Um país de ruínas

Por Vivian Mau

Desde o começo da civilização humana o território do Estado de Israel teve a presença de vários povos. Por isso há muitas ruínas e vestígios de atividade humana espalhados pelo país. No começo de março, membros do grupo israelense de espeleologia (grupo de pessoas interessadas em explorar cavernas) acharam em uma caverna na Galiléia fragmentos de cerâmica e moedas. Eles entraram em contato com os arqueólogos da Autoridade Israelense de Antiguidades, que exploraram mais a caverna e descobriram um saco de pano com pulseiras e brincos de prata e outras moedas, que provavelmente foram escondidos após as guerras que sucederam a morte de Alexandre o Grande (há 2300 anos atrás), e outros artefatos de até 6 mil anos. Algumas semanas antes, um homem que estava correndo na praia de Ashkelon achou fragmentos de cerâmica e um pedaço de mosaico que foram descobertos após uma tempestade. Esses casos não são raros. Para quem gosta de arqueologia e civilizações antigas, Israel é um paraíso.

Cesareia é um dos locais mais conhecidos em Israel nessa categoria. Foi construída por Herodes (o mesmo que construiu Massada) entre 25 e 13 AC e serviu como a capital da região durante o Império Romano. O porto da Cesareia antiga foi coberto pelo mar, mas dentro do parque nacional de Cesareia ainda dá para ver o teatro romano (que hoje é usado para shows), o hipódromo, o palácio de Herodes, a casa de banho, o aqueduto, e ruas e casas. Na área onde ficava o porto, dá para assistir 2 filmes sobre a história da cidade. Recomendo vê-los antes de começar o passeio. Um pouco menos conhecido é o Mosaico dos Pássaros. Este é um pátio que fazia parte de uma vila do tempos dos bizantinos e fica fora do parque nacional de Cesareia. O pátio é coberto por um mosaico com várias espécies de pássaros no centro, e ao redor, elefantes, gazelas, leões entre outros animais mais difíceis de reconhecer. Apenas um quinto do complexo foi escavado. Olhando para o que era apenas o chão do pátio, é possível imaginar como era rica essa vila com vista para o Mar Mediterrâneo.

flamingo
Flamingo no Mosaico dos Pássaros

 

Nesse artigo quero recomendar outros três parques nacionais com antigas cidades, menos conhecidos mas também incríveis. Recomendo visitar esses locais, que são de fácil acesso, com caminhadas de baixo nível de dificuldade. Eles ficam no norte e no sul do país, e foram habitados por diferentes povos. Os parques são Avdat, Bet Guvrin, e Gamla.

Avdat

Vista de Avdat
Vista de Avdat

Avdat (ou Ovdat) fica no deserto do Negev a menos de 15 quilômetros ao sul de Sde Boker. Avdat é uma cidade do império nabateu, mais conhecido pela sua capital Petra que hoje fica na Jordânia (lá foi filmado o Indiana Jones e a Última Cruzada). Durante o primeiro século AC até o terceiro século DC, Avdat era a cidade mais importante depois de Petra na Rota do Incenso, que ligava as Arábias (Iêmen) com o Mediterrâneo (porto de Gaza), onde navios esperavam pela mercadoria destinada à Europa. Em Avdat as caravanas atravessando o deserto podiam parar para descansar. Quando o comércio na região diminuiu, a cidade se adaptou adotando agricultura e a produção de vinho. Como era possível haver uma plantação no deserto naquela época? Vários canais, terraços e cisternas foram construídos para coletar as águas das chuvas, juntamente com um sistema de irrigação. Os romanos depois ocuparam a região construindo um acampamento militar e uma casa de banho, e os bizantinos construíram um monastério e duas igrejas na cidade. Em 2005 Avdat foi reconhecida pela UNESCO como um patrimônio mundial. Visitando o local, pode-se ver o portão do templo nabateu, os campos agrícolas, as cisternas, cavernas que serviam para estocar produtos e túmulos, a prensa para a produção de vinho, e as igrejas.

Bet Guvrin

Columbário em Bet Guvrin
Columbário em Bet Guvrin

Bet Guvrin fica a 13 quilômetros de Kiryat Gat, onde no Reino de Judá havia uma cidade chamada Maresha. Bet Guvrin substituiu Maresha na época dos romanos. Andando nas colinas, o local não parace muito especial. Há ruinas de casas, e até um anfiteatro romano e uma igreja bizantina. Mas a magia do lugar está de baixo da terra. As colinas da região são feitas de um calcário poroso permitindo uma fácil escavação. Debaixo da terra há redes de 200 cavernas que foras esculpidas para vários propósitos. Do tempo dos gregos há cavernas que serviam de túmulos, de paredes decoradas com animais reais e imaginários. Em um outro grupo de cavernas, chamadas columbário, há milhares de buracos esculpidos nas paredes. Os buracos serviam para a criação de pombos, que eram usados para sacrifícios e para a produção de adubo. Há cavernas que serviam de cisternas para armazenar água, e outras que foram esculpidas para usar o calcário na construção de estradas. Há estábulos, celeiros e armazéns. Uma prensa de azeitonas mostra como o azeite era produzido. As cavernas conectadas por corredores chegam a 5 metros de altura, e a mais comprida leva 15 minutos para atravessar. Visitar o local durante o verão ajuda a enteder porque tantas cavernas foram construídas. Debaixo da terra o clima é muito mais ameno, eu até cheguei a ficar com frio! O complexo Bet Guvrin-Maresha tem 480 cavernas no total e no ano passado foi declarado patrimônio mundial pela UNESCO.

Gamla

Vista de Gamla
Vista de Gamla

Gamla fica nas colinas do Golã, com vista para o Kineret (Mar da Galiléia). Gamla foi construída numa colina que lembra a corcova de uma camelo, dando origem ao seu nome (Gamla significa camelo em Aramaico, em Hebraico camelo é gamal). O local começou a ser habitado na idade do bronze, virou uma fortaleza durante o terceiro século AC, e depois virou uma colônia judaica. Durante a revolta contra os romanos, Gamla foi fortificada virando o princípal reduto da região. Depois de uma tentativa fracassada, os romanos conseguiram destruir a muralha e eventualmente capturaram a cidade. Os arqueólogos conseguiram encontrar o local onde os romanos penetraram a muralha. Várias catapultas foram encontradas, uma está exposta no parque. Uma das primeiras sinagogas do mundo está dentro das muralhas de Gamla. A história de Gamla é muito similar à de Massada, perto do Mar Morto. Muitos judeus cometeram suicídio quando eles perceberam que não poderiam vencer os romanos, por isso Gamla é conhecida também como a Massada do norte. Além da importância histórica do local, a visita vale a pena pela natureza. A maior cachoeira de Israel, com um pouco mais de 50 metros de altura, fica a 45 minutos de caminhada da entrada do parque. O vale também abriga cerca de 80 nesharim (נשרים = abutre, e não águia, como é frequentemente traduzido). Eles tem em média 3 metros de comprimento e, planando acima do vale, às vezes chegam bem perto dos visitantes. O abutre de Israel é muito mais bonito que o urubu preto do Brasil, e não tem a mesma conotação negativa.
Abaixo coloquei os links dos parques em inglês, para quem quiser mais informações antes de visitar:

Avdat – clique aqui

Bet Guvrin – clique aqui

Gamla – clique aqui


Vivian

Vivian Mau é formada em engenharia ambiental e atualmente está completando um mestrado em hidrologia e recursos hídricos na Universidade Ben Gurion no campus em Sde Boker. Adora viajar, e há um ano vive em Israel.

 

 

 

Imagens:
Imagem de capa (Avdat), Flickr de Tomash Devenishek, segundo a seguinte licença Creative Commons.
Flamingo, Flickr de Premasagar, segundo a seguinte licença Creative Commons.
Avdat, Flickr de Tomash Devenishek, segundo a seguinte licença Creative Commons.
Columbário, Flickr de Derek Winterburn, segundo a seguinte licença Creative Commons.
Flamingo, Flickr de vad_levin, segundo a seguinte licença Creative Commons.

 

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Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Um país de ruínas”

  • Marcelo Starec

    04/04/2015 at 22:12

    Oi Vivian,
    O seu artigo é realmente muito interessante!…Que bom que Israel faz um trabalho exemplar em escavações e sem viés…Eu mesmo já estive no Museu de Israel, em Jerusalém, onde vi achados de enorme interesse, como por exemplo as moedas cunhadas por Shimon Bar Kochva (162-165dc), quando após a destruição do Templo e a destruição do Reino de Judá, com capital em Jerusalém (o antigo Estado Judeu na época), Bar Kochva obteve êxito, por pouco tempo, em reconquistar partes do reino para os judeus e reconstruir o Reino Judeu, mas os Romanos para lá enviaram a Segunda Legião Romana, um exército poderosíssimo com ordens de executar um genocídio contra os judeus revoltosos, homens, mulheres e crianças,não importava…Segundo relatos romanos que também lá se encontram, foram mortos 580,000 judeus (um número gigantesco para a época!) e a missão foi cumprida, no sentido de que os sobreviventes judeus “baixaram a cabeça” por muitos e muitos séculos – a partir daí aquela Terra, então chamada de Judéia (Terra dos Judeus), passou a ser denominada pelos Romanos de Palaestina (em latim, terra dos Filisteus)…Continuou a haver presença judaica lá, mas até o passado recente, sem nenhuma ambição ou condição de se reerguer de modo organizado…Já ao mesmo tempo Jerusalém foi rebatizada pelos romanos de “Aelia Capitolina”….Enfim, Israel é um local onde se encontra tanta história acessível que todos os que tem interesse (Há também visitas pela internet, mais simples) deveriam visitar e conhecer, independente da opinião ou de qualquer outro fator…Vale a pena conhecer…..
    Um abraço,
    Marcelo.

  • Fábio Koifman

    09/04/2015 at 07:20

    Cara Vivian, gostei de sua seleção. Esses também estão entre os meus sítios arqueológicos prediletos naquele país.

    Quanto ao comentário postado por Marcelo Starec, que escreve que “(…) Continuou a haver presença judaica lá, mas até o passado recente, sem nenhuma ambição ou condição de se reerguer de modo organizado…” eu sugiro que ele leia a respeito da Revolta Judaica contra Heráclio nas primeiras décadas do século VII d.e.c. Uma tentativa – relativamente bem sucedida, incluindo até Jerusalém, embora breve… – de recriar um reino judeu, uma aliança judaico-sassânida que precedeu um gigantesco massacre em 629 d.e.c.

    Com um abraço, Fábio.

    • Marcelo Starec

      11/04/2015 at 00:20

      Oi Fabio,
      Muito obrigado pela sua dica!…gosto muito do tema e frequentemente descubro que aquilo que eu considerava pouco relevante ou até mesmo irrelevante, na verdade segundo alguns historiadores não é….Agradeço muito caso você tenha alguma bibliografia sobre essa revolta específica para me indicar. Até onde sei, os historiadores mais conhecidos não desenvolveram bem esse tema específico….
      Um abraço,
      Marcelo.

    • Fábio Koifman

      12/04/2015 at 03:49

      Cara Vivian, me lembrei depois de postar uma sugestão para uma próxima viagem sua. Dar um pulo nas ruínas do forte cruzado Belvoir, conhecido como Kohav Haiarden, na Galiléia.

      Com um abraço, Fábio.

    • Fábio Koifman

      12/04/2015 at 03:51

      Caro Marcelo, você encontra informações a esse respeito, por exemplo, no livro “O Oriente Médio: do advento do cristianismo aos dias de hoje” do Bernard Lewis.

      Com um abraço, Fábio.

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