O trânsito em Israel: dá-lhe Waze!

16/10/2013 | Sociedade

Estradas em Israel são um arraso. Desbunde mesmo, cada uma com seu número de identificação, pares quando no sentido norte-sul, ímpares no leste-oeste, curtos para estradas grandes (um dígito), compridos para estradas pequenas (até quatro dígitos). Pavimentação impecável, cruzamentos coerentes e organizados, sinalização incrível e em três línguas, coisa obrigatória por aqui. Não apenas eu amo as estradas israelenses: todo o resto da população também. Isso deve ser uma das razões pelas quais os locais têm ou sonham em ter um carro, motivo que corre em páreo com o fato de o transporte público intercidades ser uma lerdeza e pouquíssimos felizardos desfrutarem da alegria de trabalhar na mesma cidade em que residem. Tudo isso colocado, vai aqui a má notícia para quem ainda não sabe: os congestionamentos por aqui, ou “pkakim” em hebraico, são um inferno.

Israel - ConexaoIsrael - kvish mahir

Segundo as estatísticas do Governo, existem hoje perto de 2,8 milhões de carros circulando, e cada um dele roda cerca de 37 mil quilômetros por ano. Foi divulgado recentemente que o número de acidentes fatais no trânsito reduziu-se em cerca de 25% de 2011 para 2012 (algo em torno de 300 mortos). Isso colocou Israel, segundo a Secretaria Nacional de Segurança no Trânsito, no lugar de 11º país do mundo mais seguro para se dirigir. 

Esses números condizem com a minha sensação como motorista. Embora haja tanto carro e um buzinaço sem tamanho – o israelense motorizado é um tanto neurótico e não perde a oportunidade de expressar sua opinião enfiando a mão com vontade na buzina –, o trânsito é civilizado, de forma geral: o sinal amarelo é obedecido e a faixa de pedrestes, respeitada. Esseparadoxo de extrema educação com quem está a pé e a falta dela para com o motorista vizinho é só mais um dos muitos nesse país. 

Tel Aviv travou de vez. E a tendência é piorar, devido à quantidade de torres estratosféricas que estão sendo erguidas em meio às vielas da cidade, criando uma mistura de arquitetura bem interessante, que transita do Bauhaus, passa pelo semicortiço e chega em aranha-céus (fazia tempo que não usava essa palavra!) envidraçados. Em uma matéria meio antiguinha que li no Haaretz (de 2010), um dos maiores jornais das bandas de cá, o ministro das Finanças calculava 20 bilhões de shkalim por ano (arrendondando dá uns 5 e tantos bilhões de dólares) em perdas financeiras resultantes dos congestionamentos. Quase 20% desse valor teria sido gerado pelos congestionamentos em Tel Aviv e seus arredores.

Israel ConexaoIsrael - pkak

Nossa amada capital, Jerusalém, está congestionada já faz alguns milênios e não ouvi falar sobre nenhum plano viável e próximo de corrigir o problema. O que já foi anunciado, isso sim, é que a composição de números que constam nas placas dos veículos – hoje são sete – vai aumentar para 8 para atender ao crescente número de veículos na rua. Enquanto isso, ninguém escapa desse fuzuê, e até a minha “hometown”, a pequena Raanana, mirradinha e suburbana com seus 90 mil habitantes, se rende ao caos em horários de pico, de manhã e no fim da tarde.  

E assim, de buzina em buzina, a gente vai prosseguindo aqui, com a ajuda divina e do Waze, esse sistema bacaninha de GPS que ficou famoso também fora da aqui quando o Google o comprou, em junho passado, por 1,1 bilhão de dólares. A coisa que mais gostei nessa história da aquisição foi a exigência dos executivos da empresa: paga e leva, mas deixa a operação da empresa aqui em Israel. O Waze é, aliás, meu vizinho – o escritório deles está aqui em Raanana. Quem sabe não descolo um emprego por lá? Daí entro, contente da vida, na lista dos poucos felizardos que não precisam pegar estrada para trabalhar.

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No lugar certo, na hora certa

Israel - COnexaoisrael - Miriam

Miriam Sanger, nascida em Recife mas de sangue paulistano, formou-se em Jornalismo em 1991 pela Faculdade Cásper Líbero Chegou a Israel em julho de 2012 e vive com a filha pré-adolescente em Raanana, no centro do país. Temas ligados a cultura, judaísmo, sociedade e comportamento a interessam especialmente. Por isso, mas não só por isso, não tem dúvidas de que está no lugar certo, na hora certa. (SP). 

 

Comentários    ( 11 )

11 comentários para “O trânsito em Israel: dá-lhe Waze!”

  • Mario Silvio

    16/10/2013 at 17:46

    ” e cada um dele roda cerca de 37 mil quilômetros por ano.”
    Tem certeza Miriam? Parece muito, MUITO. Dá uns 100 km/dia e isso em média.

  • Raul Gottlieb

    18/10/2013 at 11:06

    A definição científica do milissegundo é: “o tempo que, em Israel, transcorre entre abrir o sinal e o segundo carro da fila buzinar”.

    Em Israel é permitido trafegar com apenas três rodas, mas sem buzina é proibido.

    Esporte radical em Israel é se postar na segunda fila de um sinal e buzinar antes do sinal abrir. A turma da primeira fila arranca automaticamente! É um esporte perigosíssimo e proibido pelas autoridades civis e religiosas.

    • Miriam Sanger

      22/10/2013 at 09:54

      Oi, Raul. Boa definição!
      De fato, a “neurose do sinal” é epidêmica por aqui e há de se ter muito bom humor para não se deixar contagiar.
      Um abraço e obrigada pela participação.
      Miriam

  • Miriam Sanger

    18/10/2013 at 11:48

    Oi, Mario! De fato, esse foi o número apontado na estatística. Îsraelense roda, de fato, muito pelo país, como escreveu a Liat, e não sei qual a explicação para isso. Talvez seja um bom assunto para uma próxima matéria.
    Obrigada pela participação e um ótimo fim de semana.
    Miriam

  • Roberto Miglioli

    21/10/2013 at 14:14

    “os congestionamentos por aqui são um inferno”

    Miriam, você já morou em São Paulo? Aqui são 6 milhões de automóveis. Não é o inferno, é o terceiro mundo do inferno…

    • Miriam Sanger

      22/10/2013 at 10:03

      Oi, Roberto!
      Morei sim, desde sempre até julho do ano passado. Concordo: infernal, infernal! Mas fico imaginando se há algum lugar no planeta onde se possa escapar desse purgatório. Não creio que haja.
      Assim sendo… desejo a você (e a mim mesma) muita paciência (que em Israel falta) e bom humor (que por aqui sobra). Fazer o quê?
      Boa semana e um abraço!
      Miriam

    • Mario Silvio

      22/10/2013 at 13:51

      Fora que aqui as otoridades fazem de tudo para piorar a situação. Faz muito tempo que é assim, mas o Haddad, sem dúvida, vem quebrando todos os recordes no quesito tornar o péssimo pior ainda.
      Uma tradição em SP é criar armadilhas para gerar o maior número de multas possível, e aqui também ele supera todos seus antecessores, a ponto de prever no orçamento um aumento significativo com a arrecadação por este meio.

  • Ricardo Augusto

    09/05/2014 at 04:31

    ALGUMAS INEVITÁVEIS REFLEXÕES E COMPARAÇÕES COM O BRASIL: A frota brasileira conta com mais de 50 milhões de veículos (motocicletas, carros, caminhões, ônibus); em Israel cerca de 3milhões; ou seja, no Brasil há 15 vezes mais. O número de mortos em Israel é em média 300 (trezentos) por ano. No Brasil são cerca de 43mil, ISTO MESMO: QUARENTA E TRÊS MIL – SEM QUALQUER COMPROVAÇÃO – por que os dados são fornecidos pela SEGURADORA LÍDER, QUE AFIRMA INDENIZAR BILHÕES E BILHÕES COM O SEGURO DPVAT. Ou seja: No Brasil há 15 vezes mais veículos que em Israel e, segundo a SEGURADORA LÍDER DO DPVAT, ocorrem 150 (cento e cinquenta vezes) mais MORTES. Evidente que no Brasil não há INVESTIMENTO EM SOLUÇÕES VIÁRIAS, tão somente “OPERAÇÕES TAPA BURACOS para se desviar bilhões e bilhões; tendo em vista que no Brasil, as obras públicas têm a “cara” – pra não dizer a palavra adequada – dos administradores públicos. EM SÍNTESE: Enquanto no Brasil EU e CADA BRASILEIRO formos IDIOTAS – IMBECIS – IRRESPONSÁVEIS – ALIENADOS – ACOMODADOS – CONFORMADOS com a administração pública que DESPERDIÇA E DESVIA BILHÕES E BILHÕES POR ANO, teremos VIAS PÚBLICAS IGUAIS AO ‘C….” DOS ADMINISTRADORES PÚBLICOS E, MORTES, MILHARES DE MORTES NO TRÂNSITO. FRISE-SE QUE SOMOS A SÉTIMA ECONOMIA MAIS RICA DO PLANETA; OS RECURSOS SÃO ABUNDANTES – SOBRAM A PONTO DE SUPERFATURAR EM CENTENAS DE MILHÕES DE DÓLARES CADA “OBRA”…, . – Vamos mudar este quadro caótico no Brasil a partir de 2014?

Você é humano? *