Um brinde a vitória, mas que vitória?

01/09/2014 | Conflito, Opinião.

Curioso mesmo, mas nem tanto surpreendente são essas lideranças do Hamas. Estariam eles comemorando o que? Seria a queda vertiginosa do Bibi frente as pesquisas na opinião pública? Seria a sua volta ao cenário político do oriente médio, retirando do foco os seus 40,000 terroristas sem “salário” há 4 meses? Não, definitivamente não! Penso que eles estão comemorando, o que na população israelense ficou latente nesses últimos dias, o fato do Hamas definir o começo e o fim dessa guerra.

 

O Hamas definiu quando começaria essa guerra ou operação (como o governo gosta de chamar), sequestrando três jovens judeus e assassinando-os a sangue frio, fato negado a princípio pelo próprio Hamas e um argumento ainda muito usado por todos aqueles que fazem do ódio a direita (ou ao governo Bibi) um objetivo de vida. Para estas pessoas, o sequestro e assassinato de três adolescentes teria sido apenas mais uma estratégia do primeiro ministro para começar uma nova guerra já que a paz não seria o seu norte.

Não contavam com a confissão de um alto oficial do Hamas que afirmou há alguns dias que o grupo foi o responsável pela elaboração e perpetuação deste crime. Sugiro a todos que questionaram ou duvidaram do Bibi a corrigir seus textos, tweets, posts, etc. Seria uma conduta razoável e ética. Se antes muitos acusaram o 1º ministro de estar mentindo para lograr um boicote ao processo de paz, agora são os mesmos que, apesar de saberem que ele estava falando a verdade, não enxergam razões para reverem seus prognósticos. Eles insistem: “Bibi precisa exercer o discurso do medo, porque não deseja a paz”, negando o medo que para a maior parte da população tem se mostrado justificado dia a dia.

Ou o Hamas estava mentindo antes (quando negou o sequestro) ou está mentindo agora. Triste saber que aqui dentro de Israel se acredita muito mais em um grupo terrorista decidido a nos matar de forma declarada do que no governo do seu próprio país, sujeito a todas as críticas que possbilita a liberdade de expressão.

Mas enfim: Existe a linha que diz que o Bibi aproveitaria esse trágico sequestro para executar seu plano de enfraquecer o Hamas na Cisjordânia, o que já desejaria há tempos e não o fez por temer represália da opinião mundial. Acho que sim, ele pegou uma carona nesse sequestro e fez o que tinha que ser feito. O Hamas também agiu de forma não menos revelada para definir o fim da guerra. Ele quebrou o cessar-fogo 9 vezes, caro leitor, 9 vezes em 50 dias. Em Israel, apesar das pancadas que o governo recebia da extrema direita ou esquerda, o discurso era sempre o mesmo:

– “ Silencio será respondido com silencio” e – “Tiros serão respondidos com tiros”.

Isso deixou o Hamas numa posição “confortável”, se é que dentro de bunker a 150 metros de profundidade pode-se dizer que alguém esteja “confortável”, permitindo-lhe dizer quando a guerra iria acabar, ou sendo mais preciso, o dia e hora exata de quando a operação Margem Protetora iria acabar. E assim foi, Khaled Mashaal, Ismail Haniya e outras aberrações do Hamas foram para as redes sociais e disseram que o cessar-fogo estava perto, mesmo com a delegação de Israel fora do Cairo. A partir do momento que o Hamas decidiu ir à guerra, ele já era o vencedor, ele ganha de qualquer maneira, porque a morte, de qualquer um dos lados, lhe é interessante e proveitosa.

E daqui pra frente? Tudo vai ser diferente? Não Roberto Carlos, não podemos usufruir de sua linda canção.

Se houver um Estado palestino laico, governado pelo Fatah, não dou um ano pro Hamas criar um estado dentro de outro estado, assim como seu primo-irmão xiita no sul do Líbano, o Hezbolah. Ai, caro leitor, quero ver o Abu Mazen, lidar com isso. Não existe a chance de qualquer organização terrorista trazer um futuro promissor a sua população, futuro esse que poderia ser bem mais atraente a população palestina, senão houvesse os roubos, corrupções ou ainda investimentos do Hamas no Qatar (o novo porto seguro de Mashaal).

Não é porque o Abbas no momento é a liderança mais moderada no lado palestino que devemos compreendê-lo como um parceiro para a paz. Ele continua mandando dinheiro a terroristas com as mãos sujas de sangue em prisões de Israel e pasmem, quem matou mais judeus, recebe mais verba, como se fosse um programa de metas mesmo, essa meritocracia [ref] http://mfa.gov.il/MFA/ForeignPolicy/Terrorism/Palestinian/Pages/Palestinian-Authority-funds-terrorists-June-2014.aspxhttp://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4534940,00.html,  http://www.jpost.com/Opinion/Op-Ed-Contributors/Abbass-intransigence-and-insolence-342111http://www.jpost.com/Diplomacy-and-Politics/Bennett-PA-President-Abbas-is-a-mega-terrorist-360617http://www.jpost.com/Diplomacy-and-Politics/Israel-to-withhold-funds-from-PA-equaling-amount-paid-each-month-to-prisoners-348062[/ref]….

Triste e revoltante! Eu não voto no Bibi, ele não é o meu político preferido, mas é o que tem por hora, e numa guerra, onde está chovendo misseis em cima de nós, temos que dar o apoio incondicional, É Guerra “meu chapa”! O mesmo intelectual que escreveria que ele é fraco, falso, e outros adjetivos, talvez não termine essa frase pois teria que ir pro bunker antes do fim dela. Desejo que o Hamas se dissolva, apesar de achar utópico, ainda mais numa população carente de informação, liberdade e desenvolvimento. É o fio de esperança, ainda que falso, de que algo vai melhorar.

Em algum tempo tudo voltara como antes, isso é imperativo! Aqui é assim, sonham aqueles que conseguem enxergar que a paz reinará nesta região. Não amigos, a paz estável e duradoura está longe, muito longe daqui. O que veremos serão períodos de guerra ou de silencio. O Hamas definiu e definirá de novo. O que tem ser feito sim neste momento e exigir a desmilitarização da faixa de gaza, agora!!!! Que vitória Mashaal, esse seu sorriso de canto de boca me deixa incomodado, do que você ri? Não estamos todos muito orgulhosos do que se tornou a região nos últimos 50 dias, você também não deveria… Espero que o Hamas não defina a próxima guerra num futuro próximo. E, se definir, espero que o Bibi cumpra a sua promessa:

– “ Silencio será respondido com silencio” e – “Tiros serão respondidos com tiros”


Marcelo Marcelo Korn  mora em Israel há 9 anos (desde 2005). Cursou no pais duas faculdades: Engenharia de Sistemas e Ciência da Computação no Hadassah College of Technology em Jerusalém. Trabalha na Intel desde 2008, atualmente ocupa a função de Engenheiro de Software e Firmware no campus Jerusalém(IDCJ) – Israel Design Center Jerusalém. (LinkedIn – Marcelo Korn)

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Comentários    ( 8 )

8 Responses to “Um brinde a vitória, mas que vitória?”

  • Daniel

    01/09/2014 at 16:31

    O texto mostra total descrença e falta de confiança no diálogo. Parece que não há solução para a paz na região, até que o petróleo do Oriente Médio acabe.

    Não concordo com esta visão, posso estar errado mas vejo uma possibilidade de resolução do conflito através de concessões territoriais e acordos diplomáticos. Prefiro que o Governo israelense me mostre na prática se estou certo ou errado, pois a possibilidade de eu estar certo é muito mais promissora e positiva para todos na região do que se limitar a guerra eterna e nem ao menos tentar algo diferente.

    Não podemos esperar a pro-atividade do Hamas, quem tem mais condições (por uma série de motivos) para iniciar o processo de paz é Israel. Além do que Israel tem ferramentas suficientes para não ter grandes danos, caso o Novo Estado Palestino comece uma guerra (não parece que as condições bélicas seriam muito diferentes do que vemos hoje entre Israel x Hamas em Gaza).

    Acho fascista pensar que não há a menor possibilidade de que o Hamas não se fortalecerá dentro desse Novo Estado Palestino e provocará danos a Israel. Não sou inocente a ponto de pensar que o Hamas desistirá dos seus objetivos só porque Israel concedeu o direito de auto-proclamação e independência a Cisjordânia. Mas prefiro acreditar que a grande massa da população, e o Fatah, não deixarão que eles tomem o poder na região. Prefiro acreditar que é possível convencer o Qatar e os demais financiadores do Hamas a sucumbirem seu apoio financeiro, visto que se o Hamas perder força, Gaza também pode ser entregue ao Novo Estado Palestino.

    Não acho que a possibilidade disso tudo acontecer seja muito maior do que dar errado mas acho que devemos tentar!

    Abrs

    • Marcelo Korn

      02/09/2014 at 13:00

      Caro Daniel, obrigado pela sua participacao.

      Acho que sua análise nao condiz com a realidade que vivemos. Concessões territoriais e acordos diplomáticos ja se tentaram varias vezes (Camp David, Oslo, etc), mas quando se tem que lidar com regimes autoritarios e totalitarios nao ha conversa infelizmente.

      Nao tenho um discrédito no dialogo e sim tenho uma profunda descrença numa das partes do dialogo, no caso o Hamas.

      Você diz que precisa acreditar “que o Hamas é um parceiro para a paz”, que precisa acreditar que “é possível convencer o Qatar a não financiar uma organização terrorista”… Eu te indico que eu não preciso acreditar em nada. Eu faço uma análise de tudo o que foi feito e a manutenção dos discursos de ódio e do terrorismo como ferramenta de reinvindicação política, e digo de forma cética que a paz não é possível enquanto o Hamas for o Hamas.

      Quanto a sua citação, a palavra fascista, gostaria de lhe pedir para elaborar melhor a sua frase pois eu nao entendi o que voce quis dizer. Talvez voce nao tenha usado palavra fascista corretamente. So a critério de entendimento, procurei a definicao de fascista na internet:

      “O que é Fascista:
      Fascista é um adjetivo de dois gêneros que descreve uma pessoa que tem ideias fascistas ou que pertence ao fascismo.

      Um fascista é uma pessoa que faz parte ou que defende o estabelecimento do fascismo, um regime político caracterizado por medidas extremistas e autoritárias. Registros históricos revelam que o fascismo prejudica a vida econômica de um país, causando o enfraquecimento gradual de economias fortes. Atualmente, a palavra fascista é usada quase sempre de forma pejorativa.

      Em alguns casos, a palavra fascista pode ser usada em sentido figurado, indicando uma pessoa excessivamente autoritária, que não tem preocupações com a liberdade dos outros. Ex: O patrão dele é um fascista, vive oprimindo os seus trabalhadores!”

      Muito obrigado e abcos

  • Mario Silvio

    01/09/2014 at 23:38

    “O texto mostra total descrença e falta de confiança no diálogo. ”
    Daniel, só o Marcelo pode confirmar ou negar isso, mas a minha impressão não é essa.Na minha opinião ele (eu também) é descrente e não confia no diálogo com bestas selvagens como as do hamas. Veja esse trecho:
    ” Desejo que o Hamas se dissolva, apesar de achar utópico, ainda mais numa população carente de informação, liberdade e desenvolvimento. É o fio de esperança, ainda que falso, de que algo vai melhorar.”
    Eu escrevi aqui mesmo, em outro tópico, que só consigo enxergar uma possibilidade de paz se e quando os próprios palestinos se livrarem dessa desgraça, da qual eles são, de longe, as maiores vítimas.
    Quanto a tentar algo diferente, se não estou enganado, isso já foi feito, várias vezes. Quantas vezes você acha que deve ser tentado?

    • Marcelo Korn

      02/09/2014 at 13:05

      Caro Mario Silvio, obrigado pela partipacao

      “O texto mostra total descrença e falta de confiança no diálogo. ”

      Como escrevi diretamente ao Daniel, nao tenho descrença na força do dialogo como um valor em si, e sim uma profunda descrença numa das partes do dialogo, no caso o Hamas. Sem o Hamas existe alguma esperanca. Ele eh movido em sua proposta de destruicao de Israel, ja teve “n” oportunidades para mudar seu estatuto, mas nao o fez. Portanto com o Hamas nao se conversa.

      Obrigado e abcos

    • Mario Silvio

      02/09/2014 at 16:26

      Eu que agradeço Marcelo, e fiquei contente em saber que minha interpretação do seu artigo está certa.
      Dialogar com o hamas seria o que este cartoon mostra:
      http://s3.legalinsurrection.com/wp-content/uploads/2014/07/Half-Way-590-LI.jpg

  • Marcelo Starec

    02/09/2014 at 00:23

    Oi Marcelo,
    Parabéns pela excelente análise! Infelizmente, eu gostaria de acreditar no oposto, mas o fato é que, no curto prazo, o que tem de ser feito é mesmo o que você propôs, em uma frase – “O que tem ser feito sim neste momento e exigir a desmilitarização da faixa de gaza, agora!!!!” É só a partir daí que se pode pensar em uma perspectiva mais abrangente pois,sem essa necessária desmilitarização do Hamas, o que teremos será mesmo uma mera repetição dos fatos….
    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    02/09/2014 at 03:15

    Olá Daniel,

    Você poderia elencar a série de motivos pelos quais Israel pode iniciar o processo de paz que o Hamas recusa abertamente?

    Você poderia dizer também o que significa que Israel tem ferramentas para não sofrer grandes danos? Quais seriam os pequenos danos? A morte de apenas algumas centenas de cidadãos, a destruição de uma dezena de casas – seria isto um dano pequeno e aceitável?

    Se for isto eu queria muito ver você fazendo campanha política em Israel: “Votem em mim que eu garanto que apenas poucos de vocês serão mortos pelo Hamas”. Vai ser um sucesso!

    Se um Estado Palestino com as fronteiras fechadas produz o que vimos em Gaza, calcule com as fronteiras abertas, Daniel!

    O Fatah e a grande massa da população não impediu que o Hamas tomasse o poder em 2007.O que terá mudado agora? Você acha que a maior parte da população russa era comunista em 1917?

    A frase que começa com “Acho fascista pensar …” não me parece fazer sentido. Tem um “não” sobrando, penso eu. Mas mesmo sem este “não” como pode ser fascista pensar em alguma coisa? O que você entende por fascismo?

    Abraço, Raul

Você é humano? *