Tendo a Lua

24/09/2014 | Conflito; Política

Em nenhum ponto ao longo das cinco décadas de Guerra Fria, era possível afirmar que, se houvesse um placar, ou se verdadeiramente se chegasse a uma guerra “quente”, a União Soviética estava derrotando os Estados Unidos. Nas primeiras décadas do “conflito”, enquanto a economia americana, inabalada pela Segunda Guerra Mundial, vivenciava sua época dourada de expansão e crescimento, a União Soviética demorou até 1970 para reconstruir-se e atingir o patamar em que se encontrava no início da década de 1940.

Já caminhando em direção ao seu melancólico final, o arcaico sistema fordista de produção industrial não permitia à economia soviética inovar e reinventar-se à luz de uma nova conjuntura de recessão global pós-choques do petróleo. A economia americana também encontrava-se em depressão, assistindo a debandada de dezenas de milhões de empregos em direção ao terceiro mundo, mas reposicionava-se através das indústrias de alta tecnologia e de serviços bancários e financeiros.

Do ponto de vista militar, ainda que seja razoável afirmar que ambas as superpotências tenham tido papel de similar relevância no esforço aliado para derrotar as tropas do Eixo, já ao final da guerra era visível a superioridade americana. Os Estados Unidos contavam não apenas com a vantagem econômica, mas com bombas nucleares operativas ainda antes do final do conflito, situação que só seria igualada pelos soviéticos ao final da década.

A opinião pública americana, entretanto, nem sempre era capaz de fazer tal análise. Muitas vezes, ignorava-se o fato de que o país saíra intacto da maior guerra que a Humanidade já presenciou e continuava expandindo-se econômica, tecnológica e militarmente. Mais ainda, devido à falta de transparência das informações soviéticas, pouco se sabia que a recuperação do país, de sua sociedade e de sua economia estava atrasada por conta da prioridade dada ao setor militar.

O que se percebia nos Estados Unidos era que, sob o mais novo critério de comparação, os soviéticos estavam liderando. Este critério era a novíssima fronteira do conhecimento, que abria portas simultaneamente para pesquisas científicas antes impensáveis, mas também para o desenvolvimento militar: a exploração espacial. Por mais que os soviéticos houvessem demorado mais para desenvolver uma bomba atômica que tinha capacidade de destruição inferior à americana, foram os pioneiros no lançamento bem-sucedido do primeiro satélite artificial, o Sputnik-1, em 4 de outubro de 1957, e do primeiro vôo espacial tripulado, quando Yuri Gagarin constatou que a Terra era azul, em 12 de abril de 1961.

Usemos aqui um paralelo interessante. Na Guerra do Yom Kipur, Israel conseguiu manter todas as suas posições territoriais e infligir ao menos o triplo de baixas aos seus inimigos[ref]Não há dados conclusivos quanto ao número total de baixas dos exércitos dos países árabes nesta guerra. O número pode chegar a cinco vezes a quantidade de mortos do lado israelense[/ref], mas a opinião pública convenceu-se de que o país havia sido derrotado, muito em função de ter sido aparentemente surpreendido e demorado a reagir. De maneira similar, e em muito devido ao desconhecimento sobre o estado da economia e do nível de vida do rival, as frustrações diante das tentativas mal-sucedidas do programa espacial americano transmitiam ao público a sensação de que os Estados Unidos estavam perdendo a corrida espacial e, por tabela, sendo superados pela União Soviética como um todo.

Foi com este clima que John F. Kennedy assumiu a presidência americana, em 20 janeiro de 1961. Já em seus primeiros meses, o presidente identificou a corrida espacial como uma prioridade nacional, não apenas do ponto de vista de propaganda interna e externa, mas também porque satélites significavam inteligência e vôos orbitais significavam capacidade balística. Um plano foi encomendado à agência espacial americana, a NASA, e verbas foram solicitadas ao Congresso.

Em 12 de setembro de 1962, no local que futuramente abrigaria o principal centro de treinamento, pesquisa e controle de vôos tripulados da NASA, Kennedy proferiu um de seus mais famosos discursos. Diante de 35 mil pessoas, no estádio de futebol da Universidade Rice, em Houston, no estado do Texas, o presidente apresentou à nação seu plano: chegar à Lua antes do final da década e à frente dos soviéticos!

Junto a uma análise do papel da ciência na vida humana, e da incessante aceleração que o ritmo das inovações vinha atravessando recentemente, Kennedy discorreu sobre o fato de que a propaganda e a falta de transparência soviéticas impediam a real avaliação da situação do país rival no momento, além de explicar qual seria o vulto do investimento previsto no orçamento nacional e quais seriam seus impactos positivos sobre a economia nacional.

A transcrição completa do discurso em inglês pode ser lida aqui, e o discurso em si pode ser assistido na íntegra sem legendas através deste link do YouTube, mas eu reproduzo abaixo o trecho que ficou consagrado. Aconselho lê-lo enquanto se ouve o áudio do vídeo que o segue.

Mas por que, alguns perguntam, a Lua? Por que escolher este como o nosso objetivo? E eles podem muito bem perguntar por que escalar a montanha mais alta. Por que, 35 anos atrás, voar sobre o Atlântico? Por que [a Universidade] Rice joga contra [a Universidade do] Texas?

Nós escolhemos ir à Lua. Nós escolhemos ir à Lua nesta década, entre outras coisas, não porque são fáceis, mas porque são difíceis, porque esse objetivo servirá para organizar e medir o melhor de nossas energias e habilidades, porque este desafio é um que estamos dispostos a aceitar, um que não estamos dispostos a adiar, e um que pretendemos superar, e os outros também.

John Kennedy, mulherengo, casado com uma charmosa primeira-dama e pai de adoráveis crianças, era conhecido como um presidente carismático. Este discurso, que incluiu até mesmo as analogias esportivas pelas quais tanto se criticava o presidente Lula, é considerado um de seus mais inspirados e inspiradores, por sua capacidade motivacional, pelo momento histórico e pela frase not because they are easy, but because they are hard[ref]Não porque são fáceis, mas porque são difíceis[/ref], um clássico instantâneo.

O presidente foi corajoso ao assumir que o país realmente estava atrás na corrida espacial e foi incrivelmente transparente ao listar todos os esforços, presentes e futuros, a serem feitos para reverter este cenário, além de seus custos para o bolso de cada cidadão americano. A União Soviética ainda conquistaria para sempre as glórias de ter enviado a primeira mulher ao espaço e de ter um de seus cosmonautas realizando a primeira atividade espacial extra-veicular, a famosa spacewalk, respectivamente em 1963 e 1965. Em 1963, o presidente Kennedy foi tragicamente assassinado, mas a hipnotizante meta estabelecida foi cumprida com precisão: o programa espacial americano foi o primeiro a chegar à Lua, antes do final da década de 1960.

Na curta história do Estado de Israel, não nos faltaram líderes carismáticos como John F. Kennedy. David Ben-Gurion e Menachem Begin, por exemplo, figuras que os anglófonos chamariam de larger than life [ref]maiores que a vida[/ref], nos brindaram com grandes discursos em momentos decisivos, quando o povo precisava ouvir sua liderança.

Em abril de 1949, ao final de uma Guerra de Independência que nos custaria 1% da população judaica do país, David Ben-Gurion discursou no plenário da Knesset, defendendo-se de ataques da direita e da esquerda sobre os termos do armistício com a Jordânia e sua indisposição em prolongar a guerra até que a fronteira oriental do país fosse o rio Jordão.

Quando surgiu a questão da Terra de Israel Completa sem um Estado judeu, ou um Estado judeu sem a Terra de Israel Completa, optamos por um Estado judeu sem a Terra de Israel Completa.

Não nos esqueçamos que a Cidade Velha de Jerusalém e o Muro das Lamentações estavam entre os pedaços da Terra de Israel dos quais estávamos abrindo mão em nome da simples existência de um Estado judeu que garantisse nossa soberania após dois mil anos de Diáspora.

O terceiro membro do panteão dos grandes líderes do país, Yitzhak Rabin, é famoso por discursos que encantaram especialmente a minha geração. Em 10 de dezembro de 1994, ao aceitar o Prêmio Nobel da Paz, em Oslo, na Noruega, o primeiro-ministro Rabin contou sobre a contradição entre seus sonhos de infância e a dura realidade do Oriente Médio:

Aquele não era o meu sonho. Eu queria ser engenheiro hidráulico. Tinha estudado em uma escola agrícola e acreditava que ser um engenheiro hidráulico seria importante para o árido Oriente Médio. Ainda hoje eu acredito. No entanto, fui obrigado a recorrer às armas.

Leia aqui a íntegra deste discurso (em inglês).

Diante do Congresso americano, em 26 de julho do mesmo ano, Rabin dirigiu-se ao presidente Bill Clinton e ao rei Hussein da Jordânia em meio às negociações para o acordo de paz entre os dois países e proferiu uma de suas mais famosas frases:

E eu, número de identificação militar 30743, general da reserva Yitzhak Rabin, soldado das Forças de Defesa de Israel e soldado do exército da paz; eu, que enviei regimentos para a batalha e soldados para a morte, eu lhes digo, Sua Majestade, o Rei da Jordânia, e amigos americanos:

Hoje estamos embarcando numa batalha que não tem mortos ou feridos, sem sangue ou angústia. Esta é a única batalha em que há prazer em lutar – a batalha pela paz.

Leia aqui a íntegra deste discurso (em inglês).

Ao mencionar em seus principais discursos o seu passado militar, Rabin lembrava ao público israelense quem era. O soldado que começou no Palmach e lutou na Guerra de Independência liderando a Brigada Harel, garantindo a liberação da estrada que liga Jerusalém ao resto do país. O chefe do estado-maior das Forças de Defesa de Israel na mitológica vitória na Guerra dos Seis Dias agora defendia que o melhor caminho para garantir a existência do Estado de Israel eram os acordos de paz.

O primeiro-ministro sempre mencionava os soldados que doaram suas vidas pela criação e pela defesa de Israel, além do passado judaico doloroso e a função do país como porto seguro para os judeus do mundo, lembrando aos estrangeiros o quanto o Estado era importante para seu povo. Yitzhak Rabin fazia questão de enfatizar que havia chegado ao momento em que precisávamos ter coragem de engolir a dor e assinar acordos que incluíam abrir mão de algumas conquistas pelas quais a sociedade israelense pagara um preço altíssimo, mas que era necessário fazê-lo em nome de nosso futuro.

Neste momento, em setembro de 2014, na véspera do Rosh haShaná[ref]No final da tarde de 24 de setembro de 2014, ao pôr-do-sol, celebra-se o novo ano judaico.[/ref] de 5775, estando mais do que provado que não haverá solução militar para o conflito com os palestinos, falta à população israelense ouvir palavras corajosas como as dos líderes do passado. Observando o primeiro-ministro, os demais membros de seu gabinete e mesmo os líderes da oposição, percebe-se que sequer temos alguém habilitado a ser este líder. A alguns falta coragem. A outros, carisma.

Precisamos de um líder que tenha a coragem de reconhecer que não há hegemonia militar ou poder de dissuasão capazes de garantir a existência de Israel como Estado judaico e democrático no longo prazo.

Acima de tudo, precisamos de um líder transparente, que explique ao povo que a paz não virá com uma simples canetada. Um líder que reaja ao terrorismo respirando profundamente e deixe claro à nação que o fim da ocupação da Cisjordânia, a suspensão do bloqueio a Gaza e a criação do Estado palestino são questões morais e devem ser tratados como nossas mais importantes prioridades.

Precisamos de um líder que nos explique que um acordo que permita estes avanços não garantirá nossa tranqüilidade no curto prazo, mas nos permitirá estabelecer relações com todos os demais vizinhos.

Precisamos de um líder que nos inspire a abraçar um projeto que “servirá para organizar e medir o melhor de nossas energias e habilidades” em prol de um objetivo maior, que nos permitirá gradualmente investir menos no orçamento militar e mais nos serviços à população. Um projeto que remodelará nossas visões de segurança e gestão de recursos hídricos, a serem adaptadas à existência de um segundo Estado entre o Jordão e o mar, mas abrirá portas para novas oportunidades econômicas.

Precisamos de um líder que nos conquiste e nos inspire. Um líder que explique com clareza tudo que nos custará – não apenas financeiramente – até que atinjamos este hipnótico objetivo e porquê ele vale a pena.

E então entenderemos que, antes de tomar qualquer decisão como país, precisamos refletir se esta decisão nos direciona a uma paz duradoura a médio e longo prazo.

Porque a paz é a nossa Lua.

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Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Tendo a Lua”

  • Marcelo Starec

    25/09/2014 at 20:54

    Excelente artigo, Claudio!…mas sempre deixando claro que esse líder deve ser corajoso o suficiente para dizer ao mundo que queremos paz sim, mas uma paz onde Israel possa existir com segurança, sem ameaças…onde um País não pode deixar entendido que está construindo uma bomba atômica para “varrer Israel do mapa” e onde grupos terroristas não podem jogar mísseis em Israel e afirmar, sem sequer disfarçar, que o seu objetivo é, por escrito e declarado, sem subterfúgios, realizar um segundo Holocausto sobre o povo judeu…Só não fizeram porque não tem poderio para tal. Sim, é essa paz que a maioria de nós quer, mas ela só é possível se não existir, por parte de Israel e do mundo como um todo, tolerância com a intolerância!…Espero conseguirmos chegar lá!…Shana Tova!
    Abraço,
    Marcelo.

  • Guilherme Engelender

    25/09/2014 at 22:16

    Bela música, Claudio.

    Creio, então, que Israel precisa de um PM: mulherengo, que curta (qual o esporte n.1 em eretz?) carismático e bonitão.
    Ta me parecendo um trabalho para um PM latino-americano, hein?
    Só joguei…
    Abs

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