Shalom, Salaam e o significando da paz

25/12/2013 | Conflito; Opinião; Sociedade

Por Diogo Bercito

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Comecei a escrever no meu Orientalíssimo blog, em março deste ano, notando a semelhança entre duas das pedras fundamentais das línguas árabe e hebraica: as palavras “shalom” e “salaam”, ambas significando “paz”. Àquela época, eu escrevia como um recém-chegado a Jerusalém e, mais importante, redigia meu relato como um leigo no estudo do hebraico.

Nove meses se passaram.

Apesar de ainda ser um iniciante no hebraico e, de certa maneira, também não ter qualquer autoridade para falar sobre o árabe além dos anos de universidade e do período que vivi no Marrocos, eu volto hoje ao tema como um repórter mais bem informado – e ainda convencido de que deve haver nas línguas e na etimologia um espaço em comum onde caiba o significado pragmático de “shalom” e de “salaam”, a paz de fato.

Por diversas razões. Historicamente, pelo testemunho de uma origem em comum dessas línguas semíticas, emanadas de um hipotético ancestral compartilhado a quem chamamos na academia de “protossemítico”. O protossemítico seria a língua falada em cerca de 4.000 a.C em um território ainda controverso, talvez o Levante ou a Península Arábica, antes de surgirem o  hebraico, o árabe, o aramaico, o siríaco, o acadiano etc.

Digamos, extrapolando a etimologia ou encontrando nela a boa-vontade dos pacifistas, que o fato de haver uma língua a partir do qual se desenvolveram o árabe e o hebraico pode significar também, no sentido oposto, que há um núcleo em comum entre os falantes de ambos os idiomas.  Que compartilhar um grupo de sons e um pensamento linguístico (em que a “idafa” árabe ou a “smichut” hebraica fazem sentido, relacionando dois substantivos em uma cadeia) possam significar que há entre árabes e israelenses a capacidade que os racistas e os belicistas lhes querem negar – a de chegar a um acordo.

Sugiro aos amigos que moram em Israel, falam hebraico e querem entender melhor o árabe que pensem em algumas das regras da fonologia protossemita. Ou que ao menos decorem os truques da transformação de uma na outra. Como nos já citados “shalom” e “salaam”, em que basta percebemos que se trata fundamentalmente do mesmo termo, mas realizado de duas maneiras diferentes. A regra aqui é simples: “sh” em hebraico, “s” em árabe; “o” em hebraico, “a” longo em árabe.

Há outros macetes, como a relação entre “v” e “b”, cuja mutabilidade já está expressa na própria grafia em hebraico, feita com a mesma letra (“bet”). O “katav” (“escreveu”) do hebraico corresponde, portanto, ao “katab” do árabe. Assim como o “dhahab” do árabe é o mesmo “zahav” do hebraico, com a equivalência entre “dh” e “z”.

Nada disso significa que as línguas sejam idênticas. Na verdade, ambas seguiram caminhos distintos nos séculos em que foram usadas, seja na liturgia, seja como vernáculo. A escrita também, já que o hebraico opta por uma variante monumental da escrita semítica, feita para ser talhada, repleta de ângulos retos – enquanto o árabe seguiu uma tradição manuscrita, a partir da versão nabateia do sistema de escrita, tornando-se um alfabeto consonantal curvo e delicado. Mas, ainda assim, temos entre ambos os ancestrais em comum, a família, a coincidência geográfica.

É claro que está mantida a possibilidade de tudo isso ser uma bobagem. Um delírio linguístico a respeito de um tema sério e urgente. Enquanto já se fala em uma terceira Intifada, eu escrevo sobre como transformar um “d” enfático árabe em um “tz” hebraico, alguém pode me acusar. Mas que conversemos em um campo mais pragmático, e insisto na ideia de uma língua em comum para a paz. Porque tem de nos surpreender o fato de que, em Israel, raramente encontro um israelense que fale hebraico e árabe fluentes, apesar da proximidade linguística – e, pior, apesar da proximidade física. Lemos no jornal a respeito dos incentivos para o bilinguismo, a respeito de escolas de convivência, mas na prática a escolha do idioma parece excludente, como quem toma lados numa disputa.

A mim, parece evidente que seria mais fácil negociar um futuro se, sem metáforas, ambas as partes falassem uma mesma língua. Ou que respeitassem a cultura do próximo, ou que se esforçassem em aproximar-se dela, ou que fizessem o sacrifício de encontrar um meio termo entre ambos para sentar-se, em zona neutra, e dialogar. Talvez um novo protossemítico, mas em seu inverso, um idioma semita em comum que, ainda que alegoricamente, consiga reunir israelenses e palestinos, ou árabes em geral, em um território compartilhado.

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Diogo Bercito é o correspondente da Folha de São Paulo em Jerusalém. Escreve no Blog Orientalissimo onde dedica-se a temas internacionais, com foco no Oriente Médio.

 É aluno do departamento de línguas orientais na Universidade de São Paulo, e foi bolsista do centro de línguas marroquino Qalam wa Lawh, onde estudou árabe.

 

 

Comentários    ( )

Um comentário para “Shalom, Salaam e o significando da paz”

  • Raul Gottlieb

    25/12/2013 at 22:32

    Certamente encontrar uma língua comum vai ajudar definitivamente ao processo de aceitação pelos árabes do Estado de Israel. Mas esta língua comum não tem nada a ver, na minha opinião, com a linguística ou com a origem comum dos dois idiomas. Esta língua comum se chama democracia e respeito às minorias.

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