A Teoria dos Jogos pode nos ajudar a entender melhor o Conflito Árabe-Israelense?

Por Amir Szuster

Desde o lançamento do filme Beautiful Mind (Em português: Uma mente Brilhante) muitos artigos saíram na mídia discutindo a possibilidade da utilização de Teoria dos Jogos como uma ferramenta para a resolução de conflitos.

Teoria dos Jogos é o estudo das interações estratégicas entre pessoas, empresas, países ou outros (generalizadas pelo nome de “jogadores”) com base no fato de que estes jogadores tem um comportamento racional, ou seja, eles atendem à definição do que chamamos em economia de homo economicus , um ser racional, movido pelo autointeresse e pela busca da maximização de sua utilidade.

O que Teoria dos Jogos tem a nos dizer sobre o Conflito Árabe-Israelense? Ou de forma ainda mais direta, Teoria dos Jogos pode nos ajudar de forma prática na resolução do Conflito Árabe-Israelense?

A resposta está longe de ser uma unanimidade: depende a quem perguntamos.

Israel Aumann
Israel Aumann

De acordo com Israel Aumann, acadêmico da Universidade Hebraica de Jerusalém laureado com o Premio Nobel de Economia em 2005, os modelos de Teoria dos Jogos são fundamentais para um melhor entendimento e devem ser diretamente utilizados como estratégia pelo governo israelense durante o processo de negociação com os seus inimigos.

O melhor exemplo disso se encontra no texto “Paradoxo do Chantagista”[ref]http://www.jornalalef.com.br/ESPECIAL_1911_Robert.htm[/ref], no qual Aumann descreve uma situação em que dois homens estão em um quarto fechado e recebem a tarefa de dividir 100 mil dólares entre eles. A única condição para que eles levem a quantia é que cheguem a um acordo de como deve ser feita a divisão.

Sem pensar muito, o primeiro percebe a oportunidade imperdível que se coloca à sua frente: sair da sala 50 mil dólares mais rico, sem fazer nenhum grande esforço. Dessa forma, ele se apressa em propor uma divisão igualitária da quantia.

O segundo, de forma um tanto quanto surpreendente, afirma que apenas sairá da sala caso receba 90% da quantia. E se mantém inflexível: ou isso ou nada. Após algumas tentativas frustradas de negociação, o primeiro interioriza a posição adotada pelo segundo, e acaba por ceder, aceitando um acordo sob condições muito desfavoráveis, em troca de um pequeno ganho imediato.

Aumann analisa as peculiaridades deste paradoxo e o compara com o Conflito Arabe-Israelense. Com base nessa comparação, ele indica estratégias que Israel deve (ou deveria, do ponto de vista normativo) se apoderar para melhor se posicionar no conflito com os seus vizinhos árabes.

Outro defensor da ideia do uso de Teoria dos Jogos é o cientista político Bruce Bueno de Mesquita, professor da Universidade de Nova Iorque. Ele afirma que seus modelos de previsão, baseados em Teoria dos Jogos, conseguem prever eventos importantes da política internacional, com uma precisão de 90%[ref]http://reinep.wordpress.com/2010/08/20/bueno-de-mesquita-has-been-predicting-the-future-with-90-accuracy/ (em ingles)[/ref]

Do outro lado da polêmica, está um dos maiores especialistas em Teoria dos Jogos no mundo atualmente, Prof. Ariel Rubinstein, professor da Universidade de Tel Aviv e de Nova Iorque. Rubinstein afirma que a Teoria dos Jogos não tem a menor capacidade de apresentar soluções práticas para a resolução de Conflitos, visto que se trata de um campo único e exclusivamente teórico. Recentemente, ele publicou um texto[ref]http://arielrubinstein.tau.ac.il/articles/FRANKFURTER_ALLGEMEINE_eng.pdf (em inglês)[/ref] onde afirmava que a Teoria dos Jogos não está baseada em um estudo de como as pessoas de fato tomam decisões e sim, numa análise normativa de como elas deveriam tomar  decisões, caso atuassem de acordo com as suposições feitas por este campo de estudo.

Ariel Rubinstein
Ariel Rubinstein

Rubinstein afirma que existem inúmeras pesquisas que contradizem os resultados previstos e os de fato encontrados por modelos de Teoria dos Jogos. Ele vai mais adiante e questiona de uma forma geral a possibilidade de previsão de comportamentos humanos em situações de interação estratégica, visto que “pessoas, diferente de pedras, flores e borboletas, escutam aqueles que fazem previsões” e assim sendo, podem ser influenciados pelos próprios modelos de previsão.

Sem poder me comparar nem de perto a sabedoria destes renomados acadêmicos, acredito pessoalmente num “approach” intermediário. As aplicações de Aumann diretamente ao Conflito me parecem um tanto quanto incompletas. Não me parece razoável desconsiderar inúmeros fatores importantes como o contexto internacional, a história do conflito e a política interna do país na hora de elaborar seu plano estratégico. Ou seja, apenas Teoria dos Jogos pura não apresentará soluções satisfatórias se não for associada a outros campos de estudo.

Tampouco Rubinstein me parece correto. A análise por meio de Teoria dos Jogos pode sim apresentar ferramentas de auxílio na tomada de decisões. Os economistas estudam modelos simplificados em diversos campos. Modelos estes que contém pressupostos bastante restritivos que visam reduzir a complexidade dos mesmos em prol de torná-los mais aplicáveis. Ate hoje, muitas decisões de política econômica são determinadas com base no estudo e desenvolvimento destes modelos.

Ou seja, assim como mapas não descrevem perfeitamente a realidade, e mesmo assim são instrumentos que nos ajudam a alcançar o objetivo de chegar a algum lugar especifico, os modelos de Teoria dos Jogos oferecem uma direção, e em conjunto com outros meios de análise, podem ser poderosas ferramentas durante o processo de tomada de decisões.

Por exemplo, um conhecido conceito chamado Final Offer Arbitration (Em português: Oferta Final de Arbitragem) nos mostra que para resolver conflitos relativos a contratos ou territórios, nem sempre a negociação direta é a melhor solução.

Imaginem uma situação em que trabalhadores e empresários estão negociando um novo contrato salarial. Suponha também que o salário atual gira em torno de 8 dólares por hora. Em uma negociação direta, ambos os lados tentarão impôr a melhor situação possível para cada um. Apenas para manter o exemplo numérico, vamos supôr que a situação ideal para os empresários seria subir o salário para apenas 8.5 dólares, enquanto o ideal para os trabalhadores seria um aumento de 25%, para 10 dólares por hora. Para terminar nossas suposições, admita que apesar de não se tratar da situação perfeita, ambos os lados estariam satisfeitos com um valor que variasse entre 9 e 9.2 dólares por hora. (Evidentemente, mais proximo de 9 seria melhor para os empresários e mais próximo de 9.2 seria melhor para os trabalhadores.)

Neste caso, uma negociação direta entre os lados correria o risco de não chegar em lugar nenhum, visto que tanto trabalhadores como empresários tentariam impôr suas situações ideiais e dificilmente chegariam aos seus valores extremos.

Por outro lado, vamos ignorar momentaneamente a negociação direta e decidir não tentar um acordo por meio de conversação. De que forma alternativa poderíamos tentar resolver o problema?

Poderíamos pedir para que os dois lados nomeassem um juiz externo. Este juiz receberia uma oferta final de cada um dos participantes e decidiria (sem alterá-la) qual das ofertas seria a escolhida. Neste caso, como vocês já podem imaginar, os incentivos de dizer a verdade e chegar próximo aos valores minimos e maximos para trabalhadores e empresários, respectivamente, são muito maiores. Por que? Porque caso contrário, o árbitro pode decidir pela oferta do outro.Os incentivos de dizer a verdade agora são muito maiores.

Utilizar este modelo e aplicá-lo diretamente ao Conflito Palestino-Israelense parece ingênuo, utópico e fora da realidade. Existem inúmeras questões complexas relativas a este conflito como o acesso a lugares sagrados, a questão dos refugiados, os limites e fronteiras dos Estados, as garantias de segurança, entre outros. A decisão sobre quais deveriam ser os árbitros também não seria nada simples.

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No entanto, será que não podemos usar o conceito de Oferta Final de Arbitragem para aspectos pontuais como a delimitação de fronteiras e intercâmbio de territórios? Em específico para este tópico, eu acredito que a divisão dos futuros dois Estados se assemelha bastante ao exemplo anteriormente citado, ou seja, existem situações ideais para palestinos e israelenses, mas existem soluções “razoáveis”, bastante similares, que não são alcançadas por meio de negociações por falta de mecanismos de incentivo de dizer os verdadeiros “pisos” e “tetos”. A Oferta Final de Arbitragem poderia ajudar a resolver este problema. Precisamos ser criativos para pensar de que forma adaptá-la e colocá-la em prática. Mas o conceito de buscar os verdadeiros incentivos de ambos os lados parece importante num tipo de negociação em que existe pouca confiança entre os participantes.  

   

Passada a explicação de um exemplo aplicado a realidade, termino como uma reflexão final sobre a utilidade prática de Teoria dos Jogos. O debate esta longe de ser encerrado. Inúmeros acadêmicos[ref]Apenas para citar alguns: Kenneth Binmore, Michael Wooldridge e Thomas Schelling.[/ref] têm se expressado a favor e contra as visões citadas no texto. Recomendo aos mais interessados que vejam estes textos[ref]http://www.ma.huji.ac.il/raumann/pdf/what%20is%20game%20theory.pdf (em inglês) ; http://discovery.ucl.ac.uk/15676/1/15676_sample_chapter.pdf (em inglês)[/ref] que discutem o papel da Teoria dos Jogos, qual o seu dever a cumprir como Ciência e quais as evidências experimentais existentes sobre a efetividade ou não de diversos modelos de Teoria dos Jogos. Resta esperar os próximos capítulos desta história. E você, o que acha?

Amir Szuster é mestre em Economia pela Universidade Hebraica de Jerusalém.
Amir Szuster é mestre em Economia pela Universidade Hebraica de Jerusalém.

Comentários    ( 13 )

13 Responses to “A Teoria dos Jogos pode nos ajudar a entender melhor o Conflito Árabe-Israelense?”

  • Sérgio Storch

    05/10/2013 at 05:45

    Excelente artigo, Amir! Sua recomendação de leitura do Bruce Bueno de Mesquita é também muito boa. Há palestras dele no TED, que vale a pena assistir.
    Sobre a discussão que rolou aí a partir do artigo sobre a racionalidade do outro lado, acho que é uma discussão que se trava, ela mesma, no plano da “racionalidade limitada”, pois se afasta do reconhecimento da humanidade que o outro tem semelhante a nós. Leva, com sarcasmo, um desprezo pelo outro, o palestino.

    Para evitar esse tipo de desvio que é tão comum entre nós, vale uma dose de antídoto, que recomendo ler neste artigo da Guila Flint. Quando formos capazes de respeitar, com humildade, o sofrimento e a humanidade do outro, talvez o conflito esteja então superado.

    Israelenses e palestinas registram a ausência de familiares mortos no conflito
    http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/10/131003_galeria_luto_gf.shtml