Sonhando com um mundo (fashion) melhor

Como é o eclético, livre e esteticamente duvidoso modo de vestir das israelenses

Nunca curti os arroubos estilísticos femininos brasileiros, essa mania fashion insana que padroniza os gostos e o visual às vezes para o bem, às vezes nem tanto. Mesmo assim, é engraçado e um pouco irônico passar a viver em um país em que há uma tal liberdade de estilos a ponto de haver muitos… e não haver nenhum.

No Brasil, de um dia para o outro, você sai às ruas e todo mundo está usando a mesma coisa, com óbvias diferenças de qualidade, de acordo com o status socioeconômico. Brincos até os ombros em um dia, batas indianas, gola rolê, jeans de cintura baixas, pulseira de tachinhas ou botas de duas cores no outro. Qual de nós, brazucas, não esteve lá? Uma semana após a outra, sucessivas ondas, em um mar infinito. Um movimento que só não consegue ser aborrecido devido à sua frequência. Não há um mês sem uma nova tendência.

Será que isso é resultado do poder das novelas? Arraigada preocupação estética? Excessiva valorização do corpo? Uma vez que a ideia aqui não é redigir um tratado antropológico sobre o afeto brasileiro ao mundo fashion, escrevo apenas para dizer que, agora percebo, em Israel nada disso existe.

E, assim, vivemos no extremo oposto, na total ausência de parâmetros estilísticos e a absoluta liberdade de expressão. Não há moda, não há padronização. O que tem um lado bom – liberdade! – e um ruim, porque o resultado pode ser deveras agressivo aos olhares mais atentos.

Certa noite recente, sentadas eu e minha filha em um lugar público, passou por nós uma adolescente pseudo-indiana, com um longo vestido de algodão cru e lenço colorido cobrindo os cabelos, outra moça recém-chegada de uma aventura náutica, com um vestido de faixas azuis e brancas, uma terceira, representante digna dos anos 70, com sobreposição de tecidos e rendas, tudo branco. Cabalista, imagino.

Minha filha de 13 anos, menina esperta, definiu:

“Aqui todo mundo se veste como quer, né? Você pode seguir os anos 60, 70, 80, 90 ou pular para o futuro. Ou seja, se veste como ninguém nunca se vestiu antes”.

(Tiro certeiro. Estou babando de orgulho dela até agora. Eu não teria definido melhor.)

No entanto, querido leitor ou leitora – muito embora meu marido não acredite que um homem chegará até esse ponto do texto –, não vou deixá-lo na mão: terminarei essa elocubração dando uma ligeira organizada nos poucos grupos humanos fashion que, no meu olhar e na minha área, a conservadora Raanana, existem em Israel.

Há a turma do legging. De todas as idades, suas adeptas desfilam em calças justíssimas que mostram muito mais do que seria prudente.

A turma do safari: estampas de oncinhas, zebrinhas e outros bichos em todo tipo de peça, de sapatos a lenços de cabeça. Outro dia vi nas unhas… aberração.

As francesas: geralmente elegantes, com saias justas e curtas, lindos sapatos e, quase sempre, batom vermelho. Gostaria de entender essa identificação. Talvez influência de Chanel, L´Oreal, Givenchy?

Turma da minissaia e da plataforma: não sei qual a ligação intrínseca entre ambas em Israel, mas sei que há.

Harediot (ultraortodoxas): se cobrem inteiras sem se importar com a combinação de peças. Há apenas um padrão: no dia a dia, estão sempre calçando tênis de corrida. Morro de curiosidade em saber porquê – tênis eu entendo, porque é confortável e elas os gastam correndo atrás das crianças, mas o fato de ser de corrida muito me surpreende.

Datiot (religiosas): as mulheres religiosas sionistas são um povo ligado aos tecidos de algodão. Também cobrem o corpo praticamente inteiro – embora esteja surgindo uma geração mais liberal – mas com alguma preocupação estética. Como a moda aqui não é generosa de nenhuma forma, muitas vezes compram roupas em lojas comuns e são obrigadas a fazer uma “camada interna de proteção” para alongá-las (sob a roupa, usam camisetas justas e anáguas… anáguas, meu Deus!). Isso é um perigo para o mundo fashion, infelizmente.

De forma geral, saias e vestidos predominam no mundo feminino. Acho que em função do mundo religioso, em que as mulheres não usam calças compridas, são ítens disseminados em Israel. Acho lindo. Adotei. “Kissui rosh”, as “coberturas para a cabeça”, também são populares, por influência religiosa. Há de todos os tipos, desde chapéus medonhos, touquinhas de lã da vovó ou tiaras com uma florzona que se posiciona estrategicamente em uma área improvável do cocoruto. Mas há também opões lindas, lenços deslumbrantes e lindamente colocados, faixas graciosas, tiaras charmosas. Outro dia, vi que meninas também as usam para prender as vastas cabeleiras.

Ou seja, temos sim elementos que podemos usar em nosso favor. E devemos ter esperanças: afinal, somos o povo que cultiva hortaliças no deserto do Neguev e sonhar ainda é de graça.

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Sonhando com um mundo (fashion) melhor”

  • Raul Gottlieb

    01/06/2015 at 12:18

    Qual de nós, brazucas, não esteve lá?

    Respondo: a minha atual esposa e muitas (arriscaria dizer quase todas) das minhas amigas.

    Seguir a “moda” de forma acrítica não me parece ser a norma, mesmo no Brasil. É apenas muito divulgado por interesses comerciais óbvios.

    • Miriam Sanger

      01/06/2015 at 13:06

      Oi, Raul. Eu tb não sou escrava da moda, mas me rendo de vez em quando 🙂
      Obrigada por participar “da conversa”.
      Abraço,
      Miriam

  • Marcelo Starec

    01/06/2015 at 19:22

    Oi Miriam,

    Muito bom o artigo!…Vou ser sincero, não entendo nada sobre moda!…Eu também não sou dos que são “escravos” da moda…Aliás, vejo muita gente no Brasil praticando alguns exageros, tais como eventualmente pagar dez vezes o preço de uma roupa simplesmente por ela ser de uma determinada marca…Entendo que as vezes a marca é de fato uma referência para a qualidade e assim, é justo e razoável pagar um pouco mais…mas o que se vê muito por aqui é gente que paga um absurdo por algo, simplesmente por ser “de marca”, sem nada “racional” que justifique (apenas por um status, tipo uma forma de se diferenciar dos demais…). Em Israel, como eu não entendo nada de moda, a única observação que posso fazer é que em tempos mais antigos (tipo década de 80) as pessoas a meu ver andavam mais simples…Hoje, em regra há muito mais preocupação em se vestir de modo mais elegante em Israel, seja lá o que for isso…mas é apenas uma visão muito superficial !…..Acredito também que muitos se chocam com essa diversidade tão grande de estilos, onde todos são respeitados – o que no meu entender representa muito bem o que é a democrática sociedade israelense, onde reina a diversidade em todos os campos!….

    Abraços,
    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      02/06/2015 at 11:25

      Verdade: sinal de democracia. Boa observação. Abração e obrigada por nos escrever!
      Miriam

  • Raul Gottlieb

    02/06/2015 at 12:39

    O botequim tinha a seguinte tabela de preços: “pão com manteiga: R$ 1,05 | pão sem manteiga: R$ 1,15”.

    O cliente estranhou. “Ô Dudu (o buteco se chamava “Bar do Dudu”), como pode um pão sem manteiga custar mais caro que o pão com a dita cuja?”.

    Dudu (que tinha feito um curso no SENAC) explicou: “É por causa do custo da mão de obra. Tem que colocar a manteiga e depois tirar a manteiga e isto demora uns 40 segundos, o que equivale a 10 centavos do salário do Zé, considerando os encargos e tudo o mais!”.

    Sempre me lembro desta piada dos anos 70 quando vejo as moçoilas andando por aí com suas calças esgarçadas na fábrica, que lhes emprestam um ar de despojamento cuidadosamente produzido.

    A moda de hoje é parecer que não se liga para a roupa, e isto é conseguido usando roupas produzidas exatamente para a finalidade de parecerem não produzidas.

    A última vez que fui comprar uma calça de jeans (deve fazer uns três anos e foi em Israel) o vendedor perguntou se eu queria normal ou desbotada, sendo que a desbotada custava mais caro, pois tem que fazer a calça normal depois passar ela pelo processo de desbotamento.

    Minhas calças são super caretonas, denotando a todos que me veem passar em Ipanema que sou um burguesão que só pensa em dinheiro. Descolada é a calça da minha vizinha de 16 anos, pela qual o meu amigo pai dela pagou o triplo do preço da minha (e da dele, por sinal).

    Não tem muito a ver com o texto da Miriam, mas eu acho super engraçado.