A triste história da esquerda israelense

15/11/2014 | Conflito; Política

Ari Shavit é um dos jornalistas e comentarista político que mais admiro na Israel de nosso tempo. Ele escreve no jornal Haaretz e é apresentador do programa de televisão “Ioman” do canal 1 da televisão israelense. Em novembro de 2013, publicou o seu último livro “My promised Land” que analisa o processo de guerras e crimes na criação do Estado de Israel. Abaixo, ofereço aos leitores do ConexãoIsrael, a tradução realizada em conjunto com Yair Mau, de um de seus últimos artigos. Logo após a tradução, faço algumas considerações.

Boa leitura:

A triste história da Esquerda

por: Ari Shavit
(Traduzido por Marcelo Treistman e Yair Mau
. Clique aqui, para ler o artigo original)

A história da esquerda israelense é uma história triste. Em seu marco inicial, no verão de 1967, a esquerda sionista estava certa. Já desde o sétimo dia na Guerra dos Seis Dias ela compreendeu que a ocupação corrompe e que os assentamentos são inúteis. Ela lutou bravamente contra as políticas de Golda Meir, contra o messianismo de Gush Emunim e contra a agressividade gratuita do Likud. Mas o grande erro da esquerda foi o desenvolvimento da crença mágica de que se pode acabar com a ocupação por meio de uma promessa metafísica de paz-agora.

A crença festiva (e quase religiosa) da paz total, verdadeira e imediata, já era bastante instável no final do século 20, e tornou-se infundada no século 21. A esquerda recusou-se a internalizar este fato claro e amargo. A sua percepção do passado não encontrou espaço para acomodar as recusas de Yasser Arafat e Mahmoud Abbas, bem como o fortalecimento contínuo do Hamas. Sua percepção do presente não encontrou espaço para acomodar o fundamentalismo islâmico, o caos no mundo árabe e o extremismo palestinos. O movimento político sionista, racional e moral dos anos 60 e 70 perdeu a sua identidade, perdeu o seu caminho e se desconectou da realidade.

O objetivo da esquerda israelense nestes últimos 47 anos é o destino correto: a solução de dois Estados. Se a terra não for dividida, Israel deixará de ser um Estado judeu ou deixará de ser democrático, ou deixará de ser. Se não acabarmos com a epidemia dos assentamentos, esta epidemia acabará com todos nós. Israel deve buscar a paz e tentar chegar à paz, mas também na ausência de paz deve agir com determinação, perseverança e sabedoria para acabar com a ocupação.

Ainda que o destino final seja correto, o movimento da paz ignorou o fato de que o recuo nos processos de paz nos trouxeram ônibus explodindo na praça Dizengoff, atentados suicídas no Dolphinarium [uma discoteca] e foguetes que chegaram até Hadera. O Movimento da paz não conseguiu lidar com o fato de que os palestinos rejeitaram as iniciativas de paz de Bill Clinton, Ehud Barak e Ehud Olmert. A “elite da paz” se comportou no passado e se comporta no presente como alguém que não consegue discriminar o caminho nuclear do Irã, o colapso dos Estados-nações árabes e o Estado Islâmico e suas cabeças cortadas. O mundo conceitual das pessoas que deveriam ser as mais atualizadas, mais abertas e mais críticas, tornaram-se um mundo dogmático, velho e engessado. Sua percepção da realidade se aplica somente a meia-realidade, ao mesmo tempo que ignora tudo o que aconteceu no país nos últimos 20 anos e de tudo o que está acontecendo ao redor de nosso país nos últimos dois anos.

O ‘Big Bang’ ocorreu no ano 2000. Há exatos 14 anos, a mais generosa oferta de paz oferecida por Israel nos levou aos piores ataques terroristas ao país. O trauma da Segunda Intifada, após a Camp David, foi tremendo, causando um dano profundo na consciência israelense. Desta forma, há 13 anos a esquerda sionista deveria ter tomado o seu tempo, para fazer um exame de consciência. Tínhamos que compreender que algo havia dado errado, que as nossas premissas não eram compatíveis com a realidade e que recaía sobre nós a necessidade de nos redefinir.

Da mesma forma que Bill Clinton renovou o Partido Democrata em 1992 e Tony Blair renovou o movimento trabalhista em 1997, Havoda, Meretz e os movimentos em prol da Paz deveriam ter renovado a esquerda sionista no ínicio dos anos 2000. Se fôssemos sérios – estadistas sérios, intelectuais sérios, líderes sérios – deveríamos ter proposto ao povo de Israel uma terceira via, em meados da década passada. Mas nós não o fizemos. E esta foi uma falha grave de nossa parte. Como resultado deste grande fracasso, estamos indo de mal a pior. Com as nossas próprias mãos acabamos jogando o jogo imposto pela direita, perpetuando o governo de Netanyahu. Com a nossa omissão nós evitamos a divisão da terra e construímos os assentamentos. Em vez de agir como uma liderança alternativa, madura, responsável e confiável aos olhos do público israelense, nós nos comportamos como um bando de adolescentes amargos que xingam, amaldiçoam e perseguem toda ovelha que se atreve a deixar o rebanho e dizer a verdade.

Eis a verdade: o rei está nu. Ou melhor: o rei está morto. Atualmente, a tentativa de reviver a antiga paz é como os corregilionários do Beit Chabad tentando ressucitar o Rebe. Quem vai assegurar um plano político que foi cristalizado na época que Boutros-Ghali representava o  Egito, Faisal Hussein era um palestino e Dan Meridor pertencia ao Likud? Quem hoje vai considerar crível o modelo de paz de 1990? Apenas indivíduos messiânicos. Apenas pessoas cujas crenças nobres e ideais elevados os fazem ficar totalmente cegos à realidade que os cerca. Tendo em vista que a maioria dos israelenses não acreditam em messias – eles não compram esta ideia. Ainda que eles percebam que a ocupação é problemática e que os assentamentos são perigosos, eles não acreditam nos antigos esquerdistas que ainda oferecem o fim pacífico da ocupação, uma vez que não se enxerga nenhuma paz no horizonte. Na escolha entre os messiânicos da direita e os messiânicos de esquerda eles preferem os messiânicos de direita. Eles não estão dispostos a seguir cegamente aqueles que estavam errados uma e outra vez, e que nunca admitiram o seu erro.

Não vou entrar em uma discussão com Akiva Eldar e Dani Karavan. Aprecio muito o trabalho jornalistico do primeiro e os trabalhos artísticos do segundo. Quando eu escrevi nesta seção há duas semanas sobre a esquerda-pirada não direcionei minhas palavras à esquerda sionista de idade mais avançada da qual os dois fazem parte, mas para a esquerda anti-sionista em Israel que apedreja o país de forma contínua, sem compaixão e sem visão histórica. Mas, aparentemente, algumas pessoas vestiram a carapuça. Há aqueles que ainda não internalizaram a revolução de Copérnico, e ainda acreditam que o sol ardente do Oriente Médio ainda gira em torno da Terra da paz.

Ao contrário do esperado, eu não pretendo trocar farpas com meus adversários. Pelo contrário, eu aproveito essa oportunidade única para estender-lhes a mão e poder caminhar juntos. Vocês acreditam que uma paz ortodoxa ainda é possível? Excelente, eu estou com vocês. Tragam-me a assinatura do presidente Mahmoud Abbas sobre rascunho do acordo de fim do conflito de Ehud Olmert. Tragam-me a renúncia da Liga Árabe sobre a demanda de retorno palestino que está implícita na resolução 194 da ONU. Se vocês fizerem isso – me juntarei a vocês. Vou tentar convencer Israel e todos os israelenses a dar uma chance à paz. Mas se vocês não conseguirem desta vez, se vocês falharem também uma terceira e quarta vez – reconheçam finalmente que este experimento não teve sucesso e que a teoria otimista foi refutada. Talvez então possamos unir forças, refinar os nossos pensamentos e criar uma nova ideia de paz, não com base em desejos, mas ancorado em fatos concretos.

Se fizermos isso, poderemos finalmente convencer a maioria dos israelense que o mais importante projeto nacional para os israelenses é dividir a terra. Apenas se pararmos de iludir a nós mesmos e aos outros poderemos salvar o Estado judeu democrático e renovar o sionismo em direção a um movimento liberal, moral e inspirador.

Ari Shavit


Peço licença aos leitores para algumas considerações pessoais:

Há quem se irrite profundamente com o discurso da esquerda israelense que entende que os caminhos da diplomacia israelense fortalecem as organizações totalitárias e xenófobas que desejam nos destruir. Por diversas vezes, já ouvi de amigos próximos, que as condutas defensivas do governo israelense perante a sociedade palestina (que ainda não renunciou a guerra existencial contra o país), seriam a “comprovação” de que não desejamos uma solução verdadeira para o conflito.

Neste sentido, a paz ainda não teria sido estabelecida no Oriente Médio porque as lideranças judaicas não estariam comprometidas com a divisão do território e os ataques rotineiros que sofremos estariam diretamente vinculados aos erros praticados pelo governo israelense. Há quem acredite que o Bibi inventou o Hamas para se perpetuar no poder.

O problema, na minha opinião, é de compreensão: “correlacionar” a existência do Hamas com as condutas de Israel que prejudicam a vida dos palestinos é uma análise válida. As “condutas” e o “Hamas” – de fato –  estão relacionados. Entretanto, o que incomoda é quando se deixa transparecer que o Hamas existe “por causa” das condutas de Israel. Correlação e “causalidade” não são a mesma coisa e a esquerda até o presente momento não foi clara o suficiente neste ponto, que diga-se de passagem, é o que define as eleições em Israel.

A argumentação que coloca a responsabilidade da escolha pela aniquiliação de Israel, através do terror ou de qualquer outro meio, nos ombros das políticas do governo israelense é um pensamento completamente equivocado, raso, infantil e que afasta o eleitorado israelense .

Estúpidos adversários, notadamente mais a direita do espectro político e muito pouco afeitos ao debate democrático, aproveitam a chance para rotular os movimentos de esquerda como “traidores”, “inimigos”, “anti-sionistas”. Necessariamente, se alguém é “traidor”, se alguém é “inimigo” ele deve ser destruído. Dizem: – “Fechem seus ouvidos para as propostas da esquerda! Se é assim que eles pensam sobre o conflito, tudo o que venha deste movimento deve ser ignorado”. Rejeito, de forma absoluta, tal percepção, que de certa forma nega a democracia e a pluralidade. Recuso-me a parar de ouvir o que a esquerda israelense tem a dizer. Concordo com grande parte da visão que ela projeta para o futuro do país.

O primoroso artigo de Ari Shavit, traduz perfeitamente a minha crítica a esquerda.Há um trecho ao qual eu dedico especial atenção. Shavit define como “crença religiosa” – dogmática e imutável –  o discurso da esquerda acerca do conflito entre israelenses e palestinos E dispara: “na escolha entre os messiânicos da direita e os messiânicos de esquerda eles [população israelense] preferem os messiânicos de direita”.

E infelizmente ele está certo. A receita religiosa que a esquerda sugere para a paz é refutada a cada rodada de negociações com as lideranças palestinas. Ao insistir no erro, colocando a escolha pela aniquilação de Israel sobre as decisões israelenses, esta linha política e todas as suas bandeiras democráticas e pluralistas estão fadadas a perder espaço em nossa sociedade. E isto é lamentável.

Portanto, na escolha entre os “messiânicos de direita” que falam em nome da “defesa de Israel contra o terrorismo niilista islâmico” e os “messiânicos de esquerda que atacam Israel pela criação do terrorismo islâmico”, a população israelense já optou pelo movimento messiânico para chamar de seu. A guinada “à direita” é perceptível na sociedade, porque para as pessoas que vivem no mundo real, existe um movimento islâmico que combate ferozmente a modernidade e a democracia e que têm entre seus objetivo a aniquilação de Israel e dos valores que este representa.

Considerando que é a esquerda que defende o congelamento imediato dos assentamentos. Considerando que é a esquerda que defende de forma veemente a separação entre o Estado e Religião. Que é ela que clama no cenário político atual pela instituição de direitos civis garantidos a todos os cidadãos, sem distinção de religião, gênero, etnia ou orientação sexual. Fica claro que não se trata de um polo político que deseja enfraquecer o Estado judeu. Muito pelo contrário.

Compartilho de sua luta democrática e desejo que as propostas indicadas acima ocupem cada vez mais cadeiras no parlamento israelense. Entretanto, ao negar o  mundo que o israelense enxerga pela sua janela ou ignorar os túneis do terror construídos sob os seus pés, a esquerda perde a sua voz – não porque tenha sido impedida de falar – a questão é que ninguém mais lhe dá atenção. Este comportamento, coloca Israel na trilha de um futuro menos democrático, menos pluralista e com mais coerção religiosa ortodoxa na vida pública do país.

A crítica de Ari Shavit à esquerda pode ser comparado a uma crítica realizada a um grande amigo com quem ele se importa de forma verdadeira. Não se trata de uma verborragia agressiva que objetiva destruir o seu oponente intelectual ou ideológico. Shavit preza os fundamentos democráticos defendidos pela esquerda e escreve o que escreve porque lhe dá uma profunda tristeza verificar o caminho que ela tem optado em seguir.

Queremos uma esquerda que seja capaz de revelar ao mundo, aos israelenses e aos próprios palestinos que o terrorismo é um péssimo instrumento para qualquer reivindicação política, exigindo duramente da liderança árabe o mesmo comprometimento aos valores democráticos que exige do governo israelense. Sem mea-culpa ou justificações. E que revele, de uma vez por todas, que não há ação possível do lado israelense que acabe de forma absoluta com o fundamentalismo islâmico. Já é chegado o momento da esquerda israelense compreender que o responsável pelo terrorismo é aquele que escolhe o terror.

A tristeza que adjetiva o título deste artigo não é pela existência histórica da esquerda no país.  O perigo para o futuro do Estado judeu é que ela se torne irrelevante.

Comentários    ( 9 )

9 comentários para “A triste história da esquerda israelense”

  • Marcelo Starec

    15/11/2014 at 03:28

    Oi Marcelão,

    Realmente muito bom o texto do Shavit e as suas considerações aqui também estão ótimas!…A única ressalva que faço é que, em meu entender, a população israelense não está buscando um “messianismo de direita”. Na verdade, os israelenses estão simplesmente sem opção, sem alternativas viáveis e o que a esquerda em geral tem oferecido é uma alternativa “messiânica”, algo que, se for feito, num passe de mágica, levaria à paz. Mas entendo que a direita não! Com a exceção da extrema, ela propõe algo como – se não dá para chegar à paz tão cedo, então vamos continuar trabalhando o nosso futuro, do melhor modo possível, sem a paz e visando garantir a nossa existência e a nossa segurança, apesar dos vizinhos. Acho que o que há aí é muito pragmatismo e não messianismo. Mas concordo contigo e com o Shavit, no sentido de que se a esquerda conseguir demonstrar que tem um modo viável de atingir a paz a curto prazo, tenho plena convicção de que sim ela será ouvida e devidamente votada!…Porém, o que tem ocorrido é como bem colocado aqui, um certo “messianismo da esquerda”, uma crença de que a paz virá a partir de simples ações unilaterais de Israel e acredito que essa proposta está esgotada, pois ela se baseia em premissas incorretas e que a maioria dos israelenses sabe não vai funcionar, por melhor que seja a proposta do lado de Israel. Uma “nova esquerda”, com propostas mais realistas seria no meu entender muito bem vinda e produtiva para o futuro de Israel!
    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    15/11/2014 at 11:41

    Marcelo,

    Cem por cento dos israelenses sabem que Israel não perpetrou genocídio algum em Gaza. Nem na campanha do verão passado, nem nas anteriores e nem perpetrará nas próximas. Assim como não houve genocídio em nenhuma das guerras e campanhas travadas pela defesa de Israel desde 1948 e pela defesa dos judeus no Mandato Britânico da Palestina antes disso. Assassinatos em massa simplesmente não fazem parte da cultura judaica e todos os israelenses, inclusive os que votam no Meretz, sabem disso.

    Assim que, quando o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas ocupou o pódio da última Assembleia Geral da ONU e declarou que Israel cometeu genocídio em Gaza os israelenses reconheceram imediatamente a estratégia de Abbas: mentir descaradamente com o intuito de desviar a atenção do mundo para a corrupção descarada de seu governo e para a ineficiência brutal de sua gestão, ganhando de troco mais algumas manchetes difamatórias para o único país do Oriente Médio onde pertencer a uma minoria não coloca a vida da pessoa em risco de expulsão ou de tortura ou de extermínio. Além disso o discurso dele garante que os israelenses jamais confiarão nele e a paz com Israel é o maior pesadelo do Abbas, porque a partir dela ele teria que construir um Estado e isto dá muito trabalho e não tão lucrativo como a situação dele hoje.

    E como Zahava Gal-on, a presidente do Meretz na Kneset, comenta o discurso do Abbas? Ela diz que o discurso (qualificado de mentiroso, incitador, não construtivo, etc. por todo o espectro político de Israel, tirando fora o Meretz) mostra que o Abbas (este humanista) não confia no Bibi (o monstro).

    O Meretz então elege o Abbas como sendo o potencial condutor para a paz e é através do Abbas que o Meretz quer fazer oposição ao governo. Com uma oposição assim, o Bibi está feito. Me contaram que depois da última visita do Bibi no Kotel um atrevido roubou o papelucho que ele inseriu entre as pedras e leu: “Longa vida à Zahava Gal-on, dela depende a irrelevância para sempre da esquerda em Israel”. Mas isto pode ser apenas um boato. O fato é que a esquerda israelense realmente se colocou na irrelevância por defender uma visão de mundo na qual está inserida a crença de que os árabes desejam a paz.

    Isto é uma lástima, como você aponta muito bem, pois a esquerda defende um país interessante: com mais assistência social (se bem que se exagerar entorna o caldo) e com mais separação entre religião e estado (se bem que foi a esquerda que entregou a legislação civil à ortodoxia em 48).

    Eu não gosto muito do Shavit e não consegui acabar de ler o seu festejado livro, pois fiquei ânsia de vômitos depois do capítulo sobre Lod e o meu medico proibiu que eu continuasse a leitura. Talvez o resto do livro seja bom, mas não deu para continuar.

    Penso que não há messianismo algum, nem na esquerda nem na direita e o eleitorado israelense não está passivamente esperando um messias. Os israelenses entenderam bem a mensagem que os palestinos deram depois da retirada de Gaza e, sinceramente, não é preciso ser um gênio para entende-la – os nossos primos da Palestina fizeram questão de ser bem claros.

    O Shavit é um ex peacenik (como tantos de nós) que ainda não entendeu bem o que deu errado, pois ainda não entendeu que as culturas são diferentes e não se equivalem. Enquanto ele não entender isto os seus textos serão capengas, a meu ver, é claro.

    Mas este texto dele realmente não é dos piores, pois neste texto ele se propõe a analisar apenas o lado israelense e aí – tirando a bobagem retórica do messianismo – ele, na minha opinião, traça um bom panorama. Obrigado por tê-lo trazido.

    Abraço, Raul

  • David Gruberger

    15/11/2014 at 15:24

    Gostei da sua diferenciação entre causa e correlação, parabéns pela escolha da tradução e pela maneira como interpretou. Por outro lado, assim como o texto original, nós da esquerda infelizmente continuamos sem ter a menor ideia de qual é essa terceira via que poderíamos defender nos próximos debates.
    Acho que nos falta debater mais sobre a citada terceira via, não colocamos esse assunto em pauta porque (i) não sabemos por onde começar; (ii) sofremos dessa doença de achar que já sabemos qual é a solução e só falta aplicá-la.
    Interessante ver que o debate está se direcionando para esse caminho, muito positivo que a própria esquerda esteja indo para o caminho de reinvenção. Afinal, este provavelmente não é nem o primeiro nem o último artigo do Conexão sobre a ‘morte’ da esquerda em Israel.
    No entanto, acho que falta de criatividade do autor Marcelo em achar que podemos esperar uma mentalidade baseada na democracia e liberdade de partes envolvidas como a Liga Árabe ou a liderança palestina (e até mesmo de boa parte do público israelense). Faltou o pragmatismo político que leva aos acordos. E faltou um pouco de auto-crítica, particularmente quando escrevo sobre o conflito tenho uma tendência de fazer mudanças para que meu texto sirva aos interesses da minha visão para Israel (já que não tenho uma visão específica para o estado palestino).
    Tenho a impressão de que todo o processo precisa de uma reinvenção. Não é possível pensar em uma apresentação diferente em que estrelem os mesmos produtores, diretores, atores, no mesmo palco. De ambos os lados.

    • Raul Gottlieb

      16/11/2014 at 11:52

      David,

      Eu penso que a esquerda não sabe por onde começar o debate porque ainda não conseguiu mapear o que deu errado com a sua visão de mundo. Não apenas em Israel, mas no mundo todo.

      O que a esquerda fez de melhor (e não foi pouco!) foi mediar o capitalismo e colocar mais humanidade na visão capitalista de mundo.

      Contudo, a visão básica que deu certo foi a capitalista e não a socialista. O capitalismo conseguiu gerar riquezas que tiraram bilhões de pessoas da miséria. O socialismo não gerou riquezas e, portanto, manteve a pobreza. Neste cenário, o máximo que o socialismo pode aspirar, quando bem sucedido, é nivelar todos por baixo.

      O capitalismo não luta pela igualdade, luta pela elevação do nível de todos, melhorando neste movimento o nível dos menos favorecidos. A luta pela igualdade, quando bem sucedida, mantém todos empobrecidos e iguais. Não é a boa luta.

      O ideal socialista é lindo, mas irreal. É um ideal místico, que se baseia num universo imaginado onde o Estado vai conseguir planificar a economia com eficiência e onde todas as pessoas vão almejar trabalhar com afinco, mesmo não precisando. Infelizmente para a esquerda é que este universo não existe.

      Então, para a esquerda começar a discutir a terceira via, ela tem que entender que uma das vias (a dela) faliu, deu errado, não existe na realidade.

      E que quando a religião postula que a perfeição é divina ela (a religião) está dizendo que os homens são imperfeitos e que, portanto, o máximo que se pode almejar deles é que façam o melhor possível, jamais o perfeito, o ideal, o mundo em paz sem conflitos e sem diferenças.

      Quando John Lennon compôs Imagine ele acertou completamente – aquele mundo só existe na imaginação. Você pode sonhar com ele, imaginá-lo, mas nunca viver nele.

      E viver é preciso.

      E é por isto que a esquerda não dá certo em lugar nenhum. Porque na hora de colocar o plano em prática se descobre que os atores na vida real agem diferente do que o desenho na prancheta. Inclusive as lideranças árabes, que não têm os mesmos valores que as ocidentais, por mais que se queira acreditar nisto.

      Abraço, Raul

  • marco dana

    16/11/2014 at 02:18

    texto impecável ,levando a conclusão que a esquerda israelense tem suas demandas altamente positivas no tocante as internas e sociais ,mas quando abre o espaço para exterior se atropela em uma critica míope da questão empacada no muro sem saída lembrando apogeu e queda dos kibutzim.
    abraço

  • Ana Maria

    17/11/2014 at 10:59

    Será que existe uma versão do artigo de Ari Shavitz em inglês? Como se translitera o título original em hebraico?

    Grata a quem me ajudar.

    Excelente artigo e excelentes considerações.

    • Marcelo Treistman

      17/11/2014 at 16:14

      Olá Ana,

      Agradeço a visita e comentário. Desconheço se há uma versão deste artigo específico em inglês.
      A trasliteração do título seria algo como: “sipuro ha’atzuv shel hasmol” (סיפורו העצוב של השמאל)

      Textos do Shavit em Inglês podem ser encontrados diretametne na sua coluna do Haaretz – Aqui.

      Recomendo fortemente outro artigo dele (em inglês) sob título: “A New (and Plausible) Plan for Peace” – que poderá ser encontrado aqui.

      Um grande abraço e volte sempre!

    • Yair Mau

      17/11/2014 at 22:06

      Encontrei a versão em inglês, vejam:
      http://www.haaretz.com/opinion/.premium-1.617554

  • Davy Bogomoletz

    17/11/2014 at 13:40

    Muito bom o artigo, mas muito melhor é a discussão sobre ele. Apesar de ter sido “torcedor” do movimento pela paz durante muitos anos, no momento (em que já passei dos 70 anos de vida) sinto-me concordando muito mais (embora lamentando) com o que diz o Raul Gottlieb. Aqui me ocorre uma história hassídica: Os dois filhos pequenos de um tzadik estavam brincando. De que? De tzadik e hassid, obviamente. O hassid (o filho mais novo) vinha confessar um pecado, e o tzadik (o mais velho) lhe dava um castigo. O mais novo diz: Voce errou, Não fez como o papai. O mais velho pergunta: Como não fiz como o papai? Ele não deu esse castigo para aquele sujeito que esteve aqui ontem? Sim, diz o mais novo. Mas antes de dar o castigo ele fez Ôiiiii, e você não fez. Então é isso: Ôiiii, o Raul Gottlieb tem razão.

Você é humano? *