A terrível tempestade para terminar com a civilização (sqn)

Eu nasci em Curitiba. Até o momento em que saí do Brasil, era a capital mais fria do país. Quando havia frente fria vindo, o principal assunto era: Vai nevar dessa vez! Não vai. Vai sim.

Já a última neve de verdade foi só em 1975. No entanto, assunto Frente-Fria-Vem-Vindo segue sendo um fantástico material para puxar assunto no inverno. Mas de forma fria, como a frente que vem. Nenhum tipo de entusiasmo ou vigor.

“Vai esfriar”.

“Pois é… Ouvi dizer”.

Já Israel é um país com pouca chuva. Entre primavera e outono, se vêem poucas nuvens e quase nenhuma água. Assim que, quando há previsão de chuva, fala-se do assunto no noticiário como se tivessem achado vida em Marte. Blocos inteiros dedicados ao inacreditável fenômeno de água caindo do céu. E, desde a terça-feira passada (dia 2 de janeiro), não se fala de outra coisa: previsão de chuva forte para o final de semana. Eu disse chuva? Os jornais noticiavam tempestade.

“Você está preparado para tempestade neste final de semana?”

“Quais são os teus planos para o final de semana? Você sabe que vem vindo uma gigantesca tempestade?!”

A minha impressão é que está todo mundo fazendo fila nos supermercados para se preparar para o fim do mundo, estocando toneladas de comida em conserva, água, pilhas, e kits de sobrevivência para o fim da civilização. É pelo menos o que parece se eu for me basear no tom das notícias.

A maior parte dos brasileiros morando em Israel, sem entender exatamente do que é que se fala tanto por aí, e achando que um furacão, um ciclone e um tufão vão atingir Israel, fica realmente impressionada e sem saber se deve se preparar para o apocalipse ou se escreve um testamento.

Quinta-feira (e portanto um dia antes do dia do fim-do-mundo) chegou a chover um pouco. Perguntaram-me no escritório, olhando para mim como se eu fosse um X-Man, como foi que eu consegui chegar lá, de moto. Eu sorri e apontei, pela janela, para a avenida lá fora:

“Por ali”.

A avenida, aliás, já estava seca e até ensolarada.

Curioso, isso. Porque eu já passei por pelo menos 5 guerras aqui, e a reação do povo para com uma sirene anti-bomba não podia ser mais desconcertante.

Toca a sirene e todos se tornam lordes ingleses indo calmamente para seus bunkers, ou para a edificação mais próxima possível.

“Que dia, não?”

“Mais foguetes do que o normal.”

“É. Mas já foi pior.”

“Sim. Já foi.”

Depois de alguns segundos:

“Já é seguro sair?”

“Acho que sim.”

“Bem, então tenha um bom dia!”

“Você também. Mantenha-se seguro.”

“Você também!”