Um dia de luto

Dois dias depois do terrível atentado terrorista cometido por colonos judeus contra a casa da família Dawabsheh, em que um bebê de um ano e meio morreu queimado e os outros três membros da família tiveram queimaduras seriíssimas em mais de 50% do corpo, alguns grupos de israelenses vão a Duma prestar solidariedade à família e dizer que não compactuam com terroristas.

Um movimento social de Jerusalém chamado Tag Mehir (em oposição ao Tag Mechir. Clique aqui para o artigo sobre o tema), que combate ao racismo e à violência contra cidadãos árabes da cidade e costuma visitar as famílias enlutadas, organiza um ônibus para levar outro grupo. Outro ônibus também foi organizado saindo de Tel Aviv. Inscrevo-me para a visita.

Saio de casa com bastante tempo para não me atrasar. O calor de Jerusalém está sufocante. Seco. Um cheiro de queimado no ar. Há florestas ao redor de Jerusalém que não resistem ao calor seco e se inflamam. Ar pesado.

Chego ao ponto de encontro para pegar o ônibus. Em frente ao centro de convenções de Jerusalém há cerca de 40 pessoas, adolescentes, adultos e idosos, alguns poucos religiosos esperam sob um sol escaldante e uma sensação térmica de 44 graus. Todos se espremem nas sombras das poucas e pequenas árvores a espera do ônibus.

O ônibus chega como se fosse uma miragem. O motorista abre as duas portas e todos correm para dentro. Sentar em um ambiente com ar condicionado era o que todos esperávamos. Mas é um dia pesado. O ar condicionado não funciona. As 15:30 entramos no ônibus e por ali ficamos por mais 15 minutos esperando os que ainda estavam a caminho. A sensação era de que estávamos em um forno. Uma mulher diz que quando está muito quente o ar condicionado não funciona. Todos comentam essa ironia.

Enfim, saímos. Viajamos em direção ao norte da cidade para atravessar para os territórios ocupados pelo checkpoint de Hizme. O acesso é através de um bairro construído já depois da linha verde. Diferentemente de assentamentos mais distantes, o bairro de Pisgat Zeev foi construído próximo de Jerusalém Ocidental e foi integrando-se, estendendo a fronteira municipal.

Após o checkpoint pegamos a Estrada 60, a principal estrada da Cisjordânia, cortando-a de norte a sul.  Viajando em direção ao norte e vamos entrando no território palestino nesse caminho de não mais de 60 quilômetros.

Desde o início da estrada, ainda próximo a Pisgat Zeev, já vemos placas indicando as estradas secundárias que levariam a assentamentos judaicos. A vegetação árida da montanhosa Samária nos indica que também ali o clima está muito seco. Vamos seguindo por entre as montanhas e vales, passando por vilarejos e cidades palestinas. A impressão que tenho é que para cada vilarejo um assentamento é construído: Geva Byniamin, Kochav Yaacov, Maale Michmash, Psagot, Beit El, Ofra.

Paramos na entrada desse último. Não entendi direito o motivo.Disseram que trocaríamos de ônibus por causa do ar condicionado. A esperança de uma viagem mais confortável evaporou no momento em que a porta traseira se abriu e uma mulher religiosa subiu a escada com pressa para fugir do calor. Na hora pensei: “com certeza ela correu para pegar o ônibus esperando o ar condicionado e acabou entrando em um forno. Ainda vai sofrer por ter corrido!”. O organizador da visita vem na direção dela e ela se apresenta como jornalista do jornal israelense Yediot Acharonot.

Causou-me certa curiosidade saber o que pensava uma reporter colona e religiosa sobre o caso. Com quase total certeza ela não deve aprovar o atentado. Mas, será que ela não vê a influência da ocupação na construção desse tipo de mentalidade? Não tive como perguntá-la pois ela foi levada para a frente do ônibus onde diziam estar um pouco mais fresco.

A estrada continua rasgando as montanhas e vales com uma beleza incrível. E por onde a estrada passa, assentamentos são construídos: Shiló, Shvut Rachel, Eli, Ha-Roe, Maale Nevona, Nofei Nehemia, Rehelim e Kfar Tapuach.

Estávamos realmente dentro do território palestino, passando por assentamentos e regiões que costumam aparecer nas notícias em função da violência e terrorismo praticados por colonos. Interessante é que parte desses assentamentos são pequenos, com casas provisórias, pré-fabricadas. Pouquíssimas famílias moram em alguns deles. Mas lá estão, nas montanhas mais altas, observando o que acontece lá embaixo, onde passávamos. Obviamente também mantêm com controle visual dos vilarejos e cidades palestinos.

Viramos então a direita, na Estrada 505. Também lindíssima, vai descendo o vale pedregoso que acelera o pôr do sol naquele pedaço de terra. Passamos então pelo assentamento de Migdalim e poucos minutos depois chegamos a uma das entradas de Duma, mais de uma hora após ter saído de Jerusalém. Na placa em árabe, hebraico e inglês, é indicada a entrada da cidade, e encontra-se  colado um poster com a foto de  Ali Saad Dawabsheh, o bebê de um ano e meio que morreu queimado no atentado.

Paramos ali na entrada e um outro carro com israelenses para ao nosso lado. Trocaríamos de ônibus? Não. Ainda não foi dessa vez. Cinco minutos ali parados já foi o suficiente para entrarmos em ebulição e optarmos por esperar do lado de fora, ao sol, mas com um vento seco que, de dentro do ônibus, aparentava refrescar as oliveiras.

Ainda naqueles poucos minutos intermináveis, pela janela, vi alguns cilindros metálicos que me lembraram latas de bebidas energéticas. Mas não têm marca, pensei. Eram cartuchos de bombas de gás possivelmente utilizados em manifestações na cidade após o atentado de sexta feira.

O motorista abre a porta e descemos para o sol. O vento que víamos e imaginávamos de dentro do ônibus não era forte o suficiente para levar embora o gás disparado pelo exército. Poucos segundos depois meus olhos e nariz ardiam. Uma tosse incontrolável se espalhava pelas pessoas que desciam do ônibus e todos se distanciaram em direção às oliveiras que nos protegeriam do sol.

Mas o calor era demais. Cerca de 15 minutos depois estávamos dentro do ônibus novamente e fomos informados que o ônibus que vinha de Tel Aviv havia sido parado pelo exército israelense a menos de um quilômetro. Estávamos a espera, mas não sabíamos por quanto tempo.

Cerca de meia hora depois da nossa chegada em Duma, enfim, seguimos em direção à casa da família Dawabsheh. A entrada dos ônibus no vilarejo chama a atenção da população.  Em pé nas calçadas, apoiados em carros ou tomando café em modestas varandas, os moradores nos observavam. Não sei se sabiam que os ônibus que tomavam as ruas estavam trazendo israelenses para prestar sua solidariedade.

Os membros da família estão recebendo solidariedade no colégio de Duma. Passamos pela porta e cerca de 50 pessoas se encontravam por ali. Não descemos, seguimos para as casas que foram incendiadas. Na volta, iríamos no colégio.

Poucos metros depois, os ônibus param e descemos. Despeço-me daquele forno ambulante contando com a promessa feita de que trocaríamos de ônibus na volta. O cheiro de gás que marcou a minha primeira descida do ônibus em Duma foi substituído pelo cheiro de queimado que tomava conta da região.

Andávamos, cerca de 80 israelenses, tensos, como um grupo de turistas. Todos juntos sendo guiados pelo cheiro de queimado.

Logo vemos a primeira casa. Marcas pretas são vistas nas paredes externas sobre as janelas que foram quebradas para jogar dentro da casa as garrafas de “coquetel molotov”. A cena veio imediatamente a cabeça. Noite. Escuridão. As chamas lambendo a casa, queimando tudo e todos. Desespero. Gritos. Choro. Gritos. Olho para o lado e vejo o semblante triste dos meus companheiros de viagem. Estávamos com vergonha.

A simples casa foi completamente destruída. Cinzas e destroços se espalham pelos cantos. Tábuas de madeira foram colocadas sobre escombros para facilitar a caminhada. Todos se esbarram pelas pequenas passagens, tomando cuidado para não se machucar. Jornais e mídias árabes fazem imagens. Não sobrou nada da cozinha, do quarto e do banheiro. O que sobrou foi colocado em uma sala, toda chamuscada. Os móveis, sofás, mesa e cadeiras, também não poderão ser reutilizados. Cortinas que sobreviveram mostravam que a família Dawabsheh tem o seu estilo de decoração.

Entrar na casa também trouxe pensamentos ruins. Era como se pudéssemos nos transportar para o momento do atentado. Saí dali e fui para a outra casa. Também não sobrou muita coisa. A destruição da estrutura dessa casa foi mais severa. Parte do teto caiu. A entrada nessa casa era mais difícil e não quis arriscar. Ali pude ver as pixações de “Vingança” e “Vida longa ao Rei Messias”. Os terroristas primeiro atearam fogo a essa casa. Ao perceberem que não havia ninguém, foram para a casa dos Dawabsheh e continuaram destinados a fazer vítimas.

Fui voltando em direção ao ônibus e um membro da família estava falando para os israelenses. Sua revolta controlada era percebida em sua voz e olhar. Ele não queria nos culpar pelo que aconteceu, mas não estava confortável com a situação. Criticou o governo israelense, colonos e o exército. Diz que assim é impossível paz.

Nesse momento percebi que a notícia de que israelenses estavam por ali havia se espalhado e cerca de uma centena de palestinos vêm nos acompanhar. Princípio de confusão. Um jovem palestino transmitia ao vivo através do celular para alguma mídia a presença de israelenses. Outros jovens tentam dissuadi-lo da filmagem mas ele não desiste. Discussão. Gritos. O jovem continua filmando.

Uma jovem israelense conversa com um jovem palestino. Ele está do lado de dentro do muro da casa da família Dawabsheh. Ela, do lado de fora. Em hebraico, ele reclama do acontecido e diz que assim é que os israelenses querem paz. A jovem, sem palavras, só consegue pedir desculpas. Ela diz que está ali para dizer que ela não concorda com aquilo.

Mais de três horas depois de termos saído de Jerusalém caminhamos para o ônibus para irmos visitar a família enlutada. Sedentos e exaustos, caminhamos em grupo novamente. Olho para trás e me assusto. Caminhávamos lentamente, alguns se arrastando, sem energias, chocados, com olhares fixos, em silêncio.

Passamos ao lado de uma pequena loja que vendia bebida. Corremos. O baixo preço dos produtos chama a atenção dos israelenses. Um refrigerante custa quase três vezes menos em Duma do que em Jerusalém ou em Tel Aviv. Não tinha mais água. Bebi um refrigerante gelado que desceu rasgando a minha garganta seca de gás e fumaça.

Entro no ônibus e, para a minha alegria, era um ônibus novo. Gelado, esperava por nós de portas abertas. Começamos a andar e somos então informados que não iríamos ao colégio prestar condolências. O clima estava tenso e fomos instruídos a sair. Passamos pelo colégio e vi que cerca de 500 pessoas e muitos carros estavam na porta.

Ao voltarmos para a estrada, vemos que soldados se concentravam na entrada de Duma. Um checkpoint foi montado na estrada. Ninguém mais podia entrar no vilarejo. Pego o celular que está com pouca bateria. No facebook, vejo a notícia de que a menina Shira, 16 anos, que foi esfaqueada na Marcha do Orgulho Gay em Jerusalém, havia falecido. Convite para um evento relâmpago na Praça Tzion, no centro de Jerusalém, às 20h.

Dou um suspiro. Olho para as placas na estrada: Ein Mghar, Yeshuv Hadaat, Kfar Malik, Kochav HaShachar e Rimonim. Chego em Jerusalém por volta de 19h30. Tempo perfeito para chegar a manifestação.

Na Praça Tzion as pessoas começam a se aglomerar. Um palco com uma bandeira com as cores do arco iris. 20h30 o evento começa. Somos muitos. Músicas para Shira em um silêncio profundo dos manifestantes. Estão todos de luto. Exaustos. Rostos tristes e cansados. Olhos mareados. Os cumprimentos entre os amigos são sempre abraços. Abraços fortes, de apoio. Dói em todos.

Uma hora depois do início da manifestação acabou a bateria. Não a do celular, a minha. Vou para casa depois de um dia de luto. Luto pela vítimas inocentes do ódio, da homofobia, do racismo, da ocupação.

Comentários    ( 7 )

7 comentários para “Um dia de luto”

  • Ricardo Schmitman

    03/08/2015 at 19:33

    Todos os que somos verdadeiros judeus, os que tratamos de viver segundo nossa cultura, uma cultura que recebemos de nossos antepassados e tenho certeza, é de paz e amor, estamos enlutados.
    Quando em 1994 foi assassinado Rabin senti como se tivesse sido morto meu pai, hoje meu sentimento não é muito diferente.
    Hoje espero que as autoridades israelenses cumpram com sua obrigação e punam exemplarmente estes terroristas. Me revolta pensar que um judeu seja capaz de fazer tremenda barbaridade. Posso até compreender que alguém do EI ou do Hamas seja capaz, mas um judeu é inadmissível.
    Luto e revolta.

  • Marcelo Starec

    03/08/2015 at 22:43

    Oi Marcos,

    Gostei do artigo, apesar de muito triste…Foi possível para mim, enquanto leitor, sentir como se eu mesmo estivesse lá. Entendo ser importante que todos repudiem este ato de terror e todos os demais, venha de onde vier!…Esta na hora de se demonstrar que não há tolerância ao terror – venha este do lado de cá ou do lado de lá – tanto faz, pois ceifa vidas e nada produz de bom!…Lembro também que os colonos sofrem a todo o tempo atos violentos contra si – tais como por exemplo apedrejamento de veículos etc…Há que se aprender a coexistir – espero que daqui em diante judeus e árabes palestinos se unam em uma guerra contra os seus extremistas e terroristas – estes só fortalecem o radicalismo e são, de fato, os verdadeiros empecilhos para a paz entre ambos os povos!…Muito importante essa visita!…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    04/08/2015 at 03:16

    1) Sou contra a ocupação, mas ela só vai acabar, como todas as outras da História, quando houver um acordo
    2) Sou RADICALMENTE contra os assentamentos, NADA os justifica
    3) Esse atentado terrorista me fez mal, tive ânsia de vômito
    4) Me choca e angustia ver a cada vez maior influência dos ortodoxos na política israelense

    Agora, principalmente por tudo isso tenho que perguntar a você Marcos e a todos os colegas do Conexão Israel: sou o único que me revolto pela desproporcionalidade entre a reação a esta barbaridade e às DEZENAS, CENTENAS, das do “outro lado”? Dos últimos três dias:

    “Jewish Woman Severely Burned, 2 More Injured in Yet Another Arab Firebombing Attack”

    “Jerusalem Arabs Arrested for Brutally Beating Religious Jewish Couple
    The gang attacked a Haredi man and then a religious couple with brass knuckles and a knife. The woman recited the Shema prayer.”

    E nem vou falar no mais revoltante, que Israel combate e pune “suas” bestas-feras enquanto os palestinos as homenageiam e idolatram

  • Mario S Nusbaum

    04/08/2015 at 03:33

    “A 27 year-old woman was injured Monday night after a terrorist threw a Molotov cocktail at her car in Jerusalem. The incident occurred near the Arab neighborhood of Beit Hanina, near the Ben-Zion interchange, Magen David Adom (MDA) stated.”

    Estou organizando um bolão: quantos palestinos irão prestar solidariedade à família dela? Meu palpite é zero.

  • maria lucia

    05/08/2015 at 17:52

    “Luto pela vítimas inocentes do ódio, da homofobia, do racismo, da ocupação.” Como é lindo seu objetivo…como é de grande valor este seu sentimento!!! Obrigada por seu artigo….simplesmente me comoveu porque foi escrito de maneira tão clara e verdadeiramente…..senti-me junto contigo vendo tudo isto. O Eterno Deus de Israel, bendito seja, te proteja grandemente em tua jornada.

Você é humano? *