Terrorismo e Cumplicidade: descontextualização do apartheid no caso palestino

O suco de laranja estava sobre a mesa. Para o café da manhã: baguete, ovos mexidos, salada de tomate e pepino, cream cheese com alho e dill com 5% de gordura, café turco. Nofar sentava à mesa meia hora antes do usual a partir daquele dia. Um dia antes levou sua antiga bicicleta para uma revisão. Se recusava a entrar novamente naquela linha.  O aleatório número 142 tinha um significado diferente para ela desde o ataque terrorista da semana anterior. Ela não viu o ônibus, nem as pessoas, nem sangue. Mas ela se viu. E bastou.

Nofar é uma civil cúmplice, conceito usado pelo acadêmico Jeff Goodwin na sua tentativa de apontar os objetivos de uma organização política, religiosa ou militar qualquer na adoção do terrorismo. O civil seria cúmplice de seu governo, especialmente em uma sociedade democrática. Um conceito interessante, polêmico eu diria, parcialmente verdadeiro e me explico mais adiante.

Goodwin busca esquematizar objetivos estratégicos de grupos terroristas e uso o autor para entender como o terrorismo é (in)útil em um contexto de reconciliação entre partes. Que objetivos grupos terroristas tem na sua adoção? E que incentivos essas organizações teriam para não adotar ou abandonar o terrorismo? 

 

(a)   Adotar o terrorismo(b)   Não adotar o terrorismo

1

Induzir civis cúmplices a parar de apoiar, ou de forma proativa exigir mudanças em políticas governamentais ou no próprio governo;Civis cúmplices podem ser potenciais membros ou aliados do movimento revolucionário;

2

Provocar uma violenta reação do governo contra os revolucionários e seus adeptos, beneficiando os revolucionários;Apelos e protestos não violentos podem influenciar civis cúmplices mais efetivamente que ameaças e violência;

3

Minar esforços de paz ou reconciliação entre governo e grupos opositores, beneficiando os revolucionários;O terrorismo pode enfurecer ou repelir os membros ou adeptos do movimento revolucionário;

4

Atrair, reter ou levantar a moral de revolucionários e seus adeptos;O terrorismo pode prejudicar ou impedir alianças com reais ou potenciais simpatizantes (terceiros);

5

Vingar-se de atos específicos em que civis cúmplices são dados como responsáveis;O terrorismo pode provocar repressão do estado pela qual os revolucionários serão culpados por seus membros;

6

Capturar ou reconquistar território do governo.O terrorismo pode provocar repressão estatal que irá enfraquecer ou até destruir o próprio movimento revolucionário.

 Retirado de Goodwin (2006), pg. 2038

Fica claro o fato de que o Hamas e outros grupos similares com menos poder não tem influência positiva em um contexto de reconciliação entre israelenses e palestinos. Isso porque o terrorismo jamais levará a opinião pública israelense ou a internacional para a causa palestina, pelo contrário. “O dilema é evidente entre grupos palestinos. O terrorismo contra judeus israelenses tem muitas vezes o apoio de muitos palestinos (e arábes), mas ao custo de alienar potenciais aliados fora do Oriente Médio” (Goodwin, 2006, pg. 2039). Por outro lado, a renúncia do terrorismo pode trazer o outro lado para a mesa de negociações.

Nofar seria, então, um caso de cumplicidade com seu governo repressor, segundo o que afirma Goodwin para teorizar os incentivos para adoção ou não do terrorismo. Seu voto e os impostos que paga seriam exemplo de coparticipação? Acredito que um entendimento tão superficial não pode ser totalmente verdadeiro. A história recente prova que atentados terroristas levaram o conflito a níveis dramáticos e não trouxeram solução prática para questões importantes. As eleições israelenses provam isso ano após ano. Nenhuma perspectiva do terrorismo me leva a pensar que ele seja favorável à paz. Pelo contrário, reforçou os pontos (a)2, 3, 4 e 5 no caso palestino. Ainda sim, de fato o terrorismo influencia o futuro no contexto de uma sociedade democrática. Pro bem ou pro mal. O terrorismo mina a cooperação entre as partes não só em níveis governamentais. Tão próximos, mas tão distantes.

Essa distância é chamada pelo autor de “distância social”, com a certeza de que ela é um fator importante para os problemas enfrentados pelos dois povos.  “Em outras palavras, quando grupos revolucionários e seus constituintes têm um histórico de colaborar politicamente com um número significativo de civis cúmplices, eles não são susceptíveis a classificar civis cúmplices como inimigos. Atacar civis indiscriminadamente prejudicaria alianças politicamente valiosas, os recursos e a legitimidade que lhes são inerentes.” (Goodwin 2006, pg. 2041). E prejudica.

O leitor pode defender o terrorismo e ser um pacifista. Pode também afirmar que a ocupação israelense é similar ao apartheid sul-africano. Sinta-se à vontade. Mas tem que provar. É normal ver esses argumentos saírem da mesma boca. Confesso que fiquei receoso em escrever as palavras em um mesmo texto, mas esse exercício comparativo pode nos ajudar nesse caso. Se você achou o link entre terrorismo, paz, o conflito palestino-israelense e o apartheid fraco, provavelmente o fez porque ele de fato é.

E se você o faz, hipoteticamente poderia tentar encontrar a resposta para o Oriente Médio na solução sul-africana. Raciais, religiosas ou étnicas, as respostas e similaridades devem ser encontradas nas lideranças, nos grupos que encabeçam os processos revolucionários citados. O Congresso Nacional Africano (CNA) foi o representante central dos negros na luta contra a discriminação, pela igualdade. “A resposta está, creio eu, na longa história do CNA de colaborar com brancos sul-africanos, especialmente de origem britânica – bem como com índios e mestiços sul-africanos – na luta anti-apartheid.” (Goodwin 2006, pg. 2041)

“Dadas as condições, nos anos 1980, é notável que tão poucos ataques armados tiveram lugar quando havia um alto índice de vítimas civis. A MK (Umkhonto we Sizwe, braço armado da CNA) certamente tinha a capacidade de matar milhares de civis. Isso teria sido fácil de fazer, mas nunca tomamos esse caminho, mesmo sob provocação extrema. Quando comparadas com as ações adotadas por outros movimentos de libertação nacional sobre este e outros continentes, o grau de restrição exercida pelo CNA e pela MK é extraordinário. (CNA 1997)”

A divergência está no nível ideológico. No CNA a cooperação baseada numa ideologia de internacionalismo não-racial promoveu os objetivos da organização até a reconciliação, enquanto o braço armado foi um apêndice restrito. Já o Hamas, bom exemplo de alguém que poderia mudar o status quo, é mais conhecido pelos seus ataques terroristas, que promovem os principais objetivos da organização. Naturalmente, uma comparação entre as plataformas ideológicas da CNA sul-africana e do Hamas explicaria bem esse ponto. Explica também a situação política e social de Gaza ou a desunião política dentro do povo palestino: corrupção, religião radical e terror são a marca das autoridades palestinas. Lembre-se de que o Fatah abandonou as armas e já usou isso como poder de barganha. Ainda assim, não foi capaz de chegar a um acordo com Israel.

Se você acredita que existe uma reprodução africana na Cisjordânia e em Gaza, peço que faça essas perguntas: (i) você acredita que os dois conflitos tem estrutura similar?; (ii) como você acredita que o Estado de Israel deveria lidar com as dificuldades encontradas nos ‘parceiros’ palestinos? ; (iii) você acredita que a liderança palestina tem a unidade, liderança, vontade e cooperatividade (que o CNA teve) para construir um acordo com Israel? A tabela acima pode te ajudar. Fica a dica.

 

 

GOODWIN, Jeff. A Theory of Categorical Terrorism. Social Forces, North Carolina, v. 84, n. 4, p.2027-2046, jun. 2006.

GOODWIN, Jeff. “The Struggle Made Me A Nonracialist”: Why There Was So Little Terrorism In The Aantiapartheid Struggle. Mobilization: An International Quarterly Review, v. 12, n. 2, p.193-203, jun. 2007.

Crenshaw, Martha. 1981. “The Causes of Terrorism.” Comparative Politics 13:379-99.

Turk, Austin T 1982. “Social Dynamics of Terrorism. ” Annals of the American Academy of Political and Social Science 436(1): 119-28.

Krueger, Alan B., and Jitka Maleckova. 2003. “Education, Poverty and Terrorism: Is There a Causal Connection?” Jo———. 1997. “Further Submissions and Responses by the African National Congress to Questions

African National Congress. 1997. “Further Submissions and Responses by the African National Congress to Questions Raised by the Commission for Truth and Reconciliation, 12 May 1997.” Retrieved March 20, 2013 (http://www.anc.org.za/show.php?id=2645).urnal of Economic Perspectives 17:119-44.

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Terrorismo e Cumplicidade: descontextualização do apartheid no caso palestino”

  • Mario S Nusbaum

    24/02/2014 at 16:36

    ” O terrorismo contra judeus israelenses tem muitas vezes o apoio de muitos palestinos (e arábes), mas ao custo de alienar potenciais aliados fora do Oriente Médio”
    Que potenciais aliados foram alienados até hoje? Quem a Europa quer punir, Israel ou os terroristas?

    E outra coisa, o conceito de civil cúmplice não se aplica só a governos. Recomendo enfaticamente a leitura desse texto: http://www.gatestoneinstitute.org/4186/islamophobia-uk

  • Marcelo Starec

    24/02/2014 at 21:25

    Ola David,

    Gostei do artigo. Ele é bom para fins de uma profunda reflexão do tema. De fato, trata-se de uma grande farsa a ideia de comparar a situação israel / palestinos, com a África do Sul, nos tempos do apartheid, muito embora haja um monte de gente que, por meio de sofismas de quinta categoria, até tentam construir essa relação.

    Senão vejamos. Só para começar: 1) Os judeus sempre estiveram naquela terra, muito antes, inclusive, de Maomé existir. Já tiveram Estado lá e o vinculo sempre existiu! 2) Os novos migrantes compraram as terras que utilizaram; 3) Israel foi um Estado devidamente constituído de acordo com a ONU e fez a sua independência exatamente nos locais e termos concedidos por essa instituição; 4) É fato que os judeus não foram para lá ou se autodeterminaram visando obter alguma “vantagem” (petróleo, exploração de mão de obra escrava ou análoga etc…), mas re-construir o seu Estado, para fins de auto-determinação como povo; 5) O mais importante: mesmo após a guerra, criada pelos países árabes que não aceitaram a resolução da ONU, a política oficial de Israel foi dar cidadania e direitos a todos, independente da religião. Assim, independente de ter havido refugiados judeus e árabes, numa guerra onde o motivo foi a recusa do direito de Israel de existir, todos os árabes que lá permaneceram receberam cidadania e direitos iguais – portanto, importa realmente deixar muito claro, a situação é totalmente diferente do caso sul africano. Basta comparar a história de construção da África do Sul com a de Israel, para se rechaçar prontamente qualquer possibilidade de uma comparação minimamente razoável!

    Abraço,
    Marcelo.

  • Magno Paganelli

    05/03/2014 at 22:43

    David, obrigado pelo artigo. De fato, a opção pelo terrorismo é bastante delicada, para dizer o mínimo. No entanto, o texto do Goodwin é de 2006, quando o Hamas foi eleito. Salvo engano, o último grande ataque feito pelo grupo data de 2005. Você sabe dizer se houve mais algum ataque após essa data, especialmente depois de terem assumido o governo?

  • Rafael Stern

    23/04/2014 at 19:24

    E os grupos terroristas judaicos (como o Irgun, o Lehi)? Não exerceram uma pressão importante para os britânicos se retirarem de Israel?

Você é humano? *