Tabaconha – Problema de saúde pública em Israel

13/12/2013 | Opinião; Sociedade

Sábado, dia 21 de dezembro, o fim de ano está chegando e uma grande manifestação em favor da descriminalização da maconha acontecerá em Tel Aviv na Kikar (Praça) Rabin. Por ser um tema que está em destaque aqui na mídia, resolvi conversar com um pai de família trabalhador que paga impostos, um cidadão de bem, usuário de maconha com uma opinião interessante sobre o assunto. Por ainda ser um tabu, o meu entrevistado pediu que o seu nome não fosse divulgado. Infelizmente, na realidade em que vivemos, essa pessoa tem que ser tratada como criminosa, com medo de repercussões dentro da comunidade e especialmente para a sua família.

Cartaz da manifestação do dia 21.12
Manifestação em favor da descriminalização da maconha. “Chega de abusar dos doentes”, “Chega de perseguir civis”.

Ele me pediu o espaço para ajudar a alertar a população sobre, de acordo com ele, o verdadeiro problema de saúde causado pela maconha hoje em dia aqui em Israel. Eu achei interessante, nos reunimos em um espaço surreal no centro de Israel e por todo o caminho uma pergunta ecoava na minha cabeça:

GG- Como justo um brasileiro que vive aqui em Israel a menos de uma década vai saber o que é melhor para o israelense? E ainda mais sobre maconha…
Olha, eu venho do Brasil, onde encontrar maconha é algo muito fácil, simples e bem mais barato que outras drogas – mesmo sendo totalmente ilegal. Aqui em Israel, os usuários não vivem essa realidade faz tempo, por aqui a maconha pode chegar a custar 80 reais a grama, é um absurdo. Tudo isso enquanto provavelmente na minha esquina existe um laboratório agrícola testando a próxima tecnologia hydrobubbleairponics israelense de cultivo inteligente de flores de cannabis, além de frutas e vegetais – a engenhosidade israelense rolando solta e eu não posso ter a minha saúde beneficiada também por esse cannabis – simplesmente porque ainda não estou morrendo por alguma doença crônica pior que a existência.
Não digo saber o que é melhor para os israelenses, mas a minha visão é a de um estrangeiro. Talvez possa ajudar algumas pessoas a enxergarem de outra perspectiva, outro ângulo, outra luz.

GG- Foi por isso que decidiu entrar em contato comigo?
Gabriel, eu te conheço faz um tempo, você sabe como desde a universidade lá no Brasil eu uso maconha e que sempre foi algo controlado – tipo, tranquilo e usado com moderação e responsabilidade. Meu contato com a maconha inclusive beirava a religiosidade do meu sionismo, escutando Bob Marley, meu inconsciente me levava para Eretz Israel, Zion, Ganja, Jah – One love. Para mim quando ele falava sobre a Babilônia e voltar para Sião era como se fosse um grande rabino sionista chamando o povo judeu para a Terra de Israel, não conseguia deixar de fazer o paralelo. Enquanto vivia na golá (diáspora), imaginava poder seguir com meus gostos e opções aqui em Israel, ter a minha liberdade como judeu em Sião.

GG- E o que foi que você encontrou?
Amo Israel, encontrei de tudo em diversos aspectos da minha vida e sou uma pessoa bastante completa pessoal e profissionalmente. Mas o tema da maconha aqui em Israel para mim se tornou um problema. Quando cheguei aqui fui apresentado pela primeira vez a uma meleca chamada haxixe. Na teoria, é o óleo, os tricomas da planta de maconha, que caem em uma rede e são juntados e comprimidos em um bloco marrom com alta concentração de thc. Na prática, é um bloco marrom trazido de não sei qual país vizinho que não sei que é que tem nele de verdade. Na falta da planta que estava acostumado – provei, já que se tratava de algo similar e recomendado por outros amigos brasileiros que viviam aqui fazem alguns anos. Realmente era similar, mas com o tempo não surtia o mesmo efeito, além de querer consumir aquela meleca em forma de cigarro – o que me fez tomar uma das decisões mais imbecis da minha vida: misturar a meleca do haxixe com tabaco.

GG- Você ficou viciado?
Não sei te dizer… quer dizer, hoje eu posso te dizer que sim, mas se você me perguntasse durante o(s) primeiro(s) ano(s) que consumi a droga assim, eu te diria que não, que eu paro quando quiser de fumar. Foi só quando eu realmente quis parar de fumar que eu percebi o quanto estava viciado – não na maconha, na tabaconha, o tabaco com maconha. O pior de tudo isso é que eu não fumava cigarro sozinho – nunca assumi o vício em tabaco – e terminava suprindo a necessidade (da nicotina) com a mistura, me transformando em um viciado de algo que não vicia e convencido de que eu queria era fumar maconha.

GG- A maioria dos israelenses que eu conheço fuma haxixe com tabaco. Todos eles estão viciados?
Provavelmente. Ou a grande maioria. Terminam fumando cigarro comum por causa da maconha/haxixe, especialmente pelo preço abusivo do mercado ilegal que faz com que eles diluam a nossa erva medicinal milenar em um produto tasty, mas com nicotina. É uma grande pena que o governo israelense siga defendendo os interesses da nicotina. A maconha acaba servindo de porta de entrada para uma droga muito mais letal, o cigarro.

GG- Mas como você pode dizer isso sobre o governo? É meio forte.
Sabe quando eu tive “certeza”? Quando começaram a aparecer em Florentin e Alenby lojas especializadas naquela porcaria sintética, o “cannabis sintético”, Spice, Mabsuton, Mr. Nice Guy… Essas drogas sintéticas que são baseadas na molécula do THC com pequenas alterações, acabam transformando jovens em objetos de experimento, já que ninguém sabe o que pode acontecer realmente com o uso prolongado e com a mistura óbvia dessa droga sintética com o tabaco e a nicotina para sua “diluição”. A droga misturada afeta o cérebro de forma distinta e causa vício.

O mais bizarro é que muitas pessoas pensam que é pelas nossas crianças que proíbem a maconha, que é pela nossa saúde, que é pela nossa segurança…

As pessoas que mais usam essa droga sintética são soldados e outras pessoas em cargos onde é possível que peçam um exame de urina para identificar o uso de maconha. Como são drogas novas, não existe ainda exame de urina ou de sangue para identificá-las… Ou seja, essas novas drogas experimentais ainda estão atacando o nosso exército e a nossa juventude muito pior do que a maconha poderia. Tudo o que essas pessoas queriam era a maconha simples e original, barata e inofensiva quando usada com moderação por pessoas civilizadas.

Por que não abrir a opção de usar maconha para todo aquele que desejar utilizar a maconha já que existe uma demanda tão grande pela erva medicinal?

A opinião do especialista, professor Moti Ravid: "O cannabis é um remédio para muitas coisas e é assim que precisamos tratar ele."
A opinião do especialista, professor Moti Ravid: “O cannabis é um remédio para muitos doentes e é assim que precisamos tratar ele.”

GG- Peraí, mas crianças não devem usar nenhuma droga, muito menos soldados.
Calma, ia chegar nesse ponto, a maconha só deve ser usada por maiores de 21 anos. Essa é a idade em que o cérebro já está completamente formado e geralmente quando o indivíduo já está formado e preparado o suficiente para decidir se quer usar a maconha com quase nenhum risco. Você sabe cara, sempre existe o risco de abuso e uso indevido, como com várias outras coisas na vida.

A legalização daria acesso a informação e muito menos gente abusaria da droga, porque não haveria necessidade de misturar com tabaco, com mais educação sobre os riscos desnecessários de vício associados a nicotina, além de evitar que mais pessoas usem essas porcarias sintéticas em busca de algo que a conhecida erva milenar proporciona por milênios sem fatalidades e de forma muito mais segura.

GG- Mas você não disse que é ou era viciado em maconha? Será que ela é segura mesmo?
Olha, seguro não é nada nessa vida cara, tudo depende da pessoa que consome, da sua consciência e personalidade. Eu fui viciado em tabaconha, não em maconha. Tinha uma fissura tremenda para fumar meu cigarrinho de maconha nicotinada. Sabe como eu deixei de fumar tabaconha?

GG- Como você deixou de fumar tabaconha?
Fumando maconha. Consegui comprar uma quantidade razoável de maconha de diferentes tipos. Assim tinha maconha suficiente para fumar apenas maconha, quando quisesse, provando diferentes cepas para encontrar aquela que era melhor para mim e para o meu propósito de deixar de fumar. Foi caro com preço da maconha por aqui, mas tinha que investir na minha saúde.

Comecei a fumar só maconha, sem tabaco. Depois de 3 dias já estava fumando muito menos, aos 7 dias já fumava menos de 0.25 g de maconha por dia – lembra que eu estava viciado no ato de fumar, de tragar, de fazer fumaça… 0.25 g de maconha era muito pouco já para mim depois do vício. Lá pelos 20 dias quase não tinha mais vontade de fumar, fazer fumaça… Comecei a me sentir melhor na garganta, sem muco. Realmente, minha saúde começou a melhorar e eu comecei a sentir os efeitos medicinais da maconha muito melhor – sem o tabaco, apenas a relaxação da maconha quando tivesse vontade.

Meu experimento foi um sucesso, hoje fumo muito menos maconha e nunca mais vou fumar cigarro na minha vida. Respiro melhor e me sinto melhor comigo mesmo, a ponto de dizer para amigos com o peito inchado que sou um maconheiro. Estou convencido cada dia mais que essa planta só traz benefícios quando utilizada por maiores de idade com cabeça e moderação. A maconha também pode ser usada em forma de óleo, de pomada para aliviar dores musculares e juntas, vaporizada, adicionada a comida junto com outros óleos – cara, dizem até que comer ela inteira, com todas as fibras, sem esquentar para ativar a psicoatividade, serve para regular a acidez do organismo, alcalinizando o corpo.

Espero que esta mensagem possa chegar até pessoas em Israel que possam fazer algo a respeito. É uma pena pensar que defender uma planta para o seu uso pessoal responsável possa ter qualquer consequência para a minha vida profissional ou familiar e eu não possa revelar a minha identidade. Mais ridículo ainda tendo plantações medicinais absurdamente boas, existirem pessoas que não tem acesso a essa opção de tratamento simplesmente porque não tem a doença certa ou porque não tentaram alternativas muito mais perigosas e experimentais antes.

Na minha opinião, além de curar e aliviar sintomas, a maconha usada por adultos responsáveis também pode ajudar a prevenir doenças e outros vícios.

 

Cartaz pró-legalização em Israel: "Aviso grave! A maconha pode causar pensamentos inteligentes, calma, tranquilidade, amor e sensação de unidade com aqueles que o cercam."
Cartaz pró-legalização em Israel: “Aviso grave! A maconha pode causar pensamentos inteligentes, calma, tranquilidade, amor e sensação de unidade com aqueles que o cercam.”

O que você acha da história do nosso entrevistado? Você fuma? Fuma maconha? Sentiu-se identificado com algum ponto? Acha possível mesmo deixar de fumar cigarro fumando maconha?

Por que existe esse obscurantismo todo em volta da maconha? É o medo ao desconhecido? É uma questão comercial? Militar? Quem perde e quem ganha com a proibição?

Você conhecia a tabaconha? Você acredita que misturar maconha ou haxixe com tabaco faz com que uma droga que não vicia se transforme em um problema de saúde? Qual é a parte negativa dessa equação? O que causa essa mistura? Preço? Legalidade? Cultura?

Cannabis – Por que não legalizar? Será que a maconha é boa para todos? Será que ela é perigosa para a sociedade moderna? Como saber quem deve ou não fumar maconha? Deve ser uma decisão individual ou a sociedade deve decidir pelo indivíduo? Quem ganha com a proibição? Quem ganha com a legalização? Quais sociedades estão dispostas a discutir sobre o cannabis abertamente sem medo de perseguição (legal ou social)? A ilegalidade da maconha cria um buraco negro que é explorado por oportunistas de todos os espectros da sociedade?

Qual é a sua opinião sobre este assunto tão polêmico? A opinião do entrevistado é apenas uma entre milhares. Escreva anonimamente se não desejar revelar sua identidade, para escrever com sinceridade – Adoraria saber a opinião das pessoas que usam maconha aqui em Israel (e também no Brasil) sobre o assunto.

Para ler mais sobre a lei relacionada com o cannabis em Israel, não deixe de ler o artigo do colaborador Alexandre Grasman.

Aviso: O autor e o site Conexão Israel não incentivam de nenhuma forma o uso ou compra  de substâncias ilícitas, mas contemplam o direito dos seus usuários de falar sobre o assunto abertamente sem medo de perseguição. Com a atual situação legal, apenas os “perdidos” acabam tendo cobertura, enquanto os usuários que não tem nenhum problema com a droga continuam anônimos e com medo de compartilhar suas opiniões e casos. O brasileiro que compartilhou suas opiniões anonimamente aqui foi inspirado pela campanha israelense “Saindo do armário verde”. Ele ainda não tem coragem de colocar sua cara lá e sair do armário verde, como provavelmente outros milhares de usuários eventuais de maconha que não querem atrair problemas com a lei. Leia com responsabilidade e fume cigarro se assim desejar – mas evite misturar.

Comentários    ( 49 )

49 Responses to “Tabaconha – Problema de saúde pública em Israel”

  • Mario S Nusbaum

    18/12/2013 at 14:00

    Raul,
    Não costumo entrar em “brigas” alheias, mas o argumento do Marcelo, o da Lei Seca americana, é muito bom. É raríssimo termos laboratórios para ciências sociais, e este foi um.

  • Raul Gottlieb

    19/12/2013 at 22:41

    Mario, o laboratório da lei seca é bom mesmo. E ele mostra com clareza que os grupos de bandidos que traficavam bebida migraram para outros ramos do crime e não para a indústria de bebidas. Abraço, Raul

    • Marcelo Treistman

      20/12/2013 at 14:33

      Raul,

      você possui estes numeros? Você poderia nos informar a fonte em que você ancora a sua hipótese?
      Ou será Apenas percepção? Acho que você está equivocado…

      De qualquer forma, apenas pelo amor ao debate, ainda que você comprove que “bandidos que traficavam bebida tenham migrado para outros ramos do crime”, isto não significa que a legalização e regulamentação do uso do alcool não tenha sido benéfica a sociedade e não represente uma vitória dos princípios liberais.

      Abraços

    • Gabriel Guzovsky

      08/03/2014 at 12:13

      Oi Raul,

      Algum tempo depois que postei esta entrevista, entrei em contato com um material didático muito interessante feito pelo cartunista Stuart McMillen, que transcreveu de forma concisa duas ideias importantes sobre o assunto.

      1. “Guerra às Drogas” – Ele descreve as teorias do libertário Milton Friedman sobre o assunto da guerra contra as drogas. Milton usa o argumento da lei seca nos anos 70 e acho que o quadrinho pode ajudar a esclarecer qual é essa ideia.

      2. “Ratolândia” – Ele descreve a metodologia dos experimentos feitos para provar o perigo das drogas para o indivíduo e mostra como um outro grupo de cientistas fez uma alteração muito importante ao experimento que invalida todos os experimentos anteriores. O problema é a jaula – não a droga em si.

      Boa leitura, vale muito a pena e espero que traga um pouco de luz.
      O Ratolândia em especial é uma obra muito relevante e que considero muito boa para entender o porquê as pessoas buscam as drogas em primeiro lugar – poético.

      Tudo de bom,
      Gabriel