Um milhão em ação: é Ano Novo!

Hora de encher a boca de mel e pedir perdão não apenas para Deus, mas também para os homens. E de correr para Jerusalém para rezar as Selichot com uns tantos outros milhares de judeus, ajudando a transformar a Cidade Velha no palco de um show que já virou tradição em Israel.

O ano novo bate à porta. 5776 chega logo mais, no dia 13 de setembro. Serão dois dias de feriado, de reuniões familiares e comilança. Hora de mergulhar a maçã no mel para pedir por um ano doce e lembrar Israel, citada na Torá como “campo de maçãs perfumadas”. Hora de ouvir o choro do shofar[1] e fazer com que Deus se comova com os gritos de seus filhos. Hora de comer chalá[2] redonda, lembrando começos e recomeços. De devorar romãs que, dizem, possuem 613 grãos, o mesmo número de mitsvot[3] da Torá.

Além de colocar simbologias em prática, é tempo de pedir pessoalmente perdão a quem quer que tenhamos ofendido (quem disse que ser judeu é fácil?) e a Deus. Em outras palavras, é hora das Selichot, que de reza está se transformando em um evento anual que mistura um tanto de religião com um tantão de tradição, e que empresta como palco o Muro das Lamentações, em Jerusalém. No bom sentido.

Selichot, que quer dizer “desculpas” em hebraico, é uma longa reza que reúne versos da Torá e preces que são ditas especialmente no período que antecede Rosh Hashaná[4], muito embora haja correntes judaicas que as estendam até Yom Kipur. É justo nesse período que o show acontece em Jerusalém, quando pelo menos um milhão de pessoas tenta se aproximar do Muro das Lamentações para participar e captar a “vibe” (fortíssima, fortíssima!). Veja um vídeo bacaninha e tire suas conclusões.*

O bacana é que a tradição construída nesses últimos anos, e que está levando hordas de israelenses para as Selichot, baseia-se muito mais em uma experiência do que em rezas. E, pasmem, estima-se que cerca de 80% desse público é formado por judeus não praticantes, que vão a Jerusalém não em busca de um passeio turístico nem de uma peregrinações, mas para uma combinação entre os dois. Tradicionalmente, as sinagogas e escolas promoviam esse tipo de viagem. Agora o setor de turismo também as descobriu, e cada um inventa o seu roteiro, que infalivelmente se encerra em frente ao muro.

Eu preciso confessar: é um baratão e amo passear pelas ruelas repletas de gente e de música. Esse é meu terceiro ano de Selichot. Não perco. Vou na próxima semana de qualquer jeito para enfrentar a multidão de mais de milhão. Estive lá na semana passada, vi a cidade cheia, a esplanada do muro começando a transbordar depois das 23 horas – mas quero ir no “show” principal. Peguei um dos muitos tours que são organizados e, nessa “edição 2015”, vi uma apresentação musical bacaninha, ouvi uma palestra muito legal sobre o perdão e fiz um passeio com novas histórias pela cidade velha. Dessa vez, aprendi que o Monte Moriah, sobre o qual os dois Templos Sagrados de Jerusalém (para quem não sabe, o segundo foi a reconstrução do primeiro) foram construídos, é na verdade o mais baixinho da região.

Segundo meu guia, isso espelha a humildade que está na base do judaísmo, muito embora a maioria de nós não saiba disso. Esse atributo é necessário especialmente nesse mês, em que precisamos rememorar e reconhecer nossos erros de 5775. É esse o momento de fazê-lo e pedir perdão com o coração mais puro possível, torcendo para que essa energia acalme os acirrados ânimos mundiais e traga o bom senso necessário para aqueles que lideram esse mundo doido.

Há de se ter esperança, porque afinal é da escuridão que surge a luz; da crise, a mudança; da guerra, a paz. Se Deus quiser, é o que acontecerá “bashaná habaá Birushalaim[5]”.

Quer saber um tico sobre as rezas de Selichot?

As Selichot têm dois diferenciais importantes em relação à “montanha” de rezas tradicionais do judaísmo: são feitas sempre depois da meia-noite e devem ser feitas em grupo. Sefaraditas começam a recitá-las no começo do mês de Elul (corresponde geralmente a agosto e setembro do calendário gregoriano). Já ashkenazitas começam na semana anterior a Rosh Hashaná, por um período não inferior a quatro noites. Cada congregação tem suas próprias práticas: em algumas, a reza é rapidinha, em outras pode levar mais de hora.

Por fim, algumas correntes judaicas interrompem as Selichot em Rosh Hashaná, enquanto outras prosseguem até Yom Kipur.

Comentários    ( 7 )

7 comentários para “Um milhão em ação: é Ano Novo!”

  • Heloisa

    07/09/2015 at 17:43

    É um tipo de Haj, a peregrinação anual a Meca?
    Vixe que não me apetece essas novidade das outra religião.
    Vou esperar o dia da maçã com mel na casa da prima Esther.

    • Miriam Sanger

      07/09/2015 at 20:11

      Olá, Heloisa.
      Não conheço as motivações da peregrinação a Meca, então não saberia responder.
      Essa não é uma novidade, mas sim o fato de as Selichot estarem se tornando uma tradição de todo o povo judeu, e não apenas dos praticantes.
      Boa maçã com mel. Se rolarem tâmaras, romãs e quetais, melhor ainda.
      Obrigada pela mensagem e Shaná Tová UMetuká.
      Miriam

    • Heloisa

      13/09/2015 at 13:20

      Também não conheço o Haj em detalhes. Agora, sobre a incorporação dessa prática ao judaísmo, veja o livro sobre Yehuda Halevi, de Hillel Halkin. Para Halkin, a motivação de Halevi a ir à Palestina foi o Haj, que andava na moda entre os judeus. A cerimônia que você descreve, em especial a questão da multidão, tão pouco judaica, me fez lembrar esse interessante livro e as inesperadas formas com que nós judeus incorporamos tradições. Mas sou conservadora nessas coisas, mantenho com fervor a tradição ateísta de meu pai.

  • Marcelo Starec

    08/09/2015 at 05:03

    Oi Miriam,

    Isso tudo é maravilhoso!…Para mim, desde criança, sempre entendi o período entre o Rosh Hashana e o Yom Kippur como um período de “slichot”, mas não simplesmente como um período de pedir desculpas, mas o de procurar ver como melhorar (não errar novamente…) no Novo Ano. Nunca acreditei no valor de se rezar e depois prosseguir a vida sem alguma reflexão sobre o que se pode ser feito de um modo diferente, mais correto, no próximo ano…mas nem sempre (e normalmente não!) consegui fazer na prática algo de tão melhor, mas acredito que a essência da nossa religião e das tradições do povo judeu é,pelo menos, tentar com sinceridade!!!…..

    Shana Tova !!!…..

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      08/09/2015 at 13:15

      Oi, Marcelo.
      Eu acrescentaria mais um aspecto, o de agir. Rosh Hashaná é uma ótima oportunidade de romper hábitos ruins e iniciar bons. Hora de praticar ser mais humilde, mais humano, mais consciente, mais tolerante, menos crítico e por aí vai. Pode parecer carolice, mas não é não. Essa é uma correção que todos procuram fazer na vida. A diferença é que os judeus marcaram algumas datas no ano para nos lembrar de fazê-lo. Rosh Hashaná é uma delas.
      Shana tová umetuká para você!
      Miriam

  • Iana Abecassis

    11/09/2015 at 00:36

    O mel na nossa boca, o grito do shofar, tudo o que o Rosh Hashaná traz é cativante
    Os ensinamentos que acompanham esta data tão importante são mais cativantes ainda, a oportunidade de fazermos o bem ao pedir perdão e perdoar os que nos fazem mal é um dos significados que mais toca o meu coração…
    Shana Tova !!

Você é humano? *