Um choppe e uma aula, por favor!

Um interessante fenômeno cultural israelense são as palestras ministradas por professores universitários em bares.

Sim, isso mesmo. Você vai a um bar e, no lugar de um show de música ao vivo, ou um espetáculo de comédia em pé, há um renomado professor, de alguma das principais instituições de ensino superior do país, dando uma aula sobre seu campo de especialidade, ou contando aos presentes sobre suas atuais pesquisas e seus incríveis desdobramentos.

Imagino que seja um tipo de evento existente em outros países – a idéia, sensacional em minha humilde opinião, não é tão complexa assim – e serei sincero ao dizer que não sei como surgiu exatamente. O que sei é que o Instituto Weizman de Ciências, localizado em Rehovot, realizou, no último dia 30 de abril, a quinta edição do evento anual Ciência no Bar (Madá al haBar – מדע על הבר), chegando a 55 bares e cafés da Grande Tel-Aviv.

No vídeo abaixo, em hebraico, produzido para a divulgação da quarta edição do Ciência no Bar, pode-se ter uma idéia do clima das palestras:

Aqui em Jerusalém, também temos alguns eventos semelhantes. Oficialmente, a Universidade Hebraica, em conjunto com a União dos Estudantes, organiza dois eventos: Professores no Bar (Martzim al haBar – מרצים על הבר) e Professor de Pantufas (Professor beNaalei Bait – פרופ’ בנעלי בית).

O primeiro evento é análogo ao existente em Tel-Aviv (veja abaixo o mapa dos bares e das palestras disponíveis, pelo Centro de Jerusalém) e já teve quatro edições, mas a Universidade Hebraica se usa do fato de ter grandes acadêmicos em todas as áreas do conhecimento e também inclui palestras sobre assuntos menos tecnológicos que as do Instituto Weizman, como filosofia e antropologia.

מרצים על הבר

פרופ בנעלי ביתO segundo evento é mais inusitado. Realizado no auge do inverno, consiste em palestras ministradas por professores na sala das casas dos estudantes. Com uma certa antecedência, a Universidade abre inscrições e todos os estudantes interessados podem oferecer suas casas. Quem tiver as melhores salas de estar recebe uma palestra. Como as vagas são limitadas, este evento funciona – ao contrário dos demais – apenas com inscrição prévia. O poster de divulgação, naturalmente, sempre traz o Prof. Albert Einstein – o mascote da Universidade Hebraica – de pijama e pantufas.

Mas não se trata apenas de grandes eventos anuais. A vida universitária oferece todo tipo de palestras a serem apreciadas junto a um bom pint de cerveja. A organização Kol Echad, por exemplo, através de seu núcleo estudantil presente no campus da Universidade Hebraica, organizou um interessante evento ao qual compareci. Em um bar na movimentada Rua Aza, no bairro de Rehavia, onde moro, Jan Freigang, o Alto-Representante da União Européia em Israel (cargo equivalente ao de um embaixador) e Keith W. Mines, o assessor político da Embaixada dos Estados Unidos em Tel-Aviv comentaram sobre as relações que seus países (ou o bloco como um todo, no caso da União Européia) mantém com Israel, relataram um pouco de seus papéis na mediação das negociações com os palestinos e explicaram quais as propostas sobre a mesa em caso de um acordo final.

As perguntas da platéia, geralmente por um período longo, de até meia-hora, são um marco desses eventos e um episódio engraçado ocorreu nesta palestra específica. Após o diplomata europeu explicar que a União Européia estava disposta a oferecer a Israel um status de parceria inferior apenas ao gozado por seus Estados-membro condicionado à assinatura de um acordo de paz, um rapaz fez a seguinte pergunta: “Vejo que vocês falam com otimismo sobre um possível acordo nos próximos meses e sobre as garantias oferecidas pelo governo israelense. Mas eu queria saber como vocês fazem para confiar na palavra do nosso primeiro-ministro, se nem nós mesmos confiamos?”. Esta pergunta, infelizmente, ficou sem resposta.

Ainda no clima dos eventos menores, os estudantes do Departamento de Relações Internacionais – onde estudo – têm organizado sua própria série de palestras, convidando os professores preferidos do departamento. Fui a duas edições desta série, com os dois professores que lecionam os cursos centrais do primeiro ano da graduação.

O professor Gadi Heiman, cujo status junto aos alunos beira ao de um rockstar, nos trouxe a palestra “Como jogar poker com uma mão fraca”. Diante de uma bar lotado, contou sobre as incríveis peripécias da liderança do Movimento Sionista na primeira metade do século XX, quando não tinham nada a oferecer às grandes potências (Reino Unido, Rússia, Estados Unidos, Alemanha), mas conseguiram juntar seu apoio à causa na base do blefe.

Na edição seguinte, o professor Arie Kacowicz, com seu pesado sotaque argentino, fez uma deliciosa análise da evolução da conjuntura geopolítica mundial ao longo de cinqüenta anos: as cinco décadas de sua série de filmes preferida – 007. Desde Dr. No (1962) até Skyfall (2012), o prof. Kacowicz analisou a transição da Guerra Fria para o mundo multipolar, a guerra contra o terrorismo e a ascensão das corporações e do crime organizado como agentes do sistema internacional – partindo, claro, dos enredos dos filmes, das bondgirls e dos vilões derrotados pelo agente James Bond.

Na próxima vez que estiver por Israel, não deixe de conferir a programação local e, quem sabe, sair para tomar uma boa cerveja e participar do milenar costume judaico de transmissão e discussão do conhecimento.

LeChaim!

Foto de capa: http://www.ispra.org.il/image/users/196019/ftp/my_files/newslatter/%D7%9E%D7%93%D7%A2%20%D7%A2%D7%9C%20%D7%94%D7%91%D7%A8%20(3).jpg?id=12573256

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