Tel Aviv ou Israel?

25/01/2016 | Economia

Mais democracia, menos judaísmo, mais negócios, menos conservadorismo. Não é a toa que muitos israelenses se referem a Tel Aviv como uma região separada de Israel, o “Estado de Tel Aviv” (em hebraico: Medinat Tel Aviv).

Se por um lado o apelido pode ser visto como um elogio, por outro apresenta uma visão crítica. Diversos israelenses afirmam que o cidadão “telavivi” (habitante de Tel-Aviv) vive dentro de uma “bolha”, não compreende a realidade complexa do país, e pouco se preocupa com o que se passa na periferia, em Jerusalém ou além da Linha Verde, contanto que o problema não chegue até ele.

Mas será mesmo que o telavivi é tão diferente dos demais habitantes?

Resolvi analisar alguns aspectos políticos e socioeconômicos dos habitantes da cidade, e compará-los aos índices nacionais, com base em uma recém divulgada pesquisa do jornal Haaretz. Meu objetivo é entender se a realidade desta cidade pluralista é de fato tão diferente da realidade do cidadão israelense médio. E os resultados são surpreendentes.

O gráfico abaixo nos mostra a diferença da composição do parlamento (2015), caso ele fosse escolhido exclusivamente pelos habitantes de Tel Aviv:

tel aviv eleicoes
À esquerda, o resultado das eleições 2015 no “Estado de Tel Aviv”, à direita, o resultado das eleições em Israel.

Tudo indica que uma coalizão de centro-esquerda composta pela União Sionista e pelo Meretz seria uma base suficiente para o governo do “Estado de Tel Aviv”, que poderia tranquilamente englobar também o Yesh Atid e o Kulanu, criando uma base governista de 87(!) cadeiras.

O preço de apartamentos e de aluguéis em Tel Aviv é consideravelmente mais caro que nas outras cidades do país. Veja a tabela abaixo (dados do primeiro trimestre de 2015):

ApartamentosTel AvivJerusalémHaifaIsrael
Preços médios (₪)2.497.8001.755.6001.042.8001.368.200
Em relação a média do país(%)183%128%76%100%
Aluguéis
Preços médios (₪)5.6714.1162.4943.740
Em relação a média do país(%)152%110%67%100%

O salário médio é de 11.855 na cidade. Cerca de 2.800 a mais que o do israelense médio. Um domicílio em Tel Aviv gasta, em média, 15.710 por mês, 1.200 a mais que a média do país.

O PIB (Produto Interno Bruto) per capita da cidade é três vezes maior que o PIB per capita nacional. Apenas 5,2% da população israelense vive em Tel Aviv, mas 15,2% dos empregados trabalham nela. Quase 17% do PIB israelense é gerado na cidade.

Em 2013, a porcentagem da população vivendo abaixo da linha de pobreza estava em 9,1% em Tel Aviv, contra 21,8% da média nacional.

A “grande Tel Aviv”, que inclui também outras cidades fronteiriças como Givatayim e Bat Yam, é residência de 80% dos médicos especialistas, 60% dos acadêmicos, 90% dos diretores de teatro e 50% da população entre 24-35 anos.

Vale lembrar que dentro do “Estado de Tel Aviv”, também existem diferenças entre seus bairros. Ao percorrer a cidade de Sul a Norte, a condição financeira da população vai melhorando gradativamente [ref]Obviamente, esta é apenas uma generalização. Há diversas exceções a regra.[/ref], partindo de bairros sulistas, com grande concentração de trabalhadores estrangeiros, até chegar aos bairros mais nobres, localizados ao norte da cidade, como Ramat Aviv e Lamed. Há quem diga que a separação entre “ricos” e “pobres” é melhor representada pelo eixo leste-oeste, dividida de acordo com a Rodovia Ayalon, que corta a cidade em duas partes. Veja o mapa abaixo:

Mapa de Tel Aviv, com a rodovia 20 (Ayalon) em azul.
Mapa de Tel Aviv, com a rodovia 20 (Ayalon) em azul.

O prefeito da cidade de Nesher (periférica a Haifa), afirmou durante os protestos sociais de 2011 que não havia nenhuma manifestação: “Os “telavivim” estão na Rotschild [ref]Avenida no centro de Tel Aviv, conhecida por sua vida noturna[/ref], comendo sushi e fumando narguilé”.

São recorrentes os comentários que seguem nesta direção. Os habitantes da periferia insatisfeitos com a “bolha telavivi” e com seu modo de vida independente, reclamam que os “telavivim” não se preocupam com nada que não afete sua cidade.

Ao mesmo tempo, o sonho de muitos jovens de cidades pequenas ou de kibbutzim é vir morar em Tel Aviv, após o serviço militar. E nela ficar. Sair da periferia e ir para a cidade grande.

Empregados de acordo com o setor, 2014.
Empregados de acordo com o setor, 2014 em Tel Aviv e em Israel (%).

Em resumo, o “telavivi” vota mais para a centro-esquerda, trabalha em hi-tech e no mercado financeiro, recebe maiores salários, gasta mais dinheiro e tem uma escolaridade mais alta. Odiado ou venerado pelos demais israelenses? Depende a quem perguntamos.

O que sim percebemos é que ele é, de fato, diferente dos demais.

Referencias:

http://www.haaretz.com/israel-news/business/.premium-1.698827

 

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Tel Aviv ou Israel?”

  • Mario S Nusbaum

    25/01/2016 at 18:30

    Ou seja, Israel é como todos os outros países do mundo: SP/Brasil, NY/EUA, Bs. As./Argentina, etc

  • Raul Gottlieb

    26/01/2016 at 06:10

    Sim, Tel Aviv é muito diferente da média. Mas é importante observar que ninguém é igual a média. A média não existe concretamente, ela é uma medida.

    Assim que Tel Aviv não seria o que é sem Israel e Israel não seria o que é sem Tel Aviv.

    Agora, seria ótimo que o restante do país votasse mais próximo a como votam os telavivim!

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