Tamanho & Documento

Israel é um país pequeno. Isso todos sabemos. O interessante é notar como a percepção espacial do israelense é diferente da percepção do brasileiro, principalmente dos que vivem nas grandes cidades.

Uma viagem de duas horas em Israel é considerada longa. Vejam os mapas abaixo, comparando Israel com os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A distância entre as capitais dos dois estados é 430 km, quase igual a distância entre os extremos Norte e Sul de Israel, 426 km.

Já ouvi vários israelenses de Tel Aviv dizer que há tempos não visitam Jerusalém, porque é longe. A viagem entre as duas cidades é de apenas 50 minutos (70 km), e provavelmente isto revela mais sobre a distância psicológica que o interlocutor atribui à capital, pois os 96 km que separam Haifa de Tel Aviv não parecem tão longe assim.

O conceito de cidades e bairros em Israel também é bastante diferente, especialmente para mim, que cresci em São Paulo. Em Israel um conjunto de algumas ruas já pode ser chamado de bairro. As cidades também me parecem muito pequenas, apenas Jerusalém eu chamaria de grande. Tomemos como exemplo a região da grande Tel Aviv, conhecida em hebraico com Gush Dan, e que inclui as seguintes cidades: Tel Aviv-Yafo, Herzliya, Ramat Hasharon, Bnei Brak, Ramat Gan, Givataim, Kiryat Ono, Or Yehuda, Holon e Bat Yam. O mapa abaixo mostra todas essas cidades cabendo confortavelmente dentro da área da cidade de São Paulo. É bem verdade que São Paulo é uma monstruosidade, mas muitas destas cidades não deixam de ser extremamente pequenas.

Região metropolitana de Tel Aviv dentro da cidade de São Paulo
A grande Tel Aviv dentro da cidade de São Paulo

O mapa abaixo mostra a região central da cidade de São Paulo ao lado da região da grande Tel Aviv. O bairro onde eu cresci, Vila Mariana, é comparável a muitas das cidades israelenses. Cada uma destas cidades tem a sua própria administração, com prefeitura, vereadores, sistema de coleta de lixo próprio, orçamento para educação, e tudo mais que uma municipalidade tem. Eu sempre me pergunto se não é um grande desperdício isso tudo, que cidades tão pequenas e parecidas (com exceção da ortodoxa Bnei Brak) se administrem separadamente.

Região metropolitana de Tel Aviv ao lado do centro de São Paulo
Região metropolitana de Tel Aviv ao lado do centro de São Paulo

E os palestinos de Gaza e da Cisjordânia? Certamente sua percepção de distância é influenciada pelo tamanho de seus territórios, que são bastante menores que Israel. O mapa abaixo mostra a capital paulista ocupando a maior parte da parte Norte da Cisjordânia (chamada pelos judeus de Shomron, ou Samária), e dentro dela toda a Faixa de Gaza. Assim é possível entender como a densidade populacional de Gaza é tão alta, aproximadamente 4900 pessoas/km2. Compare com os 7430 habitantes/km2 da cidade de São Paulo.

Faixa de Gaza dentro da cidade de São Paulo, que está dentro da Cisjordânia
Faixa de Gaza dentro da cidade de São Paulo, que está dentro da Cisjordânia

Abba Eban, ministro das relações exteriores de Israel entre 1966 e 1974, é conhecido por ter dito que as fronteiras de antes da Guerra dos Seis Dias seriam “Fronteiras de Auschwitz”, por representarem um perigo existencial a Israel. A frase é famosa, mas falsa. Abba Eban nunca disse “fronteiras de Auschwitz”. Numa entrevista à revista alemã Der Spiegel, em Janeiro de 1969, ele disse:

Dissemos abertamente que o mapa do país nunca mais será como era em 4 de Junho de 1967. Para nós isto é uma questão de segurança e de princípios. O mapa de Junho para nós é identificado com falta de segurança e perigo. Eu não estarei exagerando se disser que há nele para nós algo da lembrança de Auschwitz. Se levarmos em conta a nossa situação em Junho de 1967, e imaginarmos o que nos aconteceria em caso de derrota, nos dá um arrepio: a situação na qual os sírios novamente estão sobre as montanhas e nós estamos no vale, com o exército jordaniano podendo ser visto da costa, com os egípcios em Gaza, com a mão em nosso pescoço. Esta é uma situação que nunca voltará na História.

Para não ficar dúvida, aí vai o original em alemão.

Entrevista de Abba Eban à revista alemã Der Spiegel
Entrevista de Abba Eban à revista alemã Der Spiegel

É verdade que a menor distância entre o mar e a Cisjordânia é muito pequena. Menos de 14 quilômetros separam a cidade palestina de Qalqilya da praia do kibutz Shfaim. Vejam a imagem abaixo, preparada por mim usando o site mapfrappe.com. A linha azul é o percurso que eu fazia de minha casa, na Vila Mariana, à cidade universitária, sobreposto no mapa de Israel. Percorria este percurso diariamente, e nenhum paulistano o julgaria especialmente longo. Se não fossem as curvas do caminho, e pudesse esticar a linha azul, facilmente a distância seria suficiente para atravessar Israel em sua parte mais fina. Brinquem vocês mesmos com o site, e vejam como percursos que são quotidianos para vocês parecem grandes em relação a Israel.

A cintura fina de Israel
A cintura fina de Israel

Para terminar, uma última reflexão em relação a distâncias, desta vez oferecida pelo escritor A.B. Yehoshua. Em 9 de Outubro de 2011 ele publicou no jornal Haaretz um artigo entitulado “Dividir a Terra de Israel em dois estados é um imperativo moral”. Leia a minha tradução ao português em meu antigo blog O Estadão de Israel. O penúltimo parágrafo diz:

[…] a identidade da pátria dos palestinos é quase o oposto da identidade de nossa pátria, e em certo sentido, isso também requer exame. Em comparação a uma nação que mudou de pátria como um viajante freqüente, para muitos palestinos a pátria é por vezes reduzida à aldeia e à casa, e é por isso que cada desenraizamento deles fomenta tragédia e crise. Os palestinos nos campos de refugiados na Faixa de Gaza ou na Cisjordânia não estão muitos quilômetros de distância das casas e as aldeias de onde fugiram ou foram expulsos na guerra de 1948, embora eles ainda sejam residentes da pátria palestina. Seu sentimento é que eles não só foram ao exílio da aldeia e da casa, mas de seu próprio território, e assim por 64 anos, eles continuaram a viver nas condições indignas e incapacitantes dos campos de refugiados sem o desejo ou a capacidade de reabilitar-se em suas pátria. O direito de retorno à pátria, que é legítimo, tornou-se o direito de retorno para a casa de Israel, que é impossível e desnecessário.

Como se diz em inglês, food for thought.


Fontes:
A história da citação de Abba Eban, bem como a imagem da revista Der Spiegel, encontrei no blog israelense rafimann.

Se você gostou de bricar com mapas, aí vão algumas sugestões interessantes:
11 Overlay Maps That Will Change The Way You See The World
OverlapMaps
O site do Ministério do Exterior de Israel oferece algumas comparações.

Com excessão do mapa produzido através do site mapfrappe.com, os demais mapas foram produzidos por mim. Este trabalho pode ser compartilhado sem adaptações e para fins não lucrativos, desde que devidamente atribuidos a mim e a esta página, segundo a licença Creative Commons abaixo.

Creative Commons License
Mapas comparativos de Israel by Yair Mau is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.

Comentários    ( 17 )

17 Responses to “Tamanho & Documento”

  • Marcelo Starec

    22/01/2014 at 22:05

    Olá Raul,

    Obrigado. Suas colocações são inteligentes e ao mesmo tempo complexas, portanto requerem observações mais profundas do que certo ou errado. Acho suas colocações pertinentes mas apesar disso sou um tanto mais otimista, por razões pragmáticas mesmo. Entendo que, em 1948 e ainda hoje existe uma corrente de pensamento, entre os muçulmanos, especialmente os mais radicais, no sentido de que nenhum milimetro do território do Oriente Médio (alguns inclusive incluem a Península Ibérica e outras partes também!) poderia ser “ocupado” por infiéis (leia-se cristãos ou judeus), embora aceitem que estes possam lá viver como “Dhimys”, que numa tradução livre seria algo como pessoas com diversos direitos, mas sem autonomia plena sobre qualquer pedaço de terra, por menor que seja.

    Portanto, para essa corrente, concordando contigo, não importa mesmo o tamanho do território (Aliás, os países Árabes não tem escassez de terras), mas o direito a autonomia plena de um estado não islâmico na região. Daí que acho importante Israel colocar que quer ser aceito como um Estado judeu, pois isto representaria concordar em quebrar este paradigma. Também por isso entendo que deve ficar claro o que significa “ocupação”, quando se fala neste tema.

    Entretanto, e aí vem o meu relativo otimismo, Israel é uma realidade hoje, e com o tempo o mundo árabe vai se acostumando com a existência deste Estado como um fato e não mais como uma possibilidade. Além disso, mesmo governados por tiranos que usam o “inimigo externo” para se esquivar, o povo árabe também recebe informações sobre outros padrões de vida, conceitos de justiça e democracia, o que termina sendo inevitável para qualquer ditador, ao longo do tempo, por mais poderoso e cruel que este seja. Assim, acredito num futuro de paz, muito embora sem crer nessa visão simplista de parte das pessoas, inclusive de uma parcela de judeus e israelenses, de que obter a paz seria algo simplista, bastando unilateralmente ceder a algumas demandas do outro lado. Isto me parece realmente algo como “wishfull thinking”, que eu também adoraria que fosse verdade, mas o processo será muito mais complexo e longo do que estes imaginam.

    Abraço,
    Marcelo.

    • Mario S Nusbaum

      23/01/2014 at 13:25

      “mesmo governados por tiranos que usam o “inimigo externo” para se esquivar, o povo árabe também recebe informações sobre outros padrões de vida, conceitos de justiça e democracia, o que termina sendo inevitável para qualquer ditador, ao longo do tempo, por mais poderoso e cruel que este seja. ”
      Pode ser Marcelo, e eu adoraria que fosse, mas atualmente o que está acontecendo é um RETROCESSO. O poder dos fundamentalistas é muito maior do que há 10, 20 ou 30 anos atrás.

  • Raul Gottlieb

    23/01/2014 at 10:50

    Olá Marcelo

    O teu pensamento é o de Jabotinski: a muralha de ferro. “Eles” jamais nos aceitarão de boa vontade. O que “nós” temos que fazer é construir uma muralha de ferro que “eles” não consigam destruir. Assim, com o tempo “eles” vão se acostumar com a ideia de que não conseguirão nos destruir.

    Eu achava isto um absurdo, até os acordos de Oslo terem sido massacrados pelo Arafat e o Hamas tomar o poder em Gaza. Aí comecei a entender que Jabotinski tinha a sua razão.

    O processo é longo e ele é atrapalhado pelo fato que o mundo apoia os Palestinos de forma vergonhosa. Sem a UNRWA (que é uma aberração) e sem os bilhões de ajuda que continuam vindo independente de como sejam usados (e são muito mal usados), “eles” já teriam se convencido há mais tempo que “nós” estamos aí para ficar.

    Contudo, eu concordo contigo. A solução vai chegar por este caminho que você descreve. Lá em torno de 2200.

    Abraço, Raul

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