A terra do leite e do mel

 אֶרֶץ זָבַת חָלָב וּדְבָשׁ – שמות ג’ח

“terra que emana leite e mel” (Êxodo, 3:8)

Nesta passagem da Torah, Deus promete a Moisés que ele guiará o povo de Israel até a Terra Prometida, terra esta que “emana leite e mel”. Durante a época de Shavuot, os israelenses tem o costume de comer derivados de leite baseados nesta promessa.

Possivelmente, Deus fez referência a esses dois produtos como uma forma de dizer que a terra seria fértil, abençoada e abundante em recursos. Assim interpretaram muitos pensadores judaicos ao longo dos tempos. Mas e se tomarmos a promessa de Deus ao pé da letra? A terra de Israel de fato emana leite e mel?

Para respondermos a esta pergunta, vamos separar os dois produtos e analisar os seus desenvolvimentos ao longo do tempo e suas situações hoje em dia.

Leite

Em 2011, Israel tinha 125 mil vacas leiteiras. Um numero duas vezes maior que a quantidade existente no período da criação do Estado.

Na época de ouro dos kibutzim, o mercado israelense era protegido por diversos mecanismos: subsídios do governo, cotas para limitar a produção e preços regulados. O final dos anos 70 veio acompanhado do fim dos subsídios, fato este que gerou um aumento de produtividade.

No entanto, esta medida teve um efeito marginal no aumento da eficiência. Apenas nos anos 90, após uma abertura parcial do mercado israelense à importação, baseada em acordos firmados com a Organização Mundial de Comércio, houve uma reforma que modernizou por completo o setor e tirou do mercado os produtores menos eficientes.

Hoje, a produção interna é marcada pela altíssima tecnologia, eficiência e lucratividade. Os números nos mostram uma redução drástica no número de estábulos. Em 2010, existiam apenas 950, número muito menor que os 1445 existentes em 1999.

No entanto, essa redução de quase um terço veio acompanhada de um aumento médio de 64% de produção de leite por estábulo. Ou seja, menos unidades de produção, mais produtividade. O gráfico 1 mostra a produção total israelense e o incrível aumento desde 1949 ate 2012.

Gráfico 1

leite israel

 O gráfico 2 nos mostra uma comparação entre países com base na produtividade (litros de leite/vaca/ano). Podemos ver que Israel encontra-se muito bem posicionado no ranking de produtividade neste setor.

 

Evolucao-Producao-Leite-Brasil-Produtividade-Litros-Leite-Vaca-Ano

Mesmo com o fim dos subsídios, resistem até hoje os demais mecanismos de proteção dos produtores: cotas de produção e preços predefinidos. Estes mecanismos foram um dos focos de debate dos protestos sociais de 2012, simbolizados pelo preço do cottage (produto derivado do leite), que representava o alto custo de vida do israelense.

Em suma, esta terra pode sim ser considerada a terra do leite: hoje em dia (97% do mercado israelense é abastecido pela produção interna). Talvez um leite caro, protegido por mecanismos de mercado artificiais, mas certamente abundante, como prometido ao povo de Israel.

Mel

A palavra mel aparece 54 vezes no Tanach, sendo que em 21 delas, o objetivo é descrever a terra de Israel. Muito possivelmente, o mel da Torah se referia ao mel de tâmara, não ao mel de abelha. Mas como a promessa conta o passado, o presente e o futuro, sabemos que o mel mais disseminado do mundo hoje em dia é o mel de abelha, então vamos nos focar nele.

Apenas no final do século XIX, os judeus começaram a ocupar-se da produção de mel de abelhas na Terra de Israel. Durante a Segunda Guerra Mundial, com a importação de abelhas italianas, a produção israelense enfim tomou proporções industriais.

Hoje em dia, 500 produtores cuidam de 100 mil colmeias (ver gráfico 3), sendo que uma colmeia, em média, produz 30 kg de mel por ano. O setor atende grande parte do mercado interno, havendo épocas em que a importação se faz necessária, especialmente em Rosh Hashana.

Gráfico 3 – Número de colmeias em Israel

mel

A quantidade importada de mel está sob controle de um órgão supervisor privado: Moetzet HaDvash (Associação do mel) que também é responsável por regular e limitar a produção. Hoje em dia, dois produtores detém 85% do mercado: 60% cabe à empresa de alimentos Strauss e 25% à região conhecida como Emek Refer. Apenas 15% se encontram nas mãos de pequenos produtores.

Ou seja, pouca concorrência e preços caros. A auditoria pública, em seus relatórios anuais, acusou por duas vezes a Moetzet HaDvash de prejudicar os consumidores. Mas até agora nada foi feito. A opção de importação continua tendo que ser previamente aprovada pela associação, que não tem nenhum interesse em se desfazer deste oligopólio produtor.

Conclusão

Seja por conta da proteção institucional do governo, ou para quem acredita, seja pela necessidade de que sejam cumpridas as ordens divinas, hoje em dia esta terra emana leite e mel. O problema? O Povo de Israel paga um preço bem caro para que isto aconteça.

Há gente que diz que não há do que reclamar, afinal, Deus nunca prometeu que os preços seriam baixos.

Fontes:

1- http://www.honey.org.il/

2- Livro de Ouro da Agricultura Israelense

3- http://www.cbs.gov.il/

Comentários    ( 5 )

5 comentários para “A terra do leite e do mel”

  • Marcelo Starec

    04/06/2014 at 08:26

    Oi Amir,

    Muito interessante o seu artigo! Em meu entender, essa questão é de caráter estratégico, sendo similar a que ocorre nos países da Europa e no Japão, por exemplo. Esses produtos são básicos para alimentar a população e Israel, tal como diversos outros países, está disposto a “pagar um preço” para garantir que haja produção dentro do País em quantidade suficiente para garantir que a população tenha acesso a esses produtos, no caso de uma condição adversa, de algum tipo. É por fim essa lógica que leva a tolerância a preços mais altos, importações mais restritivas e por aí vai. O quanto isso custa para a sociedade, quem paga ou até ganha com isso e se haveria um modo melhor de ratear esse custo, é a questão central a ser debatida tanto em Israel quanto em diversos outros países.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    05/06/2014 at 03:56

    Amir, belo texto, parabéns,

    Porém a citação lá em cima (que não atrapalha nada o texto) tem problemas:

    a) Deuteronômio corresponde ao livro hebraico denominado Devarim e não Shemot.

    b) Devarim 26:9 menciona a terra que emana leite e mel, mas a frase não tem o “el” na frente.

    c) A citação correta é de Shemot guimel:chet (desculpe eu não ter proficiência para digitar em ivrit) / Êxodo 3:8.

    Mas como disse, a ligeira confusão na citação não tira o brilho do texto. Eu só me dei ao trabalho de observar porque sou um chato.

    Curiosidade: o versículo da Torá fala que Deus vai fazer o povo subir para uma terra boa e espaçosa, que emana leite e mel, para o lugar do Cananita do Hitita, do Amorita, do Perisita, do Hivita e do Jebusita. Ou seja, a terra era boa e espaçosa, mas estava cheia de gente! Qualquer semelhança com o presente não é mera coincidência (suponho).

    Outra curiosidade: um livro que eu tenho lista nada menos que onze motivos para o costume de comer derivados de leite em Shavuot (cada um mais estapafúrdio que o outro) e nenhum deles tem a ver com o eretz zavat chalav udevash, A tua explicação adicionou o décimo segundo motivo e eu ainda acha que há um décimo terceiro (idade das misvot, contidas na Torá): o Rabino que instituiu isto era dono de um grande estábulo (da mesma forma como comemos ovos em Pessach porque Rabbi Yochanan ben Zakai tinha uma grande granja…).

    Abraço, Raul

  • Amir Szuster

    07/06/2014 at 13:59

    Oi Marcelo,
    Obrigado pelos comentários!

    Você tem razão em dizer que grande parte desta proteção tem caráter estratégico. Inclusive, isto tem sido uma grande discussão no mundo, especialmente na Europa. Parece que na Europa eles estão prestes a acabar com essa restrição a importação.

    Em relação ao leite e o mel, o problema maior é que existe um sistema de cotas de produção interno Aqui mesmo em Israel, ha restrição de concorrência.
    Isso já não é apenas uma questão estratégica!

    Raul,
    Obrigado pelos comentários e pela correção da citação.
    Ja vi este livro com as explicações.Tem uma mais forcadas que a outra.
    De qualquer forma, a tradição de comer derivados de leite faz termos um dia extremamente gostoso e calórico!
    Abracos!!

  • Rebeca Daylac

    16/06/2014 at 04:06

    Amir,

    Parabéns pelo texto!!!

  • Selma C. Costa Penetra

    05/06/2016 at 18:23

    Parabéns Amir, amei o texto.
    Procurando como escreve …terra que emana leite e mel em hebraico achei seu texto, o que me enriqueceu muito, pois dou aulas de história e teologia. Se puder me envia a frase em hebraico. Um abraço.

    Selma.

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