Um oásis no conflito

25/09/2015 | Conflito; Sociedade

Junho de 2005. Publiquei matéria no jornal Economia Social – Terceiro Setor, da Fundação Irmão José Otão – PUCRS, onde trabalhava e fazia pós-graduação. Com o título “Um oásis no conflito”, mostrei que havia fios de esperança, no cenário do final de uma sangrenta intifada.

Dez anos depois, trago o meu relato aos amigos do Conexão Israel. Produzi o material em Porto Alegre, depois de passar por Israel, janeiro daquele ano.
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Um oásis no conflito
Centro de convivência integra árabes e israelenses e busca a paz entre os povos

Quem nunca foi ao Oriente Médio e apenas acompanha as notícias do mundo através dos telejornais, pode pensar que não há nada mais do que ódio e conflitos armados na região. Isso não é verdade. Há 42 anos, foi fundado o Centro Judaico Árabe para a Paz, chamado de Guivat Haviva, pelo Movimento Kibutz Artzí, ligado ao partido esquerdista israelense Meretz.

Localizado no norte de Israel, distante duas horas de Jerusalém, o centro é uma espécie de campus arborizado, com uma série de prédios pequenos, onde se realizam workshops de integração para os vizinhos que moram nas cercanias.

Um exemplo: ensinam hebraico aos muçulmanos e árabe aos judeus, pois acreditam que o diálogo e a compreensão mútua iniciarão quando todos falarem a mesma língua. Os trabalhos em Guivat Haviva receberam reconhecimento internacional em 2001, quando a UNESCO concedeu o prêmio “Peace Education”.

Jovens de todas as partes do mundo vão ao centro realizar atividades voluntárias. Em janeiro, grupo de 40 judeus belgas, entre 12 e 15 anos, conviveu com árabes da mesma faixa etária.

Em meio a jogos e conversas, amizades foram criadas e, através da internet, e-mails e chats, o vínculo iniciado não terminou. Os europeus retornaram a suas casas contando que existem palestinos legais e estes estão felizes por terem amigos judeus.

A mensagem da paz também é transmitida pelas ondas da rádio All For Peace (www.allforpeace.org). A FM 107,2 de Jerusalém, emissora composta por árabes e israelenses, divulga música, cultura e notícias, mostrando o outro lado do conflito. De hora em hora, boletins informativos vão para o ar nas vozes das redatoras Orly Noy, judia, e Adele Zumot, palestina.

Orly nasceu no Irã, mas mudou-se com a família para Israel em 1979, após a Revolução Islâmica. “O pessoal da rádio é unido. Não há diferenças, todos estão juntos. A minha função é redigir os textos em hebraico. Muitas vezes, sou eu mesma quem faz a locução”, disse.

Adele, residente em Jerusalém Oriental, segue a mesma rotina da colega, sendo responsável pela redação em árabe. “Nós fazemos muitas entrevistas por telefone ao vivo com setores extremistas dos dois lados. Aqui, todos têm todos”, afirmou.

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Guivat Haviva continua ativo. A emissora de rádio segue com suas transmissões. Independente se vivem em períodos de maior ou menor otimismo quanto ao processo de paz, pessoas trabalham por seus ideais. E, de fato, conhecendo de perto a realidade, é possível fazer um melhor juízo de valor. Nem que seja para comprovar a história “do beija flor apagando o fogo da floresta”. Pois, cada um faz sua parte.

Links: http://www.fijo.org.br/jornais/2005_junho.pdf
http://www.allforpeace.org/he//#c2
http://www.givathaviva.org/

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Comentários    ( 14 )

14 Responses to “Um oásis no conflito”

  • Mario S Nusbaum

    25/09/2015 at 13:57

    ” ligado ao partido esquerdista israelense Meretz.”
    ” grupo de 40 judeus belgas,”
    Quando eu ler artigos como esse citando ” ligado ao partido palestino xyz”, ” grupo de 40 palestinos belgas/franceses/ingleses,” passarei a ter esperanças. Até lá temo pelo beija-flor, ele pode ser abatido a qualquer momento.

    • Nelson Burd

      25/09/2015 at 13:59

      Concordo contigo. Precisamos de exemplos vindos do outro lado. Mas, sempre vale a iniciativa e a intenção.

    • Mario S Nusbaum

      25/09/2015 at 15:03

      Verdade Nelson, vale sim, mas sempre me vem a mente a imagem do Dom Quixote enfrentando moinhos de vento. Shabat Shalom.

    • Raul Gottlieb

      27/09/2015 at 14:26

      Caro Nelson,

      “Sempre vale a iniciativa e a intenção” me parece ser o equivalente de “na falta do que fazer, vamos fazer uma coisa qualquer”. Ou como dizem os chineses: “se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve”.

      Leia este interessante relato sobre as manifestações do “outro lado”: http://www.gatestoneinstitute.org/6574/palestinians-yehezkel-interview

      E veja este filminho do Ynet de hoje: http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4704402,00.html

      A bola está com eles, vamos esperar para ver quando eles resolvem se cuidar. Enquanto isto vamos tratar de romper o monopólio ortodoxo em Israel. Vai ser muito mais útil.

      Abraço, Raul

    • Nelson Burd

      27/09/2015 at 15:00

      Não vejo por este lado, na questão da “iniciativa”. Todos devem fazer coisas que façam sentido para si mesmos. Agora, de fato, procura-se iniciativas do lado árabe em geral e elas existem, apesar do ódio ainda ser passado desde o período escolar, em muitos casos. Existem muitos exemplos de ódio, infelizmente. A questão do monopólio do Rabinato Central foi tema da última eleição, a maioria dos políticos se manifesta sobre este ponto. Se o Bibi não vencesse, talvez, a questão já estaria resolvida. Ele não tem interesse em mexer neste abelheiro, pois seria arriscado tomar posição. Poderia perder votos. Abraço.

    • Mario S Nusbaum

      27/09/2015 at 19:12

      ” procura-se iniciativas do lado árabe em geral e elas existem,”
      Você poderia dar alguns exemplos?

    • Nelson Burd

      27/09/2015 at 20:32

      As iniciativas citadas na matéria são mistas. O Centro Árabe-Judeu de Haifa também. Em países árabes, é mais raro, difícil. Na Autoridade Palestina mesmo, depende da situação, existem pressões radicais para que os contatos com israelenses não ocorram. Tem um texto da Miriam Sanger sobre isso. É uma pena. Mas, eu não acredito que o ódio total exista. Em janeiro de 2005, conversei com um cara do Ministério de Relações Exteriores de Israel chamado Saranga. Ele tinha feito um site oficial do país em árabe e disse receber muitas mensagens da Arábia Saudita perguntando por Israel, elogiando, etc. Por outro lado, ele mesmo demonstrava ceticismo, além da positiva surpresa.

    • Mario S Nusbaum

      27/09/2015 at 20:54

      Obrigado Nelson, é bom saber que não é tão ruim quanto eu pensava. Sobre as mensagens da AS, confirma minha impressão de que os próprios árabes não aguentam mais a intransigência palestina.

    • Nelson Burd

      28/09/2015 at 00:07

      Quanto à Autoridade Palestina, esperamos o pronunciamento do Mahmoud Abbas, fim do mês, na ONU.

  • Rita Burd

    25/09/2015 at 15:21

    Nelson Burd
    tenho orgulho de ti. Tenho orgulho por tuas escolhas, tuas posições perante a vida. Tenho orgulho porque sempre escolhes o bem, a justiça e nos deixa mais otimistas. Kol haKavod.

  • Marcelo Starec

    26/09/2015 at 01:58

    Oi Nelson,

    Acho que, apesar das dificuldades,fica muito difícil esperar iniciativas do outro lado…Assim, acho que temos de seguir caminhos assim mesmo…Contanto que sejam iniciativas responsáveis e que abram um espaço para o dialogo e a tolerância mútua…A cada dia mais, estou convencido de que a paz vai começar com as pessoas dos dois lados e não com governos, que mais a frente irão seguir, pois de algum modo representam as suas populações. Gostei !….

    Abraço,

    Marcelo.

    • Nelson Burd

      26/09/2015 at 08:30

      Exatamente. Temos o exemplo do colega Marcos Gorinstein que da aulas de jiu jistu para crianças judias e árabes. O mestre Jacozinho da Capoeira fazia isso também há dez anos. Todas iniciativas de integração são válidas. Abraço.