Terrorismo: fruto de pobreza e ignorância?

04/02/2013 | Conflito

por Amir Szuster

Os atentados terroristas de 11/09 deram início a uma ampla discussão sobre o terrorismo nos Estados Unidos e ao redor do mundo. Políticos, jornalistas e o público em geral começaram um debate para tentar entender quais eram as motivações dos terroristas e o que os levou a cometer atos extremos contra populações civis.

Em discursos proferidos logo após os atentados nas Torres Gêmeas, parecia haver uma unanimidade em relação à questão: pobreza e ignorância são as maiores responsáveis pelo crescimento do número de atentados terroristas. Esta crença parecia (e para muitos ainda parece!) inabalável e foi amplamente divulgada na mídia internacional por meio de discursos de políticos e intelectuais. Em discurso proferido após o 11/09, o ex-presidente americano George W.Bush [1] afirmou:

”Nós [americanos] lutamos contra a pobreza, porque a esperança é a resposta ao terror”.

Atentados de 11 de Setembro de 2001
Aviões atingem o World Trade Center, em Nova Iorque.

Em um discurso semelhante, o ex-secretário de Estado Americano, Colin L. Powell [2] declara: “a raiz do terrorismo esta em situações onde há pobreza, onde há ignorância, onde as pessoas não vêem esperança em suas vidas”.

Para não nos limitarmos a exemplos norte-americanos, poderíamos citar outros discursos de pessoas internacionalmente conhecidas, como o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair [3], o prêmio Nobel da Paz, Elie Wiesel [4], o presidente israelense Shimon Peres [5], além de muitos outros políticos e acadêmicos influentes.

Com uma gama tão grande de adeptos defendendo a relação entre terrorismo e pobreza, seria ousado dizer que eles estão simplesmente enganados. No entanto, esta é a realidade. Não há nenhum indício claro ou empírico de relação entre pobreza e terrorismo. Vamos começar o caminho de desmitificação do senso comum.

Começo por um exemplo. Os atentados de 11/09 foram cometidos por pessoas razoavelmente preparadas, bem educadas e com formação acadêmica. Como anedota principal, Osama Bin Laden [ex- líder da Al-Qaeda, organização responsável pelos atentados de 11/09] é formado em Engenharia Civil pela Universidade de King Abdulaziz(KAU), que se encontra entre as 400 melhores do mundo [6] – bastante similar à posição das principais universidades brasileiras.

Osama bin Laden

O leitor poderá me contestar dizendo que estamos tratando de um exemplo isolado. Uma exceção à regra. Pois bem, estou de acordo. E ainda faço um alerta. Quando se escreve sobre terrorismo, as pessoas gostam de trazer exemplos específicos e generalizá-los como se estivessem falando uma verdade universal. É preciso estar atento para não cair na falácia da retórica infundada (ver artigo do Marcelo Treisman).

A literatura recente da área de terrorismo traz contribuições interessantes. A utilizaçao de métodos estatísticos avançados permitem a avaliação de centenas de atos terroristas ao longo dos anos. Com a inclusão de determinantes do perfil dos terroristas que cometeram estes atentados, os pesquisadores foram unânimes: pobreza e ignorância não estão associadas com a execução de atos terroristas. E ainda mais grave – os terroristas parecem estar nas camadas mais altas da sociedade, tanto no que diz respeito à formação acadêmica, quanto em relação a classe social.

Berrebi (2003) pesquisou dados relativos a dois movimentos terroristas palestinos, Hamas e a Jihad Islâmica, entre o final dos anos 80 e o início dos anos 2000 . Seu trabalho revelou que há evidência de relação positiva entre níveis de renda e de educação com participação em ataques suicidas, ou seja, quanto melhor a formação acadêmica e maior a renda, maior será a probabilidade de um indivíduo tornar-se um terrorista suicida.

Em estudo sobre o terrorismo nos Estados Unidos, Krueger (2008, [8]) nos apresenta resultados semelhantes e revela um fato ainda mais assustador: quanto mais “capital humano” tiver o terrorista, ou seja, quanto mais qualificado academicamente ele for, mais “eficiente” será o resultado do ataque. Nesse caso, “eficiência” está sendo considerada através de uma perspectiva da organização terrorista, ou seja, um maior número de vitimas.

Assim como estes dois exemplos, a literatura nos oferece outras pesquisas sérias,com amplas bases de dados e diferentes métodos. Todos os resultados caminham na mesma direção: os terroristas suicidas não atuam por serem miseráveis ou por serem parte da parcela mais prejudicada da sociedade. Eles parecem ter outra motivação.

Não há nenhuma intenção de diminuir a luta contra a pobreza e menosprezar a sua importância para o desenvolvimento das sociedades em geral. A luta contra a pobreza é determinante para que sejam alcançados muitos objetivos relevantes e centrais no desenvolvimento destas sociedades. No entanto, infelizmente, o fim do terrorismo não é um deles. Fica a pergunta no ar. Qual seria então a verdadeira motivação por trás dos atentados terroristas?

Bom, este já é tema para outro texto, mas fica um insight. Os atentados terroristas são motivados por questões ideológicas que surgem em um ambiente de falta de liberdades civis, políticas antidemocráticas e o desrespeito ao cumprimento da lei. O resto é apenas retórica.

Fontes:

[1] Conferência das Nações Unidas sobre a Pobreza em Monterrey,Mexico.22/03/2002

[2] Discurso do Departamento de Estado Americano,2002

[3] “O dente de dragão [do terrorismo] esta plantado no fértil solo da pobreza”, Tony Blair em Novembro de 2001.

[4] Em seu discurso, Wiesel afirma que: “ A educação é o caminho para eliminar o terrorismo”.Encontro de laureados com o premio Nobel da Paz em Oslo,Noruega.2001

[5] Ver seu livro “O Novo Oriente Médio” (1990), em que ele cita que a pobreza é a causa do fundamentalismo.

[6] KAU se encontra em 370 de acordo com o ranking “QS World University Ranking 2011/12”. Como base de comparação, a UFRJ esta em 333 neste ranking.

[7] Ver tambem Krueger e Maleckova(2003) para uma pesquisa sobre terrorismo internacional, BenMelech e Berrebi(2007) em uma outra perspectiva do conflito Palestino-Israelense, Abadie(2004) para uma análise de nível macroeconômica.

 

Amir Szuster
Amir Szuster é mestrando em Economia pela Universidade Hebraica de Jerusalém e Coordenador do Workshop de Conflito Árabe-Israeli do Machon LeMadrichim, em Jerusalém.

Comentários    ( 14 )

14 comentários para “Terrorismo: fruto de pobreza e ignorância?”

  • Marcelo Treistman

    05/02/2013 at 13:52

    Amir,

    Belo Artigo.

    O terrorismo é mesmo um fenômeno ideológico, totálitario, alimentado economicamente por ricas elites ao redor do mundo. Estes grupos tem em comum o seu fanatismo anti-ocidental e a negação de nossas liberdades individuais conquistadas ao longo dos séculos.

    É necessário que fique claro que as bombas fundamentalistas são projetadas:

    a) Para destruir a liberdade, não distribuí-la.
    b) Para levar o mundo de volta a idade das trevas, não para torná-lo mais democrático.

    Não se trata portanto de uma revolta, de uma rebelião… É sem dúvida uma cruzada totalitária como foram o nazismo e o fascismo.

    E como você deixa explícito no artigo, tudo isto protegido pela enorme riqueza das elites e dos Estados que financiam o terror.

    Mais uma vez, Parabéns!

  • Walter

    05/02/2013 at 15:01

    Muito bom insight. Uma importante peça a se conectar ao mapa das forças antidemocráticas, do mundo.

  • Ricardo Gorodovits

    05/02/2013 at 17:32

    Amir,

    Obrigado pelo artigo, que nos obriga à reflexão. Acredito entretanto que há dois componentes adicionais importantes, que trazem à tona as questões da probreza e da ignorância como elementos importantes a serem combatidos para a eliminação (ou redução) do terrorismo.

    Apesar dos perpetradores de atentados serem parte de uma elite, como regra geral, habitualmente eles se colocam na vanguarda de uma população carente, cujos interesses acreditam defender. O conceito de vanguarda revolucionária que se definiu e difundiu a partir da elite comunista russa no início do século XIX é a base para a formação e atuação dos grupos terroristas, que consideram, estes, como aqueles, que as massas os seguirão se mostrarem o caminho.

    No que tange à ignorância, temos que perceber que nosso entendimento do termo é estritamente ocidental e moderno, ou seja, aquele cujo conhecimento não abrange a cultura moderna e ocidental, ainda que tenha anos e anos de estudo, será, na maioria das vezes, considerado ignorante por nós. As exceções apenas confirmam a regra, como nosso espanto frente à sabedoria demonstrada por determinados líderes religiosos que, mesmo à parte do mundo moderno, são capazes de compreende-lo e definir souções e atitudes que podem ser aplicadas no mesmo. Quando mencionamos que terroristas não são ignorantes, afirmamos portanto seu conhecimento da nossa cultura, representado pelo estudo universitário ou mesmo pela profissão técnica tipicamente ocidental. Esquecemos porem a profundidade e importância de todo o background destas pessoas, quer seja este fruto de sua vivência real (educação familiar, ambiente na infância, etc.) quer seja resultado de uma composição mental que o levam a uma identificação com determinado padrão em que a ignorância (novamente da cultura sob a ótica ocidental) é valorizada e nao depreciada. Ou seja, ainda que o terrorista não possa ser considerado ignorante, a ignorância permeia sua linha de ação, por fazer parte de sua motivação e objetivos.

    Por isso, ainda que não sejam causas únicas, acredito que o combate à pobreza e à ignorância seguem sendo peças fundamentais do combate ao terror, combate que, entretanto, não pode se ater somente a estes dois aspectos.

    Abraço, Ricardo

  • Raul Gottlieb

    05/02/2013 at 17:58

    Maravilhoso o teu texto, Amir.

    Que a pobreza gera violência é uma das muitas verdades influentes aceitas como verdades absolutas por largas parcelas da população, sem o menor espírito crítico ou analítico, inclusive aqui no Rio de Janeiro, onde a pobreza, a despeito da propaganda governamental, é muito grande (veja que a bolsa família aumentou em 15% no ano passado, o que significa que a população pobre no Brasil cresceu nesta mesma proporção) e a violência é parte da paisagem urbana.

    E quando esta violência é bem estruturada, como no caso de um ataque terrorista, é óbvio que é preciso contar com recursos muito superiores aos que dispõem os pobres do mundo.

    Ao final você observa que “Os atentados terroristas são motivados por questões ideológicas que surgem em um ambiente de falta de liberdades civis, políticas antidemocráticas e o desrespeito ao cumprimento da lei.”. Eu concordo com isto, mas creio que falta dizer que o terrorismo é principalmente a arma dos que querem criar ou manter um ambiente totalitário.

    Ou seja, o terror não nasce por causa da falta de democracia. Ele é fomentado por quem não a aceita.

    A melhor definição de terrorismo que eu conheço é: “o uso da violência indiscriminada para atingir objetivos políticos”. Não tem nada a ver com a pobreza e tudo a ver com a opção de ferramenta politica por parte de pessoas que desvalorizam a vida humana.

    Parabéns, Raul

  • Gabriel

    05/02/2013 at 21:26

    Bela análise Amir, realmente o terror não é resultado da pobreza, mas sim parte do motivo para a pobreza aqui na região. Os movimentos terroristas controlam sua população com a pobreza. Dinheiro revertido em foguetes e mísseis, em uma região que tem sérios problemas como Gaza, só pode ser corrupção mesmo.

  • Raul Gottlieb

    06/02/2013 at 11:27

    Ricardo,

    Você segrega os perpetradores do terror dos organizadores do terror.

    Creio que este é um importante ponto nesta análise e, portanto, seria muito bom saber do Amir se a estatística que ele cita faz esta distinção e, se faz, quais as suas conclusões.

    Na minha avaliação empírica os organizadores do terror são em sua grande maioria das camadas mais abastadas e educadas (do ponto de vista ocidental) enquanto que os perpetradores são em sua maioria das camadas abastadas e educadas. Ou seja, os primeiros são a grande maioria, os segundos são “apenas” a maioria.

    Os menos favorecidos economicamente a os com menor educação (ocidental) não se envolvem com o terror. Eles estão ocupados em ganhar a vida. A Torá fala isto ao dizer que os israelitas escravos não ouviram a Moisés por conta “do trabalho pesado que tinham que performar” (tradução livre).

    Joãozinho Trinta falou algo semelhante num contexto muito diferente: “quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta de luxo e conforto”. Dando todos os descontos necessários é o mesmo conceito.

    Com a palavra o Amir: de qual camada social vem os perpetradores do terror?

    Abraço, Raul

    • Ricardo Gorodovits

      06/02/2013 at 16:23

      O que abordei não é isso, apenas, mas o fato de que o terror é utlilzado em nome de uma população pobre e inculta, que, até onde consigo perceber, oferece aos atos de terror apoio majoritário. Esta parcela maior da população, pobre e ignorante, efetivamente preocupada em ganhar a vida, não está alheia às vicissitudes que enfrentam e creditam méritos ao terror que, de certa forma, reconhecem representá-los. Perpetradores e organizadores são provavelmente do mesmo extrato social. Meu ponto de vista é de que, não houvesse pobreza e ignorância disseminada na população islâmica, o terror teria um ponto a menos de apoio e por isso o combate para reduzi-las fz parte da luta mais ampla contra o terror. Evidente que não é suficiente, ou não haveria terror basco ou irlandês, cujas populações não se enquadram nestes quesitos.

      Abraço, RIcardo

  • João Koatz Miragaya

    06/02/2013 at 18:54

    A análise feita pelo Amir é pioneira para o mundo que fala português. Eu não qsou daqueles que acredita no determinismo econômico, mas tampouco o desprezo. Acredito, assim como o Raul, que o terrorismo é uma manifestação política e que nunca (nunca mesmo) é usado por organizações democráticas ou que preguem a democracia, sejam elas capitalistas, socialistas ou o que forem.

    O que eu me recuso a fazer é atribuí-lo a outro determinismo, o cultural. Nada, na minha concepção, é determinado por só um fator. Os muçulmanos radicais não têm a patente do terrorismo, e sequer o inventaram. Houve (e há, infelizmente) judeus terroristas, como há cristãos, induístas e ateus. O terrorismo é uma péssima invenção ocidental, adotada pelos radicais islâmicos com mais intensidade do que jamais fora na Europa ou na América.

    O interessante agora é uma análise macro sobre como surgem os grupos terroristas: em que situações eles crescem mais; sob quais sistemas; quando ganham apoio da população; contra quem eles atuam mais; etc.

  • Amir

    06/02/2013 at 19:59

    Marcelo,
    Obrigado pelo elogio. Estou de acordo com o seu comentario. Acredito que o texto nos mostra que combater o terrorismo talvez seja mais complexo do que esperamos.Significa lidar com intolerancia, com falta de democracia e uso da forca para manter a censura. O terrorismo, diferente daquilo que ja foi estudado na literatura de combate ao crime comum,nao pode ser resolvido apenas com um combate a pobreza e a falta de educacao.

    Walter,
    Obrigado pelo comentario. Sem duvida,o texto apresenta uma visao distinta. Nao acredito que os metodos econometricos avancados usados nos artigos que eu citei, respondam todas as questoes no que diz respeito a terrorismo, mas ele realmente oferece un insight interessante e pode ajudar bastante nas formas de se pensar na estrategia de combate ao terror.

    Ricardo,
    Muito interessante o seu comentario.Definitivamente, a questao exposta esta relacionada com o conteudo do estudo, nao apenas com a quantidade de anos de estudo.

    Sua analise final me parece muito lucida: a luta contra a pobreza e a ignorancia, dependendo de como forem executadas, podem atingir alguns objetivos que indiretamente,ajudarao na aparicao de regimes mais demcraticos e insituicoes mais solidas.Mas vale o principal alerta do texto: apenas politicas de combate a pobreza e a ignorancia nao serao suficientes, se nao forem acompanhadas de medidas politicas.

    Faco uma ressalva sobre a questao de terrorismo como um ato de justica frente aos oprimidos do seu proprio povo..Este seria o tema de outro texto,mas as evidencias da literatura tambem tendem a refutar essa ideia

    Raul,Ricardo e Gabriel
    Antes de tudo,obrigado pelos elogios e pelos comentarios. Sobre os estudos,a pergunta é bastante relevante. Entre os estudos que eu citei, tem aqueles que consideram todos os membros de grupos terroristas e outros que sao relativos apenas aos perpetradores. Os resultados sao os mesmos no sentido qualitativo,ou seja, ambos apresentam pessoas acima da media no que diz respeito a renda e a nivel de educacao. No entanto, em relacao ao perpetradores, os resultados sao menos “fortes”. Ou seja, eles tambem estao acima da media,mas menos do que os organizadores e demais membros.

    Ricardo, seu ponto sobre a ajuda da populacao como forma de apoio aos atos merece uma analise minunciosa e ja foi pesquisado.Precisa de um novo texto para discutir esse assunto. Fiz analises microeconomicas, existem avaliacoes macroeconomicas do tipo: crises economicas ou alto indicide de desemprego aumentam o numero de atentados.Em resumo,por mais que mereca mais esclarecimentos,a resposta tambem parece ser negativa.

    Joao,
    Concordo que a analise economica/econometrica nao é suficiente para responder todas as perguntas.Ela ajuda a dar uma nova perspectiva a questao. Mas sem duvida,nao deve ser encarada como resposta definitiva, sem levar em consideracao outros aspectos essenciais para a questao.

  • Raul Gottlieb

    07/02/2013 at 09:23

    Ricardo,

    Tendo a concordar com o teu ultimo comentário. Quanto menores a pobreza e a ignorância menores seriam as bases de apoio dos terroristas.

    Mas seria importante estudar se o apoio aos terroristas é fruto de uma opção livre e consciente das pessoas ou se este apoio é fruto de opressão e de terror dirigido contra o seu próprio grupo.

    Não tenho certeza desta resposta, mas acredito que um estudo a este respeito traria conclusões perturbadoras: suponho que os que festejam nas ruas cada ataque contra os israelenses não são exatamente pessoas livres. No íntimo elas gostariam de se ver livres do terrorismo que as oprime.

    Suspeito que o terror aterroriza a sua base de apoio da mesma forma como tenta aterrorizar os seus alvos. Uma vez escolhido o método (e internalizado como ético e justificado) ele é usado indiscriminadamente.

    Nesta semana tivemos um exemplo disso no Egito. Um senhor brutalmente espancado pela polícia declarou no hospital que foram os manifestantes anti governo que o espancaram e que os policiais (tao bonzinhos!) o salvaram. Depois disso subiu um vídeo no youtube mostrando claramente os policiais espancando o senhor. Ou seja, além de apanhar fisicamente ele apanhou moralmente – foi coagido a louvar seus algozes.

    Em regimes de poucas (sendo generoso) liberdades estas coisas são muito frequentes.

    Concluindo, talvez as pessoas que formam as bases de apoio dos terroristas não os apoiam porque são pobres e ignorantes, mas porque são coagidas a prestar este apoio.

    Se isto for verdade, diminuir a pobreza continua sendo um objetivo muito nobre, mas sem alcance político.

    Talvez a violência seja a unica resposta contra o terror.

    Abraço,
    Raul

  • Raul Gottlieb

    07/02/2013 at 09:35

    João,

    O terror não é, definitivamente, uma invenção ocidental. O terror é uma invenção humana e é usada na humanidade há dezenas de milhares de anos – provavelmente desde sempre.

    A definição de terror na qual se baseia a minha afirmação é: “ataque indiscriminado contra a população civil com o objetivo de avançar uma causa política”. Não sei dizer se esta definição é perfeita, mas é a melhor que eu li até hoje.

    Eu não conheço a história do oriente, mas os impérios totalitários e eivados de miseráveis e despossuídos que foram construídos por lá me levam a crer que eles tiveram doses maciças de terror. A revolução comunista de Mao se encaixa perfeitamente na definição acima.

    Talvez a definição que eu uso não seja a melhor. Eu gostaria, então, de conhecer outras.

    Usando os parâmetros do Amos Oz de reproduzir em escala da vida cotidiana os grandes eventos políticos que nos cercam, eu diria que uma mãe que fala ao filho “come tudo senão te mato” usa o núcleo básico desta linha de conduta.

    O que me faz crer que o terror esteja no íntimo de cada um de nós. É o nosso estofo ético que vai determinar se vamos usá-lo. Ou melhor, em qual intensidade vamos usá-lo.

    Não foram os europeus que inventaram o terror!

    Abraço,
    Raul

  • João Koatz Miragaya

    07/02/2013 at 14:34

    Eu apenas acredito que o terrorismo atual, como ação política, não pode ser entendido como tendo as mesmas razões e significados que tinha na idade antiga. Isto é anacrônico e o contexto é tudo para a historiografia.

    Não se pode comparar ações políticas de 2 mil anos atrás em um momento onde a concepção de política era totalmente distinta da atual. Certamente o terrorismo foi inventado pelo homem, e já foi ressignificado diversas vezes. A sua versão contemporânea, no entanto, que inclusive passou a ser chamada de “terrorismo”, é conceituada e usada em comparação dentro do atual contexto.

    Um abraço

  • Mario Silvio

    07/02/2013 at 20:55

    Excelente texto Amir! Como escreveu o Raul,

    Que a pobreza gera violência é uma das muitas verdades influentes aceitas como verdades absolutas por largas parcelas da população, sem o menor espírito crítico ou analítico

    e é sempre útil contestá-la. Também concordo com ele em que talvez a violência seja a unica resposta contra o terror, sendo que o talvez está aí apenas por via das dúvidas.

  • Mario Silvio

    07/02/2013 at 20:57

    “Os muçulmanos radicais não têm a patente do terrorismo, e sequer o inventaram. Houve (e há, infelizmente) judeus terroristas, como há cristãos, induístas e ateus. O terrorismo é uma péssima invenção ocidental, adotada pelos radicais islâmicos com mais intensidade do que jamais fora na Europa ou na América.”

    E o importante é a intensidade, como em tudo. Hoje eles são responsáveis por praticamente todos os atos terroristas.

Você é humano? *