Transporte criativo

Bicicletas públicas, compartilhamento de carros, um cooperativa privada de ônibus, grupos de carona. Israel é um país repleto de alternativas de transporte.

Em meu artigo anterior, cobri as modalidades “oficiais” de deslocamento disponíveis para quem não deseja ser dono de um automóvel em Israel. É um sistema de transporte coletivo e de massa de qualidade razoável, que atende direitinho aos seus usuários durante a semana e dentro das principais regiões metropolitanas do país, mas é bastante limitado com relação ao funcionamento no shabat e nos feriados judaicos, e pode te deixar na mão em localidades menores. O israelense que não possui carro tem sérias dificuldades para comparecer ao jantar de shabat na casa de sua avó que mora em outra cidade, por exemplo.

Naturalmente, você sempre pode recorrer ao taxi. Em grandes cidades, como Tel Aviv ou Jerusalém, é possível encontrar taxis circulando pelas ruas a qualquer hora, em qualquer dia da semana. Muitas pessoas ainda têm o costume de ligar para os pontos de seus bairros ou para taxistas que vivem perto de pequenas cidades e kibutzim. No país das start-ups, é claro que não faltam aplicativos que permitem chamar um taxi pelo telefone, acompanhar o motorista chegando à sua casa e pagar pela corrida através de cartões de crédito (até mesmo dividir entre mais de um cartão) ou cobrar na conta do trabalho.

Mas uma nação famosa por seu engenho e por sua capacidade de solucionar problemas aparentemente intransponíveis da forma mais criativa e inédita disponível não poderia limitar-se ao enfadonho uso de taxis. Para além dos transportes “oficiais” ou “tradicionais”, os israelenses se locomovem das mais diversas maneiras. Os métodos descritos neste artigo são menos acessíveis a turistas do que as residentes e, mesmo que o foco seja sua disponibilidade às sextas-feiras e aos sábados, quase todos funcionam normalmente ao longo da semana.

Bicicleta

Outro meio de locomoção beneficiado pelo reduzido tamanho das cidades e pelas curtas distâncias. Com excessão de Jerusalém e Haifa, com suas infames ladeiras, uma bicicleta pode te levar a qualquer ponto de qualquer cidade, a qualquer hora de qualquer dia. Cruzar Tel Aviv, por exemplo, não dura mais que meia hora. E o fato de que a esmagadora maioria das localidades é bastante pacata – no máximo, alguns poucos milhares de habitantes e pouquíssimo movimento de carros – dá aos pais a tranquilidade de permitir que seus filhos andem de bicicleta livremente, pelas pequenas cidades, pelos kibutzim e moshavim, e até mesmo pelos bairros residenciais das grandes cidades.

Em cidades com mais atrações turísticas, como Jerusalém ou Tel Aviv, ou em áreas remotas com trilhas e passeios pela natureza, é sempre possível alugar uma bicicleta por algumas horas ou uns dias. Em Tel Aviv, assim como no Rio e em muitas grandes cidades pelo mundo, a prefeitura implantou um sistema de compartilhamento de bicicletas públicas, o Tel-O-Fun. Você pode comprar um passe de um dia (17 shekels), uma semana (70 shekels) ou um ano (280 shekels), que dá direito a usar qualquer bicicleta do sistema, retirando-a em um dos centenas de bicletários espalhados pela cidade e por algumas outras áreas da região metropolitana. Ao terminar seu trajeto, basta devolver a bicicleta a qualquer outro biciletário.

Bicicletário da Tel-O-Fun
Bicicletário da Tel-O-Fun

Mais recentemente, muitos israelenses aderiram às bicicletas elétricas. Ainda que não sejam baratas, seu custo cabe dentro do orçamento da maioria das pessoas, levando em consideração o salário médio nacional e a possibilidade de parcelamento em valores similares ao passe mensal de ônibus municipal. A ausência de chuvas na maior parte do ano (chove em média 500mm por ano em Jerusalém e Tel Aviv, menos da metade das médias do Rio de Janeiro e de São Paulo) também colabora para sua viabilidade, apesar de que uma onda de furtos de bicicletas elétricas já castiga Tel Aviv há alguns anos.

Carona: você não tem carro, mas um monte de gente tem!

Locais que reúnem diariamente uma grande quantidade de pessoas de diferentes lugares, como grandes centros empresariais e universidades, sempre foram caracterizados por terem organizações formais ou informais de caronas. Este fenômeno não é exclusivo de Israel, nem é novo, e usa da sensação de proximidade (pessoas que trabalham no mesmo prédio, ou estudam na mesma faculdade) para juntarem estranhos que percorrem os mesmos trajetos regularmente.

Por todo o país, é comum ver pessoas pedindo carona a estranhos, nas saídas das cidades e em cruzamentos movimentados. A internet trouxe os fóruns de caronas e carpooling, mas foi com o advento das redes sociais que as caronas foram potencializadas de maneira nunca antes imaginada. Em Israel, há inúmeros grupos no Facebook que reúnem pessoas que moram em determinada área (um bairro, uma pequena cidade) ou que viajam regularmente ao mesmo destino (o Centro de Tel Aviv ou a Universidade Hebraica de Jerusalém) e estão dispostas a levar outras pessoas em seus carros – pela companhia, para diluir os custos, ou apenas para ajudar alguém que perdeu o último ônibus.

Estudante oferece carona de Jerusalém para Ramat Gan, em um dos grupos do Facebook.
Estudante oferece carona de Jerusalém para Ramat Gan, em um dos grupos do Facebook.

A variedade de grupos de carona no Facebook é tão grande que o nível de especificidade chega a impressionar um observador desavisado. Há grupos para um público específico (estudantes que moram nos bairros centrais de Jerusalém e estudam no campus do Monte Scopus – Har HaTzofim), ou para um trajeto específico (Mevasseret Tzion – Tel Aviv) ou até mesmo com regras muito bem determinadas (Jerusalém – Tel Aviv por 15 shekels). Conforme as pessoas vão notando que há um nicho, novos grupos são criados.

Vans, as famosas moniot sherut

Uma maneira oficial de driblar a legislação que impede o funcionamento de transporte público no shabat e nos feriados judaicos é a criação de cooperativas de vans. Tecnicamente registradas como taxis (por isso o nome monit, e seu plural moniot), embora seus taxímetros nunca sejam acionados, as moniot sherut funcionam de forma similar às vans e lotadas do Brasil. Em Tel Aviv, há linha regulares que percorrem itinerários semelhantes às linhas de ônibus de mesmo número – 4, 5, 16, 51, 66 – cortando a cidade e alguns dos municípios da região metropolitana, como Ramat Gan e Petah Tikva. Essas vans geralmente possuem intervalos de circulação e preços similares aos ônibus que substituem, e sua saída independe de todos os lugares estarem ocupados.

No resto do país, o serviço se limita a linhas inter-municipais, que geralmente aguardam a lotação (10 passageiros) estar completa para saírem. De uma maneira geral, ligam as principais cidades (Jerusalém, Haifa e Beer Sheva) e as principais regiões (Ashkelon e Ashdod, ou Hertzelia e Natanya) à rodoviária de Tel Aviv, e a passagem pode ultrapassar o dobro da tarifa de ônibus para o mesmo trajeto. Há também um serviço que liga Jerusalém ao aeroporto por pouco mais de 60 shekalim e é muito usado pela população da capital e pelos turistas, mesmo durante a semana, na ausência de qualquer linha de ônibus ou trem que faça este curto trajeto de forma rápida e eficiente.

As vans são legalmente registradas como taxis e trazem o sinal luminoso amarelo em seus tetos
As vans são legalmente registradas como taxis e trazem o sinal luminoso amarelo em seus tetos e a indicação na lataria

Uma curiosidade das moniot sherut, que sempre chama a atenção dos turistas que as utilizam pela primeira vez, é a forma como são realizados os pagamentos. Para agilizar o embarque e o desembarque de passageiros e não atrasar a viagem devido à ausência de cobrador, o motorista geralmente não deixa que as pessoas paguem a passagem assim que subirem na van. Por isto, é necessário que cada passageiro passe seu dinheiro ao viajante sentado à sua frente, que o repassa ao motorista. Após o motorista confirmar – geralmente gritando – quantas passagens aquele viajante deseja pagar, ele devolve o troco, que também chega às mãos do passageiro através deste “telefone sem fio” de notas e moedas.

Aluguel de carro por hora

Alugar um carro por vários dias é tão sem graça quanto pegar um taxi, então não mereceu ser incluído neste artigo. Mas mesmo que você não queira possuir um automóvel de nenhuma maneira, há momentos esporádicos em que ele é indispensável. Pode ser a necessidade de chegar no meio da tarde do sábado na casa daquela sua tia que mora longe, ou um casamento fora da cidade numa quarta à noite. Enfim, eventos aos quais você não pode se atrasar, mas ir e voltar de taxi pode se tornar um pouco caro ou incoveniente.

Nestas horas, você pensa que ter um carro seria confortável se não fosse pelos custos e dores de cabeça que ele representa: manutenção, vistoria, impostos, estacionamento. Para isto, a empresa Car2Go dispõe de uma frota de carros espalhados pela região metropolitana de Tel Aviv – uma área famosa pela escassez de vagas de estacionamento – que podem ser alugados por hora, de forma análoga às bicicletas públicas da prefeitura. Um cadastro no ato da matrícula, que envolve o pagamento de uma taxa anual de manutenção, e pode ser feito pela internet ou no escritório da Car2Go, evita que você tenha que passar a cada vez pela burocracia do balcão da locadora de veículos, uma das mais estressantes e confusas que existem.

Carros do Car2Go estacionados na minha rua
Carros do Car2Go estacionados na minha rua

Como a empresa já possui seus dados, a cópia de sua carteira de motorista, seu número de cartão de crédito e sua inscrição na apólice de seguro coletiva, basta que você entre no site, procure o carro com o tamanho, as características e a localização que você precisa para aquele dia, verifique sua disponibilidade e faça a reserva. Você paga por hora (a partir de 20 shekels) e por quilômetro (entre 1 e 2 shekels), e nem precisa se preocupar com a gasolina – mesmo que seja necessário encher o tanque, basta usar a rede de postos conveniada e o abastecimento estará incluído no preço. Cada carro possui sua vaga reservada – geralmente na rua, ou na garagem de um prédio com fácil acesso – de forma que você não pode devolvê-lo em outra vaga, mas não corre o risco de ter que ficar dando voltas para achar onde estacionar.

Cooperativa particular de ônibus

A lei proibe a circulação de transporte público na maioria das cidades judaicas no shabat e nos feriados, mas não menciona nenhum impedimento à circulação de transporte coletivo privado – como ônibus de grupos de turistas, por exemplo. De olho nesta brecha, um grupo de moradores de Jerusalém criou a Shabus – trocadilho entre as palavras “Shabos”, como os ultra-ortodoxos pronunciam “shabat” em ídish, e “Otobus”, ônibus em hebraico. Trata-se de uma cooperativa, cujos membros pagam taxas de manutenção para financiar o aluguel de ônibus particulares, que circulam por Jerusalém em horários previamente determinados e com um itinerário fixo que não cruza os bairros ultra-ortodoxos, entre as 18:00 de sexta-feira e as 04:00 de sábado, permitindo que as pessoas se locomovam pela única cidade israelense que realmente oferece grandes distâncias.

Assista abaixo o curto vídeo (legendado em inglês) de divulgação e captação de recursos para o Shabus:

O Shabus foi lançado há cerca de um ano, por um grupo de judeus israelenses seculares que vivem em Jerusalém e defendem a limitação da capacidade de influência que a religião judaica possui sobre o Estado, a legislação e a vida quotidiana dos cidadãos de uma forma geral. De maneira paradóxica, muitos destes ativistas que se cansaram das disputas políticas e, da maneira mais liberal possível, tomaram a iniciativa em suas próprias mãos e criaram a solução que substitui um serviço que tradicionalmente é oferecido e regulamentado pelo Estado, são eleitores e membros do Meretz, o partido mais à esquerda do espectro político sionista.

Soluções alternativas são suficientes?

Os israelenses são famosos por solucionarem de forma inovadora os mais desafiadores problemas. Guerras são vencidas contra exércitos muito mais numerosos. O deserto floresceu. Não falta mais água numa das regiões mais áridas da Terra. Smartphones são capazes de analisar o trânsito e poupar os motoristas de longos engarrafamentos.

Nada mais natural que um simples obstáculo, como a legislação que impede a circulação de transporte público no shabat, pudesse ser contornado das maneiras mais criativas e inéditas, ainda que a maioria não seja exclusiva de Israel. Estas simples iniciativas permitem que pessoas que não possuem os meios financeiros, ou não estão dispostas a encarar o stress burocrático para possuírem um carro, vençam as limitações e possam usufruir ao máximo de seus dias de merecida folga.

Por outro lado, algumas das opções mencionadas não são baratas, outras têm seu custo multiplicado quando se trata de uma família, de forma que fica claro que a solução mais justa é a expansão do serviço atual de ônibus e trens para os sábados, mesmo que com menos itinerários disponíveis e com frequência de circulação mais baixa, o que é comum no exterior. Este tema, no entanto, é um dos maiores tabus da sociedade israelense, capaz de derrubar qualquer governo que dependa dos onipresentes partidos religiosos, e sua solução não aparenta estar próxima.

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