Trabalho em Israel: tudo o que você quis saber…

08/09/2016 | Sionismo; Sociedade

…e que infelizmente vai continuar meio que sem saber. Por que? Pelo fato de serem inúmeras as variáveis para responder a essa pergunta, passando pela sua formação, pela sua garra e até pela sua sorte. Mas uma coisa já adianto: em Israel, sem trabalho só fica quer quer.

Há tanto a se dizer sobre Israel mas, me parece, no momento o que mais se quer saber é sobre trabalho. Então bóra lá – mesmo que eu não tenha formação em RH, bons contatos para oferecer e, principalmente, bola de cristal.

Esse último parece o elemento mais solicitado entre os olim chadashim (novos imigrantes) e os candidatos a olim, e não falo só por mim. Meus conhecidos me consultam, os amigos dos meus amigos os consultam, na Agência Judaica procuram respostas para isso — e quem já tem pasta aberta para aliá pode contar com o apoio de um consultor profissional (o contato inicial é feito pelo email julie@agenciajudaica.com.br) –, nos blogs, no Facebook, no diabo-a-quatro. Mas como prever alguma coisa nesse sentido? Como conhecer as características da pessoa que pergunta e, principalmente, ter uma visão detalhada dos segmentos desse mercado volátil e competitivo de Israel (como qualquer outro) para poder dar uma resposta razoável, convincente ou estimuladora? Aqui, só vou estimular uma coisa: a reflexão. Essa é a chave para entender se há um trabalho te esperando por aqui ou não. E nem vou precisar alugar uma bola de cristal.

Posso compartilhar algumas coisas que aprendi por aqui na base da raça e da persistência, esses sim dois elementos fundamentais na hora de sondar, procurar ou fechar um trabalho. A começar pelo mais óbvio: se você está disposto a botar a mão na massa, seja ela da textura que for, emprego não vai faltar.

As mulheres acham trabalho imediatamente em jardins-de-infância (que aqui se chama “gan ieladim”). Os homens, em especial os que aguentam o trampo braçal, em supermercados, farmácias ou armazéns. Você não precisará do hebraico, que não é exigido em alto nível, mas dará duro para ganhar o seu salário mínimo, o que dá, por hora, por volta de 25 shekels. Fazer faxina em residências é outro lance que, como diz o refrão aí no Brasil, “tá tranquilo, tá favorável”. Paga-se de 45 a 55 shekels por hora. Uma boa grana, se comparado a um emprego comum como secretária ou atendente telefônica, em que se ganha salário mínimo. Em todos esses casos, na verdade, a parte mais “dura” geralmente nem é o trabalho, mas a quebra do paradigma.

Classe média aqui não é classe média aí – aliás, não é em nenhum país entre aqueles que chamo de democrático, em que a educação e a saúde estão garantidas à população. Aqui é todo mundo junto e misturado. A filha do político baladão estuda com a filha do fruteiro, a professora que cursou Oxford divide o micro-ondas no recreio com aquela que se formou em Ashkelon. O motorista de ônibus e a caixa do supermercado te dão bronca se você vacilar, sem se importar se você está com as unhas imaculadamente pintadas e uma bolsa Victor Hugo a tiracolo. Aqui, não há desses protocolos e desatinos socioeconômicos, e prova disso é ver o povo ir de Havaianas a apresentações de ópera de 1000 shekels o ingresso.

E se você for flexível e esperto, há de encontrar a graça de você mesmo ir à ópera um dia de Havaianas.

Lembro que meu pai, preparando a mala para vir ao meu casamento (que rolou em Herzlia), me perguntou se deveria trazer terno e gravata. Só pude rir e dizer: “Só se você quiser estar mais alinhado que o noivo, papai”. Ninguém veio de Havaianas, graças a Deus (olha a classe média que existe dentro de mim dando pitaco…), mas muita gente estava de sandália, jeans e camiseta. Incluindo o meu cunhado. Já meu pai estava elegantíssimo em uma calça social e camisa. Sem gravata.

Esse é, aliás, o clima em muitas empresas. Por isso mesmo, na hora de fazer uma entrevista, você terá que estar arrumadinho – mas, se exagerar, vão te estranhar. A moça do RH provavelmente estará de fuseau, uma mania nacional que considero de gosto pra lá de duvidoso. O dono da empresa pode se esmerar em uma camiseta pólo e um jeans arrumadinho, e talvez seja ele mesmo que vá conduzir a entrevista, mal e porcamente, aliás. Esse excesso de informalidade a gente percebe também na TV. Na minha passagem recente pelo Brasil, assistindo ao Jornal Nacional ou outro desses na TV, comprovei a minha impressão antiga: a de que os apresentadores de telejornais no Brasil se vestem tão bonitinho. Bem maquiados, cabelo nos trinques, terno e gravata. Aqui, é uma desgraça. Fico me perguntando porque não dão uma investidinha ao menos na cabeleira das pessoas que se apresentam para todo o país. Cultura, fazer o que? Acostumar-se a ela será seu primeiro passo em direção ao sucesso.

Participei há uns dois anos de um programa bem interessante chamado Gvahim (se quiser saber mais, clique aqui para acessar seu site, pois tá tudo lá ). Criado por um olê francês, se propõe a dar apoio, contatos e ferramentas para olim (plural de olê) com formação superior encontrarem seu lugar ao sol nesse particular mercado de trabalho local. Abre uma janela de informações a respeito das empresas e do comportamento dentro delas. Nada a ver com o brasileiro, como, por exemplo, o fato de o currículo ter que ser escrito em uma única página. Conhece o termo “tachles”, do iídishe? É bem isso: “Vá ao ponto e não me encha o saco. Seja pragmático, porque só tenho 1 minuto e 32 segundos para te ouvir. Depois, quero saber da sua família, dos seus hobbies e das suas pretensões, porque é isso que vai definir se você fica ou não na empresa”.

Ou seja, além de ter um currículo compatível com a vaga, você tem que ter o mesmo “jeitão” da empresa. Isso contará até mais do que sua experiência. Por isso é interessante participar de um programa desse gênero, pois dá a você algumas técnicas para responder o que as empresas querem saber sem ficar confuso e parecer bobo. Para que diga a eles o que querem ouvir. Parece malicioso e enganoso, você acha? Só se for suficientemente inocente para acreditar que no Brasil não é assim. É sim, só que você nasceu aí, então já está no seu sangue, registrado nas suas células, como se comportar em diferentes ambientes. Aqui não, caro alien. Você vai ter que fazer uma transfusão e se fazer passar por outra pessoa – isso tudo para obter uma oportunidade de mostrar a que você veio.

Se você quer pular para esse estágio dois, o de tentar uma vaga na sua área em uma empresa local, terá que chegar com grana para se manter até que isso aconteça. Já vi casos de sucesso em que em três meses a criatura já estava empregada, em uma situação melhor do que estava em seu país (uma inglesa – e já adianto que inglês como língua materna ou em nível altíssimo ajuda em muito por aqui). Por outro lado, tenho um amigo que levou um ano e meio para conseguir assumir um posto inferior ao que ele tinha no Brasil, mas com grandes chances de subir rapidamente. Isso acontece mais com o pessoal da área de high-tech – sabe-se que há uma defasagem de mais dez mil profissionais da área nesse momento, como contou o meu colega de Conexão Claudio Daylac em seu artigo (clique aqui).

Também soube que há uma carência danada na área médica e enfermeiras, cuidadores e laboratoristas são muito bem-vindos. A necessidade é tanta que até a dificílima validação do diploma está sendo feita a toque de caixa, muitas vezes apoiada pela própria instituição de saúde contratante.

Aí tem aqueles que tentam procurar emprego a partir do Brasil, para tentar garantir o “ingarantível”. Não conheço casos de sucesso nesse tipo de empreitada, mas há de ter. Conheço sim casos de gente que vem para sondar, e não sei dizer se funciona ou não. Mas sei que o candidato que veio direito, sem mimimi, para bater e levar, ganha um certo respeito durante a entrevista. Por isso defendo — e posso estar errada, caro leitor — que, em assunto de aliá, mais vale a coragem e a persistência do que a precaução.

Agora vou aqui arriscar dizer para você quem será seu maior dificultador nessa luta pela colocação profissional – e não, não é a rispidez israelense nem o clima de tensão com os palestinos: é o hebraico. Sabe essa linguazinha que raspa na garganta? Conhecê-la vai te dar alguns infinitos pontos em qualquer que seja a sua intenção e possibilidade, seja para carregar caixa, acalmar bebês ou ser diretor de uma multinacional. Já me perguntaram se vale a pena começar a estudar hebraico no Brasil e respondo de novo: não. Se você tem algum tempo para investir antes de sua aliá, faça-o em um plano B, uma atividade que não tem a ver com a sua mas que poderá ser exercida autonomamente e sem sofrimento até que você encontre seu lugar ao sol. Ofícios de manicure, estética, costura e coisas do gênero são super-requisitados, assim como instalação de ar-condicionado ou reparo de aparelhos domésticos. Quem tem carro, pode trabalhar com transporte de cargas pequenas. Isso porque serviço aqui é coisa cara e muito solicitada. Não dá status (mas que imigrante precisa disso?), mas paga as contas – e te mantém flexível, com tempo para estudar hebraico e se aperfeiçoar na sua área.

Afinal das contas, ao chegar você ganhará de presente pelo menos um ulpan (curso de hebraico) intensivo de cinco meses mais a convivência diária com a lingua para tentar aprendê-la. Poderá estender esse aprendizado por mais meses, principalmente se tiver economias para sobreviver enquanto isso ou um trabalho que garanta flexibilidade de horário (são cinco horas por dia, cinco dias por semana – e precisa ser assim, se não, não vai). E digo isso veementemente para quem me pergunta, da mesma forma que ouvi de um amigão meu quando cheguei: aprenda hebraico. Essa deve ser seu maior objetivo no primeiro ano, ainda mais se pretende ter sua fonte de sustento aqui. Sem ele, você manterá seu status alienígena ou mão de obra barata por muito mais tempo do que convém.

Saiba também que o fato de você ser brasileiro, falar português e ter, portanto, facilidade com linguas latinas (melhor ainda se souber bem alguma delas), você será benquisto no mundo empresarial. Brasil é atualmente mais amado entre os israelenses do que entre os brasileiros que vivem no Brasil – claro que estou exagerando, mas só um pouco. A flexibilidade, a gentileza e a “raça” são conhecidas por aqui. Então, considere esse, sim, um bom ponto de partida. Ainda mais em área de prestação de serviços, já que somos capazes de sermos gentis até mesmo sob pressão.

O fato de você trazer referências internacionais também poderá ser usado a seu favor – mas essa é uma decisão íntima. Sabe a história do meio copo vazio ou meio copo cheio? Igualzinho. Você pode olhar um procedimento no seu trabalho e pensar “que horror, no Brasil se faz isso muito melhor”, ou pode dizer “sei uma forma de fazer isso melhor e posso compartilhar”. Chegar aqui dizendo “banheiro eu não limpo ou sair às cinco da manhã de casa eu não vou” (isso porque começa-se a trabalhar cedinho por aqui, mas também se acaba cedo) não vai te dar vantagem nenhuma, pois você estará vivendo o seu mundo alien-classe-média-brazuca-folgada. Porque não há, simplesmente não há, como transportar a sua realidade daí para cá, e por isso mesmo vejo graça quando me perguntam se dá para dar banho no cachorro em pet shop toda a semana. Bem, dá, claro que dá, só que aqui, como é serviço, custa três vezes o que custa aí. Assim, ou você vai trabalhar para o cachorro viver limpinho, ou ele viverá mais sujinho ou, horror dos horrores, você dará banho no bichinho. Assim é. Talvez esse seja o resumo todo dessa história cheia de bifurcações da busca de trabalho em um país onde você não nasceu: você dança no ritmo local com um cachorro mais fedidinho, mas pode deixar seu filho passear com ele sozinho na rua, à noite, enquanto come tranquilamente o seu humus com pita de cada dia.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Trabalho em Israel: tudo o que você quis saber…”

  • danielle

    08/09/2016 at 19:23

    sem querer ofender, adoro o blog
    mas tem muitas coisas que precisam ser ditas:
    o custo de vida é super alto, mesmo que sua realidade no brasil não seja a de empregados e luxos e vc não venha querendo isso
    vc ganha por hora, então pode ser que vc faltou, seu gerente te dispensou e vc ganha menos que estava esperando, ou simplesmente vc trabalha 6 horas e não 9 pq é o que eles querem que vc trabalhe
    vc pode topar fazer faxina pela grana, mas é super arriscado pois quase ninguém pega fixo igual no brasil então cada semana é uma surpresa,
    mais importante que o número é o poder de compra dele.

    • Miriam Sanger

      11/09/2016 at 10:34

      Olá, Danielle.
      Antes de tudo, sua mensagem não me ofendeu, de forma nenhuma. Só tenho a agradecer pela sua opinião.
      Não foquei o custo de vida nem a qualidade de empregos e empregadores, pois essa é outra matéria. Em Israel, como em qualquer lugar, há de tudo: empresários honestos e nem tanto, empregadores que investem em funcionários ou os exploram, donos de negócio que vêem em imigrantes mão de obra barata ou pessoas que merecem chance de crescer e se enraizar no país — coisa que depende em grande parte da estabilidade profissional. Você tem razão quando diz que o custo de vida israelense é alto. No entanto, não podemos negar que o salário mínimo de Israel garante a sobrevivência digna, e que a pequena dimensão do país permite que alguém viva em uma cidade mais barata e busque seu sustento em outra, evitando assim o alto custo dos alugueis do centro.
      Meu desejo foi transmitir a mensagem de que a flexibilidade do imigrante vai determinar se ele poderá se sustentar ou não, não importando qual seja a sua trajetória profissional.
      Continue nos acompanhando!
      Abraço e boa semana.

  • Sol

    09/09/2016 at 21:38

    Delícia de texto, Miriam. Parabéns..to indo para aí com filha adolescente e sou jornalista tb.Bom achar leitura crítica como a de vcs pela web. 🙂

    • Miriam Sanger

      11/09/2016 at 10:27

      Olá!
      Que bom que você gostou. Muito boa sorte!
      Abraço,
      Miriam

  • Marcelo Starec

    10/09/2016 at 02:09

    Oi Miriam,

    Parabéns pelo excelente artigo! E cheio de boas informações!

    Abraço,
    Marcelo.