Um banho de Diplomacia

25/04/2014 | Conflito; Política

Em meu último texto escrevi sobre o fracasso das conversações entre o governo de Israel a Autoridade Palestina. Naquela ocasião, com as negociações Por Um Triz, os próximos acontecimentos eram esperados.

Para que as conversas se iniciassem, Israel se comprometeu a liberar prisioneiros árabes em quatro etapas diferentes, sendo a última etapa no mês de abril, onde os presos a serem libertos estão em cárcere há mais de duas décadas, desde antes dos Acordos de Oslo.

A Autoridade Palestina, AP, se comprometeu a não assinar acordos ou convenções internacionais que pudessem colocar em risco o status e a liberdade de políticos e militares israelenses no exterior, que não pudessem ser julgados por crimes de guerra e por não seguirem os acordos de direitos humanos.

Na semana em que os presos seriam liberados, ninguém sabia qual seria a atitude do governo. Os EUA pressionavam por um lado, oferecendo, inclusive, a libertação de Jonathan Pollard, espião israelense preso há décadas nos EUA. Do outro lado, a pressão vinha da própria coalizão governista israelense. Membros de quase todos os partidos do governo não estão interessados em acordos de paz e, muito menos, em devolver os territórios ocupados para a AP.

O ministro da economia Naftali Bennett disse que sairia da coalizão caso os prisioneiros fossem soltos. Já o ministro das relações exteriores, Avigdor Liberman, da lista conjunta que obteve a maioria dos votos nas últimas eleições, Likud-Beiteinu, disse que não se importaria se o governo caísse em função do desmonte da coalizão e que estava pronto para eleições. Disse até que o próximo primeiro-ministro de Israel poderia falar russo – fazendo uma alusão a ele mesmo!

O governo freia as negociações, não liberta a última leva de prisioneiros e permite a construção de 700 novas casas em Giló, após a linha verde. A coalizão não se desmancha, mas as negociações, sim.

No dia seguinte, Abu Mazen (Mahmoud Abbas), presidente da AP, assina os documentos pedindo a entrada do Estado Palestino como signatário.

E o banho? Começa onde?

Desde que Netanyahu assumiu o governo em finais de março de 2009, tendo Avigdor Liberman como ministro das relações exteriores, o isolamento internacional de Israel vem ficando cada vez mais claro.

Se muitos, como Naftali Bennett, preferem esbravejar que o mundo é antissemita e por isso todos criticam Israel – um debate despolitizado e muito cômodo – eu vejo como uma incompetência da política externa do governo de Israel, que cai em suas próprias armadilhas.

Exemplo claro dessa incompetência foi a crise com a Turquiaת que começou com a humilhante entrevista entre Liberman e o então ministro do exterior Turco. Liberman, em tom de piada, diz aos jornalistas, em hebraico, que colocou, propositalmente, uma cadeira mais baixa para o ministro turco, deixando-o em uma posição de inferioridade. Obviamenteת a tradução correu o mundo e a tensão entre as diplomacias turca e israelense cresceu. Depois, com a invasão da flotilha turca de ajuda a Gaza que foi interceptada pelo exército de Israel em alto-mar, deixando militantes mortos e outros feridos. Os laços entre os dois países foram cortados e até hoje se discutem compensações às vítimas e suas famílias para que as relações possam ser restabelecidas.

Em relação ao governo americano, não é preciso ir tão longe. Os ataques de membros do gabinete israelense ao esforço de John Kerry para se chegar a um proto-acordo foram constantes, deixando a política externa israelense em rota de choque com a política externa americana pelo menos duas vezes no último período.

Mas quem vem demonstrando perspicácia na política externa é Mahmoud Abbas.

Desde o início das negociações o governo Netanyahu apresenta novas questões dizendo serem primordiais para a assinatura de qualquer acordo. Exigiu da AP o reconhecimento de Israel como o Estado Judeu. Abbas desconversou, disse que a OLP já havia reconhecido Israel em 1993 e que o caráter judaico de Israel era problema dos Israelenses discutirem.

Outro argumento usado pelo governo israelense era de que a AP não representava todo o povo Palestino, afinal de contas o Fatah, na Cisjordânia, e o Hamas, em Gaza, não tinham relações políticas. Além disso, qualquer negociação com o Hamas era impossível, por se tratar de uma organização terrorista que visa acabar com Israel.

Durante todo o período em que as conversas se estenderam, o governo liderado pelo Likud-Beiteinu tentou “jogar a batata quente” para o lado palestino, querendo culpá-los por qualquer fracasso.

Mas depois de Purim as máscaras caem.

Não era novidade que esse governo não avançaria nas negociações, a questão era ver até onde eles iriam.

Quando Abbas assina os documentos de acordos internacionais, o governo israelense tentou a todo custo culpá-los pelo fim das conversas. Contudo, até mesmo o secretário americano John Kerry disse que a intransigência israelense e o não cumprimento do que foi acordado é que levaram à crise.

O que não foi dito é que os documentos assinados pelo governo Palestino não pediam a inserção em acordos assinados através da ONU, ou seja, não colocaria em risco “indivíduos” israelenses que poderiam ser responsabilizados por crimes no exterior. Foi um susto, uma ameaça, mas que não representava efetivamente muita coisa.

Qual a resposta de Israel? Cortar o repasse de impostos que são recolhidos nos territórios ocupados e que, por direito, são dos palestinos.

Abbas responde dizendo que caso não seja do interesse de Israel ele iria “fechar” a AP, entregaria as chaves ao governo Israelense. Isso significa que não haveria nem um proto-governo palestino que pudesse gerir as áreas que foram acordadas em Oslo. O único responsável pelos territórios ocupados seria o governo israelense. A solução de dois Estados estaria sepultada de vez e Israel seria um país com cerca de 11 milhões de habitantes, a sua maioria árabe.

O último golpe diplomático no governo israelense foi o acordo assinado entre o Fatah e Hamas. Imediatamente o governo de Israel disse que agora o Fatah acabou com qualquer possibilidade de se discutir a paz e a falácia de que todos os palestinos são terroristas volta ao cenário.

Mas o que foi assinado? Não seria interessante para Israel ter um governo único em todo o território Palestino (o ocupado e o embargado)?

O que Fatah e Hamas assinaram agora foi a construção de um governo interino com membros de todos os grupos envolvidos e eleições. Sim, eleições. Além disso, o Hamas foi convidado para integrar a OLP. Cabe notar que a OLP reconhece o Estado de Israel e caso o Hamas e qualquer outro aceitem entrar para a OLP, terão que aceitar os termos juntos.

Para além disso, essa movimentação mostra o fortalecimento do Fatah e o enfraquecimento do Hamas. O cerco a Gaza tem implicações sérias sobre o Hamas – sendo esse um dos objetivos.

Fundamental lembrar que a retórica de que não se pode negociar com o Hamas ou com outros grupos terroristas é mentirosa. Netanyahu negociou com o Hamas o fim das agressões em 2011 e a libertação de Gilad Shalit em 2012 (onde 1027 palestinos foram soltos).

O acordo entre as facções palestinas dará ao Fatah a possibilidade de manter o controle de todo o território caso vença as próximas eleições. Fortalecer esse acordo e fortalecer o Fatah deveria ser o papel de qualquer governo israelense que tenha intenções sérias de se chegar a um acordo de paz.

A atual política externa israelense não está errando por não saber o que está fazendo. Está errando porque que a sua política é errada. Está errando porque a política do atual governo não é fazer a paz, não é devolver os territórios ocupados. A máscara caiu a e a face colonizadora de Bibi, Liberman e Bennett está à mostra para todos vermos. Israel vem jogando com o governo palestino há anos e agora, pela sua indisposição política, está sendo colocado em um beco sem saída.

Abbas e sua equipe de negociadores vêm mostrando ao mundo que quem não quer negociar é o truculento governo de Bibi e companhia que, como descrito acima, em função da sua enorme arrogância e intransigência, vem perdendo parceiros no cenário internacional a cada dia.

Foto de capa: http://harvardmodelcongress.org/boston/wp-content/uploads/2013/07/Foreign-Affairs1.jpg

Comentários    ( 10 )

10 comentários para “Um banho de Diplomacia”

  • Marcelo Starec

    25/04/2014 at 21:04

    Oi Marcos,
    De pronto vai uma questão – vc. realmente entende que o Hamas renunciou ao terrorismo e aceitou a existência do Estado de Israel?…Pergunto pois há uma série de vídeos recentes de sites confiáveis mostrando membros do Hamas cantando: “Do rio ao mar, a palestina será livre”…Além de frases como – “não haverá lugar para judeus na palestina!”…Por outro lado, veja o recente post aqui mesmo do Nelson Burd “Haifa, Haifa”, onde fica claro como os árabes vivem dentro de Israel. Acho que a negociação prossegue e há ainda um longo caminho a percorrer, Marcos! E o motivo central é simples – a aceitação do vínculo judaico e do direito judaico de reconstruir a pátria do povo judeu, na palestina!

    Abraço,
    Marcelo.

    • Marcos Gorinstein

      28/04/2014 at 21:59

      Oi Marcelo,

      Os próximos acontecimentos na política interna palestina são fundamentais para vermos o grau de comprometimento tanto do Fatah quanto do Hamas no processo de reconciliação. O Hamas está muito enfraquecido em Gaza, principalmente depois do golpe que tirou o Mursi da presidência do Egito, fechando novamente a fronteira com Gaza. A situação em Gaza é crítica e o Hamas não está conseguindo revertê-la. Nos dois lados há grupos que querem construir seus Estados em todo o território da chamada Palestina histórica. Do lado israelense, a grande maioria da coalizão governista. A entrada do Hamas para a OLP – que poderá acontecer em breve – obrigará o grupo a reconhecer Israel e abandonar a violência. Soma-se a isso depoimentos de Abbas dizendo que o governo palestino de coalizão vai reconhecer Israel. De qualquer forma, é fundamental, nesse momento, o fortalecimento do Fatah. Caso o Hamas ganhe as próximas eleições, o quadro mudará completamente. A política é baseada em correlação de forças e o que eu defendo é que ajudemos a fortalecer quem mais próximo está da aceitação de dois estados para dois povos.

    • Marcelo Starec

      29/04/2014 at 06:08

      Oi Marcos,

      Obrigado! Gostei da sua resposta, especialmente o ponto: “o que eu defendo é que ajudemos a fortalecer quem mais próximo está da aceitação de dois estados para dois povos.” No meu entender, essa é a única solução viável.

  • Daniel

    26/04/2014 at 02:41

    Marcos, a atual coalizão que forma o Governo foi eleita (embora indiretamente) pela população israelense. Concordo com a sua opinião em todos os pontos, e isso me leva a crer que a maioria dos israelenses apoia a postura do atual do Governo. Você também tem essa impressão?

    • Marcos Gorinstein

      28/04/2014 at 22:10

      Oi Daniel, em pesquisas recentes, divulgou-se que cerca de 65% da população israelense defende a criação de dois Estados. Apesar do conflito ocupar um espaço enorme no momento da decisão do eleitor em quem votar, outros fatores também influenciam. Também temos que lembrar que dentro da coalizão há dois partidos que defendem os dois Estados abertamente, o HaTnuah, da ministra da justiça, Tzipi Livni e o Yesh Atid, do ministro das finanças, Yair Lapid. Em suas campanhas, esses partidos sempre deixaram claro a defesa de dois estados e o Yesh Atid foi o segundo partido mais votado. A enorme e desesperada campanha feita pelo governo para deslegitimizar o Fatah após a reconciliação com o Hamas tem como objetivos claros jogar o ônus do fracasso das negociações para o lado palestino, bem como ganhar a opinião pública israelense. Note-se que também Tzipi Livni e Yair Lapid, foram contra a reconciliação, porém nenhum dos dois partidos chegou a dizer que sairiam da coalizão no momento em que Israel decretou o fim das negociações quando não cumpriu com o acordo de liberar o último grupo de prisioneiros e liberou a construção de 700 novas moradias em Giló, após a linha verde.

    • Daniel

      29/04/2014 at 00:07

      Marcos, na sua opinião o que leva aos membros mais moderados da coalizão (Tzipi Livni e Yair Lapid, por exemplo) permitirem que o governo tome estas medidas tão negativas para a paz e a imagem de Israel perante o resto do mundo? O que os mantém numa coalizão que toma tais medidas? Em que posição ficou o Likud e o Israel Beitenu na eleição passada? Em que posição ficariam hoje em intensões de voto? Não sei se você tem todas essas informações, mas de qualquer maneira, agradeço! Abrs

  • Raul Gottlieb

    02/05/2014 at 11:17

    Como tomar a sério uma opinião que qualifica o governo israelense de truculento?

  • Mario S Nusbaum

    02/05/2014 at 18:36

    FATOS:
    1) Abbas ganha de goleada em PR
    2) ALGUNS membros do governos israelense não querem um acordo justo/razoavel
    3) NENHUM dos lideres palestinos quer
    4) Israel está se isolando cada vez mais
    5) Só dá para negociar com o hamas cedendo a tudo o que eles querem

  • Mario S Nusbaum

    02/05/2014 at 18:42

    ” cerca de 65% da população israelense defende a criação de dois Estados. ”
    Ou seja, como Israel é uma democracia, se realmente houvesse a chance de se criar dois Estados (um judeu e um palestino, não dois palestinos como TODAS as lideranças palestinas até hoje exigiram e continuam exigindo), o governo seria obrigado a aceitar.
    Na minha opinião a maioria dos israelenses quer mesmo isso, mas sabe que por enquanto não é possível e até agora nunca foi.

  • João K. Miragaya

    03/05/2014 at 16:28

    Oi Marcos.

    Achei interessante a sua análise, mas discordo de parte da sua narrativa.

    Estou 100% de acordo que a política externa israelense mete os pés pelas mãos, e grande parte da culpa se deve a três dos quatro mais importantes ministros do governo: Liebermann, Ayalon e Bennet. Tudo o que Livni construiu nos três anos em que exerceu seu cargo, o atual ministro do exterior destroi com o auxílio de parte do governo. No entanto, acho que a frase de Liebermann foi mal colocada. A entrevista dada por ele não me deu em nenhum momento a sensação de que a sua intenção seja romper a coalizão, e isto é percebido mais facilmente quando se tem acesso a mais do que um comentário. O líder do Israel Beyteinu, inclusive, tenderia hoje a sair perdendo em caso de pleito, ao contrário do Likud, que aparece em primeiro lugar disparados nas pesquisas.

    Isto, também, apesar de duvidar das reais intenções do nosso primeiro ministro, me faz crer que ele ainda tenta ao máximo consertar as bobagens que os outros fazem. Bibi sabe como ninguém a importância das relações exteriores, e entende bem as regras deste campo. Ele apenas não tem controle sobre parte da sua coalizão, a meu ver.

    Mas acho que os palestinos, desta vez, perderam uma real oportunidade de dar este “banho” de diplomacia em Israel: o acordo entre Abbas e Hamas, sejam feitos quantos discursos o líder palestino quiser, os coloca em um patamar abaixo de Israel. Não sei quais são de fato os planos do líder da Autoridade Palestina, e posso estar equivocado, mas a princípio este acordo, em relação à diplomacia, é extremamente negativo. Abbas meteu os pés pelas mãos e deu razão a Israel em um momento extremamente positivo a ele. Uma coisa é negociar com o Hamas. Outra é trazer o Hamas para o governo.

    A verdade é que para os dois lados é muito difícil conciliar política externa com política interna. É difícil saber o que é mais vantajoso politicamente, pois os EUA e a União Europeia não votam nas eleições internas de Israel.

Você é humano? *