Um ano depois de Gaza continuo dizendo: “Não em meu nome”

05/08/2015 | Conflito; Opinião; Política

Sentado em casa, na frente do computador, para escrever sobre as últimas 24 horas não é nem um pouco fácil. Difícil saber por onde começar. Nem a lua cheia e o ar fresco de Jerusalém ajudam. Um shabat pesado. É possível descançar? São tantas questões que passam pela cabeça. Mas uma coisa é certa. O mesmo que disse durante a última guerra em Gaza, há um ano atrás, digo agora:

NÃO EM MEU NOME.

O brainstorm continua e vejo que não há como entender o que aconteceu ontem e hoje sem mencionar o que vem acontecendo na última semana. Talvez tivesse de mencionar o que aconteceu no último mês, mas então percebi que estava entrando em um turbilhão. Vou parar na última semana. Acho que temos exemplos suficientes dos rumos que a sociedade israelense está tomando.

Na sexta-feira, dia 24 de julho, aconteceu uma grande manifestação em Susya, vilarejo palestino no sul dos territórios ocupados, na região ao sul do Monte Hebron. Há diversos assentamentos na região e constante conflito entre colonos judeus e palestinos.

Cerca de 500 pessoas, palestinos, israelenses e participantes de outros países, se reuníram para protestar contra a demolição do vilarejo. O governo israelense vem sofrendo grande pressão internacional mas Susya pode ser demolida a qualquer momento.

No domingo, dia 26 de julho, os judeus celebraram o “Tisha Be Av”. Dia de luto na história bíblica do povo judeu, que lembra a destruição dos dois Templos Sagrados de Jerusalém que, de acordo com a Bíblia, foram destruídos no mesmo dia. O Templo ficava onde hoje se encontra a Esplanada das Mesquitas, local também sagrado para os mulçumanos. A construção do terceiro Templo está diretamente ligada à vinda do messias.

Na celebração do “Tisha Be Av”, esperando já uma peregrinação judaica à Esplanada das Mesquitas, jovens mulçumanos se organizaram para impedir a entrada dos fiéis judeus. A polícia entrou no local e houve confronto pesado. Presos e feridos. Liderados pelo ministro da Agricultura, Uri Ariel (A Casa Judaica), e com apoio da polícia, os fiés entraram na Esplanada.

A disputa pelo controle do local é constante, com grupos judaicos messiânicos ultra-religiosos exercendo pressão sobre o governo e recebendo a permissão para ir ao local rezar, gerando uma enorme tensão com os mulçumanos e colocando em risco um equilíbrio  já quase inexistente.

Dia 29 de julho, quarta-feira, o exército derruba duas casas no assentamento de Beit El, após decisão judicial da Suprema Corte de Justiça Israelense, ao lado de Ramallah. Houve confronto pesado entre as forças policiais e os colonos que se opunham à demolição. As casas foram demolidas.

Cabe notar que as casas foram construídas em terra particular comprovadamente palestina, portanto, de forma ilegal de acordo com a própria lei israelense.

Sendo contra a demolição das casas e após sofrer pressão de seu próprio partido, o Likud, e do partido A Casa Judaica, da ministra da Justiça, Ayelet Shaked , e do ministro da Educação, Naftali Bennet, o primeiro-ministro Bibi Netanyahu aprova a construção de 300 unidades habitacionais no proprio assentamento de Beit El, além de outras 500 em Jerusalém Oriental.

A pressão pública pode ser percebida através das reações à decisão da Justiça israelense ao autorizar as demolições. Ayelet Shaked tenta deslegitimar a Suprema Corte de Justiça dizendo que ela está sendo utilizada por advogados de esquerda para implementar suas agendas. Quer levar as decisões para cortes menores. Chega a sugerir a criação de uma justiça paralela, que atuasse somente nos territórios. Seu colega de partido, Moti Yogev, disse que um trator deveria destruir a Suprema Corte.

Na quinta-feira, dia 30 de julho, Yishai Schlissel, judeu ultraortodoxo, esfaqueia seis pessoas na Marcha do Orgulho Gay em Jerusalém. Schlissel foi libertado da prisão recentemente. O crime? Em 2005, durante o mesmo evento, na mesma cidade, ele esfaqueou três pessoas e foi condenado a doze anos de prisão. Foi solto quando completou dez anos detido.

Agora, de volta ao convívio social, volta à mesma marcha e esfaqueia seis pessoas. Uma ainda se encontra internada em estado grave.

E para fechar a semana, hoje, dia 30 de julho, sexta-feira, acordamos com a notícia do atentado cometido por colonos judeus contra uma família palestina. O exército israelense confirma a versão de que quatro pessoas mascaradas quebraram a janela de duas casas no vilarejo palestino de Duma. Uma das casas por sorte estava vazia, mas na outra dormia uma família. O pai conseguiu salvar sua esposa e seu filho de quatro anos, porém não conseguiu encontrar seu outro filho de um ano e meio, que morreu queimado.

Os terroristas, que também picharam na casa a palavra “nekamá”, que significa vingança em hebraico, e “vida longa ao Rei Messias” foram vistos fugindo em direção a um assentamento na região.

Um crime bárbaro que foi condenado por diversos políticos israelenses. Bibi Netanyahu também condenou fortemente o atentado cometido pelos colonos e disse que os terroristas devem ser levados à justiça. Telefonou para Mahmmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, e disse que ambos devem combater o terrorismo.

Mas será que devemos levar a sério essas condenações por membros do governo? Será que não há uma ligação entre tudo que ocorreu na última semana?

Claro que há. Não relacionar o que vem acontecendo é inventar uma outra realidade.

Estamos virando a ocupação. A política desumana e cruel aplicada aos palestinos que vivem sob ocupação está se tornando política oficial em Israel também.

O movimento de colonos, agressivo e violento, não ocupa somente os territórios palestinos. Ocupa também o governo israelense. Netanyahu, refém de uma frágil coalizão, cede para manter-se no poder.

A última semana mostra que a política da direita radical que vem dirigindo o país está destruindo a democracia israelense. As reações de ministros e deputados atacando a Suprema Corte de Justiça, questionando sua legitimidade e até pedindo a sua demolição são um perigo real.

Querem a tomada à força do Domo da Rocha a espera da vinda de um messias. Destroem-se duas casas ilegais e constroem-se mais 800 ilegais. Defendem a destruição e a remoção forçada da população de Susya. Atacam palestinos constantemente e, geralmente, saem impunes ou recebem penas irrisórias.

Cabe lembrar que recentemente os terroristas, também judeus, que atearam fogo ao colégio bilingue em Jerusalém e picharam dizeres racistas (clique aqui para um artigo que escrevi sobre o caso), não foram julgados por racismo: foram julgados pelo incêndio e, no dia 22 de julho, condenados a dois anos de prisão e multa. Saíram do julgamento dizendo que a pena vale o atentado cometido.

Mas se atentados racistas não são julgados como tal, como combater a homofobia? Será que podemos esperar alguma política desse governo?

Bezalel Smotrich, deputado do A Casa Judaica, aquele mesmo partido da ministra da Justiça que apoia a construção de assentamentos, organizou uma marcha em 2006 contra a Marcha do Orgulho Gay, por ele chamada de “Marcha da Besta”. Sua marcha homofóbica foi organizada um ano depois do primeiro atentado cometido por Yishai Schlissel. Não, caros leitores, não podemos esperar políticas de combate à homofobia por parte desse governo.

A vice-ministra das Relações Exteriores, Tzipi Hotovely (Likud), vem intimidando e tentando colocar na ilegalidade organizações de esquerda que vão contra a política do governo. São chamadas de perigosas e acusadas de incitar movimentos que querem deslegitimar o Estado de Israel. Tentam calar a oposição de qualquer forma.

Mas não será a própria política israelense que está levando a questionamentos sobre a legitimidade de sua existência? Os fanáticos estão no poder e nós estamos caindo no abismo.

É por isso que não podemos nos calar. É por isso que digo que:

  • NÃO EM MEU NOME VOCÊS OCUPARÃO TERRITÓRIO PALESTINO;
  • NÃO EM MEU NOME VOCÊS EXPULSARÃO PALESTINOS DE SUAS CASAS;
  • NÃO EM MEU NOME VOCÊS ASSASSINARÃO PALESTINOS;
  • NÃO EM MEU NOME VOCÊS ASSASSINARÃO HOMOSSEXUAIS;
  • NÃO EM MEU NOME VOCÊS ACABARÃO COM A NOSSA FRÁGIL DEMOCRACIA.

Temos visto um aumento no número de atentados terroristas cometidos por judeus. Incêndios de mesquitas, igrejas e escolas; assassinatos; ataques a palestinos chamados de “Etiqueta de Preço”; esfaqueamentos. Será que não há nada de errado conosco?

Lamentavelmente este tipo de atitude enfraquece a legítima luta de Israel (e de grande parte da sociedade palestina) contra o Hamas. Estes terroristas judeus (sim, meus caros, são terroristas) assemelham-se aos do outro lado, com uma triste diferença: sequer possuem uma ocupação militar sobre suas cabeças para justificar (ainda que de forma bizonhamente equivocada) seus atentados terroristas. São mais semelhantes a neonazistas europeus, atacando violentamente os oprimidos.

Esta semana, ouvi de um palestino de Hebron: “A Palestina pode destruir Israel? Não. A Síria pode destruir Israel? Não. O Irã pode destruir Israel? Não. Mas Israel vai se destruir sozinho”.

Pelo visto tem palestino lendo melhor a sociedade israelense do que muito israelense por aí.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Um ano depois de Gaza continuo dizendo: “Não em meu nome””

  • Mario S Nusbaum

    05/08/2015 at 17:38

    Marcos, sou contra tudo o que citou que não estão fazendo em seu nome, mas tenho outra hipótese para todos esses crimes de ódio, esse terrorismo judeu: a convivência (do lado das vítimas) com essas coisas por décadas. As circunstâncias moldas as pessoas e as sociedades.

    “Na celebração do “Tisha Be Av”, esperando já uma peregrinação judaica à Esplanada das Mesquitas, jovens mulçumanos se organizaram para impedir a entrada dos fiéis judeus.”
    Isso não lhe diz nada? Esses “nossos” terroristas tiveram excelentes mestres em intolerância.

  • Marcelo Starec

    05/08/2015 at 20:47

    Oi Marcos,

    Democracia é isso!…Você pode falar e escrever o que pensa e eles também podem!…Infelizmente, só em Israel há democracia e sempre precisamos defendê-la!…mas discordo dessa sua visão pessimista e unilateral do conflito…A todo tempo, os judeus continuam a ser atacados e ameaçados de morte – mesmo na semana que passou houve vários atentados palestinos contra judeus – e você nesse texto não cita um sequer!…Eu quero o bem de todos e uma paz com os palestinos – com coexistência, tal como árabes e judeus tem em Israel !…Vamos ser justos: judeus tem sido atacados o tempo todo, desde sempre por lá e a ideia de “varrer Israel do mapa” nem é nova e tampouco está hoje fora de moda!…Sim, você tem razão em muitas coisas, mas em meu entender está com uma visão unilateral do conflito, o que atrapalha a sua análise, provavelmente pelos eventos recentes que todos nós sentimos profundamente!…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Henrique Samet

    09/08/2015 at 22:49

    Até onde nos levará este tipo de contemporização que tenta amenizar o que está exposto a olhos vistos.
    O ovo da serpente virou ninho de jararacas e um leitor chama o autor do texto de pessimista…
    O verdadeiro sionista deveria ser a vanguarda na luta contra o que está acontecendo no governo e digamos com clareza, na sociedade israelense mas em vez disso, teima-se em dizer que “não é bem assim” que claramente é uma defesa envergonhada do status quo.

  • Marcelo Starec

    18/08/2015 at 21:30

    Oi Henrique,

    Em primeiro lugar, tenho horror a quem se diz “verdadeiro sionista” – monopolista da ética e da moral…e que tem de ser “a vanguarda na luta contra o que está acontecendo no governo e digamos com clareza, na sociedade israelense”. Isso colocado, demoniza qualquer um que não seja, na sua opinião, um “verdadeiro sionista”!!!…A despeito de não ter sido o seu objetivo, eu sei, mas esse discurso na prática é sim extremista e intolerante…Assim, proponho que você antes de mais nada, procure respeitar a diversidade de opiniões e não demonizar a quem pensa um pouco diferente de você…Toda a Equipe do Conexão é democrática e tolerante – respeita e discute com o leitor…e com certeza não acho que você seja “melhor sionista” ou “pior sionista” do que ninguém, respeito a sua opinião e discordo dela em vários aspectos, mas não posso aceitar alguém ficar aqui dizendo que o “verdadeiro sionista” deve ser isso ou aquilo…Sim, há uma diversidade de opiniões e ninguém é menos ético, moral ou justo por pensar diferente de você! – Quanto aos extremistas judeus, estes são poucos e sempre que são encontrados foram devidamente punidos…Infelizmente, o mesmo não ocorre do lado de lá – muito pelo contrário – frequentemente, as lideranças de lá os estimulam a praticar atos assim, explicitamente, e até mesmo dá “gordas mesadas” para seus familiares – além de tratá-los como heróis – há na Judeia e Samaria um monte de ruas com nomes de terroristas palestinos, que mataram criancinhas judias em Israel !!!…Ademais, a intolerância do extremismo islâmico contra o Estado Judeu começou antes e prosseguiu a todo vapor desde 1948 – isso é fato e não um simples argumento!…Assim sendo, quero aqui deixar claro que o que você chama de “status quo” coexiste com 1,5 milhão de árabes e no resto do Oriente Médio o extremismo está no poder, em quase todos os lugares – expulsaram virtualmente todos os judeus – e criam diariamente um banho de sangue (sim, de muçulmanos contra muçulmanos mesmo!)…Com relação ao terrorismo e extremismo judaico – sou totalmente contra e gostaria de ver punições mais rigorosas, com tolerância zero mesmo!…No mais, não se iluda, não é fácil resolver as questões no sentido de uma paz verdadeira, que é o que eu quero ver…Uma paz com Israel segura!…E sim, Israel é no Oriente Médio um oásis de tolerância, com defeitos que qualquer país do mundo tem, mas é sim um oásis de tolerância num mar de ódio que é hoje o Oriente Médio, infelizmente, a despeito de existir muita gente decente e justa do outro lado, mas que em regra não tem nenhuma voz!!!….

    Abraço,

    Marcelo.

    ância

  • Daniel Cohen

    23/09/2015 at 18:41

    Camarada Marcelo,

    Li seu comentário e vejo uma propensão viciada em reagir em “autodefesa”, uma reação automatizada, que desvirtua o foco do assunto – “mas em meu entender está com uma visão unilateral do conflito, o que atrapalha a sua análise”.

    Pelo que entendi, o Marcos não procura analisar o conflito, não busca equiparar erros e acertos dos dois lados e acho que numa análise pra dentro de sua sociedade, se torna perfeitamente cabível e 0 injusto.

    Uma coisa é, eu falar dos defeitos dos outros e não falar dos meus – não é moralmente aceitável quando se procura dialogar com o próximo e incluí-lo na conversa, muito feio apontar o erro do próximo e não olhar para os meus.

    Outra coisa é uma autorreflexão que não precisa ficar apontando o dos outros, qual é o ganho?

    Abrs