Seu eu me esquecer de ti ó… de quem?

“Há uma história sobre um turista que pergunta a um judeu israelense:
– Por quê você veio para esse país?
E o judeu israelense diz:
– Viemos para cá para esquecer.
E o turista pergunta:
– Para esquecer o quê?
E o judeu israelense diz:
– Eu me esqueci.
O primeiro esquecimento é saudável e desejável. O segundo não é. É bom esquecer. Não é bom esquecer o que esquecemos.” – Amós Oz, entrevista ao programa Roda Viva, 02/01/2012

Ao longo da história judaica, podemos observar diversas formas da cultura judaica se manifestar. Fala-se muito da contribuição judaica à humanidade, mas fala-se menos sobre a influência das tendências globais sobre as escolhas coletivas dos judeus. O Tanach (Bíblia Hebraica) conta que, quando se estabeleceram em Israel após o êxodo do Egito, os judeus foram governados por juízes. No entanto, Samuel foi o último juiz. No livro de Samuel I, capítulo 8, a partir do versículo 4, lê-se:

“E todos os anciãos de Israel se reuniram e vieram a Samuel em Ramá, e disseram-lhe: ‘Eis que estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos. Constitui-nos, pois, agora um rei para nos julgar, como em todas as nações’ …”

Segue-se então um lindo diálogo entre Deus e Samuel, repleto de questionamentos, que se conclui com o versículo 22:

“E o Eterno disse a Samuel: ‘Dá ouvidos à sua voz e dá-lhes um rei.’…”.

Posteriormente, a partir do grande exílio judaico e a desterritorialização que pôs fim ao judaísmo predominante até então (peregrinações a Jerusalém e sacrifícios no templo), a cultura judaica passou a ser mantida e transmitida através de uma religião. Isso se deu numa era em que duas outras grandes religiões surgiram e também foram centrais nas culturas da Europa e do Oriente Médio – os dois lugares onde os judeus exilados constituíram comunidades que chegaram aos dias de hoje. Pode-se inclusive evidenciar o papel do rabino em cada um desses grandes centros de população judaica. Na Europa, onde existiam figuras muito centrais no catolicismo (padre, papa), o rabino também adquiriu um papel preponderante. Nas comunidades ashkenazim (origem européia), o rabino tem um papel de centralidade na comunidade que não é tão observado em comunidades serafadim (origem no Oriente Médio). Enquanto o chassidismo ashkenazi venerava rebes, muitas sinagogas sefaradim sobreviveram por séculos sem nenhum rabino. No Rio de Janeiro, onde cresci, isso podia ser observado com clareza. A sinagoga do meu avô sefaradi, na Tijuca, demorou 100 anos para contratar seu primeiro rabino. Em Manaus, a comunidade judaica, de origem marroquina, floresce há mais de 200 anos sem a presença de um rabino.

No século XIX, quando os nacionalismos estavam predominando na Europa, os judeus europeus sentiram a necessidade de criar seu próprio nacionalismo, como forma de perpetuar o judaísmo num mundo que estava se tornando secular. Os judeus que abraçaram o sionismo e vieram para Israel criar um Estado, visavam muito mais do que apenas a criação de uma entidade política. Viam nisso uma revolução cultural. Descendentes de longas gerações de pessoas que devotaram suas vidas à religião, e muitas vezes eles próprios saídos das escolas religiosas, os primeiros sionistas fizeram de tudo para apagar a religião e a Europa de suas identidades. Mudaram seus nomes, seus modos de vida, de trabalho, e fundaram comunidades coletivistas sem sinagogas. No entanto, algumas vezes o esforço em apagar algo, esquecer algo, é justamente o que ajuda a encravar isso mais fundo ainda em nossa identidade. Em seu livro “Minha Terra Prometida”, Ari Shavit descreve de uma forma muito bonita esse processo ao relatar a criação de um dos primeiros kibutzim:

“Mesmo quando se rebela contra o judaísmo, ele o faz como um judeu. Mesmo quando se ergue contra a religião, ele se ergue religiosamente. Há tanto Deus no Tabenkin[ref] Itzhak Tabenkin, proeminente líder do kibutz Ein Harod, o primeiro kibutz do Vale de Yzreel. Um dos fundadores do primeiro movimento kibutziano, Mapai, e, posteriormente, de sua dissidência, o Mapam.[/ref] sem Deus, enquanto ele ataca Deus, rejeita Deus, e tenta criar um mundo sem Deus, livre de Deus” – Ari Shavit, “Minha Terra Prometida”.

O grande professor Muki Tzur relata a Modi Bar On, no belíssimo documentário “HaKibutz”, como os primeiros sionistas, que não conheciam e não haviam ainda criado outras referências que não fossem as religiosas, ainda dançavam e cantavam no estilo da yeshivá (escola religiosa):

“O primeiro casamento acontece aqui, em 1912, nas margens do rio Jordão. Depois da chupá, começa uma dança. A dança é uma dança chassídica. Na segunda aliá[ref] Movimento migratório a Israel. A segunda aliá acontece de 1904 a 1914. [/ref] ainda não ousavam mudar a letra dos cânticos chassídicos.” – Muki Tzur, em entrevista ao documentário ‘haKibutz’, de Modi Bar On, capítulo 1.

Isso me lembra uma bela metáfora do Amós Oz, em que ele conta da criança que foge de casa, revoltada, mas que fica dando voltas no quarteirão porque seus pais lhe ensinaram a nunca atravessar a rua sozinha. Gostaria também de dar um belo exemplo dessa influência na cultura israelense. Na cidade de Nikolaiev, na Ucrânia, o chabadnik[ref] Seguidor do movimento chassídico Chabad. O chassidismo tornou o judaísmo acessível aos judeus menos versados nos textos sagrados, considerando a alegria e a música como formas de aproximação com Deus. [/ref] Shalom Charitonov criou uma melodia chassídica sem palavras (nigun), que em seguida passou a ser entoada em Yom Kipur com um belo piut (poema litúrgico). No seguinte vídeo, pode-se conferir uma execução dessa melodia com esse piut. Décadas depois, em 1929, o sionista Emanuel HaRussi, nascido na mesma cidade de Nikolaiev, escreve em Israel uma letra bem sionista, bem laica para a mesma melodia. Enquanto no piut, o grande tema é que somos “matéria prima na mão do criador”, que pode nos moldar como quiser, a letra de Emanuel HaRussi mostra uma mãe colocando seu bebê para dormir, dizendo que um dia ele vai crescer e ser como seu pai – trabalhador, construtor, criador, protetor. Mas a melodia é a mesma, e pode ser conferida nesse vídeo.

Talvez um dos segredos da longevidade do judaísmo seja justamente essa capacidade de adaptação, de diálogo com o mundo, sendo enriquecido e contribuindo com as tendências mundiais. Uma cultura somente tem sentido de existir se continua sendo relevante para o seu tempo. Se o judaísmo insistisse em ser uma cultura rígida centrada nos sacrifícios de animais e de plantas aromáticas num templo em Jerusalém, talvez hoje em dia ocupasse metade de uma aula de história antiga na escola. No entanto, os descendentes dessa cultura escolheram continuar sendo relevantes para o mundo, contribuindo a partir de uma identidade própria cujo barco segue navegando nas águas da história. Deixar uma identidade para trás para poder seguir em frente é difícil. Mas como canta Milton Nascimento na música “Sei que nada será como antes”, sempre fica “Resistindo na boca da noite um gosto de sol”. Deixo vocês com o trecho de um poema de Yehuda Amichai, que se chama “Os Judeus” (uma excelente tradução de Yair Mau pode ser conferida aqui).

“E quanto a Deus? Deus permanece
Como o perfume de uma linda mulher que um dia passou
Por eles e eles não viram sua face,
Mas seu perfume paira, todo tipo de perfumes,
Criador de todo tipo de perfumes[ref]Em hebraico, “borê minei bessamim” – parte da reza que se faz sobre as especiarias durante a cerimônia de havdalá, a separação entre o shabat e a semana. Utilizam-se elementos que estimulam todos os sentidos, e esse é o momento do olfato, quando se abençoa Deus por ele ter criado “todos os tipos de perfumes”. Utilizam-se especiarias com odor agradável para compensar a tristeza do término do shabat.”[/ref] – Yehuda Amichai, no poema ‘Os Judeus’