Tiro pela Culatra

30/03/2016 | Conflito, Política.

As imagens são fortes. No meio de um burburinho de soldados e viaturas, está estendido no chão um corpo. Lá do fundo, surge um soldado. Ele ajusta a alça de sua M16 e dá um tiro a queima roupa na cabeça do rapaz caído.

Vários minutos antes, o rapaz, Abdel Fattah al-Sharif, e um colega, tentaram cometer um atentado naquele local. Ambos foram neutralizados a tiros, ali mesmo. Um deles morreu. O outro, Abdel, imóvel, ferido, estirado no chão, aguardava socorro.

Até aí, estão os fatos.

Se adiciona aos fatos, também, o que já se descobriu em quatro dias de investigações. O soldado que deu o tiro fatídico não havia participado da ação inicial. Juntou-se ao grupo onze minutos depois que os dois jovens palestinos já tinham sido prostrados. Sabe-se, também, que não houve ordem de qualquer tipo, de qualquer comandante ou responsável, na hora ou antes, para que o soldado fizesse o que fez. Foi uma decisão momentânea, espontânea e pessoal. Sabe-se também, que bem antes das imagens do movimento pró-direitos humanos B’Tselem serem divulgadas, o soldado já estava detido, e sendo interrogado.

Em meio às investigações, o soldado (que não teve sua identidade revelada) afirmou que agiu por temor de que o palestino pudesse detonar um eventual explosivo, e causar ferimento ou morte dos soldados e dos paramédicos que ali estavam. A favor de sua alegação, está, em primeiro lugar, um histórico de casos similares. No dia 27, vi a entrevista que se tornou viral, de um soldado que perdeu suas pernas justamente porque, ao cumprir ordens, satisfez-se em ver o inimigo supostamente neutralizado no chão. Ao se aproximar, o palestino explodiu-se, levando as pernas do soldado. Além disso, houve, segundo o inquérito, neste caso especifico, a ordem para os paramédicos não se aproximarem do ferido, ainda. Embora não esteja claro exatamente qual seria o plano para garantir a sua segurança depois. [Atualização: a ainda corrente investigação levanta a possibilidade de que um dos soldados já havia checado o ferido pela presença de explosivos, e liberado para os paramédicos, minutos antes].

Contra a alegação do soldado está, em primeiro lugar o próprio vídeo. Ele chega bem tarde nas cercanias do evento. O ferido está imóvel já há vários minutos, depois de vários soldados terem se aproximado dele. Outro dado que vai contra a alegação do soldado, é que até agora, depois de mais de 200 atentados, em nenhum deles sequer se fez uso de explosivos – e o exército sabe disso. Mesmo assim, se o soldado estivesse correto em sua decisão de eliminar o terrorista, suas ações não são as regulamentares do exército para neutralizar um cinturão explosivo. Um tiro desses poderia detoná-lo e, quando o tiro foi dado, o entorno do ferido seguia cheio de pessoas.

Mas se não o objetivo concreto de garantir a segurança dos colegas e profissionais que cercavam o corpo, qual teria sido a motivação do soldado? Ou, proponho uma pergunta ainda mais complexa: faz diferença?

 

O exército é o braço armado de um governo. Ele detém, junto à polícia e outras forças especiais, o monopólio do uso da força. Um soldado, como parte do exército, é por função e objetivo, treinado para matar. Tirando-se a questão de que este soldado agiu contra as ordens que recebeu (o que certamente o renderá uma pena por insubordinação – crime militar grave), foi o que ele fez: abriu fogo contra o inimigo. Pode ser acusado de assassinato, quando seus colegas fizeram rigorosamente a mesma coisa contra o outro palestino, morto no incidente? Especialmente se, mesmo que teoricamente, o terrorista ainda fosse uma ameaça?

A motivação para o ataque do soldado entra na cena da discussão pelos bastidores. O primeiro-ministro Benjamim Netanyahu do Likud e o ministro da Educação, Naftali Bennett (A Casa Judaica) trocaram insultos velados durante uma reunião de gabinete no dia seguinte. “Não me venha me dar lição de moral!” disse Netanyahu em resposta à reclamação de Bennett, quando o primeiro-ministro defendeu a posição do exército em investigar e punir o soldado. E continuou: “Eu já comandei em batalha mais soldados do que você”.

Bennett acha que, em circunstâncias complexas, como o atrito entre ativistas perigosos e violentos na superpopulosa Hebron e soldados, o governo deve apoiar os soldados. Sempre. E especialmente antes do julgamento oficial. O chefe-de-estado-maior, o general Gadi Eizenkhot, em um discurso há algumas semanas, disse que soldados bem treinados não deveriam descarregar um cartucho inteiro para neutralizar uma adolescente que empunha uma tesoura. O país se dividiu em fúria a este discurso. Metade achou um absurdo: um soldado deve fazer todo o possível para neutralizar um terrorista. Esteja carregando uma bazuca ou uma tesoura, seja adolescente ou velho. A outra metade, enfureceu-se contra a primeira metade: não é bem assim. Não somos animais. Se um tiro é suficiente, é um tiro apenas que deve ser dado. Este, aliás, é o código do exército e assim são treinados os soldados.

A primeira metade da turba costuma responder à segunda: “Pois não é uma decisão assim tão simples de se tomar quando você está de frente ao inimigo, no calor da batalha, correndo risco de ser explodido, e ainda ter o sangue dos teus colegas nas mãos por conta disso.

E foi debaixo desta comoção que surgiram as imagens do soldado dando o tiro no rapaz prostrado na rua em Hebron. Desnecessário relembrar o quanto o episódio, e o vídeo deste, tiveram vasto uso político em Israel. O uso, em sua maioria, é de antagonistas ao governo Netanyahu pela direita, como Bennett e seu partido, A Casa Judaica, e Avigdor Lieberman, do Israel Nossa Casa.

Isto porque, desde o discurso do general Eizenkhot, tanto Netanyahu quanto o ministro da Segurança, Moshe Ayalon (Likud), têm (de forma bastante surpreendente e de forma bastante óbvia) defendido o estado de direito. As regras do exército devem ser seguidas à risca, mesmo que isso requeira dos soldados esforços extras e ações mais perigosas.

Bennett e a direita levantam a bandeira, já antiga em seus meios, de que o exército de Israel têm combatido com uma das mãos amarradas, e de que é impossível manter a ordem sob tanta regulamentação.

As discussões histéricas das redes sociais dão, em sua maioria, razão a Bennett. Mas isto não é surpreendente em especial. Era até para ser esperado. A corrente onda de violência que assola o país já dura mais de seis meses e não parece que vai arrefecer tão cedo. E onde há medo, há ódio. E onde há ódio, há vontade de se ver sangue.

E é aqui, na verdade, onde mora o perigo deste infeliz episódio. Muitos culparam B’tselem por expor os soldados. Culpam o mensageiro. (O que, neste caso, é especialmente burro, já que o soldado havia sido detido antes do vídeo se tornar público). Outros, culparam a mídia, que, segundo a turba ignara, já julgou e condenou o soldado antes deste ser propriamente julgado (Bennett é um fervoroso profeta destes legionários). Mas os piores, como sempre, são os incitadores políticos.

Piores porque querem, afinal de contas, uma mudança estrutural de como se deve lutar contra indivíduos que, por conta própria, cometem atentados terroristas. E esta não deve, de forma alguma, ser uma decisão política. É uma decisão estratégica e tática, que deve ser tomada por profissionais isentos de paixões e, pelo menos momentaneamente, isentos de ambições políticas. E os incitadores, de maneira geral, além de espernearem muito, têm muito poucas recomendações factíveis a fazer.

Mas o que podemos vir a ver, durante e depois deste caso, é uma legião de pregadores furiosos, tentando ao máximo agradar um público assustado e órfão. Não torna a situação menos grave o fato irônico de que a maior vítima deste processo é Benjamin Netanyahu, que tem feito uso deste tipo de expediente desde que se tornou político, e que agora vive entre fazer cumprir a lei e agradar seu eleitorado.

As únicas variáveis relevantes neste episódio são: a motivação do soldado que deu o tiro, e o real perigo que o ferido representaria aos colegas. Todo o resto é irrelevante. E é apenas sobre todo este resto que tem se discutido.

O Exército e o Ministério da Defesa terão muito dias complexos pela frente para desvencilhar suas decisões e seus soldados da histeria facebookeana.

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Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Tiro pela Culatra”

  • Marcelo Starec

    30/03/2016 at 22:44

    Oi Gabriel,

    Excelente artigo!…Concordo integralmente. Entendo ser um grande erro esse das pessoas ficarem defendendo, a qualquer custo, o soldado!…Israel é um país sério e com instituições competentes para julgar o ocorrido – se o soldado dolosamente decidiu matar, para fazer justiça com as próprias mãos, ele é culpado e deverá ser punido…Uma questão simples – que diz respeito unicamente ao Exército/Justiça…Mas de repente virou uma questão política!…Isso é um erro – não deveria acontecer!….

    Abraço,

    Marcelo.

  • Rafael Stern

    03/04/2016 at 09:00

    Há muitos problemas nessa história… O background social e familiar do soldado são muito claros, suas motivações, etc… Mas acredito que esse episódio todo traga à tona uma questão estrutural – estamos sujeito a esse tipo de problemas quando um jovem que foi treinado para ser combatente na guerra é colocado para fazer o trabalho de um policial urbano.

    • Gabriel Paciornik

      03/04/2016 at 09:19

      Sim, Rafael. Essa é uma das críticas principais: Exército fazendo um trabalho para qual não foi devidamente treinado, e para o qual não foi criado. Nem há, no âmbito das discussões em Israel, um consenso a respeito de uma eventual solução a isso.

      []s

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