Teva: o colapso da maior empresa israelense

Em apenas dois anos, a farmacêutica Teva, maior empresa de Israel, perdeu um valor de mercado de 200 bilhões de shekels (aproximadamente 60 bilhões de dólares!).

Na semana passada, o novo diretor executivo da empresa, o dinamarquês Kåre Schultz anunciou um plano de demissão de 14.000 empregados nos próximos dois anos. Destes, 3.300 serão demitidos em Israel – o equivalente à metade dos trabalhadores da empresa no país.

O que levou a maior empresa de genéricos do mundo a praticamente pulverizar o seu valor de mercado em um período tão curto de tempo?

A resposta é simples – uma gestão desastrosa.

Um diretor executivo que apostou suas fichas na aquisição de empresas supervalorizadas e com pouco retorno, aliado a um conselho administrativo que recebia valores estratosféricos para não fazer exatamente o que mais se esperava dele: guiar a empresa e questionar as decisões da diretoria executiva. E para piorar, o fim da patente do Copaxone, principal produto da empresa israelense, que não conseguiu achar um substituto de igual importância em seu portfólio de produtos farmacêuticos.   

Um conselho administrativo figurativo: a prova de que a unanimidade é burra

No início de 2015, o conselho administrativo da Teva, na primeira de três infelizes decisões por unanimidade, decidiu oferecer 40 bilhões de dólares pela aquisição da concorrente holandesa Mylan. De uma forma um tanto quanto irônica (e trágica!), a também farmacêutica Mylan se utilizou de uma estratégia conhecida como ‘pílula envenenada’ para evitar uma ‘aquisição hostil’ por parte da Teva. [1].

‘Pílula envenenada’ e aquisição hostil’

De forma bem resumida, a ‘pílula envenenada’ é uma estratégia utilizada por uma empresa que visa tornar suas próprias ações menos atrativas, combatendo desta forma uma tentativa de ‘aquisição hostil’ por outra empresa. Por sua vez, uma tentativa de ‘aquisição hostil’ é quando uma empresa (a compradora) aborda os acionistas e busca obter diretamente por eles o controle de uma outra empresa – o processo ‘correto’ deveria ser por meio de uma proposta ao seu conselho administrativo. Para mais detalhes do que significa o conceito de ‘pílula envenenada’ , clique aqui. E para mais sobre ‘aquisição hostil’, clique aqui

A empresa Mylan reagiu, obrigando a Teva a recuar, mesmo após ter comprado cerca de 5% por um valor muito mais alto que o valor de mercado.

Em paralelo ao fracasso com a Mylan – e possivelmente por causa dele – a Teva anunciou de forma surpreendente a aquisição da Actavis, unidade genérica da empresa Allergan, por nada menos que 40,5 bilhões de dólares. Novamente, a decisão foi corroborada pelo conselho administrativo de forma unânime.

Vale destacar que, desde 2010, os preços dos remédios genéricos, carro-chefe da Teva, assim como de sua ex-concorrente Actavis, tiveram uma grande desvalorização mundial como pode ser visto no gráfico abaixo:

Redução do preço dos medicamentos genéricos

 

O mesmo conselho, dois meses após a aquisição da Actavis, aprovou novamente por unanimidade a compra da empresa mexicana Rimsa por mais 2,3 bilhões de dólares.

Em processo na justiça, hoje, a própria Teva acusa a Rimsa de ter vendido produtos defeituosos, ilegais, e de ter mentido sobre isso durante o processo de aquisição – uma tentativa de voltar atrás em uma compra acima do preço de mercado, que se provou fracassada sob diversos aspectos. Apenas para nota final desta parte, nenhum memorando ou estatuto da Teva obriga seus diretores a tomarem decisões de forma unânime.

E para que não fique a dúvida sobre suas motivações, nenhum dos treze membros do conselho administrativo recebeu menos de 200 mil dólares por ano durante seu período de cadência. Entre eles, os três principais ganhavam juntos cerca de 15 milhões de dólares por ano.

Empresa de um remédio só

O remédio para o tratamento de esclerose múltipla, Copaxone, correspondia a cerca de 50% dos lucros da empresa em 2015.[2]

Apesar da tentativa de extensão dos direitos, a patente do remédio expirou em 2015 nos Estados Unidos, colocando um ponto final no monopólio de mercado do Copaxone. A Teva nunca conseguiu um substituto a altura para o Copaxone – e como vimos, tomou inúmeras decisões equivocadas na tentativa de buscar alternativas.

Resta saber quais serão os próximos capítulos desta história: se haverá intervenção governamental, se a própria empresa conseguirá se recuperar lentamente da dura queda, ou se é o início do fim de uma empresa gigante.  De certo por agora, é que quem está pagando a conta são os trabalhadores da empresa e seus acionistas.

A situação se complica ao pensarmos na influência da Teva na economia israelense. A maioria dos fundos de pensão do país detém ações da empresa, e o governo, que ao longo da história contribuiu generosamente para o seu desenvolvimento, por meio de benefícios e redução de impostos (cerca de 5,7 bilhões de dólares!) , encontra-se em uma situação complicada em relação a interferência ou não na política de recuperação da empresa.

O atual governo israelense, adepto de uma visão liberal da economia, segue sofrendo pressões de ambos os lados, e a magnitude e importancia da empresa que representava o orgulho nacional apenas tornam a situação ainda mais dramática.

A bem verdade é que seja o governo, seja o novo conselho administrativo da Teva, é hora de começar a escolher os remédios corretos, e independente do caminho, desta vez será bastante dificil alcançar a unanimidade.

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