Tensão em Chanuka

É inegável que, de todas as festas judaicas, Chanuka é a que tem as melhores músicas. Contudo, as letras destas músicas nos mostram uma grande tensão na narrativa da festa. O que estamos celebrando? A independência judaica trazida pelos macabeus, ou o milagre divino?

O que é Chanuka?

Alexandre Magno conquista meio mundo e morre prematuramente, em 323 AEC. Seu império é dividido em vários pedacinhos entre generais rivais, e Seleuco I Nicator fica com a Babilônia. Ele expande o novo Império Selêucida pelo Oriente Próximo, incluindo a Judéia (adivinha quem morá lá). Um de seus descendentes, o imperador Antíoco IV Epifânio, reverte mais de cem anos de uma política de independência cultural e religiosa, impondo com mão forte a cultura helenista. Do vilarejo de Modiin, na Judéia, começa em 167 AEC uma revolta judaica, liderada pelo clã dos Hasmoneus. Matatias e seus cinco filhos (Yochanan, Shimon, Yehuda, Elazar e Yonatan) organizam uma guerrilha judaica contra os selêucidas, e em 160 AEC reconquistam Jerusalém.

A tensão

A famosa canção “Yemei haChanuka” (os dias de Chanuka) diz o seguinte:

Iluminem, acendam
Muitas velas de Chanuka
Pelos os milagres e pelas as maravilhas
Que os macabeus fizeram acontecer

A vitória dos macabeus contaremos, cantaremos
Sobre os inimigos, derrotaram
Jerusalém é nossa capital
Ela é o coração de Israel, cantem-na canções.

Faz sentido. Chanuka é a festa de como os macabeus (como o clã Hasmoneu inteiro passou a ser chamado) ganharam a independência judaica contra os helenistas.

Vejamos outra canção, “Hanerot Halalu” (estas velas)

Essas velas que nós acendemos
Essas velas que nós acendemos
Pelos milagres e pelas maravilhas
E pelas guerras e pelas ajudas
Que Você [Deus] fez aos nossos ancestrais
Naquela época, naquela época
Naquela época, nessa parte do ano

Agora é Deus o responsável pela vitória na guerra, não os macabeus. Chanuka é vista pela lente do milagre divino. Esta dicotomia entre o heroísmo macabeu e a intervenção divina não é exclusiva destas duas canções, vai bastante além, e permeia toda a simbologia da festa. Para ficar ainda mais claro, trago outras duas canções famosíssimas.

Mais uma de glória aos macabeus, “Hava Narima” (levantemos):

Vamos, levantemos
Uma bandeira e uma tocha
Juntos aqui cantaremos
A canção de Chanuka [inauguração]

Somos macabeus
Nossa bandeira alta e firme
Lutamos contra os gregos
E a vitória é nossa

Flor em flor
Um grande buquê formaremos
Para a cabeça do vencedor
Macabeu herói

E finalmente outra sobre o milagre divino, “Kad Katan” (um pequeno jarro)

Um pequeno jarro, um pequeno jarro
Oito dias deu o seu óleo
Todo o povo se surpreendeu
“Ele se reencheu sozinho!”

Todo o povo então se reuniu
E declarou: é um milagre!
Se não houvesse restado este jarro
O nosso templo não teria sido iluminado

A alusão é ao mais famoso milagre de Chanuka. Com a reconquista de Jerusalém, os macabeus inauguraram (chanuka = inauguração) o templo que havia sido dessacrado. Contudo, não havia suficiente óleo para acender a menorá, candelabro de 7 braços, símbolo do templo. Um pequeno jarro de óleo, contendo apenas o suficiente para iluminar por um dia, acabou durando oito dias, até que mais óleo pudesse ser produzido. É por isso que a festa tem oito dias e a chanukia, candelabro especial de Chanuka, tem nove braços, oito para cada dia e mais um para acender os outros.

As quatro canções acima são muito conhecidas. Uma outra que gosto, porém menos cantada, é “Mi Yemalel” (quem dirá). Ela conta sobre a bravura dos macabeus usando termos normalmente guardados ao divino: salvador, resgata e redime, escute (shma, fazendo alusão ao Shma Israel), “Naqueles dias, nesta época do ano” (um verso da principal benção proferida em Chanuka). Assim, o autor da letra, Menashe Ravina, desafia a narrativa religiosa da festa. Confiram:

Quem dirá as bravuras de Israel
Quem as enumerará?
Em cada geração nascerá um herói
Salvador do povo

Escute!
Naqueles dias, nesta época do ano
O macabeu resgata e redime
E em nossos dias todo o povo de Israel
Se juntará, se levantará e será livre

A minha opinião

Chanuka é a minha festa judaica preferida, por alguns motivos. Primeiramente, porque é sobre um fato histórico, que mudou o curso do povo judeu. Pessach, por outro lado, é sobre a saída do povo hebreu da escravidão no Egito, coisa que jamais aconteceu. Nunca saímos do Egito porque nunca fomos escravos no Egito. Uma fabricação completa, embora seja uma linda festa e eu também goste bastante dela.

Também gosto de Chanuka porque é uma festa nacional. Hoje em dia comemoramos a Independência de Israel, e o que é Chanuka senão a mesma festa, só que 2100 anos antes?

Finalmente, o óleo é um símbolo da festa, e portanto todas as comidas são fritas. Latkes e sonhos, o coração agradece.

Essa fixação no suposto milagre do óleo por parte de várias pessoas é uma infantilização (não seriam todos os milagres?) de um fato histórico cheio de significado, e é desnecessário. A dicotomia que mostrei acima não é exclusiva de Chanuka, ela está presente em várias festas judaicas.

Shavuot é uma mistura de festa agrícola da colheita com a festa do recebimento da Torá no Monte Sinai. Sukot é a mesma coisa, outra festa agrícola com um aspecto religioso, lembrando os 40 anos que o povo hebreu esteve no deserto (não esteve).

Eu acho que o aspecto nacional de Chanuka é suficiente para mim, e me faz pensar em várias coisas interessantes, como a importância de um Estado independente para os judeus, e a influência de outras culturas na cultura judaica (os Macabeus lutaram ferrenhamente contra os helenistas, e todos seus netos e bisnetos ganharam nomes gregos).

Desejo a todos um feliz Chanuka. Comam fritura para lembrar do milagre do óleo, mas não se enganem por muito tempo, esta é uma festa nacional.


A mais famosa das canções de Chanuka, Maoz Tzur, eu não citei aqui, porque a ela dediquei um texto inteiro.

Todas as canções citadas no texto podem ser encontradas no site Shirim em Português, juntamente com sua letra em hebraico, tradução ao português e transliteração.
Yemei haChanuka,
Hanerot Halalu,
Hava Narima,
Kad Katan,
Mi Yemalel

Imagem de destaque: Flickr de Or Hiltch, segundo a seguinte licença Creative Commons.

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