Um Estado, dois Estados

08/08/2016 | Conflito; História

Benny Morris é um dos chamados “novos historiadores” israelenses. Este grupo de acadêmicos tornou-se famoso por uma linha de pesquisa que destoava da narrativa clássica sionista, que caracterizava a historiografia israelense. Apesar de contar com alguns expoentes antissionistas (como Ilan Pappé e Shlomo Sand), a maioria destes historiadores receberam esta injusta alcunha, apenas por produzir um material que apresentava versões nas quais Israel poderia ter alguma responsabilidade nas guerras travadas no passado, como é o caso de Avi Shlaim, Baruch Krimmerling, e o próprio Benny Morris. Seu último livro publicado, no entanto, elimina de uma vez por todas esta ideia, a partir de uma narrativa historiográfica pragmática e tendendo, inclusive, à direita. Vamos ao livro.

“Um Estado, dois Estados: soluções para o conflito Israel-Palestina” (Editora Sêfer, 2014)

ATENÇÃO: spoilers na sequência.

(Quer ler um texto básico sobre a história do conflito? Clique aqui)

O livro é dividido em três capítulos: (1) A retomada da discussão sobre um único Estado; (2) Histórico das soluções contemplando um Estado e dois Estados; (3) Perspectivas para o futuro.

O primeiro capítulo se dedica, basicamente, à crítica ao artigo de Tony Judt “Israel: The Alternative” (2003), que clamava pela criação de um único Estado nacional no território onde hoje se encontram o Estado de Israel, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, como solução justa e legítima para o conflito. Segundo Benny Morris, este artigo foi responsável por uma onda de outras publicações sugerindo a mesma ideia. Morris rebate cada um dos argumentos, moralmente e pragmaticamente. A estratégia narrativa do autor é, antes de tudo, descartar a ideia de um Estado binacional na região como solução para o conflito.

O segundo capítulo, que corresponde acerca de 60% do livro, narra a história das ideias nacionalistas na região, tendo como fio condutor a ideia da criação de um ou dois Estados nas Palestinas otomana e britânica. O autor faz uma análise minuciosa de uma vasta documentação, quando explica a evolução teórica e prática das ideias sobre a divisão (ou não) da terra em mais de um Estado. A metodologia narrativa separa os dois lados, judeus e árabes. Para Benny Morris, a divisão da terra em dois Estados jamais foi um consenso dentro do movimento sionista, que chegou a propor, por meio de suas mais diversas correntes, dezenas de soluções territoriais. O dissenso que imperou no lado judaico, no entanto, não era visto do lado árabe. Segundo o autor, o movimento nacionalista árabe-palestino jamais aceitou a ideia de dividir o território em dois Estados: as propostas iam desde a criação de um Estado binacional (defendido por uma ínfima minoria) até a expulsão de todos os judeus da região. Para o autor, o fracasso nas negociações de Camp David e Taba (2000 e 2001) não são ocasionais. São a prova de que o lado palestino não está disposto a aceitar a existência de um Estado judeu em parte do território. A eleição do Hamas, a crescente expansão dos assentamentos e a separação política entre Gaza e Cisjordânia, desde 2007, inviabilizariam totalmente a criação de dois Estados na região, obrigando-nos a pensar em uma terceira alternativa.

O terceiro capítulo, então, trata de eliminar a possibilidade de uma solução de dois Estados e, novamente, rejeita a ideia de um único Estado. Morris enumera diversas razões para justificar a impossibilidade da criação de dois Estados (desde a insegurança de Israel até a inviabilidade de criar-se um país em um território de pouco mais de 5.000 km², sem recursos naturais nem estrutura física para manter-se, passando pela inevitável sensação de derrota dos palestinos em aceitar um acordo em que teriam apenas 21% do território), e argumenta que a criação de uma Palestina binacional secular e democrática seria impossível, visto que, em suas palavras, a mentalidade secular, ocidental e democrática da sociedade judaico-israelense contrasta com os valores autoritários e religiosos da sociedade árabe palestina. Por fim, o autor dá a sua proposta de solução, sobre a qual não dissertarei para encorajar a leitura do livro.

Particularmente, não concordo com parte da análise feita pelo autor, especialmente no que se refere ao seu pessimismo em relação a solução de dois Estados, e à aceitação do estigma fatalista de que não há nem haverá grupo político palestino com força suficiente para chegar a um acordo. No entanto, é impossível negar que a narrativa é riquíssima, de leitura dinâmica, e boa para quem possui um conhecimento básico ou avançado do tema. Além disso, o livro conta com sete mapas e uma extensa variedade de fontes citadas, que por si só compensa a leitura. Leitura essencial para quem deseja compreender um pouco mais sobre o conflito.

Comentários    ( 5 )

5 comentários para “Um Estado, dois Estados”

  • Daniel H.

    08/08/2016 at 17:23

    Eu gostei do primeiro e segundo capítulos. O terceiro chega a ser surreal, já que a sugestão do autor me parece tão ou menos viável que a outra solução descartada por ele, estado binacional.

  • Jayme Jovegelevicius

    08/08/2016 at 17:34

    Bah João! Série, filme e livro bom se vê/lê mesmo (e principalmente!) sabendo do final! Eu sou a favor de um spoiler completo: sacanagem nos deixar sem saber da proposta do Benny Morris…

    (Um abração de um leitor ‘oculto’ mas assíduo do site. Kol hakavod, que vocês sigam sempre produzindo material de muita qualidade sobre Israel – ou sobre o que vier a ser este pedaço de terra e gente muito interessante).

    • João K. Miragaya

      08/08/2016 at 17:57

      Valeu Jayme!
      Capaz de a editora me processar por revelar todo o enredo, hehe! Mas recomendo a leitura, o livro sem a descrição histórica não é a mesma coisa.
      Um abraço

  • Raul Gottlieb

    09/08/2016 at 00:56

    Olá João

    Eu li este livro do Benny Morris há um bom tempo, assim que não lembro muito bem dele (apenas que não me marcou demais), mas mesmo assim queria fazer algumas observações sobre aspectos relacionados ao autor e também ao teu texto.

    Você fala de uma narrativa sionista clássica. Isto quer dizer que a historiografia israelense é uniforme – todos os historiadores, a exceção dos “novos” seguem uma mesma linha? Acho isto muito difícil de absorver. Com certeza Israel tem uma grande diversidade acadêmica que desafia os grupamentos simplificadores. Você sabe quem inventou este rótulo de “novos historiadores”? Isto me parece apenas propaganda barata.

    Uma outra coisa que me chamou a atenção foi a tua declaração que a narrativa do Morris neste livro tende à direita. Creio que como um historiador honesto ele não tem que tender para lado algum. Historiadores devem se ater aos fatos, senão viram propagandistas (nada contra estes, sempre que declarem abertamente que estão ajudando a vender alguma coisa).

    Ou seja, o que você está dizendo é que, caso o Morris esteja correto, os fatos históricos corroboram as teses da direita. Interessante isto, não é mesmo?

    Mais uma última coisa sobre o Morris: ele é muito criticado por vários colegas que afirmam (com muitas provas) ter ele falsificado citações e documentos que embasam seus artigos e livros. Ele até mesmo teve a decência de se retratar a respeito de um livro que escreveu com pesadas acusações sobre a política do Yshuv (Israel pré-estado). Ou talvez não tenha sido por decência e sim não ter tido outro remédio por conta da consistência das críticas – a verdade é que eu não sei dizer porque ele se retratou, apenas que ele o fez.

    Assim que eu tenho muito cuidado com esta linha de “novos historiadores”. Um historiador tem que se ater aos documentos que pesquisou e não procurar destoar dos demais inventando um rótulo bonito, tipo “novo”.

    Abraço,
    Raul

    • João K. Miragaya

      11/08/2016 at 06:32

      Oi Raul. Obrigado pelo comentário.

      A academia israelense, especialmente no campo da História, foi dominada por muito tempo por uma tendência nacionalista. Obviamente se você perguntar aos “velhos historiadores”, a maioria o negaria. O único fato nesta história é que, até os anos 1980, eram raríssimas as teses produzidas nas universidades israelense que fossem críticas à narrativa sionista da história recente de Israel e do movimento sionista. Estes novos historiadores, portanto, são uma geração de acadêmicos que romperam com esta tendência e produziram teses que questionavam a narrativa sionista pela primeira vez em massa dentro do Estado judeu. Obviamente houve um ou dois historiadores que o fizeram antes dos anos 1980, mas aqueles se caratcerizavam, também, por uma metodologia moderna de pesquisa, por dar voz a personagens aos quais os “velhos historiadores” não davam, seguindo uma tendência mundial de, também, voltar a considerar a cultura e a política não só como elementos da superestrutura. Não sei se chamaria a “velha” historiografia israelense de “uniforme”, mas havia sim uma tendência narrativa e política. E tampouco creio que nomear a tendência é negativo. Obviamente o “novo” vem sempre em oposição ao “velho”, e isso por si só é problemático. Mas, no caso, não foram estes historiadores quem se autointitularam desta maneira.

      Eu lamento, Raul, que você julgue que a visão do historiador ao examinar as fontes como “desonestidade”. A narrativa do historiador não é ciência para que você possa separar fatos de interpretações. O que é ciência é o fato histórico. Os porquês são explicados de acordo com a forma que o historiador enxerga o processo que se deu até que o fato histórico fosse construído. Eu considero que a visão e a narrativa de Morris às vezes tendem à direita, quando adota teses culturalistas para examinar o conflito. Eu não desprezo nem ignoro esta influência, como deixei claro no fim da resenha, apenas não vejo estes fatores como os que melhor explicam a impossibilidade de um acordo hoje e nos últimos anos. Portanto, é impossível saber se Morris está “correto” ou “equivocado”, porque a narrativa não é ciência. Ciência é o fato histórico, e em relação a isso nós não discordamos. Se há um historiador desonesto, é o que manipula o fato histórico e de forma proposital, omite fontes que questionariam sua narrativa. Para nossa sorte, a academia tem tantos defensores de narrativas distintas (sobretudo em temas polêmicos como este) que historiadores desonestos são descobertos com a maior facilidade.

      Desconheço estas acusações sobre falsificações de fontes. No momento estou lendo livro “The Birth Of Refugee Problem Revisited”, a segunda edição da sua obra mais polêmica. As fontes são bastante consistentes e a obra é de uma riqueza narrativa poucas vezes encontrada. Se você puder me enviar um link com estas críticas eu agradeceria. É difícil julgar a retratação se não sabemos qual foi a acusação.

      Abraço

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