último para pedir uma extensão.

  • Mario S Nusbaum

    29/11/2014 at 20:33

    Acho importante dizer que, na minha opinião, o Netanyahu não faz nenhuma questão de negociar, mas teve a sorte de ter do outro lado alguém que faz questão absoluta de NÃO negociar. Se eu fosse ele marcaria reuniões com os palestinos todas as semanas, e tenho certeza de que o Abbas inventaria pretextos para não comparecer a nenhuma delas.

  • Marcelo Starec

    29/11/2014 at 20:42

    Oi João,
    Se você ainda não teve tempo de ler o último livro do Benny Morris, eu te recomendo fazer isso, já estou lendo pela segunda vez – a entrevista foi interessante, mas o livro é realmente muito bom, vale a pena!…Quanto a questão do Abbas não incitar a violência, embora eu seja menos informado do que pessoas que você sitou, eu discordo. Entretanto, em meu entender, a questão não se restringe a confiar ou não no Abbas, mas também em saber se após ceder algo tão importante, para infiéis, ele ainda assim teria força suficiente para se manter no poder e cumprir aquilo que foi acordado. Acho que se há uma chance real de ter o Hamas jogando mísseis em Tel Aviv, no Aeroporto Internacional Ben Gurion e em Jerusalém com facilidade, ceder no limite só é possível mediante uma real garantia de paz e só para terminar eu nem mesmo tenho certeza de que o Abbas ganharia as eleições palestinas, caso um pleito fosse realizado hoje e menos ainda após um acordo onde, pela primeira vez em muito tempo, um líder islâmico teria de abrir mão de parte de sua narrativa.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    30/11/2014 at 00:21

    Lembrei de mais uma atitude do Abbas João:
    “According to the official Palestinian Wafa news agency, Abbas on Monday imposed a sentence of hard labor for life on “anyone diverting, renting or selling land to an enemy state or one of its subjects.”
    Fico emocionado com o pacifismo dele!

  • Raul Gottlieb

    30/11/2014 at 10:45

    João,

    O incitamento de membros da direita em Israel não acarreta que na ausência de incitamento no lado Palestino, nem que haja por parte dos Palestinos um movimento expressivo a favor dos dois estados.

    Pelo que li no Ynet, a avaliação do Yoram Cohen se refere exclusivamente ao recente evento da esplanada das mesquitas. Ele diz que Abbas não está interessado no terror neste momento, nem está incitando ao terror neste momento.

    “Abbas is not interested in terror and is not inciting to terror. He’s not even doing so behind closed doors,” Shin Bet head Yoram Cohen told the Knesset’s Foreign Affairs and Defense Committee.”

    Contudo, Cohen disse que parte dos palestinos percebe que as declarações de Abbas legitimam o terror: “Nonetheless, Cohen did say that “some part of the Palestinian public views (Abbas’) statements as legitimizing terror.”

    Penso que você está generalizando a partir de um episódio, onde o serviço secreto fez uma avaliação pontual ao governo e ao Knesset que disse respeito exclusivamente àquele episódio.

    Se for para generalizar eu me vejo pensando sobre o que é realmente provocativo: construir uma mesquita no local sagrado para os judeus ou defender o direito de judeus e muçulmanos rezarem juntos naquele local?

    Abraço,
    Raul

    • Mario S Nusbaum

      30/11/2014 at 21:22

      Raul, perguntei em blog aqui no Brasil: quem tem superioridade moral, quem quer rezar junto ou quem que exclusividade?
      No mesmo blog perguntei a um muçulmano brasileiro: o que você diria se fosse proibido de entrar em Aparecida? E isso sem considerar que Aparecida não é significativa para ele.
      Se ANTES de terem um país os palestinos já praticam a segregação, não entendo como alguns conseguem achar que eles querem um acordo.

  • Raul Gottlieb

    02/12/2014 at 13:26

    Mario, a segregação é inerente do Islã, penso eu.

    Uma vez fui às ilhas Maurício (na África, ao lado de Madagascar). A ilha tem uma população dividida, um pouco mais da metade é descendente de hindus e um pouco menos da metade é descendente de muçulmanos,

    Pudemos entrar em todos os templos hindus da ilha. Pudemos passear pelos templos durante as cerimonias, chegar ao lado dos altares, ver as oferendas das famílias, etc. Sem restrição alguma, sem nenhuma exigência de nada.

    Não pudemos entrar em nenhuma mesquita – e haviam algumas grandes e muito bonitas. Estrangeiros não podem chegar perto dos templos da “religião do amor”.

    Em Istambul pudemos entrar nas mesquitas, mas eu acho que elas eram mais atrações turísticas do que qualquer outra coisa.

    Apenas muçulmanos podem entrar na cidade de Meca. Mas nada disto muda a opinião dos que pretendem serem todas as culturas equivalentes.

    Abraço, Raul

    • Mario S Nusbaum

      03/12/2014 at 21:39

      Você tem toda razão Raul, cansei de perguntar para os anti-Israel (anti-semitas na maioria) porque eu posso entrar no Vaticano mas não em Meca e nunca obtive resposta. Pela minha experiência, praticantes de uma religião gostam de receber “infieis” em seus templos e sentem prazer em falar sobre sua fé.
      Alguns anti acusam Israel de restringir a prática religiosa e eu sempre respondo que é verdade, judeus não podem praticar a sua no Temple Mount. Eu pelo menos não conheço outra restrição.
      um grande abraço e não vamos desistir de mostrar o óbvio.

  • Raul Gottlieb

    03/12/2014 at 22:56

    Mario,

    Não vamos desistir, sem dúvida.

    A meu ver uma religião que não permite a não aderentes observar seus cultos adota a visão de que a presença de não aderentes profana (torna impura) a sua prática.

    E o desenvolvimento habitual da cultura que segrega pessoas em categorias pura e impura é o extermínio dos impuros.

    Desde o século VII eles estão empenhados nesta faxina, da qual os judeus são apenas um dos alvos.

    Você sabia que Paquistão quer dizer “terra dos puros”? Veja na Wikipedia: “Os paquistaneses relacionam o topônimo com o vocábulo pak (“puro”, em persa e urdu), que daria ao nome do país o sentido de “Terra dos Puros”.

    Eles escolheram este nome mimoso ao se separar da Índia após o final da colonização britânica em 1947. Ora, se eles se chamam “os puros” o que somos nós todos (e principalmente os hindus)? Evidentemente impuros, não é mesmo?

    Abraço, Raul

Você é humano? *