Um argentino falando de economia em Israel

11/03/2015 | Economia; Eleições; Política

*Por Miriam Christen

Quarta à noite, chove em Tel Aviv. As notícias informam que a Corte Suprema anulou a decisão de proibir a candidatura de Hanin Zohabi (parlamentar árabe do partido Balad) e de Baruch Marzel (candidato do partido Yachad). As próximas eleicões em Israel são muito polêmicas. As campanhas políticas seguem no contexto das complexidades do país, onde se destacam a grande investigação sobre corrupcão, que começou no partido Israel Beiteynu e se expandiu rapidamente a outros setores da sociedade israelense. A anulação das candidaturas dos postulantes “extremistas” de direita e esquerda, o aumento da tensão nas fronteiras do norte e infinitas investigações de assédio e abuso sexual na polícia local.

Mesmo assim, nas atuais circunstâncias, não deixa de ser chamativo que o principal slogan de várias campanhas eleitorais seja “Todos menos Bibi”. Os últimos dois mandatos do atual primeiro ministro são considerados, por uma parte importante dos cidadãos, um fracasso em todos os aspectos, porque por um lado nada mudou com respeito ao conflito israelense-palestino e, por outro, não se concretizou uma melhora na situação econômica e social do país. No plano internacional, verificou-se uma queda nas relações de Israel com governos do mundo ocidental, em especial com EUA. O povo parece começar a emitir sinais de ter entendido que Israel necessita de uma mudança séria, esperando vislumbrar o nascimento desta, no próximo 17 de março.

O tema econômico-social é o principal personagem na maioria das agendas dos partidos políticos, que concorrem às próximas eleições. Neste contexto, pouco depois de anunciar sua coalizão, a União Sionista (nome da aliança entre o Partido Trabalhiista e Tzipi Livni, ex-ministra de Justiça), convidou o economista Manuel Trajtenberg para delinear o plano econômico de Israel e postular-se para o cargo de Ministro de Finanças.

E aqui estou, como disse no início, quarta à noite, a caminho de participar de uma conversa com Trajtenberg, o Manu, como o chamam as pessoas de seu meio. Trajtenberg é argentino (e cordovês, como gosta de dizer). Economista graduado pela Universidade Hebraica de Jerusalém, onde fez ainda mestrado em Economia e Sociologia, concluiu seu doutorado em Harvard, e pós-doutorado no Instituto Nacional de Investigacão Econômica de Boston. Desde que retornou a Israel, exerceu vários cargos públicos, entre eles, conselheiro do Ministério de Indústria e Comércio, diretor do Conselho Econômico Nacional e, por último, diretor do Comitê de Planejamento e Orçamento, do Conselho de Educação Superior de Israel, cargo ao qual renunciou, para candidatar-se nas próximas eleições. É de se destacar que, durante as manifestações sociais de 2011, Netanyahu o convocou como diretor do conselho que elaborou o Programa de Mudança Econômica e Social que, supostamente, ia implementar-se durante os últimos dois governos, para atender as demandas dos cidadãos que, mediante protestos, mostravam sua indignação.

A União Sionista se propôs a chamar a atenção de “olim chadashim” (novos imigrantes), entre eles, os provenientes da América Latina (aproximadamente 100 mil pessoas, dos quais 70% são argentinos). Este foi o contexto da palestra a qual fui convidada. Trajtenberg, que demorou a chegar, subiu ao palco e anunciou que deixaria bastante tempo para perguntas do público, mas que reservaria uns minutos no final, para recitar um poema gauchesco argentino que lhe recordava sua adolescência e os valores pelos quais foi educado no movimento juvenil sionista, onde foi ativista.

Por que entrar à política?

Trajtenberg, emocionado por estar debutando em espanhol, em uma dissertação política e pela conexão que isso lhe traz com sua juventude, quis explicar, antes de mais nada, as razões pelas quais decidiu saltar à política ativa, o que ele enxerga como um passo radical e necessário, em nível pessoal. Depois de explicar as conotações negativas que há na política local, disse as razões que o levaram a tomar esta decisão, razões que demonstram seu descontentamento com a situação atual do país. “Não posso ficar vendo passivamente o que está sucedendo. Almejo uma mudança e quero participar”, afirmou.

Manu começou a prender a atenção do público, falando com seu estilo simples, procurando, às vezes, palavras esquecidas de seu espanhol. Assim lançou o primeiro motivo, a encruzilhada atual: Israel está trancado, há muito tempo, e nenhum aspecto está melhor do que estava, há seis anos. Ressalta a situação econômica-social e o conflito israelense-palestino entre os principais problemas. ”Estamos em um beco sem saída”, e agrega, “se tenho a menor possibilidade para fazer uma mudança no rumo do país, devo fazer”, afirma.

O segundo motivo tem sua origem nos protestos de 2011, em que 10% da população saiu às ruas gritando “o povo clama justiça social”, com a mesma melodía do lema “o povo unido jamais será vencido”. O fato de ter encabeçado a comissão que escreveu o informe, de como dar satisfação às demandas da sociedade e melhorar a situação geral do país marcou Trajtenberg para sempre, porque entendeu exatamente a mensagem do povo e a importância do momento histórico do país. Sua participação o levou a anunciar que “se o governo não fosse realizar as recomendações deste informe, ele assumiria a responsabilidade, sem ter muita noção, nesse momento, do que esta responsabilidade significava, um anúncio muito pessoal, sem dúvida. Quando viu a falta de intenção do governo de implementar as propostas, as demoras e desculpas, sentiu-se em dívida con o público.

A falta de relacões com os palestinos

Trajtenberg é a cara do projeto econômico da União Sionista, mas, segundo ele, todas as questões estão ligadas. O poço sem saída, ao qual se referiu quando explicou os problemas sócio-econômicos do país, inclui também o campo do conflito israelense-palestino. Nos últimos seis anos, “não existiu nenhuma iniciativa israelense de retomar seriamente as relacões com os palestinos”, afirma. A política israelense não pode insistir em evitar que nos imponham condições, com respeito ao conflito com os palestinos. A falta de iniciativa, palavra esta última que, segundo ele, não existe no glossário do último governo. Somente nos tem gerado uma inimizade com os Estados Unidos, que não tem precedentes, que Europa não nos de as costas. Claramente, isto pode ter grande repercussão no campo econômico, afirma: Israel está no limite de sanções econômicas, por parte de muitos países europeos. Trajtenberg acredita que “precisa-se gerar um processo de abertura a uma iniciativa israelense, que se ligue à iniciativa árabe”. Necessita-se congelar a construção de assentamentos imediatamente e gerar confiança mútua entre os dois lados. Segundo ele, o momento na zona é excelente para que isto aconteça. Existe um inimigo comum no Oriente Médio, o ISIS, e por isto, existem interesses comuns entre os países. Israel deve unir-se a eles neste tema e, a partir daí, tomar a iniciativa para iniciar acordos que demonstrem progressos e formem uma base para um acordo final com os palestinos. Devemos tomar responsabilidade por nossas vidas e não deixarmos levar somente pelas circunstâncias e golpes de efeito de pequenos grupos. Conectando-se à economia, outra vez, admite que Israel tem obrigação moral de melhorar a situação econômica dos palestinos.

A Winston Churchill não, a Bibi Netanyahu também

Trajtenberg admitiu conhecer bastante bem a Netanyahu, ter conversado muito com ele durante os últimos anos, mas explica que Netanyahu é “muito inteligente, muito culto e patriota. Ponto”. Nos últimos seis anos, demonstrou que, quando pode fazer uma mudança, não quer. Em sua opinião, esgotamos todas as razões pelas quais Bibi não deve ser eleito de novo e provocar mudança de governo é a essência de uma democracia. Não basta ir apenas votar, precisa-se fazer com que Netanyahu não seja o próximo primeiro ministro. Da mesma forma que em julho de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, Churchill era o grande herói mundial, mas nas eleições, não foi eleito. O povo britânico entendeu que Churchill fez sua parte, mas necessitava-se uma mudança. Isso é o que falta hoje em Israel, da mesma forma que o governo de Churchill não podia cumprir com as necessidades do pós guerra, o governo de Netanyahu não pode hoje, em Israel. A União Sionista está composta de gente com experiência parlamentar, com concepções e valores democráticos e civis. Não são fanchotes e isso deve ser respeitado. No partido, houve discussões muito severas, mas o projeto apresentado reflete a diversidade de idéias e opiniões, mas com um grande denominador comum. Se o projeto fora levado à prática, fará uma mudança.

E o dia seguinte

Quando enfrentou a questão sobre o que acontecerá no dia após as eleições, a resposta foi menos exata, comparando com os termos que usa Trajtenberg, quando se refere ao tema econômico. Primeiro, esclareceu que não sabe, nem com quem formará coalizão. Acredita que existirá um bloco impedindo a possibilidade de que Netanyahu forme o próximo governo e, quando isto ocorra, o presidente Rivlin “terá o prazer de dar a Isaac Herzog (o líder) a possibilidade de formar o seu”. Em tais circunstâncias, os partidos menores e os ortodoxos se unirão à coalizão, com liderança da União Sionista.

Primero ato como Ministro de Finanças

Uma das grandes injustiças que prevalece ainda em Israel, se observa na distribuição do orçamento nacional. Segundo Trajtenberg, ninguém sabe dizer quanto dinheiro outorga o governo aos assentamentos que estão fora dos limites de 1967. Se trata de dinheiro que está “escondido” sob muitas rubricas orçamentárias. O primeiro que Manu pretende fazer no caso de liderar o Ministério de Finanças é revisar o orçamento nacional e esclarecer quanto é e para onde vai. Segundo ele, deve repartir-se do acordo a parâmetros universais e transparentes: demografia, necessidades, etc. Entretanto, isto não ocorre hoje, não somente com respeito ao dinheiro destinado a assentamentos, se não que também com o orçamento destinado a distintos setores sociais. Por exemplo: o religioso nacional recebe 50% a mais que outros, na área educacional. Esta é uma discriminação institucionalizada, baseada em velhos acordos de coalizão. Será difícil mudar esta situação, mas não temos de ver como impossível.

Mudar a noção de crescimento

O ocorrido em Israel, em nível macroeconômico, é melhora e saneamento na situação financeira. No nível micro, o salário não foi incrementado, no ritmo que aumentou o custo de vida e se observam setores empobrecidos e afastados de possibilidade de progresso. A União Sionista pretende mudar esta situação, gerando um crescimento econômico equilibrado e inclusivo. Isto se dará não apenas no campo Hi Tech, mas em industriais e de serviços. Seu projeto tem dois grandes pilares: ocupar-se dos problemas mais sérios atuais, como custo de vida, moradia, educação, sistema de saúde e pobreza. Não de maneira indireta, através da macroeconomia, mas com medidas de efeitos reais para a sociedade. O segundo pilar é conseguir o crescimento equilibrado: capacitação tecnológica e profissional, fazendo foco na forma em que o país e sua economía distribuem o crescimento.

Sionismo, Socialismo e Folclore argentino

Como alguém crescido em um movimento juvenil sionista socialista, mas também no folclore argentino com conteúdo social, resumiu Trajtenberg este encontro, com parte da comunidade latina em Israel, recitando versos das “Coplas del Payador Perseguido”. Tendo esclarecido as bases da plataforma política do partido União Sionista e respondido as perguntas do público, Trajtenberg deixou em aberto outras grandes questões, dentre as quais as respostas estão muito menos claras: Por que os candidatos da União Sionista expressam somente em marcos íntimos, idéias cujo discurso político israelense são consideradas de esquerda? Por que o o partido se absteve de sustentar a bandeira da esquerda em voz alta? Por que, fora Trajtenberg, ninguém se expressou com claridade a respeito do conflito israelense-palestino? Por que até hoje e, depois de ter feito um discurso tão bonito, como sobre a necessidade de trocar Netanyahu, nem Trajtenberg, nem outro candidato da União Sionista, declarou que eles não se unirão com Netanyahu, em nenhuma coalizão? Será que a lição de como os britânicos entenderam que deveriam trocar Churchill, não foi bem entendida pelos atuais candidatos da União Sionista? Así como “el Payador Perseguido”, “peco de atrevimiento” … “Estas cosas que yo pienso / no salen por ocurrencia. / Para formar miz esperencia / yo masco antes de tragar”.

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Comentários    ( 2 )

2 comentários para “Um argentino falando de economia em Israel”

  • Mario S Nusbaum

    15/03/2015 at 15:51

    Já que Churchill foi citado…….
    “Between 1940 and 1945 Winston Churchill was probably the most popular British prime minister of all time. In May 1945 his approval rating in the opinion polls, which had never fallen below 78 per cent, stood at 83 per cent. With few exceptions, politicians and commentators confidently predicted that he would lead the Conservatives to victory at the forthcoming general election.
    … it is hard to imagine anyone who could have played the role of national leader with greater success than Churchill …
    In the event, he led them to one of their greatest ever defeats. It was also one for which he was partly responsible, because the very qualities that had made him a great leader in war were ill-suited to domestic politics in peacetime.”
    Sem querer comparar o Netanyahu com ele, lembro que, ao contrário de 45, o inimigo ainda não foi vencido.
    “Necessita-se congelar a construção de assentamentos imediatamente ” Ele quis dizer como foi feito e ignorado pelo Abbas? Mais do mesmo? Pode ser que o Likud não tenha interesse em um acordo, sinceramente não posso dizer com certeza nem que sim nem que não, mas aposto o que for que o hamas e a AP não sõ não querem como farão o que puderem para evitar um, como sempre fizeram e continuam fazendo,

  • Mario S Nusbaum

    15/03/2015 at 16:06

    Sobre o conflito, inédito e inegável, com os EUA, que tal ouvirmos um terceiro? Proponho a Arábia Saudita, que certamente não é um grande amigo de Israel.

    “Contrary to President Obama’s policy, Saudi Arabia, the other Arab Gulf States, Jordan and Egypt – just like Israel – are convinced that the transformation of the Ayatollahs from a rogue regime to a law abiding regime should constitute a prerequisite/precondition to – not an outcome of – an agreement with Iran. Otherwise, an agreement would pave – rather than bloc – the way for Iran to become a rogue nuclear power.
    Unlike President Obama and Secretary Kerry, and just like Israel, Saudi Arabia is not preoccupied with the technical and procedural aspects of the agreement, but with regional and global rogue, expansionist, subversive, terrorist, non-compliant, anti-American (“Death to America Day“) track record of the Ayatollahs regime since 1979, their gradual occupation/domination of Iraq, Syria, Lebanon and Yemen, their cooperation with North Korea and Venezuela, and their sponsorship of Islamic terrorism via Al Qaeda, Hezbollah, Islamic Jihad, Hamas, the Muslim Brotherhood and other Islamic terrorist organizations, operating throughout the world, including the US mainland.” Ao contrário de alguns não acho que o Obama é anti-semita, mas não consigo nem imaginar o que ele pensa. Por exemplo, será que os EUA não tem coisas muito mais importantes com que se preocupar do que Cuba? Por que ceder, de repente e a troco de nada, à ditadura mais sanguinária e longeva da História das Américas?

Você é humano? *