O primeiro shabat do resto da minha vida

“Guarde o dia de shabat para santificá-lo”

Deuteronômio 5:11

Famílias religiosas aqui tem muitos filhos. É normal andar na rua e ver pai, mãe e mais cinco, sete filhos de diferentes idades, afinal, para os que acreditam, Deus mandou crescer e multiplicar. Na educação de casa os comandos religiosos são muito importantes, existem uma série de regras de como se comportar, se vestir, comer, celebrar. E a maioria das crianças se tornam adultos que repetem e respeitam essas tradições.

Mas há algumas execeções. Aliás, exceção talvez não seja a palavra apropriada, já que aqui em Jerusalém é uma das histórias mais comuns. Todo mundo tem um amigo que veio de família religiosa, em geral ortodoxa, e vive como laico.

Isso quase nunca é assunto, de tão comum que é, mas, como eu sou nova aqui e venho de uma família extremamente secular, tenho muita curiosidade sobre esse processo. Porque é um processo mesmo, deixar pra trás todas as crenças –  e não necessariamente a fé – e romper com a forma de mundo na qual você foi educado deve ser muito difícil.

Existem organizações que dão apoio aos “novos laicos”. Muitas vezes a reação da família pode ser severa, chegando até o rompimento total. E além disso existe todo um novo mundo a se conhecer, conceitos que parecem simples, mas que não necessariamente existem na educação religiosa.  [ref]Aqui uma das organizações que ajuda os novos seculares explica conceitos do mundo laico: http://www.hillel.org.il/en/information/secular-concepts[/ref]

Atualmente uma das minhas manias é perguntar aos amigos ex-religiosos o que eles fizeram da primeira vez que não respeitaram o Shabat (Sábado). Para os que não sabem, o Shabat é o dia mais sagrado do judaísmo. Assim como Deus descansou no sétimo dia, após a criação do mundo, nós também devemos descansar. Segundo a Lei Judaica é proibido trabalhar. Significa na vida prática que você não pode acender fogo, ver televisão ou andar de carro. Mas não só isso, escrever ou apagar, por exemplo, também não é permitido.

É muito interessante notar que ações que para os laicos parecem tão banais, ganham um significado tão simbólico para outros. Pedi a alguns amigos que escrevessem sua “primeira vez”. As respostas[ref]Alguns me pediram para que o nome não fosse publicado, por isso só estão as iniciais de cada um.[/ref] divido com vocês.

(N.C. 28 anos)

“Eu tinha 14 anos, acho. Só para dar um pouco de contexto eu venho de uma casa nacionalista religiosa, e estudei o ensino médio numa escola nacionalista religiosa. Eu sempre tive um monte de pensamentos sobre o caminho religioso, se combinava comigo ou não, mas ainda era (e é) a base da minha educação.

Em suma, a primeira vez que quebrei o Shabat foi quando eu escrevi no meu diário, e acho que foi mais uma espécie de revolta adolescente contra meus pais do que uma decisão consciente de que eu não seria mais religiosa. Sentei no meu quarto, escrevi no diário, e fiquei morrendo de medo de sair, porque tinha certeza de que meus pais olhariam para mim e saberiam que eu não havia respeitado o Shabat, que de alguma forma estaria visível no meu rosto. É claro que eu pensei que o céu ia cair sobre a minha cabeça e, obviamente, isso não aconteceu. A partir daí não foram poucas as vezes que fiz isso, durante o tempo em que morei na casa dos meus pais. Eu entrava no quarto e desrespeitava o Shabat com pequenas coisas …”

(I. S. 30 anos)

“Eu cresci em uma família religiosa, mas muito liberal, religioso light. Eu nunca entrei demais nas questões religiosas, mas eu usava kipá[ref]Solidéu: http://pt.wikipedia.org/wiki/Quip%C3%A1[/ref] e respeitava as coisas mais importantes até os 19 anos. Quando eu comecei o meu serviço militar, aconteceu uma pequena revolução na minha vida: foi quando eu conheci pela primeira vez muitos judeus seculares (bom, eu conhecia outros antes, mas neste caso foi diferente, foi mais intenso). Eles sempre esperavam de mim uma espécie de representante da religião ou dos religiosos, e eu realmente não me sentia bem nesse papel. Não me sentia pertencendo ao grupo dos religiosos, então como eu deveria representá-los? Na verdade eu me sentia muito mais próximo das opiniões dos não-religiosos. Então decidi tirar a kipá. Mesmo depois de ter tirado a kipá eu continuei com as tradições, Shabat, kashrut[ref]Regras alimentares de judeus observantes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Kashrut[/ref], tefilin[ref]Filactério: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tefilin[/ref], etc. Depois de um tempo eu parei de de colocar tefilin todas as manhãs, porque sentia que era muito mecânico e não me dizia nada.

Shabat – esta é basicamente a principal coisa de ser “religioso”, é o que o distingue do não -religioso. Eu vivi um dilema muito grande, se eu queria ou não guardar o Shabat.

Resolvi deixar para decidir antes do primeiro Shabat depois que eu tivesse terminado o serviço militar. Eu não queria fazer papel de bobo na frente dos outros – primeiro respeita o Shabat e depois não… Então finalmente eu decidi não respeitar. Não foi uma decisão fácil. Me lembro da primeira vez que eu dirigi o carro no Shabat, foi com certeza uma sensação estranha, ligar o rádio e ouvir o locutor dizer Shabat Shalom.

No começo eu não disse aos meus pais, para não aborrecê-los, não porque eu estivesse com medo ou algo assim. Mas com o tempo eu disse, e eles começaram a tentar entender. No início tentaram falar, tocar o meu coração, mas eles entenderam que foi uma decisão minha, e respeitaram. Embora, é claro, sei que eles preferem, e ainda têm essa esperança, que eu volte a observar o Shabat e a ser religioso.

Eu queria frisar que nunca fui antireligioso, não foi de forma alguma uma rebelião contra a tradição ou religião. Ainda hoje, que eu não mantenho ou respeito muitas coisas, não tenho um sentimento de antagonismo (claro que há coisas que eu sou contra, que não concordo). Eu tenho muito amor e conexão com a tradição, e sou muito orgulhoso e grato aos meus pais pela educação judaica e religiosa, que certamente me enriqueceu.

(A.L. 30 anos)

“Sempre gostei das horas perto do entardecer. Cresci em um mundo religioso, e nasci dentro de milhares de anos de discussões sem fim sobre o Bem e o Mal, o que é puro e impuro, preceitos e transgressões, e até que eu aparecesse neste mundo já se sabia mapear com precisão cirúrgica quais pensamentos, sentimentos e ações conduzem uma pessoa para o bom caminho, e quais ficam do outro lado da cerca, onde cresce um campo selvagem de venenos. Os jornaizinhos de Shabat que toda semana eram pendurados na nossa geladeira sabiam dizer exatamente que horas na Sexta-feira devemos cessar todo trabalho, como Deus que cessou seus trabalhos depois que separou o céus da terra, e o dia da noite. Quando o ponteiro do relógio batia na hora determinada, a Sexta-feira virava Shabat, um infinitésimo de segundo que diferencia o profano do sagrado, que era determinado por números na tela digital, e que foram ajustados segundo o noticiário da rádio.

Enquanto isso, lá fora, o sol lentamente se punha. Eu costumava ir ao jardim público ao lado da sinagoga, lia os salmos, cantava para mim mesmo melodias chassídicas – em silêncio, com vergonha dos donos dos cachorros – e apimentava com um pouco de cantoria. Enquanto isso, o sol tocava o cume de uma colina qualquer no horizonte e o céu começava a se pintar de vermelho e laranja. Mesmo depois que havia desaparecido atrás das colinas, as nuvens no céu ainda ficavam pintadas psicodelicamente, embora o sol já não podia mais ser visto no céu, ainda podia-se ver claramente as palavras no Sidur[ref]http://pt.wikipedia.org/wiki/Sidur[/ref]. Em algum momento durante a minha pequena cerimônia que durava uma hora, o Shabat entrava e com ele a santidade. É um pouco como o amor, a entrada do Shabat. Não há um momento no qual você entende, agora estou apaixonado. Talvez exista um instante no qual você percebe que você já está apaixonado, mas quando exatamente isso começou – é um momento escorregadio, que talvez exista ou não, mergulhado nas nuvens amarelas-rosas e envolvido por cantoria.

Isso não se manteve firme por muito tempo. Alguns meses após o início do meu serviço militar, as minhas cerimônias pessoais de recepção do Shabat eram uma lembraça teimosa, e como ela as lembranças de preces que eram ditas com intenção, o cuidado dos preceitos que era feito não por causa de medo, ou os poucos momentos nos quais havia em mim alguma fé. Há tempos a fé foi substituida pela vontade de acreditar, que virou vontade de vontade de acreditar, que já não era mais suficiente. Eu estava deitado no meu quarto e esperava a luz que entrava pela janela e que ficava cada vez mais fraca. Quando já me era claro que o anoitecer já estava virando oficialmente noite, virando Shabat, eu levantei e procurei um recinto vazio na base. Eu enfiei o caderno e a caneta no bolso e fui para as duchas, tranquei a porta e sentei no chão. Isso foi meses depois de Shabatot insípidos, que os fazia na esperança que se eu aguardasse mais um pouco ele voltaria, o motivo de cuidar do Shabat voltaria. A luz fluorescente era a única coisa que iluminava a página vazia. Levantei a caneta e sem mais nenhuma opção escrevi:

Sexta-feira.

Sempre me prometeram

Que infringir o primeiro dos pactos

Teria gosto doce. O gosto do pecado

Deixa atrás de si um rastro de açúcar nos lábios

Mas a infração do primeiro dos pactos

A minha infração

Tinha uma sensação quase como os primeiros lábios

De uma mulher que eu não amo.

 

Comentários    ( 6 )

6 comentários para “O primeiro shabat do resto da minha vida”

  • Uri

    28/11/2013 at 17:18

    Há um vídeo no youtube que achei interessante sobre esse mesmo tema.

    PARTE 1- http://www.youtube.com/watch?v=Vbea9g3amLc
    PARTE 2- http://www.youtube.com/watch?v=b0Xhl0Fwses

  • Raul Gottlieb

    02/12/2013 at 07:57

    O principal tom deste novo e (mais uma vez) belo da Mila no Conexão é dado pela curta citação de Devarim no começo, que contrasta frontalmente com as regras “religiosas” citadas no desenvolvimento do tema.

    A Torá é assim mesmo, feita de regras muito curtas, que foram expandidas ao longo do tempo em resposta a diversas circunstâncias.

    A Torá nos diz que devemos guardar o Shabat para santifica-lo, o que é realmente sublime (pelo menos a meu ver). Mas em lugar algum está escrito que carregar flores para presentar um amigo tira a santidade do dia e que seria, portanto, proibido.

    Contudo, é exatamente isto que os ortodoxos propõem hoje, sugerindo que, como somos incompetentes para saber como santificar o dia, Deus soprou regras minuciosas para alguns poucos iluminados, tendo se esquecido de detalhá-las na Torá, por um motivo que não tem uma explicação clara.

    A Torá estabelece: florescei e multiplicai. Mas não diz que cada casal tem que ter 7 filhos. E assim por diante: regras curtas e genéricas são regulamentadas até o detalhe mais ínfimo por uma ideologia que extraiu a poesia e a espiritualidade do judaísmo, traduzindo tudo num imenso manual semelhante ao de uma gigantesca máquina de lavar roupas.

    Havia uma profunda beleza e muita sensatez em reunir a comunidade no começo e no fim do dia para um encontro de reflexão e congraçamento. Principalmente quando a comunidade era pequena, era agrícola e pastoril, que trabalhava do nascer do sol ao escurecer. Não há, a meu ver, nenhuma sensatez nem beleza em parar de atender os clientes por 15 minutos precisamente as 16:54 do inverno nova-iorquino para, sozinho num canto, recitar apressadamente as palavras do Sidur, voltando em seguida a fazer negócios até as 21 horas. Qual a espiritualidade e qual o valor disso?

    Reavaliar estas regras, entender como construir um judaísmo que resgate a beleza, a espiritualidade e a validade eterna das fontes judaicas é uma das mais prementes tarefas da nossa geração.

  • RITA BURD

    03/12/2013 at 15:01

    Não preciso emitir a minha opinião porque o Raul Gottlieb já disse tudo o que eu penso.
    Sou liberal. Acho que o mundo tem janelas, muitas janelas abertas ou fechadas.
    As minha são abertas e eu recebo o sol, as opiniões diversas, a chuva, o vento, tudo junto e misturado. Assim que eu sou. Assim é o Judaísmo que entendo: aberto, cheio de discussões, concordâncias e discordâncias, contradições, opiniões, erros e acertos.
    Adoro cantar na Sinagoga, e deixo a minha voz ser ouvida por quem quiser. Me choca um ortodoxo sair de perto de mim, só porque estou cantando, feliz da vida.
    Muitas coisas me chocam.
    Em compensação, muitos ensinamentos eu aprendo com os ortodoxos.
    Nasci e fui criada por um pai maravilhoso que nos ensinava o Judaísmo contando histórias, cantando as músicas e fazendo do Shabath o dia mais lindo e importante da semana. Sem proibições, sem culpas, só a essência.
    Meu pai me criou dentro do Judaísmo mais lindo que existe, mais feliz que existe. Cantar no nosso Kal, era uma manifestação de pura alegria.
    Foi tão importante na minha vida que, quando nasceu o meu filho, recebeu o nome do avô: Nelson/Nessim
    Rita Bensussan Burd

  • Rebeca Daylac

    06/12/2013 at 17:22

    Mila, mais uma vez parabéns pelo belo texto!!! beijos

  • Miriam

    26/12/2013 at 10:18

    Bonito, Mila, bem bonito. Acho que ele tem uma natural “parte 2”, com a história dos Baleei Teshuvá. Pode contar com o meu depoimento :). Bjka!

  • Marion Vaz

    21/01/2014 at 23:31

    Sinceramente… A declaração de AL (30 anos) foi poeticamente linda! Quase um conto do bem contra o mau, do certo contra o errado, do inconsciente em luta com a vida real. O desejo do coração contra as artimanhas do mundo laico. Romper com a tradição é tão agressivo quanto permanecer sem ela.
    O que me resta senão desejar um Shabat Shalom ou seguir em frente em minhas indagações?

Você é humano? *