Uma peça, um concerto e um show de striptease.

23/02/2015 | Cultura e Esporte

Eu e um amigo estávamos no segundo uísque quando lembrei de uma promessa feita por ele há alguns meses, depois de muita insistência da minha parte: me levar para conhecer um clube de striptease em Tel Aviv. E lá fomos nós. Mas antes eu tive que passar por uma grande decepção teatral. Explico.

Uma das coisas mais importantes pra mim é arte. Sou filha de artistas, cresci nesse ambiente, tive o privilégio de trabalhar por muitos anos com cultura, e não há nada que me faça mais feliz do que ver um bom espetáculo. Uma das minhas maiores paixões é o teatro, especialmente o teatro musical.

Em Israel, assim que cheguei comecei a frequentar teatros. Vi coisas incríveis como o É Isto um Homem, do Khan, até leituras amadoras de Os Monólogos da Vagina em um centro de judaísmo conservativo em Jerusalém.

Quando me mudei para Tel Aviv, fiz uma assinatura do Teatro Cameri, um dos principais – e melhores – teatros do país. Lá vi superproduções como Um Violinista no Telhado, Cabaret e também montagens alternativas como Um Bonde Chamado Desejo – pra quem conhece o texto e o país, Blanche em vez da origem francesa é uma bêbada russa!

Esse ano a grande novidade do Cameri é a montagem de Hair, o clássico musical do fim dos 60, que foi transformado em filme. Eu nunca fui muito fã da versão cinematográfica, já que o diretor, Milos Forman, mudou completamente o enredo, mas vi a peça na Broadway uma vez e sete vezes (!!) assisti a montagem genial de Charles Möeller & Claudio Botelho no Rio. No final do espetáculo – em todos os países – o público é convidado a subir ao palco e cantar com o elenco Let the Shunshine In. Hair foi, inclusive, a última peça que vi no Brasil, uma semana antes da minha vinda para Israel, subi ao palco com minha mãe e chorava copiosamente.

Pois bem. Quando vi que os ingressos já estavam à venda, liguei para reservar o meu: “Não importa a data, primeira fila quando tiver” foi meu único pedido.

Finalmente chegou o dia, fui com uma amiga que nunca tinha visto o espetáculo, só o filme, e que estava igualmente ansiosa para ver pela primeira vez a montagem do palco.

Na primeira cena veio a grande decepção: ao invés de fazer o texto original para teatro, eles decidiram adaptar o filme para o palco. Ok, “respira e tenta curtir”, foi o que pensei. Mas não deu. Os figurinos não pareciam de teatro e sim catálogo de verão da Castro (uma grife famosa local). E os cabelos? As perucas dos homens eram feias, e vamos combinar que vivemos na época do mega hair, que como efeito visual seria muito melhor. E as mulheres com cabelos normais israelenses, compridos, não era anos 70, era Israel ano 2015.

A total ausência de atores negros me incomodou bastante. Hair tem duas músicas incríveis, Black Boys (meninos negros), na qual garotas brancas falam que amam negros, e White Boys (meninos brancos), na qual garotas negras falam como amam brancos, parte da bandeira de paz e amor, sem racismo, do movimento hippie. Ora, sem atores negros o que vi foram 5 garotas brancas cantando como amam garotos brancos. Sensação ruim.

A cena da mesa, quando Berger dança sobre uma grande mesa chique de jantar, que sim, no filme é genial, simplesmente não funciona no teatro! Não é linguagem de cinema. O que se vê é um cara num palco dançando numa mesa, mas sem dimensão.

Saí frustradíssima do teatro. Escrevi para o Cameri várias vezes perguntando por que não fizeram o texto teatral, mas não obtive resposta.

Decidi que precisava urgentemente de um bom espetáculo para esquecer a decepção. Na semana seguinte fui ao Heichal haTarbut (Palácio da Cultura) para um concerto da pianista chinesa Yuja Wang com a Filarmônica de Israel. Me vesti apropriadamente, afinal música clássica é um dos poucos eventos no país para o qual as pessoas vestem-se elegantemente, muito porque a audiência é acima de 50 anos. Foi um belo concerto, mas o repertório não me emocionou tanto. Precisava de algo mais.

Na saída do concerto, um amigo telefona dizendo que estava com outros amigos tomando um drink. E aí surgiram os uísques do primeiro parágrafo e a decisão de ir para ao Pussycat.

O Pussycat é um dos clubes de striptease mais conhecidos em Tel Aviv. Fica no norte, perto dos hotéis e da praia. O clube, visto de fora, parece um disco voador, redondo, com umas luzes vermelhas. A entrada custa 120 shekels (cerca de 80 reais). Dentro, há um palco com duas barras longas de ferro, duas plataformas mais altas, anexas ao palco, como vitrines. O público senta em sofás longos, compartilhados, onde há mesas com cinzeiros e biscoitinhos. As garçonetes são mulheres, o público e os seguranças, homens.

Chegamos cedo e sentamos nos primeiros sofás. Pedimos mais uísques e esperamos pelo show.

O show, uau, o show. Primeiro um desfile de moças de biquíni fio dental, com os seios à mostra, e cabelos superbem produzidos em longos rabos de cavalo ou soltos ondulados. (Alou, Cameri!). Algumas magras, algumas mais cheinhas, loiras na maioria, mas havia uma negra e uma ruiva também. Elas são as meninas que se pode pedir (leia-se comprar) um lap dance (uma dança sensual quase no colo onde o cliente pode tocar nas moças, mas com limites e sob o olhar dos seguranças).

Depois as principais: uma egípicia com ares de Cleópatra, uma espanhola sadomasoquista e muito brilho. A música é pop, mas combina com o show e com o tema do figurino. Elas sobem nas barras com força de acrobatas, sorrindo, e tirando aos poucos as roupas até ficarem só com a parte de baixo, adereços e muitas vezes de cabeça para baixo, segurando só com as pernas. Um verdadeiro espetáculo. As roupas são superbem produzidas, nível Escola de Samba (isso é um elogio antes que alguém me entenda mal!). Me chamou atenção também que os peitos são diversos, alguns de silicone, mas muitos reais. As bundas não são lá essas coisas, mas Israel não é um país que liga pra bundas.

Meu amigo, depois de mais alguns uísques, resolveu me “presentear” com um lap dance. É engraçado, no meio de todos. A menina, muito simpática e no maior profissionalismo, rebolou no meu colo por alguns minutos e no final ainda disse que eu sou muito bonita. Os meus amigos riam e vibravam. A essa hora o clube já estava cheio, grupos jovens, turistas, algumas outras mulheres. Clima divertidíssimo.

Saí de lá rindo muito, felicíssima, e pensando que finalmente tinha esquecido a frustração do teatro. Nada como um strip club. Recomendo.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Uma peça, um concerto e um show de striptease.”

  • Raul Gottlieb

    24/02/2015 at 13:02

    Querida Mila

    Adorei saber que as pessoas acima de 50 anos são elegantes. E eu que sempre achei que a barriga atrapalhava…

    Beijinho, Raul

    • Mila Chaseliov

      24/02/2015 at 13:06

      Raul,
      dá próxima vez que você vier visitar te levo lá! 😉
      beijinhos!

  • Raul Gottlieb

    25/02/2015 at 12:11

    Ah, vai ser um prazer. Eu sempre vou na Filarmônica e na Ópera quando estou em Israel. Em geral os programas são de muito bom nível.