Tel Aviv perto do mar, longe da cruz

07/08/2015 | Conflito; Cultura e Esporte

Uma tarde ensolarada na bela cidade de Jafa. A moderna cidade milenar é famosa por ser um exemplo de colaboração entre árabes e judeus, além de fazer parte da maior cosmópolis do Oriente Médio, a liberal Tel Aviv. É nesta cidade onde se encontra o Centro Peres para a Paz, um centro educacional que promove a convivência pacífica na região, trabalhando em prol do diálogo entre árabes e judeus, especialmente entre jovens e adolescentes.

Centro Peres para a Paz
Com Nelson Burd no Centro Peres para a Paz em Jafa

Este foi o local escolhido para o encontro entre os cantores brasileiros Gilberto Gil e Caetano Veloso e o ex-presidente de Israel e nobel da paz, Shimon Peres. Aqui aconteceu a coletiva de imprensa que precedeu a apresentação única no estádio Menorá em Tel Aviv, que teve casa lotada com mais de 11 mil brasileiros e israelenses amantes da música brasileira. Os dois artistas enfrentaram muitas críticas de movimentos anti-israelenses e mesmo assim tiveram a coragem de enfrentar essas barreiras e apresentar-se no país. É por isso que o Conexão Israel esteve por lá (eu, Nelson Burd e Miriam Sanger) para escutar e conversar com os artistas, entender as suas motivações e visões de Israel.

Caetano Veloso, Shimon Peres e Gilberto Gil em coletiva de imprensa no Centro Peres para a Paz
Caetano Veloso, Shimon Peres e Gilberto Gil em coletiva de imprensa no Centro Peres para a Paz

Os brasileiros foram recebidos por jovens árabes e judeus, embaixadores da paz do Centro Peres para a Paz, que entregaram camisetas de embaixadores da paz. Os jovens acreditam na importância da música como uma ponte entre culturas.

Shimon Peres discursou sobre o Brasil e a sua admiração pela sociedade brasileira, sua variedade, tolerância e convívio pacífico entre culturas – além da alegria, dança, amor e igualdade. O presidente chamou os artistas de “mensageiros da paz”, pela contribuição cultural de ambos na criação de músicas que fazem as pessoas mais felizes e unidas.

Caetano, que veio despreparado para discursar, agradeceu ao ex-presidente Peres e disse que apenas veio para cantar e que estão honrados de ser recebidos. Gil disse que já era a sua oitava ou nona vez em Israel (já até perdeu a conta) e que este é um lugar que ele aprendeu a gostar e amar, agradeceu a todos e especialmente ao ex-presidente pela recepção e convite, além da sua contribuição para o país e o mundo. Além disso, disse que veio trazer a música brasileira para o povo israelense. Uma música que há muito tempo já faz parte da cultura israelense, contagiando com o seu ritmo e alegria.

Abertas as perguntas à imprensa, o primeiro assunto abordado foi a visita inesperada da dupla à aldeia de Sussya na Cisjordânia. A aldeia palestina ao sul de Hebron fica ao lado de um importante sítio arqueológico judaico e o governo de Israel não permite a expansão da aldeia e já quis demolir a mesma. Caetano respondeu que para ele a visita foi muito importante, muito marcante e que estava bem sensível durante toda a visita. Eles foram levados para lá por um ex-soldado do exército israelense, que ajudou a criar o movimento “Breaking the silence”, e ele falou bastante sobre a ocupação e eles também conversaram com habitantes locais. Para Caetano a visita foi esclarecedora e foi muito importante visitar a aldeia para entender mais sobre a situação na Cisjordânia.

O segundo assunto abordado foi o BDS e Caetano tomou novamente a palavra, já que o caso da carta do Roger Waters foi relacionado especialmente a ele. Ele disse que a visita foi bastante discutida antes por causa do movimento BDS que fez pressão para que eles não venham. Eles não aceitaram cancelar o show e Caetano disse que ele consegue entender o ponto do BDS, mas acredita que o caminho para a paz é muito mais complicado.

Para Caetano, estar em Israel sempre foi uma boa experiência. Ele conta que na segunda vez que ele veio para Israel, ficou em Tel Aviv com a sua primeira esposa e se hospedaram perto da praia, curtiam o mar e amaram! Ele esteve aqui outras 3 vezes e agora, mais de 10 anos depois da última vez que veio, ele continua amando Tel Aviv. Ele ama as pessoas e se sente em casa. Para ele é totalmente diferente da Europa, muito mais parecido com o Nordeste do Brasil e em parte com o Rio de Janeiro. “Até mesmo as pessoas se parecem com os brasileiros, eles se mexem como nós! É como ver brasileiros!” Caetano conclui que apesar de entender as dificuldades, é por isso que ele ainda acredita que há uma chance para a sociedade israelense. “Ainda há esperança.”

Para finalizar Caetano conta sobre um cantor chamado Franklin Dario, que compôs a música “Ana vai embora” e que ele teve o prazer de conhecer em 1966. Conversando com ele depois da sua apresentação, que segundo Caetano foi incrível e que ele deveria gravar um disco, Dario decepciona Caetano dizendo que estava apenas de passagem pelo Rio de Janeiro e que iria “para Israel para lutar pelo meu povo”. Isso marcou muito Caetano, que na primeira vez que veio buscou por ele em Israel e nunca o encontr. Franklin faleceu este ano e Caetano está dedicando esta visita a ele.

Ao terminar a participação de Shimon Peres, os cantores deram depoimentos na parte externa do Centro Peres para a Paz sobre a sua posição com relação a ocupação, o comprometimento com a paz e o Brasil como mediador de conflitos. Desta vez, em português!

“Tel Aviv, perto do mar, longe da cruz”

Tel Aviv mais perto do mar, perto da tranquilidade, da realidade, da tolerância, da igualdade, da liberdade – longe da “cruz”, do obscurantismo, das superstições, da intolerância, do tribalismo, da manipulação, da violência. Há esperança.

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Tel Aviv perto do mar, longe da cruz”

  • Marcelo Starec

    07/08/2015 at 21:43

    Oi Gabriel,

    Muito interessante o artigo e todas as informações que ele nos traz sobre mais uma visita a Israel de Caetano e Gil. Aproveito para lembrar aqui que eu mesmo pude presenciar em Israel ocasiões em que em rádios israelenses, até com uma certa frequência, as músicas desses dois eram tocadas – hoje isso ocorre com menos intensidade, eu sei, mas em outros momentos (a tempos atrás) era de fato comum ouvi-los, por acaso mesmo, em uma rádio qualquer e um local qualquer de Israel…Bom, quanto as opiniões deles, acho que cada um tem a sua e graças a vibrante democracia israelense todos podem opinar livremente!…Infelizmente, Caetano e Gil não podem ir nos vizinhos do Oriente Médio, pois lá com certeza teriam problemas, eventualmente sérios demais!….

    Abraço,

    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    08/08/2015 at 12:52

    Mas Gabriel, cada vez que a música (e a arte em geral) é sequestrada / usada para fins políticos, como foi o caso desta entevista, ela se aproxima da intolerância.

    • Gabriel Guzovsky

      09/08/2015 at 15:43

      Cito Bob Marley: “One good thing about music, when it hits you, you feel no pain”
      Música/Arte também é política, diplomacia cultural. Entendo o seu puritanismo, mas acredito que ambos os cantores sabiam exatamente aonde estavam indo e a mensagem pessoal deles não foi sequestrada. Abraço!

  • Sergio

    08/08/2015 at 17:57

    Sou fã de Gil e Caetano há mais de 45 anos, e não me arrependo nunca, pois são coerentes e íntegros.
    Fico contente de que Peres e muitos israelenses deem o devido valor ao ato de ambos não terem se curvado ao BDS, e ignorado as cartas de Roger Waters (como é que alguém que fez coisas tão incríveis no Pink Floyd possa pensar assim…deve ser bloqueio mental..).

  • Lau Macedo

    26/08/2015 at 01:24

    Bloqueio mental de Roger Waters é o mínimo que podemos pensar. Esse povo (que pressionou os cantores) de brasileiro não entendem mesmo nada. Caetano e Gil já não são lá essas coisas mais, mas têm o mérito de não terem cedido a pressões absurdas como essas.