Somos todos terroristas perante a verdade

11/08/2014 | Conflito; Política

Durante a operação israelense em Gaza tive a sensação de que o fluxo de informações havia aumentado. Senti como se minha realidade estivesse sendo inundada por artigos de blogs, textos de jornais, reportagens de noticiários, entrevistas, depoimentos, vídeos, músicas, dados acadêmicos, números, discursos, análises, opiniões e mais, e mais, e mais. Senti que, apesar da dificuldade, deveria buscar objetividade em meio a avalanche de colocações subjetivas e visões parciais – de alguma forma, meu compromisso com a verdade deveria ser maior que os meus princípios políticos. Por diversas vezes, senti que para realizar essa tarefa não era suficiente ler diariamente o New York Times, o Washington Post, o Haaretz, o Ynet, o Al-Jazeera e uma série de blogs. Da mesma forma, não bastava acompanhar em tempo real os noticiários israelenses e deixar o site da BBC aberto para qualquer verificação. O meu mestrado em Ciência Política já não me dava todas as respostas. A realidade exigia mais de mim, muito mais. A busca pela verdade parecia um objetivo impossível de ser alcançado, talvez até ingênuo de ser sonhado.

Não culpava as pessoas por diminuírem a importância da mídia israelense ao tratar de uma operação em Gaza, apesar de alguns argumentarem que somente em Israel pode-se entender verdadeiramente a situação – paradoxalmente, a fonte de autoridade parecia ser a mesma da parcialidade. Tampouco as culpava por trazer informações que apenas os seus minúsculos círculos sociais utilizavam para “ler a realidade”. Não as culpava, pois sabia que a guerra de informações não era uma luta conjunta pela verdade, mas pela imposição de uma narrativa formada por um seleto número de fontes. A batalha não era pela contemplação da realidade e pela justiça dos fatos, mas pela imposição de uma ordem. No campo da psicologia política, chamamos esse fenômeno de ‘racionalização motivada’ – o processo em que buscamos (e não descansamos até encontrarmos) as informações que melhor sustentam o nosso ponto de vista. A ideia é de que temos pré-disposições, motivações constituídas de valores e princípios que se consolidaram ao longo dos anos. Todos temos essas pré-disposições – elas são parte inerente do ser humano. A questão é que o entendimento da realidade requer a neutralização desses pré-conceitos e parcialidades, e esse processo é árduo e sacrificante. O ‘compreender a vida’ exige de nós ganhar consciência das motivações que nos fazem ler um artigo e negligenciar outro. Somente assim a verdade tem uma chance.

Mas não sou ingênuo. Sei que estamos fadados a ler informações idênticas de forma distinta – não importa quão racionais e conscientes nós queiramos parecer, seguiremos com nossos erros sistemáticos e nossas naturais irracionalidades.

Por exemplo, no jornal A lemos a seguinte notícia:

“Na cidade de Rafah, localizada ao sul de Gaza, há 100 civis e todos são usados como escudo humano pelo Hamas. Em uma ofensiva do exército israelense, 30 desses civis foram mortos.”

No jornal B, no entanto, lemos:

“Na cidade de Rafah, localizada ao sul de Gaza há 100 civis, todos usados como escudo humano pelo Hamas. Em um ataque realizado na região, o exército israelense evitou a morte  de 70 desses civis.”

Os jornais A e B publicam a mesma notícia – factualmente idêntica. Sempre imaginei que nós, seres “iluminados” pela razão e pela lógica, nunca permitiríamos que um mero jogo de palavras nos faria entender a realidade de forma tão distinta. Doce ilusão. São os discursos que nos contam a história, queiramos ou não. No exemplo acima é inevitável que o leitor do jornal A seja mais crítico a Israel e condene o governo israelense pela morte dos civis. Não há nada de errado nessa postura – essa é a realidade que ele está lendo. Já o leitor do jornal B tenderá a assumir uma posição mais favorável a Israel, provavelmente justificando a morte dos civis. Tampouco há algo de errado nessa visão – essa foi a narrativa que lhe foi apresentada. Não me entenda mal. Não estou aqui explicando a origem do relativismo moral e dando justificativas para distorções. Minhas explicações se restringem ao campo psicológico e a forma pela qual lemos a realidade. Minhas análises também são frutos dos discursos em que estou imbuído e das pré-disposições que me inquietam na busca incessante por uma verdade objetiva.

Nessa guerra de informações quem perde somos todos nós. Criamos regras para um jogo sem fim e sem propósito. Formamos exércitos ideológicos e nos armamos com as info-munições que temos acesso. Ninguém está salvo. Nessa batalha passamos a acreditar que estamos diante de um ‘jogo de soma zero’ – ou ganho eu ou ganha você. Deixamos de lado a soberania da razão e nosso anseio por coexistência para enaltecer nossas emoções e alimentar nossos egos sedentos. Se ao menos soubéssemos que a neurociência e a psicologia já constataram que nossas decisões são tomadas seis segundos antes de ganharmos consciência delas; que antes desse processo de conscientização – racionalização ‘ex post facto’ – essas decisões são tomadas intuitivamente, baseadas nas tais pré-disposições. Talvez dessa forma entenderíamos que a busca pela verdade exige a união de forças. Perceberíamos que nos tornamos terroristas cruéis quando trata-se da defesa dos nossos discursos e da imposição das nossas narrativas. Somos todos antidemocráticos perante a verdade.

Aliás, é interessante notar que o mesmo conceito de ‘jogo de soma zero’ associado ao embate entre discursos, aplica-se ao conflito em Gaza. O governo israelense e o Hamas constroem seus discursos com base na ideia equivocada de que haverá apenas um vencedor. Observe os dados abaixo e perceba você mesmo quão deturpada é essa perspectiva.

A operação já custou aos cofres israelenses cerca de 10 bilhões de dólares, fora os prejuízos que ainda serão sentidos.

O Hamas conseguiu fazer com que os embaixadores de Brasil, Chile, Peru, Equador e El Salvador fossem chamados para consultas, causando, no mínimo, um desconforto diplomático.

O Hamas conseguiu estremecer as relações entre Israel e seu maior aliado, os Estados Unidos, ao condicionar o secretário de estado americano, John Kerry, a apresentar uma proposta de cessar-fogo estrategicamente desfavorável a Israel.

O Hamas praticamente fechou o aeroporto internacional Ben-Gurion por dois dias e fez com que companhias aéreas européias diminuíssem o fluxo de vôos de e para Israel. Não apenas pelo simbolismo político de ter a sua porta de entrada fechada, essa conquista tem sérios efeitos econômicos – diretos e indiretos.

O Hamas conseguiu manter um dos exércitos mais fortes e sofisticados do mundo em uma operação militar por mais de um mês.

Durante a operação, o Hamas conseguiu manter seus lideres completamente imunes aos ataques israelenses.

As táticas de guerrilha utilizadas pelo Hamas demonstram a vulnerabilidade dos valores ocidentais e a problemática condição geográfica de Israel diante do terrorismo.

A operação militar permitiu que o mundo conhecesse a realidade de Gaza pelos olhos do Hamas, dando margem a deslegitimização do bloqueio à região e criando uma imagem negativa a toda e qualquer ação israelense.

O Hamas conseguiu evidenciar quão desfavorável é a opinião pública internacional a Israel e, de certa forma, fomentou o antissemitismo no mundo.

Israel será investigado por crimes de guerra pela Comissão dos Direitos Humanos da ONU.

Basta. Chega de pontos negativos referentes a operação militar. Os defensores incondicionais de Israel começarão a ficar incomodados com a verdade. É hora dos críticos “sofrerem” um pouco.

Israel, Egito, Jordânia, Autoridade Palestina e Liga Árabe nunca tiveram interesses tão alinhados, criando uma oportunidade política única para retomada das negociações. Israel tem a possibilidade de impor suas condições em um ambiente mais ‘amigável’.

A operação militar foi capaz de mostrar ao mundo a verdadeira face do Hamas. Apesar da opinião pública ser negativa a Israel, as pesquisas apontam que as táticas utilizadas pelo grupo terrorista lhes tira a legitimidade política que este almeja estabelecer.

Israel conseguiu expor o sistema financeiro do terrorismo, revelando o Qatar como um patrocinador importante da luta armada. Essas transações monetárias já não passarão imunes.

Israel fez um investimento de milhões de dólares evaporar. Há quem argumente que a operação acarretará no estrangulamento econômico do terrorismo e na necessidade de patrocinar o braço político do Hamas. Dessa forma, avalia-se que o movimento passará por um processo de moderação similar ao do Fatah.

O exército israelense conseguiu destruir uma grande parte da infraestutura terrorista em Gaza e neutralizou a ameaça dos túneis.

Israel conseguiu isolar diplomaticamente o Hamas no mundo árabe. Mesmo os flertes de Nasrallah e o cortejo iraniano já não são mais suficientes para sustentar politicamente o movimento.

Apesar dos conflitos diplomáticos que ocorreram ao longo da operação, Israel obteve um amplo apoio dos lideres ocidentais, principalmente no início.

Acho que já é suficiente para os defensores incondicionais de Israel saciarem a sede de vingança retórica. Não tem nada a ver com a verdade, apenas com a vitória discursiva. Aliás, não tem nada a ver com Gaza, civis, justiça e paz, apenas com quem ganha o debate oral. É uma pena. Nessa batalha facebookiana já não interessa saber que 46% da população de Gaza acredita que não há vencedores nessa operação militar. Já não é mais relevante considerar que 92% dos habitantes de Gaza são a favor de um cessar-fogo, 64% afirmam que investimentos em infraestrutura são preferíveis a restauração do poder bélico e que 72% querem paz. De fato, já não interessa saber que após 30 dias de uma justificável operação militar, 34% da população israelense não se sente nem mais nem menos segura, que 51% acredita não haver vencedores nessa guerra e que 53% afirma ser necessário fortalecer Mahmoud Abbas. Nada disso interessa. Aliás, nada disso é verdade. O problema é que também não é mentira.

Comentários    ( 29 )

29 comentários para “Somos todos terroristas perante a verdade”

  • Otávio

    11/08/2014 at 21:25

    Genial.

    Entre judeus e não judeus não há aqueles que não tiram o chapéu pros textos de vocês. Conexão Israel é uma grande fonte de informação pra tentar evitar a tão bem exposta “racionalização motivada”.

    Parabéns a todos envolvidos na criação e desenvolvimento deste blog.

    • Bruno Lima

      11/08/2014 at 22:24

      Olá Otávio,

      Obrigado pelo elogio! É um grande prazer!
      Abraços,
      Bruno.

  • Mario S Nusbaum

    11/08/2014 at 21:33

    ” O governo israelense e o Hamas constroem seus discursos com base na ideia equivocada de que haverá apenas um vencedor.” Eu concordo com 46% da população de Gaza, não houve nenhum vencedor. Resumindo o meu ponto de vista, se o hamas não fosse o hamas, Israel não teria gasto os tais bilhões de dólares e 2000 palestinos estariam vivos. Agora, se os dados citados por você estiverem certos – Já não é mais relevante considerar que 92% dos habitantes de Gaza são a favor de um cessar-fogo, 64% afirmam que investimentos em infraestrutura são preferíveis a restauração do poder bélico e que 72% querem paz. – todo mundo terá ganho alguma coisa, importante. Disse SE estiverem certos porque o Al Monitor de hoje publicou o seguinte: “In Palestine, resistance more popular than negotiations
    West Bank leaders, who had been my Palestinian partners during the Oslo process, express grave concern with the ramifications of the Gaza war. They told Al-Monitor that they foresee a growing radicalization in Palestinian public opinion, leaving little support for a negotiated solution. Hamas, in their view, will be strengthened politically, especially in the West Bank. Resistance is becoming more popular than negotiations.”

    • Bruno Lima

      11/08/2014 at 22:44

      Olá Mario,

      Obrigado pelo comentário.
      Contradições entre os números existem, mas, às vezes, a contradição está na nossa perspectiva. Apoiar o Hamas e querer a paz podem parecer contradições para nós, mas para a população de Gaza pode não ser.
      Os dados são verdadeiros e a pesquisa foi realizada e processada por instituições israelenses.

      Abraços.

    • Mario S Nusbaum

      12/08/2014 at 14:27

      Oi Bruno,
      “Os dados são verdadeiros e a pesquisa foi realizada e processada por instituições israelenses.”
      Obrigado por esclarecer, fiquei contente em saber.
      um abraço

  • Raul Gottlieb

    11/08/2014 at 22:04

    Olá Bruno,

    Eu não tenho certeza quanto à afirmação acadêmica que nossas decisões são definidas aprioristicamente conforme o fenômeno da “racionalidade motivada”, pelo qual selecionamos dentre as informações disponíveis aquelas que se adequam ao nosso modo de pensar.

    Parece-me que isto pode (deve) acontecer em decisões impulsivas, onde você não tem tempo para refletir.

    Contudo, eu já mudei de ideia tantas vezes na minha vida que tenho grande dificuldade em “comprar” a noção que eu só procuro informações que se coadunem com o meu ponto de vista.

    Já fui grande apoiador dos Acordos de Oslo. Já há algum tempo percebi que eles foram um grande equívoco e que eles não trouxeram os resultados esperados. Continuo admirando o Rabin e o Peres por terem tentado algo diferente, mas é claro hoje que a novidade de 1983 não cumpriu o que se esperava dela.

    Já votei no Lula, veja só você!

    Já fui a Buenos Aires fazer turismo. Houve uma época da vida que eu não admitia colocar os pés na Alemanha. Já fui leitor diário do Haaretz.

    Tudo isto mudou radicalmente. Como se explicar isto pela teoria que você expõe? Eu deveria ser tão aferrado aos meus conceitos que jamais mudaria de posição.

    Abraço,
    Raul

    • Bruno Lima

      11/08/2014 at 22:38

      Olá Raul,

      Obrigado pelo comentário.
      Você não entendeu a teoria “motivated reasoning” – ela não afirma que não somos capazes de mudar de opinião. Ela trabalha com a hipótese de que a mente humana necessita sustentar opiniões que formamos, apesar de suas contradições internas e argumentos opostos. Necessitamos proteger essas opiniões, pois elas formam nossa identidade e tornam-se expressões de nossos valores. As protegemos através de materiais que corroborem com elas. É um mecanismo de defesa. Mas, assim como nossos valores se transformam ao longo do tempo, nossas opiniões também mudam. Nesse processo, passamos a protegê-la novamente. Psicologicamente, é mais difícil você mudar de opinião que um adolescente, pois você tem valores e princípios mais consolidados na sua identidade – esse é o ponto. A neurociência e a psicologia trabalham com essa ideia. Para mais informações sobre o tema sugiro a leitura do artigo “The case for motivated reasoning” do Ziva Kunda de Princeton.

      Aliás, todas as decisões tem um aspecto impulsivo – sem exceção.

      Abraço,
      Bruno.

    • Mario S Nusbaum

      12/08/2014 at 14:29

      “Já votei no Lula, veja só você!”
      Shame on you!

    • Raul Gottlieb

      12/08/2014 at 18:52

      Não sou perfeito, ninguém é.

      Eu achava que ele ia reduzir a corrupção que ia governar com uma coalizão mais ideológica e mais limpa que o PSDB. Eu achava que no Brasil todo mundo é esquerdista mesmo (até os milicos eram) e que o PT ia compensar os quadros menos competentes com uma maior pureza na política.

      Errei em tudo! Foi o caso de uma solução agravante: o que se pensa vai melhorar a situação a piora. Neste caso foi muito!

  • Raul Gottlieb

    11/08/2014 at 22:08

    Mais uma coisinha, não dá para acreditar em pequisa de opinião em países sem liberdade de expressão. Pesquisa de opinião nas Arábias é uma perda de tempo.

    Veja o vídeo abaixo o que o ISIS (irmão do Hamas no Iraque) está fazendo com quem pensa diferente. Depois deste tratamento eles terão 101% de aprovação em tudo o que propuserem, certo?

    http://www.youtube.com/watch?v=YKMSMzgx7zM

    A propósito, é isto que o Hamas faria conosco caso pudesse. Isto não é uma fantasia, é o que eles dizem e os seus assemelhados fazem.

    • Bruno Lima

      11/08/2014 at 22:39

      “(…) não dá para acreditar em pequisa de opinião em países sem liberdade de expressão.”

      Essa generalização é exatamente “motivated reasoning”.

  • Bernard Kuperman

    11/08/2014 at 23:20

    Boa tarde Bruno!
    Gostaria de saber a fonte dos dados apresentados no texto.
    um abraço

  • Raul Gottlieb

    11/08/2014 at 23:20

    Bruno, está difícil de comprar as teses que você defende:

    — Se eu protejo as minhas opiniões como é que eu permito que elas mudem ao longo do tempo?

    — Já tomei centenas de decisões depois de pensar um bom tempo e acabei decidindo contra o movimento inicial. Cadê a impulsividade?

    — E sobre as pesquisas de opinião: os 99,99999% de votação que o Assad ganhava na Síria, o Mubarak no Egito e o Kadafi na Líbia eram reais? Mesmo? A galera que sobreviveu ao massacre do vídeo que eu postei vai ficar contra o ISIS? Lembre que pesquisa de opinião se baseia numa amostragem, pode ter um ou outro que vai desafiar o opressão (dez foram mortos em Gaza porque resolveram fazer uma manifestação pela paz, ou sempre tem alguém), mas estes serão ocultados pela opinião oprimida dos demais.

    Amigo, acho que os fatos desmentem a tua teoria.

    Abraço, Raul

    • Bruno Lima

      12/08/2014 at 00:23

      Raul,

      1) Não sou seu amigo e dispenso a ironia.
      2) A teoria não é minha. Essa é uma teoria com MUITA base empírica no campo da neurociência e da psicologia. Leia o artigo que te indiquei, antes de “proteger a sua opinião”. Leia também http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1698090 . Você não precisa “comprar” essa tese. Tente refutá-la por métodos científicos e continuamos a discussão.
      3) Novamente, a teoria não afirma que não somos capazes de mudar de opinião. Ela apenas dificulta esse processo para dar sustentação à nossa personalidade. Sem essa proteção, estaríamos sempre (todos os dias) mudando de opinião sobre tudo, o que tornaria a vida impossível. Portanto, essa motivação racionalizada permite a nós, seres humanos, preservar nossos valores por mais que isso custe a negligência diante de argumentos opostos.
      4) A impulsividade ocorre no momento em que tomamos a decisão. Apesar de “pensarmos um bom tempo”, sabemos que outros fatores determinam os efeitos da decisão que tomamos – fatores como “sorte”, “circunstância”, “tempo”, “lugar” e muitos outros sob os quais não temos qualquer controle no momento em que a decisão ocorre. Para que não paralisemos diante da incerteza quanto ao efeito desses fatores, nossa mente nos “impulsiona” a tomar uma decisão – essa é uma impulsividade natural, necessária para o processo evolutivo.
      5) Me referia a pesquisas realizadas por instituições competentes (ONU e instituições acadêmicas) em países sem liberdade de expressão. Pode confiar.

    • Raul Gottlieb

      12/08/2014 at 19:12

      Está certo, Bruno, não somos amigos. Mas não fiz ironia e sei que a teoria não é tua, apenas tentei dar uma leveza no meu comentário. Acredito que não eh preciso ser severo. Isto aqui não é uma cátedra universitária. Ou pelo menos eu acho que não é e se for não está escrito que é.

      Você deu uma melhorada na explicação da teoria. Ou talvez seja que eu entendi melhor agora e você já tenha explicado muito bem da primeira vez.

      Segundo ela mudamos de opinião lentamente, mas mudamos. Aí eu já acho que está certo, é isto mesmo e eu não preciso ler o que os acadêmicos estudaram para chegar nesta conclusão. Já a havia intuído observando o mundo.

      Agora, para eu confiar na ONU ainda falta eu mudar muito de opinião. Como você escreve sem ironia, fiquei estarrecido. Nem a academia nem a ONU são inteiramente competentes.

      Acho impossível uma pessoa que vive num regime de opressão (onde a discordância é frequentemente paga com a vida) responder o que pensa e não o que deve responder para se manter vivo ou sadio.

      Realmente não estudei psicologia, mas eu observo isto todos os dias em situações muito mais leves do que nos regimes tirânicos. Basta o setor ter um chefe despótico para a grande maioria das pessoas responder como vaquinhas de presépio.

      Pesquisa de opinião num lugar onde o governo (Hamas) mata manifestantes pelo fato de terem se manifestado pode ser feita por Deus que está furada! Quanto mais pela ONU…

      Saudações
      Raul

    • Bruno Lima

      12/08/2014 at 00:43

      Sobre as pesquisas “inacreditáveis”.
      As pesquisas foram realizadas pelo Centro Interdisciplinar de Hertzlia e por institutos de pesquisa especializados. Os dados encontram-se em http://www.timesofisrael.com/poll-huge-majority-in-gaza-want-lasting-ceasefire/ e http://www.haaretz.com/news/national/.premium-1.609091

    • Raul Gottlieb

      12/08/2014 at 22:24

      A do Haaretz é com israelenses, dá para acreditar.

      A outra é com palestinos em Gaza e a meu ver pessoas que vivem sob coerção ou muito stress tendem a não responder pesquisas de opinião de forma confiável, independente de quem a tenha feito e/ou endossado.

      Certamente deve existir algum estudo acadêmico sobre isto, não é?

      O perigo, o medo da morte tira a pessoa da normalidade. D. Dilma diz que até reza quando o avião balança brabo.

  • Gabriel

    12/08/2014 at 10:49

    Acredito que o “motivated reasoning” explica porque muitos jornalistas que estiveram em Gaza sob a pressão de terroristas do Hamas para não filmar atividades terroristas não se retrataram ao sair de Gaza.

    É a sua forma de proteger a sua “credibilidade” e da opinião transmitida durante a operação que foi formada por uma percepção guiada (por terroristas) da realidade. Esses jornalistas agora defendem suas teorias com unhas e dentes, mesmo sem estar em perigo iminente – perdendo o compromisso com a realidade que presenciaram em favor de manter a sua palavra intacta.

    Acho muito importante entender este fenômeno, o “motivated reasoning”, pois ele é bem real especialmente a curto prazo.

    • Bruno Lima

      12/08/2014 at 13:02

      Olá Gabriel,

      Não havia pensado nessa possibilidade. É uma análise interessante, mas não podemos esquecer de três fatores importantes: (1) os jornalistas trabalham para empresas que não querem ver seus funcionários quebrando com a credibilidade de seu produto – a informação. Portanto, não sei quanto é ‘motivated reasoning’ e quanto é obediência trabalhista. (2) não vi nenhum jornalista negando a existência de atividades terroristas em Gaza. Portanto, sobre o quê exatamente eles deveriam se retratar? (3) se esses jornalistas não puderam filmar as atividades terroristas enquanto estavam em Gaza, que material eles vão apresentar para se retratar? Com exceção de seu depoimento, o jornalista não tem material para expor a “realidade” de Gaza.

      De qualquer forma, é uma perspectiva interessante.
      Um abraço.

  • Isabel Portugal

    12/08/2014 at 11:31

    Ola Bruno,

    Parabéns pelo artigo.

    Muito bom e muito esclarecedor !

    Obrigada Isabel

    • Bruno Lima

      12/08/2014 at 12:16

      Olá Isabel,

      Obrigado pelo elogio! É um prazer ter esse retorno do leitor!
      Um abraço.

  • Mario S Nusbaum

    12/08/2014 at 14:41

    “muitos jornalistas que estiveram em Gaza sob a pressão de terroristas do Hamas para não filmar atividades terroristas não se retrataram ao sair de Gaza.
    É a sua forma de proteger a sua “credibilidade” e da opinião transmitida durante a operação que foi formada por uma percepção guiada (por terroristas) da realidade.”
    “de. É uma análise interessante, mas não podemos esquecer de três fatores importantes: (1) os jornalistas trabalham para empresas que não querem ver seus funcionários quebrando com a credibilidade de seu produto ”

    Não sei se você costumam ler a imprensa brasileira, mas a cobertura do Lourival Sant’Anna (Estadão) está excelente. Quanto a ” Com exceção de seu depoimento, o jornalista não tem material para expor a “realidade” de Gaza.”, dependendo do depoimento ele tem MUITA força. Por exemplo: “O Hamas nega o uso de “escudos humanos”, mas o repórter do Estado presenciou, ao longo de oito dias, o disparo de foguetes de áreas densamente povoadas, incluindo um ponto a dois quarteirões de onde jornalistas estrangeiros estão hospedados. O Hamas sabe que Israel não pode bombardear uma área de concentração de jornalistas. E sabe que a tática não faz bem a sua imagem. Na noite de quinta-feira, após ser visto gravando imagens da sacada, o repórter teve o apartamento invadido por dois homens encapuzados, que exigiram ver as imagens.” MUITO diferente do que eu li de vários outros jornalistas. Mais um trecho, afinal o Lourival merece: “Percorrendo a Faixa de Gaza de norte a sul, parando nas cidades mais atingidas – Jabaliya, Beit Hanun, Beit Lahiya, Khan Yunis e Rafah, além de Gaza -, a reportagem do Estado constatou que, ao lado da morte de muitos civis, houve também muitos alvos atingidos que tinham de fato ligação com o Hamas e a Jihad Islâmica. Muitas casas eram de policiais, de famílias ligadas ao Hamas.

    Militarmente falando, embora alguns lugares tenham sido cenário de guerra de saturação e terra arrasada, também chama a atenção a capacidade de Israel de identificar pessoas ligadas aos grupos islâmicos. E isso é algo que nem a mais sofisticada atividade de voos de reconhecimento dos aviões não tripulados e balões que dominam os céus da Faixa de Gaza pode obter. A chamada inteligência humana, no terreno, envolvendo informantes palestinos, foi usada em grande escala.
    Moradores de Gaza afirmam que dezenas de palestinos foram executados e arrastados pelas ruas como punição por colaborar com Israel. “Os espiões foram executados após serem pegos informando sobre o paradeiro da resistência ou interrompendo o trabalho dos homens da resistência e desarmando emboscadas contra o inimigo”, informou o site Al-Majd, pró-Hamas, citando funcionários do grupo. A colaboração com Israel expressa o descontentamento de parte dos palestinos com a forma como a Faixa de Gaza vem sendo administrada. / L.S.”

  • Morris

    12/08/2014 at 18:44

    Excelente artigo, Bruno!

    Um dos mais interessantes que li sobre a guerra de mídia que se forma sempre que o assunto é Israel.

    É notório que todos acabam participando dessa guerra, mas poucos tem consciência de sua dimensão e possíveis consequências. É preciso ter em mente a armadilha do viés confirmatório e não perder de vista a auto-crítica, saudável na reconstrução do diálogo de médio e longo prazo.

    Abs e obrigado.

    • Bruno Lima

      12/08/2014 at 19:09

      Olá, Morris!

      Obrigado pelo comentário e elogio! O importante, como você corretamente notou, é ganharmos consciência das nossas pré-disposições para enriquecermos nossoas ideias e nos aproximarmos da realidade.
      É um prazer receber esse retorno.

      Grande abraço.

  • Marcelo Starec

    13/08/2014 at 05:33

    Oi Bruno,
    Eu gostei do artigo, não consegui ler antes por falta de tempo…Acho que você está teoricamente correto em tentar chegar a “verdade”, mas infelizmente trata-se de um “sonho utópico”. O seu raciocínio é análogo ao de um físico que decide provar cientificamente como foi a criação do mundo, por exemplo, mas não consegue…Sinto lhe fazer voltar ao mundo real, mas você jamais conseguirá chegar a tal “verdade absoluta” e a sua análise, por mais esforço que você genuinamente faça, será sempre imparcial, entretanto eu prefiro mil vezes ler a análise de alguém que pelo menos busca ao máximo ser imparcial do que a de quem se limita a fazer manipulações grosseiras e nesse ponto te parabenizo. Contudo, não se iluda, ninguém consegue ser totalmente imparcial e atingir isso é de fato uma utopia, mas ter como parâmetro de análise se esforçar ao máximo em ser imparcial, e ao mesmo tempo ter a consciência de que você almeja isso mas não consegue atingir esse objetivo de forma integral, nunca, é algo muito importante. Por fim, independente de qualquer coisa, estamos em um momento difícil, onde as posições se radicalizam e é normal e saudável defendermos, com ética, o nosso lado, até porque justamente pelo momento em que vivemos, somos mais do que nunca questionados sobre os nossos direitos mais comezinhos, como o direito de Israel de existir e se defender e inclusive os direitos mais básicos do povo judeu!
    Abraço,
    Marcelo.

    • Bruno Lima

      13/08/2014 at 12:22

      Olá Marcelo,

      Obrigado pelo seu comentário. Não acredito que seja possível atingir essa verdade absoluta. Você deixou passar a seguinte passagem: “Mas não sou ingênuo. Sei que estamos fadados a ler informações idênticas de forma distinta – não importa quão racionais e conscientes nós queiramos parecer, seguiremos com nossos erros sistemáticos e nossas naturais irracionalidades.”
      Não discuto se devemos ou não buscar a verdade – me parece óbvio que toda análise séria deve ser construída com objetividade. Meu artigo tem como objetivo apontar os obstáculos nessa busca – as pré-disposições que nos impedem de considerar argumentos opostos, as circunstâncias que afloram nossas emoções e neutralizam a razão, etc.
      Você diz: “estamos em um momento difícil, onde as posições se radicalizam e é normal e saudável defendermos, com ética, o nosso lado, até porque justamente pelo momento em que vivemos”. Sobre essa afirmação digo que os momentos difíceis não devem diminuir nossa capacidade crítica e suprimir nossos senso analítico – acho que o compromisso com a verdade e com a justiça dos fatos estão acima da defesa incondicional por qualquer causa. Somos testemunhas do que ocorre quando essa “defesa incondicional” coloca-se acima do nosso senso moral e devemos evitar que a história se repita. Moro em Israel e posso afirmar que essa defesa incondicional é mais prejudicial do que benéfica a imagem do israelense (estou escrevendo um texto sobre isso). Sobre “defender com ética nosso lado” é uma contradição moral. A ética tem por princípio a imparcialidade e a objetividade e não deve ser usada como artíficio para defesa “saudável” de uma causa. A ética é sua própria causa. Ela exige que defendamos certos princípios morais, por mais que isso custe uma crítica “ao nosso lado”. Ser ético é evitar ao máximo o que chamo de “racionalização motivada”, por mais árduo e sacrificante que isso seja.
      Abraço.

    • Marcelo Starec

      13/08/2014 at 16:40

      Oi Bruno,
      Obrigado pela resposta. Desculpe-me por não ter observado adequadamente uma passagem do seu texto. Entendo perfeitamente e respeito o seu ponto de vista. Por fim, quero aproveitar essa discussão para colocar, a esse respeito, algo que sempre me incomodou muito e acho uma postura incorreta. É o fato de judeus, que para passarem a imagem ou tentarem ser “imparciais”, terminam por sempre estarem fazendo suas análises contra Israel, pois desse modo ficam simpáticos, pois ser contra Israel é quase sempre algo “IN” e esses analistas ficam bem perante a opinião pública ao colocarem-se dessa forma, ainda que isso nada tenha a ver com imparcialidade, mas é assim reconhecido pela maioria das pessoas, infelizmente. Sei que esse não é o seu caso, mas quero deixar aqui essa questão, até porque ser justo também é ser a favor de Israel, sempre que for o caso.
      Abraço,

    • Bruno Lima

      13/08/2014 at 17:39

      Marcelo,

      Perfeito. Concordo com toda e qualquer parcialidade inadequada.
      Grande abraço.

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