Tabaconha – Problema de saúde pública em Israel

13/12/2013 | Opinião; Sociedade

Sábado, dia 21 de dezembro, o fim de ano está chegando e uma grande manifestação em favor da descriminalização da maconha acontecerá em Tel Aviv na Kikar (Praça) Rabin. Por ser um tema que está em destaque aqui na mídia, resolvi conversar com um pai de família trabalhador que paga impostos, um cidadão de bem, usuário de maconha com uma opinião interessante sobre o assunto. Por ainda ser um tabu, o meu entrevistado pediu que o seu nome não fosse divulgado. Infelizmente, na realidade em que vivemos, essa pessoa tem que ser tratada como criminosa, com medo de repercussões dentro da comunidade e especialmente para a sua família.

Cartaz da manifestação do dia 21.12
Manifestação em favor da descriminalização da maconha. “Chega de abusar dos doentes”, “Chega de perseguir civis”.

Ele me pediu o espaço para ajudar a alertar a população sobre, de acordo com ele, o verdadeiro problema de saúde causado pela maconha hoje em dia aqui em Israel. Eu achei interessante, nos reunimos em um espaço surreal no centro de Israel e por todo o caminho uma pergunta ecoava na minha cabeça:

GG- Como justo um brasileiro que vive aqui em Israel a menos de uma década vai saber o que é melhor para o israelense? E ainda mais sobre maconha…
Olha, eu venho do Brasil, onde encontrar maconha é algo muito fácil, simples e bem mais barato que outras drogas – mesmo sendo totalmente ilegal. Aqui em Israel, os usuários não vivem essa realidade faz tempo, por aqui a maconha pode chegar a custar 80 reais a grama, é um absurdo. Tudo isso enquanto provavelmente na minha esquina existe um laboratório agrícola testando a próxima tecnologia hydrobubbleairponics israelense de cultivo inteligente de flores de cannabis, além de frutas e vegetais – a engenhosidade israelense rolando solta e eu não posso ter a minha saúde beneficiada também por esse cannabis – simplesmente porque ainda não estou morrendo por alguma doença crônica pior que a existência.
Não digo saber o que é melhor para os israelenses, mas a minha visão é a de um estrangeiro. Talvez possa ajudar algumas pessoas a enxergarem de outra perspectiva, outro ângulo, outra luz.

GG- Foi por isso que decidiu entrar em contato comigo?
Gabriel, eu te conheço faz um tempo, você sabe como desde a universidade lá no Brasil eu uso maconha e que sempre foi algo controlado – tipo, tranquilo e usado com moderação e responsabilidade. Meu contato com a maconha inclusive beirava a religiosidade do meu sionismo, escutando Bob Marley, meu inconsciente me levava para Eretz Israel, Zion, Ganja, Jah – One love. Para mim quando ele falava sobre a Babilônia e voltar para Sião era como se fosse um grande rabino sionista chamando o povo judeu para a Terra de Israel, não conseguia deixar de fazer o paralelo. Enquanto vivia na golá (diáspora), imaginava poder seguir com meus gostos e opções aqui em Israel, ter a minha liberdade como judeu em Sião.

GG- E o que foi que você encontrou?
Amo Israel, encontrei de tudo em diversos aspectos da minha vida e sou uma pessoa bastante completa pessoal e profissionalmente. Mas o tema da maconha aqui em Israel para mim se tornou um problema. Quando cheguei aqui fui apresentado pela primeira vez a uma meleca chamada haxixe. Na teoria, é o óleo, os tricomas da planta de maconha, que caem em uma rede e são juntados e comprimidos em um bloco marrom com alta concentração de thc. Na prática, é um bloco marrom trazido de não sei qual país vizinho que não sei que é que tem nele de verdade. Na falta da planta que estava acostumado – provei, já que se tratava de algo similar e recomendado por outros amigos brasileiros que viviam aqui fazem alguns anos. Realmente era similar, mas com o tempo não surtia o mesmo efeito, além de querer consumir aquela meleca em forma de cigarro – o que me fez tomar uma das decisões mais imbecis da minha vida: misturar a meleca do haxixe com tabaco.

GG- Você ficou viciado?
Não sei te dizer… quer dizer, hoje eu posso te dizer que sim, mas se você me perguntasse durante o(s) primeiro(s) ano(s) que consumi a droga assim, eu te diria que não, que eu paro quando quiser de fumar. Foi só quando eu realmente quis parar de fumar que eu percebi o quanto estava viciado – não na maconha, na tabaconha, o tabaco com maconha. O pior de tudo isso é que eu não fumava cigarro sozinho – nunca assumi o vício em tabaco – e terminava suprindo a necessidade (da nicotina) com a mistura, me transformando em um viciado de algo que não vicia e convencido de que eu queria era fumar maconha.

GG- A maioria dos israelenses que eu conheço fuma haxixe com tabaco. Todos eles estão viciados?
Provavelmente. Ou a grande maioria. Terminam fumando cigarro comum por causa da maconha/haxixe, especialmente pelo preço abusivo do mercado ilegal que faz com que eles diluam a nossa erva medicinal milenar em um produto tasty, mas com nicotina. É uma grande pena que o governo israelense siga defendendo os interesses da nicotina. A maconha acaba servindo de porta de entrada para uma droga muito mais letal, o cigarro.

GG- Mas como você pode dizer isso sobre o governo? É meio forte.
Sabe quando eu tive “certeza”? Quando começaram a aparecer em Florentin e Alenby lojas especializadas naquela porcaria sintética, o “cannabis sintético”, Spice, Mabsuton, Mr. Nice Guy… Essas drogas sintéticas que são baseadas na molécula do THC com pequenas alterações, acabam transformando jovens em objetos de experimento, já que ninguém sabe o que pode acontecer realmente com o uso prolongado e com a mistura óbvia dessa droga sintética com o tabaco e a nicotina para sua “diluição”. A droga misturada afeta o cérebro de forma distinta e causa vício.

O mais bizarro é que muitas pessoas pensam que é pelas nossas crianças que proíbem a maconha, que é pela nossa saúde, que é pela nossa segurança…

As pessoas que mais usam essa droga sintética são soldados e outras pessoas em cargos onde é possível que peçam um exame de urina para identificar o uso de maconha. Como são drogas novas, não existe ainda exame de urina ou de sangue para identificá-las… Ou seja, essas novas drogas experimentais ainda estão atacando o nosso exército e a nossa juventude muito pior do que a maconha poderia. Tudo o que essas pessoas queriam era a maconha simples e original, barata e inofensiva quando usada com moderação por pessoas civilizadas.

Por que não abrir a opção de usar maconha para todo aquele que desejar utilizar a maconha já que existe uma demanda tão grande pela erva medicinal?

A opinião do especialista, professor Moti Ravid: "O cannabis é um remédio para muitas coisas e é assim que precisamos tratar ele."
A opinião do especialista, professor Moti Ravid: “O cannabis é um remédio para muitos doentes e é assim que precisamos tratar ele.”

GG- Peraí, mas crianças não devem usar nenhuma droga, muito menos soldados.
Calma, ia chegar nesse ponto, a maconha só deve ser usada por maiores de 21 anos. Essa é a idade em que o cérebro já está completamente formado e geralmente quando o indivíduo já está formado e preparado o suficiente para decidir se quer usar a maconha com quase nenhum risco. Você sabe cara, sempre existe o risco de abuso e uso indevido, como com várias outras coisas na vida.

A legalização daria acesso a informação e muito menos gente abusaria da droga, porque não haveria necessidade de misturar com tabaco, com mais educação sobre os riscos desnecessários de vício associados a nicotina, além de evitar que mais pessoas usem essas porcarias sintéticas em busca de algo que a conhecida erva milenar proporciona por milênios sem fatalidades e de forma muito mais segura.

GG- Mas você não disse que é ou era viciado em maconha? Será que ela é segura mesmo?
Olha, seguro não é nada nessa vida cara, tudo depende da pessoa que consome, da sua consciência e personalidade. Eu fui viciado em tabaconha, não em maconha. Tinha uma fissura tremenda para fumar meu cigarrinho de maconha nicotinada. Sabe como eu deixei de fumar tabaconha?

GG- Como você deixou de fumar tabaconha?
Fumando maconha. Consegui comprar uma quantidade razoável de maconha de diferentes tipos. Assim tinha maconha suficiente para fumar apenas maconha, quando quisesse, provando diferentes cepas para encontrar aquela que era melhor para mim e para o meu propósito de deixar de fumar. Foi caro com preço da maconha por aqui, mas tinha que investir na minha saúde.

Comecei a fumar só maconha, sem tabaco. Depois de 3 dias já estava fumando muito menos, aos 7 dias já fumava menos de 0.25 g de maconha por dia – lembra que eu estava viciado no ato de fumar, de tragar, de fazer fumaça… 0.25 g de maconha era muito pouco já para mim depois do vício. Lá pelos 20 dias quase não tinha mais vontade de fumar, fazer fumaça… Comecei a me sentir melhor na garganta, sem muco. Realmente, minha saúde começou a melhorar e eu comecei a sentir os efeitos medicinais da maconha muito melhor – sem o tabaco, apenas a relaxação da maconha quando tivesse vontade.

Meu experimento foi um sucesso, hoje fumo muito menos maconha e nunca mais vou fumar cigarro na minha vida. Respiro melhor e me sinto melhor comigo mesmo, a ponto de dizer para amigos com o peito inchado que sou um maconheiro. Estou convencido cada dia mais que essa planta só traz benefícios quando utilizada por maiores de idade com cabeça e moderação. A maconha também pode ser usada em forma de óleo, de pomada para aliviar dores musculares e juntas, vaporizada, adicionada a comida junto com outros óleos – cara, dizem até que comer ela inteira, com todas as fibras, sem esquentar para ativar a psicoatividade, serve para regular a acidez do organismo, alcalinizando o corpo.

Espero que esta mensagem possa chegar até pessoas em Israel que possam fazer algo a respeito. É uma pena pensar que defender uma planta para o seu uso pessoal responsável possa ter qualquer consequência para a minha vida profissional ou familiar e eu não possa revelar a minha identidade. Mais ridículo ainda tendo plantações medicinais absurdamente boas, existirem pessoas que não tem acesso a essa opção de tratamento simplesmente porque não tem a doença certa ou porque não tentaram alternativas muito mais perigosas e experimentais antes.

Na minha opinião, além de curar e aliviar sintomas, a maconha usada por adultos responsáveis também pode ajudar a prevenir doenças e outros vícios.

 

Cartaz pró-legalização em Israel: "Aviso grave! A maconha pode causar pensamentos inteligentes, calma, tranquilidade, amor e sensação de unidade com aqueles que o cercam."
Cartaz pró-legalização em Israel: “Aviso grave! A maconha pode causar pensamentos inteligentes, calma, tranquilidade, amor e sensação de unidade com aqueles que o cercam.”

O que você acha da história do nosso entrevistado? Você fuma? Fuma maconha? Sentiu-se identificado com algum ponto? Acha possível mesmo deixar de fumar cigarro fumando maconha?

Por que existe esse obscurantismo todo em volta da maconha? É o medo ao desconhecido? É uma questão comercial? Militar? Quem perde e quem ganha com a proibição?

Você conhecia a tabaconha? Você acredita que misturar maconha ou haxixe com tabaco faz com que uma droga que não vicia se transforme em um problema de saúde? Qual é a parte negativa dessa equação? O que causa essa mistura? Preço? Legalidade? Cultura?

Cannabis – Por que não legalizar? Será que a maconha é boa para todos? Será que ela é perigosa para a sociedade moderna? Como saber quem deve ou não fumar maconha? Deve ser uma decisão individual ou a sociedade deve decidir pelo indivíduo? Quem ganha com a proibição? Quem ganha com a legalização? Quais sociedades estão dispostas a discutir sobre o cannabis abertamente sem medo de perseguição (legal ou social)? A ilegalidade da maconha cria um buraco negro que é explorado por oportunistas de todos os espectros da sociedade?

Qual é a sua opinião sobre este assunto tão polêmico? A opinião do entrevistado é apenas uma entre milhares. Escreva anonimamente se não desejar revelar sua identidade, para escrever com sinceridade – Adoraria saber a opinião das pessoas que usam maconha aqui em Israel (e também no Brasil) sobre o assunto.

Para ler mais sobre a lei relacionada com o cannabis em Israel, não deixe de ler o artigo do colaborador Alexandre Grasman.

Aviso: O autor e o site Conexão Israel não incentivam de nenhuma forma o uso ou compra  de substâncias ilícitas, mas contemplam o direito dos seus usuários de falar sobre o assunto abertamente sem medo de perseguição. Com a atual situação legal, apenas os “perdidos” acabam tendo cobertura, enquanto os usuários que não tem nenhum problema com a droga continuam anônimos e com medo de compartilhar suas opiniões e casos. O brasileiro que compartilhou suas opiniões anonimamente aqui foi inspirado pela campanha israelense “Saindo do armário verde”. Ele ainda não tem coragem de colocar sua cara lá e sair do armário verde, como provavelmente outros milhares de usuários eventuais de maconha que não querem atrair problemas com a lei. Leia com responsabilidade e fume cigarro se assim desejar – mas evite misturar.

Comentários    ( 49 )

49 comentários para “Tabaconha – Problema de saúde pública em Israel”

  • Ana Maria Piazera-Davison

    13/12/2013 at 16:01

    O entrevistado diz, reiteradas vezes, que a maconha só deve ser utilizada por pessoas maiores de idade, e de maneira moderada e responsável. Concordo com ele. Não sou nem nunca fui usuária de de substâncias consideradas ilícitas,e bebo uma taça de vinho bom por semana, no Shabbat. Fumei cigarros de nicotina (não mais de 8 por dia) por uns 30 anos – parei faz 3 anos, não sinto falta e meu pulmão está limpinho. Considero essa celeuma toda em torno da maconha uma das grandes hipocrisias da sociedade, visto que uma das drogas mais letais, mais adititivas e que mais tragédias causam está disponível logo ali, no quiosque mais perto de você: bebidas alcoólicas de todas as marcas e teores. É só comprar e usar.

  • Marcelo Treistman

    16/12/2013 at 12:47

    Gabriel,

    Parabéns pelo texto. Excelente entrevista.

    Considero que este artigo veio em excelente hora. Há alguns meses, o Estado de Israel legalizou a “corrida de cavalos”, atraindo para si a responsabilidade de organizar, promover e arrecadar com um jogo de apostas que em alguns países ao redor do mundo é algo completamente proibido.

    É óbvio que eu percebo a “legalização” da corrida de cavalos como uma coisa boa. É um jogo de azar destinado a pessoas maiores de idade, que tem consciência do risco existente no jogo e que pode sim ser considerado uma atividade divertida.

    Entretanto, é claro também que a “corrida de cavalos” quando utilizada de forma desproporcional pode ser muito prejudicial, gerando a destruição da vida do indivíduo e sua família.

    Eu pergunto: não seria a mesma coisa com a Cannabis?

    Por que há tanto tabu nesta questão?. Será mesmo tão difícil entender que quando utilizada de forma consciente e responsável, trata-se de uma atividade que poderá gerar enormes benefícios ao país?

    Imensa arrecadação de impostos (o numero de usuários no país é estimado em um milhão) e melhor efetividade do trabalho policial (que deixaria de correr atrás de uma planta, de um crime que não deixa vítimas…) seriam apenas algumas das grandes contribuições que a legalização poderia fornecer ao país.

    Como liberal, não creio que o Estado possa me dizer qual o tipo de fumaça que eu posso, ou não posso, colocar em meu pulmão.

    O Argumento pró-censura, de que a cannabis faria mal a saúde (e aumentaria os gastos públicos) é uma falácia sem tamanho…. Quer dizer que então deveremos proibir obesos de comer queijo cheddar? Devemos destinar a força policial para prender Diabéticos que compram um chocolate na banca de jornal?

    É algo tão sem sentido, tão retrógrado…

    Isto sem falar nas propriedades existentes na cannabis para a saúde humana. Não seria uma contradição? Enquanto em alguns países a maconha é proibida por uma questão de saúde pública, em outros países ela é destinada a doentes e vendida em farmácia… Quem está errado?

    Mais uma vez, te parabenizo pelo artigo e entrevista.

    Grande abraço,

    • Mario S Nusbaum

      16/12/2013 at 14:30

      Eu achava que não havia corridas de cavalo em Israel (problema de espaço), mas nunca imaginaria que fossem proibidas! Qual era o argumento? Por que mudaram de idéia?

    • Marcelo Treistman

      16/12/2013 at 14:57

      Mario,
      Corrida de cavalos sempre existiu, mas a “aposta em corrida de cavalos” era proibida. Note que a lei atual, permite que israelenses apostem em corridas de cavalos realizadas fora de Israel, em especial na Inglaterra. O Estado abriu esta possibilidade em algumas lojas “toto”, que são lojas gerenciadas pelo Estado para a venda de jogos tipo “mega-sena” e “raspadinhas”… Que eu saiba não há um hipódromo oficial no país, mas desconheço as razões para a inexistência.

  • Marcos

    16/12/2013 at 13:46

    Marcelo,
    concordo 100% contigo.
    Até iria mais longe e diria que Cannabis usado de “forma consciente e responsável” ou não causa muito menos danos à sociedade.
    Se o Cannabis for leagalizado e as pessoas utilizarem a droga de forma irresponsável nenhum risco está previsto para os mesmos.
    Gostaria também de indicar uma iniciativa que eu vi a pouco tempo mostrando a discrepancia causada por esse tabu de não se legalizar a maconha.
    http://www.sincethismorning.com

  • Mario S Nusbaum

    16/12/2013 at 14:36

    Excelente entrevista, e concordo com o Marcelo quanto à legalização, mas o entrevistado exagera, e muito:

    “e eu não posso ter a minha saúde beneficiada também por esse cannabis “.
    ” Meu contato com a maconha inclusive beirava a religiosidade do meu sionismo, ”
    ” cara, dizem até que comer ela inteira, com todas as fibras, sem esquentar para ativar a psicoatividade, serve para regular a acidez do organismo, alcalinizando o corpo.”

    • Gabriel Guzovsky

      16/12/2013 at 14:52

      Oi Mario,

      Respondo segundo o que eu sei e pesquisei depois que conversei com o meu entrevistado. Ele claramente sabe muito mais sobre o assunto que eu:

      “e eu não posso ter a minha saúde beneficiada também por esse cannabis”
      – ele disse isso no contexto de que existe um mercado medicinal em Israel e que ele não tem acesso a esse mercado para o seu benefício medicinal pessoal. Por mais que exista o caminho medicinal aqui em Israel, é um caminho largo e árduo – e apenas pessoas que estão em condições realmente graves de saúde – depois de passar por diversos outros tratamentos muito mais agressivos e “experimentais” – recebem receita para o cannabis medicinal.

      ” Meu contato com a maconha inclusive beirava a religiosidade do meu sionismo, ”
      Já ouviu falar em Rastafari judeu? Ele não é rastafari, é judeu… mas assim como os chassidicos usam vinho e vodka, ele usava a maconha para sua meditação judaica e contato com o sionismo… É a escolha dele. Tem alguns seguidores do Rav Nachman de Breslov, chassídicos, que alguns utilizam o cannabis com propósitos espirituais e religiosos – aqui uma referência de pergunta onde o rabino que responde nega para obviamente evitar problemas: http://breslov.org/ask-a-breslover-%E2%80%93-smoking-weed-and-learning-torah/

      Aqui outra fonte em hebraico sobre o assunto polêmico da relação entre a religião judaica antiga (da época do Templo, em Sião, Israel): Revista Cannabis – Fontes Bíblicas do uso Judaico de Cannabis (em Hebraico)

      E aqui uma versão em Inglês do jornal Haaretz que trata do mesmo assunto do Cannabis na Bíblia.

      ” cara, dizem até que comer ela inteira, com todas as fibras, sem esquentar para ativar a psicoatividade, serve para regular a acidez do organismo, alcalinizando o corpo.”
      Não sei se é verdade, mas ele disse “dizem por aí”… Aqui está um vídeo que fala um pouco mais sobre o que ele mencionou: http://www.youtube.com/watch?v=1SGNR4cb7jc

      Espero ter esclarecido.
      Abraço!
      Gabriel

    • Mario S Nusbaum

      16/12/2013 at 17:33

      Esclareceu sim Gabriel, obrigado. E quero deixar clatro que não tenho NADA contra a escolha dele.

    • Mario S Nusbaum

      16/12/2013 at 17:31

      Entendi agora Marcelo, obrigado.
      “Que eu saiba não há um hipódromo oficial no país, mas desconheço as razões para a inexistência.”
      Espaço Marcelo e não só o do hipódromo, mas também o das cocheiras e haras
      Pelo menos é o que eu acho.

  • Raul Gottlieb

    16/12/2013 at 21:32

    Eu conheço muito pouco de maconha, sei no máximo reconhecer o cheiro. Ao mesmo tempo me interesso por lógica e aí encontro algumas curiosidades nos argumentos do entrevistado.

    Parece-me ser pacífico afirmar que o uso medicinal de uma substância não significa que ela não seja tóxica, caso seja usada de forma danosa. Além disso, os medicamentos não são universais, eles se aplicam a certas circunstâncias e são contra indicados em outras.

    O que vai acima me leva a concluir que não se sustenta a argumentação de que a maconha tem que ser liberada por que faz bem como medicamento ou tranquilizante ou estimulante da criatividade para certas pessoas em certos momentos.

    A meu ver a argumentação se sustentaria sim se fosse provado que ela é benéfica em certos casos e que não é maléfica nos demais. Mas pelo que li na entrevista, esta prova não foi apresentada, na verdade não houve preocupação na entrevista em abordar este aspecto, o que me parece ser uma lacuna importante.

    Logo eu não consigo deduzir pela argumentação do entrevistado que a maconha tenha que ser liberada ou proibida. A meu ver, faltam informações para a tomada da decisão.

    Tampouco me convencem os argumentos de que, sendo o tabaco e o álcool piores (ou semelhantes) que a maconha é, então, uma hipocrisia não liberar a maconha.

    Eu penso que há um valor absoluto em certas coisas nas coisas, que nem tudo é relativo. Se o álcool faz mal e é liberado, isto está errado. Contudo, este erro não justifica outros erros (quaisquer que sejam). Ampliar a quantidade de riscos para a população não me parece ser um caminho sensato, muito pelo contrário.

    O argumento que o estado não é o dono do corpo das pessoas e então cada pessoa pode fazer o que bem entender dele é um argumento sensato, mas com limites. Eu não creio que estado interventor, o estado babá seja o modelo ideal. Mas ao mesmo tempo me parece que liberar os cidadãos para que corram riscos conhecidos não é o melhor caminho.

    Por exemplo, o estado tem que obrigar o cinto de segurança, o air bag e os carrinhos de bebê nos automóveis? Creio que moralmente estamos diante da mesma questão e a resposta não é simples. Estes equipamentos se tornaram obrigatórios e salvaram muitas vidas, reduziram o stress societário. Terá sido um erro obriga-los?

    É uma discussão complexa, pois envolve traçar limites finos. Por tudo isto eu não me convenci que a maconha tenha que ser liberada. Mas também não estou convencido que não tenha. A meu ver o entrevistado não conseguiu trazer muita luz à questão.

    • Gabriel Guzovsky

      16/12/2013 at 22:41

      Oi Raul,

      O entrevistado apresenta o problema da mistura de tabaco com maconha causada pelo alto preço da maconha entre usuários aqui em Israel. Essa mistura é muito mais letal que a maconha sozinha e causa danos que poucos estão estudando – dei uma olhada no pubmed rápido e vejo alguns estudos relacionados com o que o entrevistado aborda:
      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Cannabis+nicotine

      Em nenhum momento a minha proposta é dar uma solução para esse problema que aqui em Israel já dura 40 anos, desde 1973 a mesma lei de proibição total do uso de maconha é aplicada pela polícia. Saí da entrevista com mais perguntas do que respostas, e elas estão no final, depois da entrevista. Adoraria que outros usuários ou especialistas ajudem a responder essas questões.

      Abraço!
      Gabriel

    • Marcelo Treistman

      17/12/2013 at 02:11

      Olá Raul,

      Concordo com grande parte de seu posicionamento com relação aos argumentos favoráveis a legalização. Entretanto, acho que você peca em algumas digressões. Apelo a sua lógica (e paciência) para ler o que vai abaixo:

      1 – A obrigação do uso cinto de seguranca e acessórios fazem parte de uma conduta ativa do Estado. É o que pode ser chamado de “obrigação de fazer”. O Estado deve regulamentar normas mínimas de fabricação de um produto (air-bag no caso específico) e estipular regras mínimas para o uso de seu veículo (quer andar de carro? então você estará obrigado a usar o cinto…). Isso também é válido em diversas esferas, como no exemplo notório da regulamentação e limitação do uso da propriedade privada, em que o governo fiscaliza e determina normas obrigatórias em toda nova construção (você não pode construir um prédio em SEU terreno se não seguir as normas municipais). Outro exemplo claro de “obrigação de fazer” é o Estado regulamentando a sua obrigação mínima com os seus filhos. Se você não colocar eles em uma escola, ainda que você seja um exímio educador, o governo poderá te colocar na pisão ou tirar ele de você…Além da proteção do indivíduo em todos os casos anteriores (dono do imóvel, dono do carro, responsavel por uma criança), existe a clara preocupação com a segurança do restante da sociedade.

      2 – Não há comparação possível do que vai acima com o caso em tela. A proibição do uso da maconha é uma censura ao direito individual. É justamente o contrário do que vai no ponto “1”: trata-se de uma “obrigação de não fazer”. Neste caso Raul, será necessário compreender quando e porque o Estado possui competência para proibir uma conduta, qualquer que seja ela. Segundo a história do direito, os dois pilares são: a) garantir a paz social (ex: condenação ao furto, roubo, assassinato)- b) costumes e moral (ex: proibição a “jogos de azar”, nudismo, sexo com menores de idade, etc…)

      Na minha opinião, a censura ao uso da cannabis está unicamente ancorada na letra “b”, e a forma pela qual o Estado trata estas condutas “criminosas” são as que mais são passíveis de sofrer uma transformação ao longo dos anos, com a evolução da sociedade. Talvez é chegado o momento de discutir a “moral” por detrás da proibição do uso da maconha.

      3 – Nenhum país no mundo possui um artigo condenando aquele indivíduo que deseja se suicidar. O argumento de que a maconha é proibida por ser prejudicial a saúde não para em pé um milésimo de segundo. O Obeso deveria apresentar o seu exame de sangue atual ao caixa do macdonalds? O diabético deve ser detido ao comprar um sonho na padaria? Pessoas que conseguem unir dor a sexo devem ser internadas em clínicas psiquiátricas? Quem o Estado pensa que é para tutelar o que um indivíduo pensa que é melhor para sua vida (sua vida Raul! sem colocar em perigo os demais)?

      4 – Analisar os efeitos práticos da proibição, da “guerra contra as drogas”, também se faz necessário e este ponto específico também esteve ausente da entrevista. O objetivo máximo da proibição, que visa a diminuição do uso da cannabis é vitoriosa ou está derrotado? A demanda por este produto, em todos estes anos de cendura, aumentou ou diminuiu? Afinal de contas: com tanto maconheiro por aí, você poderia indicar um dano específico que eles causaram a sociedade que justifique a proibição do uso?

      Por favor, não compare o que vai na sentença anterior ao numero de assassinatos no Brasil, para dizer que “se a proibição de matar alguem não funciona, então deveríamos liberar o assassinato”… Como indicado acima, o 1o crime (fumar maconha) não tem o mesmo impacto na “paz social” que o assassinato, roubo, furto, etc… Isto porque, enquanto o 1o crime afeta apenas o indivíduo que faz uso da substância, o 2o afeta a sociedade em geral…

      5 – O Estado não tem o direito de tutelar qual o tipo de fumaça o indivíduo poderá colocar em seu pulmão. Ou quanto Whisky ele colocará em seu copo. Nenhum governo poderá determinar regras minímas para a relação sexual. O que ele deve ou não comer… Isto faz parte da escolha individual. O ser humano maior de idade, deveria ser livre o bastante para escolher como quer viver (e como quer morrer), arcando com os riscos de seu comportamento.

      6 – Por fim, acho que o artigo e a entrevista levantam esta discussão. Talvez, tenha chegado o momento em que será possível discutir o status legal do uso individual de uma substância que não traz prejuízos a sociedade.

      Um grande abraço

    • Mario S Nusbaum

      17/12/2013 at 13:49

      ” Nenhum país no mundo possui um artigo condenando aquele indivíduo que deseja se suicidar. ”
      Marcelo, por incrível que pareça, isso é BEM recente em muitos países desenvolvidos e em alguns ainda é crime.

      http://en.wikipedia.org/wiki/Suicide_legislation#Canada

  • Mario S Nusbaum

    16/12/2013 at 23:14

    Parece haver um consenso de que a questão é complexa e não há uma resposta definitiva.

    Agora, apresentar o “problema” da mistura de tabaco com maconha não ajuda muito.

    O alto preço da cocaína fez com que muitos aderissem ao crack que é muito mais letal.

    Em princípio sou a favor da legalização, mas confesso que nem imagino as consequências, e acho que ninguém pode afirmar que sabe com certeza quais seriam.

    • Gabriel Guzovsky

      17/12/2013 at 17:04

      Oi Mario,

      Se partirmos do pressuposto que a maconha é proibida por uma questão de saúde, então é relevante a discussão pois a proibição está causando um problema mais grave.
      A comparação da maconha (ou melhor dizendo, do cannabis) com a cocaína é incorreta, já que a maconha se trata de uma droga leve e que não causa dependência física.
      Todas as outras drogas que causam dependência, e que portanto o usuário não pode decidir com a cabeça limpa se quer ou não usá-la, são drogas que sim são perigosas para a sociedade e para o indivíduo – que aí sim necessita de um “estado papai” para evitar uma epidemia grave – como a dos zumbis do craque no centro de São Paulo, por ex.

      Já a maconha e a grande maioria dos problemas relacionados com ela, surgem por causa da proibição – e não estão intrínsecos na própria droga.
      A maconha, apesar dos seus efeitos “alucinógenos” (que não são exatamente o que quem nunca usou pensa – não é LSD e nem cogumelo, é diferente e bem mais leve), na minha opinião é mais similar ao café do que a cocaína. Uma pessoa pode abusar e se tornar dependente, geralmente psicologicamente, mas não é o que acontece com a grande maioria das pessoas.

      Na minha opinião, se o governo estivesse mesmo preocupado na saúde das pessoas, baniria e perseguiria quem vende e compra CIGARRO. Então, por mais que no plano das ideias tudo pareça uma questão de lógica e bom senso – no fim das contas tudo se resume a dinheiro e poder. Consumimos as drogas das super potências pós segunda guerra mundial e ficamos caladinhos…

      Acho que este vídeo artístico mostra um pouco dessa visão: http://www.youtube.com/watch?v=WVXQMvKuU2w

      E aqui outra motivação mais plausível para a proibição da maconha (de toda a planta e sua fibra) do que a saúde:
      vídeo: Magic Weed – History of Marijuana

      Esse aqui também: Jack Herer – Emperor of Hemp

      Abraço!
      Gabriel

  • Pablo

    17/12/2013 at 03:12

    Todo “remédio” tem efeitos colaterais e muitas vezes independente da dosagem. Isso vale para tudo e para todos. Me pergunto: por que o habito tem que ser o Jogo, Maconha, ou Cigarro, ou Chocolate? Por que não estimular o “vicio” da leitura, da atividade física, da filantropia, da arte, enfim, há tantos e tantos hábitos menos agressivos..independentes da dosagem….

    • Gabriel Guzovsky

      17/12/2013 at 12:45

      Com certeza, o Conexão Israel tem no total 210 artigos publicados por mais de 15 autores no período de 1 ano. Deles, apenas 2 tratam do assunto Maconha em Israel – cada um escrito por um autor diferente. Por ser um tabu, é um assunto que merece também a nossa cobertura, mas o site com certeza incentiva muito mais outros “vícios” – como a discussão política, sobre o conflito e a sociedade israelense – além de incentivar a leitura e a participação ativa nos comentários dos seus leitores.

      Abraço!
      Gabriel

  • Raul Gottlieb

    17/12/2013 at 10:47

    Caros Gabriel e Marcelo,

    Eu penso que a “obrigação de fazer” traz embutida de forma indissociável uma “proibição de não fazer”, não é mesmo?

    Para eu fazer uma casa tenho que seguir uma série de procedimentos, o que implica automaticamente na proibição de seguir uma segunda série de procedimentos.

    O Estado não pode definir qual a fumaça eu posso colocar nos meus pulmões, mas pode determinar quanto de cimento eu tenho que misturar no concreto da minha casa?

    Eu me convenceria sobre a liberação da maconha caso ficasse realmente claro que ela não traz prejuízo aos indivíduos. Há algum estudo que aponte para a inocuidade do uso da maconha?

    Sobre o perigo de misturar tabaco com maconha, eu realmente não foquei neste ponto, pois a questão “se a maconha ilícita fosse mais barata eu poderia comprar mais e com melhor qualidade, evitando os produtos piores que prejudicam ainda mais a minha saúde” me pareceu menos relevante do que a complicada discussão sobre os limites do Estado em definir o que é lícito e o que é ilícito.

    Repito – a definição destes limites é um dos exercícios mais complexos das sociedades e por isto mesmo o assunto é apaixonante, independente se estamos debatendo a maconha ou o air bag duplo, cuja obrigatoriedade o nosso governo vai postergar para não aumentar o preço dos carros. Tem o governo brasileiro o direito de impor carros menos seguros e mais baratos para a população?

    Abraço, Raul

    • Marcelo Treistman

      17/12/2013 at 11:52

      Raul,

      Você não precisa de um estudo que comprove a inocuidade da utilização do bacon em sua dieta diária, para entender que a escolha individual prevalece neste caso.
      Você não precisa de um estudo que comprove a inocuidade da leitura de livros do Paulo Coelho, para entender que a escolha individual prevalece neste caso.
      Você não precisa de um estudo que comprove a inocuidade da junção de sexo e dor, para entender que a escolha individual prevalece neste caso.

      O argumento do prejuízo a saúde do indivíduo não é um argumento inteligente para proibir uma escolha individual. Considerando que não podemos enquadrar a proibição da maconha na proteção da “paz social”, compreendemos que esta censura tem origem na “moral e bons costumes”. Acredito que é chegada o momento de discutir esta proibição.

      O Estado não pode definir qual a fumaça eu posso colocar nos meus pulmões, mas pode determinar quanto de cimento eu tenho que misturar no concreto da minha casa?”

      É claro. A fumaça será prejudicial ou benéfica apenas para o indivíduo que optou por usar uma substância. A quantidade de cimento envolve a proteção de outras pessoas não relacionadas com a sua decisão de quanto cimento colocar na construção de sua casa. Há uma diferença latente nos dois casos.

      A proibição do uso individual da Cannabis é uma postura totalmente autoritária. Pessoas bem intencionadas, imbuídas de uma missão divina, querem impor aos demais como a vida deve ser vivida. Comer demais também faz mal para a saúde, assim como a ociosidade, mas nem por isso vamos criar leis para controlar tais práticas. Eu posso considerar que um livro de Marx é uma droga bem mais prejudicial ao cérebro e a sociedade que a maconha, mas nem por isso vou defender o uso da coerção estatal para proibir sua leitura. Seria autoritarismo puro, não? Essa visão de que o Estado deve cuidar dos indivíduos incapazes de escolher por si próprios é paternalista demais. Liberais acreditam na responsabilidade individual, e entendem que cada um sabe melhor o que pretende para sua vida. Se abrirmos precedente para que burocratas ou mesmo a maioria possam escolher por todos o que é o melhor para CADA indivíduo, nada impede que amanhã uma maioria de vegetarianos decida banir o X-tudo do mundo. Onde ficam os direitos individuais, a liberdade de escolha?

      O mais importante não é qual substância é consumida individualmente, mas sim como ela é consumida. Com moderação, exigência de idade mínima, locais restrito, agravante penal para o cometimento de crimes influenciados por essas substâncias, etc…

      De forma geral, os defensores da proibição negam que os indivíduos sejam capazes de fazer escolhas conscientes. Tratam a todos como mentecaptos, crianças que devem ser tutelados pelo grande pai-estado.

      A proibição das cannabis, além de ineficiente e autoritária, coloca em risco a liberdade individual tão duramente conquistada ao longo dos séculos.

    • Mario S Nusbaum

      17/12/2013 at 13:54

      “mas pode determinar quanto de cimento eu tenho que misturar no concreto da minha casa?”
      Sim, porque se sua casa cair, outros serão afetados, muitas vezes de forma fatal

      “Eu me convenceria sobre a liberação da maconha caso ficasse realmente claro que ela não traz prejuízo aos indivíduos. Há algum estudo que aponte para a inocuidade do uso da maconha?”
      E onde traçar a linha? O Marcelo cita o bacon, e eu acrescento: vodka, enérgeticos, MMA, ….

      “me pareceu menos relevante do que a complicada discussão sobre os limites do Estado em definir o que é lícito e o que é ilícito.
      Repito – a definição destes limites é um dos exercícios mais complexos das sociedades e por isto mesmo o assunto é apaixonante”
      De pleno acordo

  • Raul Gottlieb

    17/12/2013 at 13:25

    Marcelo,

    Penso que você está fazendo ilações sem base no que diz respeito às intenções das pessoas que se posicionam contra a liberação das drogas. Talvez elas não sejam nem autoritárias nem possuídas de zelo religioso. Foque no argumento e não nas supostas intenções dos portadores de argumentos opostos.

    Digo das drogas porque a tua defesa da liberação da maconha justifica a liberação de qualquer droga. Deixemos cada um ingerir o que bem entende, diz você, não é mesmo?

    De qual forma a solidez da minha casa gera perigo para terceiros? Você está supondo que ela vá cair sobre a cabeça de terceiros. Mas ela pode ser construída de forma a oferecer riscos apenas ao proprietário. Neste caso é lícito chutar as regras do CREA para o espaço? Idem para o cinto de segurança.

    Você não me convence. A meu ver o que está em jogo é uma questão de limites e não de princípios. A sociedade tem o poder de impor limites aos seus cidadãos.
    Abraço, Raul

    PS – no meu texto eu cometi um engano:

    Onde digo que: a “obrigação de fazer” traz embutida de forma indissociável uma “proibição de não fazer”, quero dizer: a “obrigação de fazer” traz embutida de forma indissociável uma “obrigação de de não fazer”, ou seja, uma “proibição de fazer”,

    As duas negativas que usei se anulam e eu, como engenheiro de sistemas, não deveria ter cometido este deslize. Foi uma bobagem.

    • Marcelo Treistman

      17/12/2013 at 15:43

      Raul,

      Existe uma diferença clara entre uma ordem positiva e uma ordem negativa. Enquanto o primeiro define “como” uma conduta deva ser realizada (andar de carro, construir uma casa, cuidar dos filhos), na segunda temos uma proibição, uma censura… Não é o “como”, é o “não existe de nenhuma forma, está proibido”…

      Como eu demonstrei, para proibir ou censurar, a decisão do Estado deve estar amparada pelos pilares (paz social ou moral) citados anteriormente.

      A maconha hoje é proibida unica e exclusivamente por uma questão de costumes. Chego a esta conclusão porque não aceito o argumento de que a proibição existe por ser prejudicial a saúde. Saúde, não é um argumento razoável para impedir que um indivíduo opte por exercer a sua liberdade de escolha.

      Infelizmente você não respondeu as minhas perguntas no que tange ao bacon, ao livro do Paulo Coelho e as relações sexuais? Você aceitaria que um grupo de burocratas censurasse o “uso” de qualquer um destes exemplos? Desafio você a demonstrar qual é a diferença objetiva entre o uso pessoal de um livro do Marx, ou de uma dieta baseada em cheddar, para a utilização da maconha?

      Você pergunta: “De qual forma a solidez da minha casa gera perigo para terceiros? Você está supondo que ela vá cair sobre a cabeça de terceiros.”

      De certo, a solidez de sua casa tem a possibilidade infinitas vezes maior de prejudicar um terceiro do que a ingestão individual de uma substancia supostamente prejudicial a sua saúde. Há uma justificativa racional para a obrigação positiva no que tange a construção. A meu ver, o mesmo não é verdade para a proibição do uso da cannabis: qual seria a justificativa racional para esta obrigação negativa?

      O que está em jogo é uma questão de principios e de limites:

      Principios:

      Se de um lado você diz que a minha linha de pensamento será a base para legalizar todas as drogas (o que é parcialmente verdade), o seu pensamento gera um precedente muito perigoso… Você dá poder para que um grupo de pessoas possa impedir a SUA liberdade baseada em… em… “danos a sua saúde”.. É isso mesmo? Estes burocratas serão equivalentes a um deus que tenta salvar pessoas que não querem ser salvas. Os liberais acreditam que o que cada um faz com seu próprio corpo diz respeito apenas a si próprio. Não faz sentido jogar na prisão ao lado de assaltantes e assassinos, que violaram os direitos alheios, alguém cujo único “crime” foi ter fumado um cigarro de maconha em sua própria casa.

      Limites:

      O Estado surge como uma entidade de regulação e imposição de limites. Os limites impostos a cada indivíduo visam melhorar ou viabilizar o convívio em sociedade. Entretanto, de forma alguma, sob nenhuma hipótese e sob nenhum argumento, o Estado não tem o direito de dizer como exercer a minha vida individual. Este é o ponto.

      Por fim, ressalto que eu basicamente trilho dois caminhos distintos para chegar à conclusão acerca da necessidade da legalização da maconha: os resultados práticos e os direitos individuais. O método moralmente adequado para evitar o consumo de drogas seria a educação e persuasão, jamais a prisão dos usuários. Considero que o abandono dessa cruzada quixotesca das autoridades contra as drogas iria permitir gastos maiores para a proteção da vida e propriedade, evitando uma invasão aos direitos naturais, que incluem o direito de decidir como usamos – ou abusamos – dos nossos próprios corpos.

      Abraços

  • Raul Gottlieb

    17/12/2013 at 13:28

    Aliás, Marcelo, o título que o Gabriel escolheu para o seu texto já denota que a sociedade tem o direito de se imiscuir na saúde dos seus cidadãos. O que seria “saúde pública” se só existisse a “saúde privada”?

  • Mario S Nusbaum

    17/12/2013 at 13:56

    ” Eu posso considerar que um livro de Marx é uma droga bem mais prejudicial ao cérebro e a sociedade que a maconha,”
    De longe a mais prejudicial de todas! Causou mais de 50 milhões de mortes até hoje.

  • Mario S Nusbaum

    17/12/2013 at 14:05

    Essa discussão veio a calhar para que eu possa citar aqui um dos meus maiores ídolos, um judeu cuja fama deveria ser mil vezes maior:

    “The makers of our Constitution undertook to secure conditions favorable to the pursuit of happiness. They recognized the significance of man’s spiritual nature, of his feelings, and of his intellect. They knew that only a part of the pain, pleasure, and satisfactions of life are to be found in material things. They sought to protect Americans in their beliefs, their thoughts, their emotions, and their sensations. They conferred, as against the Government, the right to be let alone—the most comprehensive of rights and the right most valued by civilized men.”
    Louis Dembitz Brandeis

    He was an American lawyer and Associate Justice on the Supreme Court of the United States from 1916 to 1939.

    THE RIGHT TO BE LET ALONE!

  • Raul Gottlieb

    17/12/2013 at 16:05

    Entendido Marcelo.

    Então a tarja preta dos remédios são uma imposição de burocratas que se enxergam como deuses? Eu penso que os que conseguiram impor à sociedade esta lei se assemelham mais a uma coalizão de cientistas, médicos e políticos preocupados com a saúde pública.

    A diferença entre um regulamento positivo e um regulamento negativo é apenas na redação. Eu posso falar assim: “crianças de até x anos são obrigadas a trafegar numa cadeirinha” ou “crianças de até x anos não podem trafegar sem estar na cadeirinha”. Dá exatamente no mesmo. Quando se determina um caminho todos os demais estão sendo proibidos. E quando se proíbe um caminho todos os demais estão permitidos. A redação é escolhida conforme a conveniência.

    Pelo menos assim funciona a minha cabeça de engenheiro.

    Abraço, Raul

    • Gabriel Guzovsky

      17/12/2013 at 16:55

      Oi Raul,

      Exatamente por isso o ponto que a proibição causa um problema de saúde pública muito mais grave do que a própria maconha é relevante para a discussão da legalização (ou descriminalização pelo menos).
      A maconha misturada com tabaco, ou o cannabis sintético que é vendido legalmente nos quiosques de Israel, são um problema muito mais grave que a maconha sozinha – na opinião do entrevistado e provavelmente de qualquer médico com coragem para atualizar-se e deixar crenças antigas de lado. Cada ano que passa há mais pesquisas que comprovam os benefícios terapêuticos do uso de cannabis e o pouco risco que a droga oferece para adultos responsáveis e informados, mais ainda com orientação e acompanhamento médico profissional.

      Abraço!
      Gabriel

    • Marcelo Treistman

      17/12/2013 at 17:07

      Raul,

      Isto é justamente o que está sendo proposto: Que se venda maconha na farmácia com tarja preta, exigindo receita médica, com a venda regulamentada pelo Estado, idade mínima, etc… O que não se pode – de forma alguma pelas razões fartamente expostas – é criminalizar o uso, imputando aos usuários uma pena restritiva de liberdade…

      Você definitivamente não compreendeu a diferença entre obrigação positiva e negativa. Não é uma simples questão de redação, não… Explico novamente, utilizando os seus exemplos:

      a) “crianças de até x anos são obrigadas a trafegar numa cadeirinha” – O texto relata uma obrigação positiva. Crianças devem sentar na cadeira.
      b) “crianças de até x anos não podem trafegar sem estar na cadeirinha”. – o texto relata uma obrigação positiva. Crianças devem sentar na cadeira. Não se deixe enganar pelo vocábulo “não” em sua redação. Ele está confundindo os seus pensamentos e a sua lógica!

      Nos dois exemplos acima o Estado determina “COMO” crianças deverão trafegar em um veículo.

      Isto é muito diferente, mas muito diferente mesmo, de uma proibição estabelecida pelo Estado. Nos casos em que há uma censura o “como” não existe. A conduta proibida sai da seara do “possível”.

      O que eu como liberal desejo é que o Estado defina o “COMO” para a utilização de substâncias consideradas ilícitas que não prejudicam a sociedade. Isto sim seria uma vitória da liberdade individual.

      Ainda estou esperando você responder as minhas perguntas no que tange ao bacon, ao livro do Paulo Coelho e as relações sexuais? Você aceitaria que um grupo de burocratas censurasse o “uso” de qualquer um destes exemplos?

      Um grande abraço

    • Mario S Nusbaum

      17/12/2013 at 18:58

      Marcelo, não sei como é em Israel, mas aqui no Brasil é proibido fumar em qualquer lugar público coberto. Repito, coberto, não fechado. Ou seja, regula-se, não se proibe.

  • Mario S Nusbaum

    17/12/2013 at 18:54

    Raul, de um modo geral concordo bem mais com o Marcelo, mas reconheço que você levanta algumas questões bem interessantes (e intrigantes).
    Mas não dá para incluir crianças na discussão, elas são outro departamento. Alguém, OBRIGATORIAMENTE, tem que se responsabilizar por elas, concorda?

    Fiquemos então no cinto de segurança.
    “todos são obrigados a usa-lo para andar de carro” ou
    “ninguém pode andar de carro sem usa-lo”
    Concordo que são equivalentes, mas a discussão é muito mais parecida com:
    É proibido andar de carro.

  • Raul Gottlieb

    17/12/2013 at 19:08

    Não entendi a questão da obrigação positiva e negativa. Tente me explicar de novo, com um exemplo de obrigação negativa que não possa ser redigida como se positiva fosse.

    Não falei o bacon, do Paulo Coelho e do diretor de futebol da Portuguesa (que perdeu a chance de rebaixar o Flamengo) porque achei que os meus exemplos já tinham deixado claro que eu considero que a questão é de limites e não de princípios.

    Aliás, é só isto que eu estou discutindo. Não entendo nada de maconha, não sei se tem efeitos positivos ou negativos, apesar de tender a pensar que se é proibida ela deve ter algum efeito negativo à saúde.

    Tentando ser sintético ao extremo:

    Você diz que a liberação da maconha é uma questão de princípios, pois é proibido proibir. Eu digo que é permitido proibir, dentro de certos limites. E que eu não opinar sobre se a maconha deve entrar ou não na lista proibida ou permitida. Mas que os argumentos dos que defendem a liberação não me convencem.

    Acho que discussão se resume a isto. Podemos deixar o Paulo Coelho, o bacon e as novelas da Globo no reino dos exemplos.

    • Marcelo Treistman

      17/12/2013 at 21:16

      Raul,

      O Exemplo do Mario é perfeito:

      a)”todos são obrigados a usar cinto de segurança para andar de carro” ou
      b) “ninguém pode andar de carro sem usar cinto de segurança”

      Nos dois exemplos acima, o Estado diz “como” você deverá utilizar o seu veículo. Trata-se de uma ação positivae o estado possui competencia para limitar a utilização do SEU veículo, da construção no SEU terreno, etc…

      c) “É proibido andar de carro”.

      Acima, existe uma censura. A utilização do carro é proibida pelo Estado.

      Resumidamente, para justificar a proibição, o Estado deverá incluir a conduta (andar de carro) em um dos pilares que eu citei (garantia da Paz social e/ou preservação dos costumes e moral).

      Nosso ponto controvertido é claro: você acha que uma conduta pode ser proibida se ela “comprovadamente” fizer mal a saúde do indivíduo. Eu não! Se a conduta pode causar mal somente ao indivíduo (apenas a ele!), não há nenhum argumento que justificaria a sua proibição pelo Estado.

      Eu sou dono do meu corpo, do meu cérebro, do meu fígado e meu pulmão. Um ser-humano adulto deveria ter a possibilidade de assumir a responsabilidade pelas suas opções individuais. A questão “prejudicial a saude” não é um argumento bom o bastante para proibir uma conduta e é nesse ponto que entre os meus exemplos do bacon, Paulo Coelho, Fluminense, etc…

      Torcer para o fluminense hoje, definitivamente faz mal a saúde. Eu te pergunto: ainda que não haja risco para a manutenção da paz social e ainda que a moral e bons costumes permitam que se exista uma torcida tricolor, o argumento de que ele faz mal a saúde seria o bastante para proibir a escolha individual de um indivíduo pelo seu time?

      Sua percepção acerca da justificativa dada a proibição da maconha está equivocada. Entender como “ok” a proibição de uma conduta amparada apenas nos malefícios a saúde, abre um precedente muito perigoso. É o passo inicial para ferir os princípios liberais e atropela toda e qualquer razoabilidade na imposição dos limites pelo Estado

      A maconha não é proibida por uma questão relacionada a saúde. A justificativa de sua proibição é apenas embasada pela moral e bons costumes. E é chegada a hora de quebrar este tabu.

      Apenas pelo amor ao debate, indico ainda o que eu vejo como uma contradição: Se a maconha é proibida somente pelos danos causados a saúde, como é que países desenvolvidos que possuem vasto investimento em ciência permitem que doentes façam uso desta substância? E eu não falo apenas de doentes terminais não… Pessoas com insônia, dores no corpo, enxaqueca, etc…

      Sugiro que você converse um pouco sobre as propriedades medicinais da cannabis com o melhor cardiologista do Brasil. Você quer o telefone dele?

      Abraços!

    • Mario S Nusbaum

      18/12/2013 at 00:31

      “O Exemplo do Mario é perfeito:
      a)”todos são obrigados a usar cinto de segurança para andar de carro” ou
      b) “ninguém pode andar de carro sem usar cinto de segurança”
      Nos dois exemplos acima, o Estado diz “como” você deverá utilizar o seu veículo. Trata-se de uma ação positivae o estado possui competencia para limitar a utilização do SEU veículo, da construção no SEU terreno, etc…”

      Exatamente Raul, é a mesma diferença entre exigir brevê para poder pilotar um avião e proibir TODO MUNDO de pilotar um.

  • Raul Gottlieb

    17/12/2013 at 22:58

    Marcelo,

    Continuo não entendendo.

    Primeiro porque o meu ponto não é a maconha – se ela faz bem ou mal, se ela é proibida por falso moralismo, por estupidez ou por saúde pública.

    O meu ponto é que o Estado pode proibir assuntos pessoais sim, Como faz com o cinto de segurança (onde sou proibido de andar sem ele) e o consumo de certos medicamentos, fumar em local fechado e tantas outras coisas.

    E em segundo lugar porque continuo não entendendo a diferença do positivo para o negativo. O segundo exemplo: “todo mundo é proibido de trafegar de carro” é igualzinho ao primeiro: “ninguém pode andar de carro sem colocar o cinto de segurança”, só que mais abrangente – pois proíbe o carro com ou sem cinto.

    Mas porque o problema do negativo e do positivo muda alguma coisa? O Estado pode ou não proibir condutas pessoais é a questão.

    Abraço, Raul

    PS O cardiologista que você citou (a propósito, ele é o melhor do mundo) vai confirmar que existe uso medicinal da maconha sim, mas vai dizer também que ela faz mal à saúde.

    • Marcelo Treistman

      18/12/2013 at 10:41

      Raul,

      Eu lamento muito se você sai desta discussão achando que a argumentação colocada pelo Gabriel no artigo e por mim nos comentários em prol da legalização da maconha é “porque o Estado não pode proibir condutas pessoais“.

      Em nenhum momento isto foi a base dos meus argumentos. Convido você a voltar em meus comentários. Ao contrário até: indiquei em diversas oportunidades todas as justificativas compreendidas na história do direito para a proibição de uma conduta pessoal (manutenção da paz social + preservação de costumes e moral).

      A maconha deve ser legalizada porque a justificativa dada para a sua proibição é pobre, manca, fraca, insuficiente para alguém que vive no século XXI. Como eu te expliquei, se o Estado deseja proibir uma conduta pessoal, ele deverá – Sim ou sim – oferecer uma justificativa razoável.

      Eu poderia usar as suas palavras para indicar que o seu argumento pela proibição da maconha é “porque o Estado tem o poder de proibir uma conduta pessoal”. Ora Raul… Isso definitivamente não seria suficiente.

      Todas as vezes que você foi instado a justificar esta proibição você indicou que: “tendo a achar que a maconha comprovadamente faz mal a saúde

      Então, se o racional é a “saúde do indivíduo”, a justificativa ultrapassa os limites de proibição do Estado, uma vez que esta Entidade não está convidada a me dizer o que eu posso ou não fazer com o meu corpo. Nesta ocasião cabe perfeitamente os exemplos da dieta diária de bacon, a união de sexo e dor, a leitura do Paulo Coelho, torcer para o fluminense… No meu pulmão, fígado, estômago e cérebro mando eu! Além disso, se o racional da proibição é “porque é prejudicial” eu vejo que há claramente uma afronta a princípios liberais. Veja bem: afronta a princípios e atropelamento do limite razoável do poder de proibir.

      Se a justificativa é pela “moral e bons costumes”, então está na hora de mudar a lei. Já vimos isso acontecer antes com diversas condutas proibidas pelo Estado que foram naturalmente legalizadas ou modificadas com o passar dos anos. Exemplos é o que não falta.

      É extremamente importante ressaltar que eu entendo e percebo que a proibição da droga é milhões de vezes mais prejudicial para a sociedade do que a droga em si. Todos os anos de proibição e censura, em países com uma polícia muito mais eficiente do que a que temos no Brasil, não foram capazes de reduzir a demanda e extinguir a droga. O mercado sedento por esta substância alimenta um imenso mercado negro. É notório que a “guerra contra as drogas” foi derrotada a anos e é um exemplo claro de inefetividade de uma política pública.

      Você me pergunta: “Então por que não legalizamos o roubo e assassinato, uma vez que os números destes crimes só aumentaram nos últimos anos?”… Porque o impacto social da roubo não é comparável a legalização da maconha. Se legalizamos o assassinato, amanhã você não poderá sair de casa. Se legalizamos e regulamentamos o uso da maconha, no dia seguinte teremos… bem… teremos… pessoas fumando maconha segundo as regras estabelecidas pelo Estado, uma imensa fonte de arrecadação de impostos, liberaríamos a força policial para a perseguição de criminosos perigosos para o nosso tecido social.

      Por fim, explicarei quantas vezes for necessária. Não se preocupe. Há uma diferença enorme entre “proibir” e “regulamentar”. No caso do cinto de segurança o que temos é uma “regulamentação” – É o Estado indicando claramente “como” você poderá utilizar o seu carro. No caso da Maconha há uma “proibição” – O “como” não existe.

      O que eu defendo é que o Estado “regulamente” o uso da maconha, estabelecendo uma idade mínima, restringindo a locais específicos, quantidade máxima para a compra, etc da mesma forma que faz com o cinto de segurança. Não creio que a maconha deva possuir o mesmo status de “crime” como o roubo e assassinato.

      Defendo isso, porque eu considero que a justificativa para a sua proibição não tem mais lugar em nosso mundo, além de ser rasa demais para tantos problemas causados pela censura ao uso desta substância.

      Abraços

  • Mario S Nusbaum

    18/12/2013 at 00:30

    Vou contar algo que presenciei e que tem tudo a ver com esta discussão.
    Em Venice Beach, CA, USA, existem várias clínicas autorizadas a prescrever maconha,
    Eu estava passeando por lá e resolvi sentar em um banco bem em frente a uma delas.
    O que acontece, resumidamente, é o seguinte: a pessoa chega e preenche um ficha bem extensa.
    Em seguida é encaminhada ao médico, e daí em diante não tive acesso ao que aconteceu.
    Procurei me informar e soube que o “paciente”, ao preencher a ficha, declara ter vários sintomas que justificariam o uso da maconha.
    O médico, “analisando” a ficha, preenche a receita que autoriza o “doente” a comprar o fuminho em uma das clínicas autorizadas a vende-la.
    Que diferença existe entre esse teatro e a liberação?

    • Gabriel Guzovsky

      18/12/2013 at 01:16

      A mesma coisa acontece com drogas legais, embaladas e vendidas por multinacionais.
      Tem gente que mente sintomas para tomar droguinhas legais tarja preta… É parte do comportamento humano.
      Tem gente que é viciada também nessas droguinhas – estilo Prozac, etc. E você vê o governo tomar alguma atitude contra a empresa farmacêutica?

      Cannabis pode ser bom para muitas coisas e um doutor que acredita no potencial da planta prefere receitar ela antes de receitar qualquer outro remédio tarja preta de farmacêuticas “respeitadas”.

  • Raul Gottlieb

    18/12/2013 at 11:02

    Sim, as multinacionais são as responsáveis por tudo de ruim que tem na terra. Se as drogas fossem vendidas por pequenas empresas, Gabriel, haveria alguma mudança no teu bom argumento?

    Porque esta palavrinha está lá? Há talvez um preconceito que qualifica tudo o que tem sucesso como suspeitoso?

    Apenas pergunto.

    • Gabriel Guzovsky

      18/12/2013 at 12:27

      Oi Raul,

      Meu argumento não relaciona o problema com o fato das outras drogas serem produzidas e distribuídas por multinacionais.
      Acho que você está um pouco mal acostumado a ler/escutar a palavra multinacional em contextos equivocados e pulou direto para a defensiva. Eu sou a favor de multinacionais.

      É um fato que hoje em dia, com as regulamentações impostas por governos em todo o mundo, apenas multinacionais endinheiradas tenham o poder de fazer as pesquisas necessárias e todos os procedimentos burocráticos para colocar drogas legais em circulação e garantir a sua distribuição. A maioria dos pequenos pesquisadores estão buscando multinacionais que se interessem nas suas pesquisas para poder levar adiante seus sonhos de combater uma doença com suas descobertas – eles são homens de ciência, não necessariamente homens de negócio. São poucos os casos de pequenos laboratórios que tenham sucesso e não sejam logo engolidos de alguma forma por alguma multinacional. Nenhum problema, faz parte do mercado e os descobridores e empreendedores ganham a sua porção de riqueza pelo seu trabalho. Um dos países mais conhecidos por suas multinacionais e empreitadas comerciais transatlânticas é justamente a Holanda – país que tem a maconha liberada exatamente por ter sido um porto multinacional por muitos anos.

      Juro, sou fã de multinacionais e da nossa América de multinacionalidades.
      Acho que você está se focando em palavrinhas e semântica ao invés de focar-se na maconha, gerando aqui nos comentários uma discussão que não é relevante para o tema sendo tratado. Igual aproveito para esclarecer, já que a sua dúvida pode ser a de outros leitores também:

      Eu usei pejorativamente o termo “droguinha”, em referencia ao uso pejorativo do Mario do termo “fuminho”.
      O cannabis não é um fuminho apenas, é uma planta com diversos outros benefícios e formas de utilização que ultrapassam a crença popular inspirada por filmes como os de “Cheech and Chong” e outros maconheiros de Hollywood que reafirmam os preconceitos negativos associados ao seu consumo.

      Além disso, respondi ao Mario que acredito que o que acontece na Califórnia com a maconha medicinal (o caso que ele contou) acontece com qualquer outra droga legal – existem pessoas irresponsáveis que mentem para obtê-las através dos víeis da lei. Isso não significa que a droga deva ser totalmente proibida por causa desses infratores.

      Abraço,
      Gabriel

    • Mario S Nusbaum

      18/12/2013 at 13:56

      Tenho a impressão de que fui mal compreendido Gabriel.

      “em referencia ao uso pejorativo do Mario do termo “fuminho”.
      Não foi pejorativo, foi uma tentativa de mostrar que o objetivo de 99% dos “pacientes” é recreativo, e não tenho absolutamente nada contra isso.

      “O cannabis não é um fuminho apenas, é uma planta com diversos outros benefícios e formas de utilização”
      Pode ser, mas, por motivos óbvios, muita gente exagera tudo isso. Se não fossem os outros efeitos, ninguém estaria discutindo o assunto, pode ter certeza.
      Seria uma moda como quinoa, óleo de côco, bingo giloba, etc

    • Gabriel Guzovsky

      08/03/2014 at 12:01

      Oi Mario,

      A discussão não é uma questão de modinha e benefícios da maconha ou seus efeitos, é uma questão dos efeitos das LEIS e da CRIMINALIDADE associada a essa planta. A situação absurda de hoje em dia causa um problema muito maior que a própria droga, especialmente para os seus usuários eventuais e normativos (que são a grande maioria).

      O dia em que a polícia acabar com a sua liberdade por uma atitude sua que não causa nenhum mal para a sociedade é que você entenderá a verdadeira discussão. Continue defendendo o governo e o uso de coerção para “proteger-nos” de nós mesmos, que logo acontecerá com você ou com alguém importante para você.

      Me faz lembrar desta frase icônica para nós judeus libertários:

      “Primeiro levaram os comunistas,
      Mas não falei, por não ser comunista.

      Depois, perseguiram os judeus,
      Nada disse então, por não ser judeu,

      Em seguida, castigaram os sindicalistas
      Decidi não falar, porque não sou sindicalista.

      Mais tarde, foi a vez dos católicos,
      Também me calei, por ser protestante.

      Então, um dia, vieram buscar-me.
      Nessa altura, já não restava nenhuma voz,
      Que, em meu nome, se fizesse ouvir.”

      Recomendo ver a seguinte lista de vídeos no youtube da campanha “Quebrando o Tabu”

  • Raul Gottlieb

    18/12/2013 at 11:21

    Ok, Marcelo, estou pronto a assumir que há uma diferença entre proibir e regular. Ainda não entendi bem esta diferença, pois creio que quem regula proíbe, mas acho que um dia vou entender.

    Também vou concordar que os que regulam o uso da maconha (visto que ela não é proibida – é liberada em muitos países para uso medicinal) são burocratas movidos por um impulso profético (no sentido judaico de ter contato com o divino) de impor sua agenda falso-moralista sobre a humanidade. Deveriam ser marginalizados, os trogloditas.

    Daí que ao liberar as drogas vamos ter um mundo muito melhor mesmo. Com toda a certeza. A polícia vai ter mais tempo e recursos para prender os verdadeiros bandidos, a criminalidade diminuirá muito porque os traficantes se converterão em farmacêuticos licenciados e pagadores de impostos e tudo o mais que você pinta.

    Mal posso esperar!

    Sabe, Marcelo, o meu problema com a liberação da maconha é que não consigo ouvir por parte dos defensores argumentos que não apelem para estas imagens completamente fantasiosas.

    Eu realmente não sei se a maconha é um risco para a saúde pública. Mas sei que se ela for liberada, a criminalidade não vai diminuir e o mundo que você pintou vai continuar a ser uma fantasia.

    Abraço, Raul

    • Marcelo Treistman

      18/12/2013 at 12:01

      Raul,

      Estranho bastante a sua dificuldade em entender a diferença entre “regular” e “proibir”. Definitivamente, eles não são sinônimos. Procure um dicionário!!! Desculpe-me a tautologia, mas “regular” é “regular” e “proibir” é “proibir” mesmo…

      Obviamente eu não sei como ficará o mundo com a legalização da maconha. Mas sei exatamente como ele é com a política atual. E não é nada bom….
      No inicio do século, a bebida alcoólica foi proibida e um imenso mercado negro foi criado. Com a legalização e regulamentação de bebidas, os criminosos deixaram de ter esta receita e certamente foram obrigados a migrar para outra atividade ilícita. Imagino você discutindo esta questão naquele tempo. Você diria:

      “Daí que ao liberar as bebidas teremos um mundo muito melhor mesmo. Com toda a certeza. A polícia vai ter mais tempo e recursos para prender os verdadeiros bandidos, a criminalidade diminuirá muito porque os vendedores de bebida se converterão em donos de bares licenciados e pagadores de impostos e tudo o mais que você pinta.”

      Me parece que, analisando o mundo atual com o vasto mercado de bebidas, você teria perdido a discussão, ou ao menos reconhecido que a legalização das bebidas foi algo benéfico para o mundo. Diversas empresas criadas, geração de empregos, arrecadação de impostos e liberdade pessoal.. Quem iria imaginar??? Tenho o pressentimento que o mesmo acontecerá com a maconha e estou disposto a tentar algo novo.

      O futuro dos criminosos e qual atividade ilícita eles exercerão, não tem espaço nesta discussão. Eu não sei se eles migrarão para atividades legais, mas isso não tem a menor importância.

      Penso sinceramente que você está fazendo ilações sem base no que diz respeito ao futuro dos indivíduos. Talvez – de fato – eles não procurarão um trabalho como farmacêutico, mas você há de convir que eles perderão grande parte do seu lucro que será automaticamente passado ao Estado. Penso que uma das formas de eficientes de combater o crime organizado, é retirar a sua força material. Considerando esta questão, e uma vez compreendido que o uso individual da maconha não afeta a sociedade, eu te pergunto: não valeria a pena tentar?

      Por ultimo, peço que você foque apenas nos argumentos e não no suposto futuro profético dos criminosos.

  • Raul Gottlieb

    18/12/2013 at 12:41

    Marcelo, foi você que falou que com a liberação da maconha haveria menos criminalidade. O que eu disse é que este argumento enfraquece muito a discussão. Tenho a forte impressão de que quem está torcendo as coisas é você!

    Eu sempre disse que este assunto repousa numa questão de limites e não de princípios. Que o Estado sim regula e proíbe liberdades individuais e que ele tem o direito de fazer isto, dentro do devido processo, é claro. E que eu não tenho opinião sobre a maconha, mas que a argumentação sobre a sua liberação descamba quase sempre para argumentos capengas.

    Você leva a discussão para o lado de que é uma questão de princípios, que o Estado não tem o direito de proibir nem de regular como você vai usar o teu corpo.

    Tudo o mais que falamos é, a meu ver, firula.

    Abraço, Raul

    • Marcelo Treistman

      18/12/2013 at 13:21

      Raul,

      Argumentos capengas exitem tanto para aqueles que são a favor da legalização quanto para aqueles que são a favor da manutenção desta proibição.

      É óbvio que o Estado pode proibir uma conduta pessoal. Jamais neguei este poder estatal de limitação das liberdades individuais. Mas, considerando que o uso individual da maconha não afeta o tecido social, eu não aceito as justificativas dadas nos dias de hoje para a sua proibição. Acredito fortemente, que é uma questão de principio e que nesta questão específica o Estado extrapola os limites razoáveis para a limitação da opção individual.

      Hoje em dia, a proibição da droga é muito mais maléfico para a sociedade em geral do que o uso da droga em si. Chegou a hora de mudar o discurso.

      De certo, o combate e enfrentamento policial são armas importantes para coibir a atividade criminosa. Entretanto, como é de conhecimento geral, tal politica de combate no que tange a maconha não funcionou. Faliu. Ruiu, Está derrotada. O consumo aumentou e o lucro de organizações criminosas quintuplicou em todos estes anos. Dinheiro negro que gera corrupção, suborno e outras atividades ilícitas. A legalização da maconha é um passo importante para enfraquecer estas organizações. Ou você acha que a solução para este grave problema (em todos os países do mundo) passa apenas por uma maior e efetiva repressão policial, investindo mais alguns milhões de dólares na perseguição a uma planta ?!?

      Eu estaria disposto a tentar algo diferente, retirando a imensa receita gerada por este mercado das mãos dos criminosos e colocando este dinheiro diretamente na mão do Estado. A experiência nos EUA, mostram a beleza da arrecadação de impostos, criação de novas empresas, geração de mepregos… Te pergunto mais uma vez: por que não tentar?

  • Mario S Nusbaum

    18/12/2013 at 14:00

    Raul,
    Não costumo entrar em “brigas” alheias, mas o argumento do Marcelo, o da Lei Seca americana, é muito bom. É raríssimo termos laboratórios para ciências sociais, e este foi um.

  • Raul Gottlieb

    19/12/2013 at 22:41

    Mario, o laboratório da lei seca é bom mesmo. E ele mostra com clareza que os grupos de bandidos que traficavam bebida migraram para outros ramos do crime e não para a indústria de bebidas. Abraço, Raul

    • Marcelo Treistman

      20/12/2013 at 14:33

      Raul,

      você possui estes numeros? Você poderia nos informar a fonte em que você ancora a sua hipótese?
      Ou será Apenas percepção? Acho que você está equivocado…

      De qualquer forma, apenas pelo amor ao debate, ainda que você comprove que “bandidos que traficavam bebida tenham migrado para outros ramos do crime”, isto não significa que a legalização e regulamentação do uso do alcool não tenha sido benéfica a sociedade e não represente uma vitória dos princípios liberais.

      Abraços

    • Gabriel Guzovsky

      08/03/2014 at 12:13

      Oi Raul,

      Algum tempo depois que postei esta entrevista, entrei em contato com um material didático muito interessante feito pelo cartunista Stuart McMillen, que transcreveu de forma concisa duas ideias importantes sobre o assunto.

      1. “Guerra às Drogas” – Ele descreve as teorias do libertário Milton Friedman sobre o assunto da guerra contra as drogas. Milton usa o argumento da lei seca nos anos 70 e acho que o quadrinho pode ajudar a esclarecer qual é essa ideia.

      2. “Ratolândia” – Ele descreve a metodologia dos experimentos feitos para provar o perigo das drogas para o indivíduo e mostra como um outro grupo de cientistas fez uma alteração muito importante ao experimento que invalida todos os experimentos anteriores. O problema é a jaula – não a droga em si.

      Boa leitura, vale muito a pena e espero que traga um pouco de luz.
      O Ratolândia em especial é uma obra muito relevante e que considero muito boa para entender o porquê as pessoas buscam as drogas em primeiro lugar – poético.

      Tudo de bom,
      Gabriel

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