Sion, aqui vou eu (de volta!)

Cheguei a Israel há quatro anos, em agosto de 2010. Tive a incrível experiência de viver em um kibbutz no norte do país, no Kinneret, ou Mar da Galiléia, onde deixei meu coração. Depois de sete meses, me mudei para Jerusalém para continuar os estudos de hebraico e, posteriormente, começar a fazer o mestrado na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Em Jerusalém, vivi por quase dois anos e meio. Período extremamente conturbado em minha vida pessoal. Desde o início,  já sabia que não seria fácil morar aqui. Tomei a decisão de que ao invés de me estressar com o pesado clima da cidade e a constante grosseria de boa parte dos jerusalemitas, eu deveria era tentar aprender algo novo todo dia.

Assim, as viagens de ônibus passaram a ser experiências de aprendizado, o empurra- empurra no bonde tinha que ser tolerado e os pisões no pé quando ia fazer compras no shuk (feira) Machane Yehuda não me incomodavam mais.

Contudo, apesar de ter aprendido bastante ao conversar com as pessoas que vamos conhecendo ao longo do caminho, em julho de 2013 eu fugi de Jerusalém. Não aguentava mais. Eu já esperava os finais de semana pensando em viajar para Tel Aviv ou outro lugar qualquer, não poderia mais ficar aqui.

Queria morar em Yaffo, mas como não consegui achar nada legal, fui morar em Bat Yam, sul de Tel Aviv, a 3 minutos da praia. Mudei-me no verão, o que me garantiu prazerosas corridas na praia, banhos de mar a qualquer hora do dia ou da noite e uma brisa fantástica durante a noite.

Um dia, na primeira vez que voltei a Jerusalém depois de ter me mudado, comentei com um amigo: “como é bom estar aqui como turista, voltar sem saber que vou dormir aqui hoje a noite”.

O tempo foi passando, o verão acabou, o inverno chegou, os banhos de mar ficaram difíceis, mas a corrida na praia continuou. Mas também um sentimento estranho começou a surgir. Não fazia sentido para mim continuar morando no centro do país, na região chamada Gush Dan. Estava faltando Israel. Senti que estava realmente dentro da “bolha” israelense, que não pára de crescer, da cidade sem pausa, sem tensão, onde árabes e judeus vivem em uma camuflada harmonia.

Estava faltando algo. Pensei que poderia ser o kibbutz, mas não, estava faltando Jerusalém.

Resolvi voltar. Resolvi voltar à Sion.

Não poderia ter sido em um momento “melhor”. Voltei no meio da guerra. No dia da mudança tive que sair do carro com um amigo quando a sirene tocou. Poucos dias antes já havia participado de uma manifestação contra a reação da extrema direita na cidade que vinha perseguindo e atacando cidadãos árabes. Um dia, chegando de Tel Aviv em um Monit Sherut em uma tarde de sábado (transporte alternativo que faz a ligação entre as duas cidades também durante o shabat), tivemos que fazer um desvio porque os ultra-religiosos estavam fechando a rua por onde deveríamos passar.

Mas nada disso me incomodava mais. Percebi que era isso que estava fazendo falta pra mim. A luta pela democracia dentro de Israel. Pela construção de um país onde todos os seus cidadãos sejam respeitados igualmente, sem distinção entre judeus, árabes, mulçumanos e cristãos.

Mas por que Jerusalém?

Ora, isso é simples. A cidade é o “olho do furacão”. Jerusalém é a cidade mais importante na memoria coletiva nacional judaica e também religiosa. Mas também é a terceira cidade mais importante para o islã. E também não há como negarmos a importância para os cristãos, que podem acompanhar os últimos passos do seus messias por aqui.

Jerusalém, que por mais que queiram negar, permanece claramente dividida entre o seu lado ocidental judaico e oriental árabe. Esse cidade, capital do Estado de Israel e futura capital do Estado Palestino, permanecerá dividida porque é importante em diversas narrativas e memórias (e só assim será possível construir uma paz verdadeira) mas tem como principal função mostrar que o diálogo é possível.

Em meio a tantos radicais a tarefa não é fácil mas também não é impossível. Se Jerusalém não for capaz de mostrar que é possível fazer diferente, todo e qualquer esforço para a paz terá sido em vão.

No meu retorno a Sion, não posso dizer que vim para ficar, mas posso dizer que vim para lutar pelo Estado de Israel que eu acredito, baseado em valores judaicos, democrático e para todos os seus cidadãos.

Comentários    ( 3 )

3 comentários para “Sion, aqui vou eu (de volta!)”

  • Marcelo Starec

    06/09/2014 at 21:30

    Oi Marcos,
    Se você procurou uma cidade para morar em Israel, que é o “olho do furacão”, conforme suas próprias palavras, acho que você foi para o lugar certo. Aí tudo é muito forte – o sentimento judaico, as divisões existentes entre os judeus de diversas correntes de pensamento, a importância de Jerusalém, indiscutível, para o judaísmo, assim como também para as demais religiões monoteístas. Entretanto, veja que estando com Israel, todos os locais santos, de todas as religiões, são inteiramente respeitados, enquanto que isso comprovadamente não ocorreu em diversos momentos onde a soberania não foi judaica. Aliás, eu não tenho nenhuma certeza de que os locais santos cristãos em Jerusalém virão a ser preservados se esta cidade ou uma parte dela vier a ser um dia dominada por um governo islâmico, que pode se transformar em uma matiz do tipo Hamas ou Estado Islâmico ou seus similares, os quais já declaram e comprovaram, na prática, sem nenhum pudor, o que será feito dos cristãos e de seus locais sagrados. Por fim, apesar dessas observações, achei o texto muito tocante e comovente…
    Abraço,
    Marcelo.

  • Marion Vaz

    09/09/2014 at 01:37

    A expressão “futura capital do Estado Palestino” me chamou a atenção. Mesmo com todas as declarações a favor da cidade expressas no texto, de Capital Eterna de Israel, de sua diversidade religiosa (em termos – já que existe uma porcentagem considerável na comunidade judaica que mora em Jerusalém), e todos os prós e contra que contam na hora de optar em mudanças domiciliares, o texto é bem claro quando se refere a importância da cidade para cada pessoa que vive ou visita o lugar. Mesmo assim, fico triste em saber que se cogita a ideia de dividir Jerusalém em duas capitais como se isso fosse uma forma de garantir qualquer indício de paz. Ao se fazer tal declaração, acredito que não se está apenas repetindo um slogan ou um tipo de “ideologia” (que no caso, muito defendida pelos palestinos). Não! Ao se usar tal declaração deixamos margens para que ela se torne cada vez mais forte, Sion é mais do que uma simples cidade, e como diz o texto, Jerusalém é um lugar que se sente pressa e vontade de voltar para o casa. Shalom.

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